quarta-feira, 10 de março de 2010

O SACRAMENTO DA RECONCILIAÇÃO

Frei Faustino Paludo, OFMCap

1. O Sacramento da conversão

A reconciliação é uma meta. As pessoas buscam incansavelmente a paz. Mas, para alcançá-la, é necessário um penoso caminho de conversão, de mudanças e de transformações. A verdadeira reconciliação começa no coração de cada pessoa. Isto é, o convite à conversão exige uma mudança de rumo. Contudo, o processo de mudança não afeta exclusivamente o indivíduo, mas tende a expandir-se aos demais – à comunidade e à sociedade.

No processo de conversão atuam diversos fatores: a) a consciência que quer dar um fim ao que está errado ou ao que desvia do rumo certo; b) a necessidade de se corrigir e reorganizar a vida em vista de um novo sentido e de uma nova prática; c) o pressuposto de que Deus está na origem da vida do ser humano e de que o amor misericordioso de Deus é quem dá sentido à existência humana. Converter-se é voltar o coração para Deus (cf Lc 15). É deixar-se reconciliar por Ele (2Cor 5,20) É inserir-se na dinâmica da Aliança. É participar do amor de Deus e ser testemunha da santidade de Deus na comunidade eclesial e no meio em que vive. Converter-se significa abandonar a antiga situação e abrir-se para a nova realidade de vida.

Já no Antigo Testamento Vemos o próprio Deus – por intermédio de seus profetas e mensageiros – convidando o povo à conversão (Sl 4,3; Sl 94,8; Is 44,22; Jr 18,11; Os 6,1). A conversão significa retorno ao Senhor, e, consequentemente, a renúncia ao mal, mudando o próprio modo de viver. O Salmo 51/50 oferece uma síntese da conversão e da misericórdia de Deus. A conversão se traduz em inúmeras práticas penitenciais.
A pregação de Jesus está centralizada no anúncio da conversão (metanóia), da penitência, como única via de ingresso e participação no reino de Deus e como única via de salvação. Não é por acaso que Jesus inicia seu ministério público convidando ao arrependimento: “Convertei-vos porque o reino de Deus chegou” (Mt 4,17; Mc 1,15). É um apelo que reflete a necessidade de colocar-se na dinâmica de quem acolhe a boa nova de salvação. A conversão é o movimento que, por um lado, significa abandonar o “velho homem” e, por outro, revestir-se do “novo” (Rm 6,6; Cl 3,9-10). Converter-se é tornar-se novo na opção de vida pela verdade e a autenticidade. Mais do que uma ação isolada, a mudança sugere a imagem “do caminho”. Isto é, algo dinâmico, que precisa ser feito, construído segundo os critérios apontados pela Palavra de Deus. “O caminho se faz caminhando”.

Notemos que a conversão é dom e graça de Deus. Mas também requer exercício e empenho no sentido de responder fielmente às exigências do Espírito e à identificação com Jesus Cristo, para o louvor e a gloria de Deus Pai. Neste prisma, o sacramento da Penitência celebra o encontro do filho pecador com o amor misericordioso do Pai. Encontro que renova a vida batismal ferida pelo pecado. Encontro que faz crescer no seguimento de Cristo e do seu Espírito. A conversão sincera é o pressuposto necessário para uma autêntica celebração do sacramento da Penitência.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. A reconciliação é uma meta a ser alcançada. O que fazer para atingi-la?
2. O que exige uma verdadeira conversão?
3. Qual é o pressuposto básico da celebração da Penitência?
4. Vamos rezar o Salmo 51(51) com os passos da leitura orante?

2. Sacramento da reconciliação

Muitos se perguntam, hoje, pelo significado do sacramento da reconciliação no horizonte de uma sociedade onde a convivência harmônica e pacífica está se deteriorando face ao crescimento da violência, onde a vida e a dignidade das pessoas são ameaçadas.

Ora, o sacramento da Penitência está justamente enraizado na condição humana e na complexa realidade da convivência social. As pessoas ao mesmo tempo que aspiram viver em paz, reconciliadas consigo e com os semelhantes, experimentam a amargura das tensões e dos conflitos. Sentem-se contrariadas frente às adversidades e às rupturas. Em meio às contradições e frustrações, a reação imediata é o isolamento. De fato, quem se dedica ao ministério da Reconciliação, constata que há “muita solidão”! Pessoas que desejam avidamente ser ouvidas em seus desabafos. Contudo, da experiência do sentir-se só e ferido, ecoa o grito pela busca de uma nova realidade, da mudança de vida. É preciso mudar! Ninguém, em sã consciência, consegue viver só e em meio a conflitos e transgressões por muito tempo. “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai” (Lc 15,18)!

O Sacramento da Penitência e da Reconciliação é a festa do reencontro e do amor misericordioso do Pai. É a celebração do perdão e da esperança. O pedido de perdão resgata o sentimento confiante e possibilita a abertura de novos horizontes de relações reconciliadas. O pedir perdão encerra um dinamismo humano muito maior que a simples oração interior, pois insere o ser humano na dinâmica da relação comunitária. “Pai pequei contra Deus e contra ti, já não mereço que me chamem teu filho” (cf Lc 15,21).

Mas, o “pedir perdão” requer a disponibilidade de alguém que se faça “todo escuta”, isto é, acolha com benevolência, ouça atenciosamente, permitindo à pessoa abrir seu coração. Saber ouvir é atitude que brota da bem-aventurança da misericórdia e, do reconhecimento da grandeza da pessoa do outro, apesar de seus limites (cf Jo 8,10-11). Nesta hora, a interlocução (o diálogo) reveste-se de significativa importância. Quem pede perdão, também espera ouvir uma palavra reconciliadora, ou seja, uma palavra que lhe dê a certeza do perdão e da paz. O perdão faz brilhar os olhos e exultar o coração ante as palavras: “irmão (a) tu estás perdoado (a)! Tu és amado (a) por Deus e liberto (a) em Jesus Cristo pela força de seu Espírito. Vai e viva em paz com todos!”
O sacramento da Reconciliação é a celebração do amor incondicional de Deus que se traduz em dom de perdão e de paz. No Sacramento da Penitência, os fiéis “obtêm da misericórdia divina o perdão da ofensa a Deus, e ao mesmo tempo são reconciliados com a Igreja que eles feriram pelo pecado e que colabora para sua conversão com a caridade, o exemplo e as orações” (RP. Introdução. 4). O importante é resgatar a comunhão com Deus e com a Igreja, olhando igualmente para a grande reconciliação com o universo, em vista da cultura de reconciliados (cf. Conclusões do Seminário sobre Reconciliação, publicado no Subsídio Deixai-vos Reconciliar, Estudos da CNBB 96, Brasília, Edições CNBB, 2008).

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Como as pessoas reagem e convivem em meio à violência e aos conflitos sociais?
2. Quando você percebe que machucou alguém, como você reage? O que você faz?
3. Nos momentos difíceis de sua vida, o que você mais deseja? O que você busca?
4. Muita gente sente a necessidade de celebrar o sacramento. Você sabe como, onde, quando e com quem celebrá-lo?

3. A celebração do Sacramento da Reconciliação ao longo da história

A Tradição da Igreja afirma que “Cristo instituiu o sacramento da Penitência para todos os membros pecadores de sua Igreja, antes de tudo para aqueles que, depois do batismo, cometeram pecado grave e com isso perderam a graça batismal e feriram a comunhão eclesial” (Catecismo, 1446). Jesus edificou sua tenda entre nós (Jo 1, 14) para revelar o amor misericordioso do Pai e reconciliar a humanidade com Ele. Iniciou sua pregação conclamando à penitência: “fazei penitência e crede na Boa Nova” (Mc 1,15). Acolheu os pecadores, reconciliando-os com o Pai (Lc 5, 20; 7,48) e por fim, derramou seu sangue na cruz para o perdão dos pecados (Mt 26,28). Ao ressuscitar dentre os mortos, enviou o Espírito Santo sobre os seus discípulos concedendo-lhes o poder de perdoar os pecados (Jo 20, 19-23) e os enviou para pregar a penitência e o perdão dos pecados (Lc 24,47). Portanto, o sacramento da Penitência se enraíza na vida e na prática de Jesus.

A pregação vibrante da Boa Nova de Jesus pelos apóstolos fez com que a multidão clamasse: “irmãos, o que devemos fazer?”. Ao que Pedro responde: “arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, para o perdão dos pecados” (At 2, 38). O batismo é o sacramento da primeira e fundamental conversão. O sacramento da Penitência representa a segunda conversão. “Salvos pelas águas do Batismo, nosso louvor se enfraqueceu pelo pecado que cometemos, mas o Sacramento da Reconciliação nos convida à penitência, nos renova na santidade” (cf Prefácio da Penitência, Missal Romano). Os Padres da Igreja consideravam a Reconciliação um “batismo laborioso” (cf. Sacramentum Caritatis, n. 20).

O processo histórico do sacramento da Penitência passou por diferentes etapas no seu desenvolvimento ao longo dos séculos. Destacaram-se três etapas: a) uma penitência longa e rígida para quem tivesse cometido os pecados graves do adultério, da apostasia e do homicídio após o batismo. Os pecadores eram afastados da comunidade e acompanhados pela oração da mesma, enquanto cumpriam longas penitências. Após demonstrarem arrependimento pelos pecados cometidos, eram reconciliados e readmitidos na comunidade e na participação eucarística. Tal penitência só podia realizaR-se uma vez na vida. Suas exigências tinham por finalidade a conversão. b) a rígida penitência pública e canônica, aos poucos, foi sendo substituída pela confissão privada e comutativa. Trata-se de uma prática dos monges da Irlanda introduzida no Continente Europeu. Os pecadores confessavam seus pecados ao bispo ou ao padre, sempre que recaíssem no pecado. Recebiam longas e pesadas penitências e somente depois de cumpridas é que recebiam a absolvição. As exigentes penitências podiam ser comutadas, isto é, substituídas por outras mais brandas, como a recitação dos salmos, peregrinações, doações etc. c) por fim, a Igreja adotou a confissão auricular. A confissão dos pecados, tanto graves como leves, era feita ao sacerdote no segredo do confessionário. O pecador declarava seus pecados, recebia uma palavra do confessor, era imediatamente absolvido e enviado ao cumprimento da penitência.

As diferentes etapas que caracterizaram o processo histórico do Sacramento da Penitência sublinham a atenção da Igreja para com seus membros pecadores que, arrependidos, desejam ardentemente retornar à comunhão com Deus e com os irmãos. Assim chegamos ao Concilio Vaticano II que pede: “o rito e as fórmulas da Penitência sejam revistos de tal forma que exprimam mais claramente a natureza e o efeito deste Sacramento” (SC 72).

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Por que ainda hoje se fala “no sacramento da confissão”?
2. Buscando o sacramento da Penitência e da Reconciliação, o que mais as pessoas deveriam buscar e celebrar?
3. Como entender que Jesus Cristo instituiu o Sacramento da Penitência e Reconciliação?
4. Ler o Evangelho de João 20, 19-23.

4. A renovação do Sacramento da Reconciliação

O Concilio Vaticano II manifestou ao mundo a vontade da Igreja de se aproximar das pessoas humanas, inteirar-se de suas “alegrias e esperanças, tristezas e angústias” (Gaudium et Spes, 1) para auxiliá-las na compreensão de si mesmas, em especial, de suas tensões e conflitos. A ação mais eficaz que a Igreja pode empreender em vista da reconciliação e da unidade entre as pessoas, consiste em “buscar sem cessar a penitência e a renovação” (Ritual da Penitência (RP), n. 3). Nesta perspectiva, o Vaticano II definiu: “o rito e as fórmulas da Penitência sejam revistos de tal modo que expressem mais claramente a natureza e o efeito do Sacramento (Sacrosanctum Concilium, 72).

À luz da definição Conciliar e da caminhada pós-conciliar, o sacramento passou a ser compreendido como ação litúrgica, memorial do mistério pascal de Jesus Cristo, expressão máxima da misericórdia do Pai que, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo, pacificando tanto as coisas da terra como as do céu. Esta nova realidade de vida é obra do Espírito Santo que move os pecadores a se aproximarem do sacramento da reconciliação (cf RP, introdução, n. 6). A reconciliação é ação da Igreja que valoriza a pessoa e sua situação, os atos do pecador arrependido, a participação comunitária, a ação do ministro. Particular ênfase é dada à Palavra de Deus, à acolhida, à escuta e ao diálogo benevolente com o penitente, à absolvição com o gesto da imposição das mãos, à oração ou gesto de contrição e à ação de graças. Tudo para sublinhar a dinâmica da conversão, numa maior integração entre a vida penitencial e celebração da reconciliação.

O Ritual da Penitência apresenta três formas distintas de celebração: a) Rito para a reconciliação individual dos penitentes; b) Rito para a reconciliação de vários penitentes com confissão e a absolvição individuais; c) Rito para reconciliação de vários penitentes com confissão e absolvição gerais. Por fim, apresenta ainda uma série de Celebrações Penitenciais não sacramentais. Cada uma dessas formas tem seu valor. A Reconciliação individual, através do diálogo personalizado com o penitente, tem a possibilidade de considerar melhor a caminhada de fé, o engajamento comunitário e social, as necessidades e situações concretas do penitente, estimulando-o à conversão, além de favorecer ao ministro o desempenho de sua função como sacerdote, pastor, médico e guia. A Reconciliação de vários penitentes (celebração comunitária) expressa o sentido eclesial e comunitário do sacramento. Esta segunda forma, favorece a participação, a acolhida, a proclamação e a escuta da Palavra, o exame de consciência, a oração comum e a ação de graças. Esta forma destaca o valor da mediação da Igreja na graça da reconciliação. A Reconciliação com confissão e absolvição geral é reservada para necessidades e situações especiais (cf Código de Direito Canônico, cân 961).

O Ritual recomenda, no que se refere às formas individual e comunitária, que a utilização sistemática de uma não obscureça os valores da outra. A utilização das diversas formas, de acordo com o espírito do Ritual e com prudentes critérios pastorais, poderá servir para um maior aprofundamento na graça da reconciliação e evitará que se caia em práticas rotineiras. Todavia, a prática sacramental da penitência requer um planejamento pastoral que organize e articule sua celebração com critérios amplos e realistas, tendo presente o significado dos tempos litúrgicos e o ritmo espiritual da comunidade cristã.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Que motivos levam as pessoas buscarem o sacramento da Penitência? Ou o que afasta as pessoas do sacramento?
2. Quais são as formas rituais do sacramento e qual você mais procura? Por quê?
3. Como celebramos este Sacramento em nossa comunidade?

5. Sacramento enriquecido pela Palavra de Deus

“A palavra de Deus ilumina o fiel para o reconhecimento de seus pecados, chama-o à conversão e leva-o a confiar na misericórdia divina” (RP, n. 17). O atual Ritual da Penitência e Reconciliação recupera o espaço e a função da Palavra de Deus em vista da sincera conversão.

O Lecionário do Ritual foi enriquecido com inúmeros textos Bíblicos (numa média de 80 textos). Além das leituras previstas no Ritual, “podem-se, selecionar outras, segundo a necessidade e a condição das assembléias” (cf RP. P. 80).

Alguém poderia pensar que a proclamação da Palavra de Deus só seria possível na reconciliação de vários penitentes (celebração comunitária). Não! O Rito para a “reconciliação individual dos penitentes”, recomenda: “o sacerdote, se julgar oportuno, lê ou diz de cor algum texto da Sagrada Escritura que proclame a misericórdia de Deus e exorte a pessoa à conversão” (RP, n. 43). O fato da Palavra de Deus ser recomendada no rito da “reconciliação individual” realça ainda mais sua proclamação na celebração comunitária. “Convém que o sacramento da penitência comece com a escuta da palavra, pela qual Deus chama à penitência e conduz à verdadeira conversão interior” (RP 24).

Por que esse lugar privilegiado para a Palavra de Deus? O chamado à conversão feito outrora por Jesus, hoje, ressoa na Igreja. “Desde então, a Igreja jamais deixou de convidar os homens à conversão e a manifestarem a vitória de Cristo sobre o pecado pela celebração da penitência” (RP, 1).

A Palavra de Deus além de iluminar a vida, o senso de pecado e o exame de consciência, renova também a compreensão e a prática do sacramento da Reconciliação. Pois, ao mesmo tempo que questiona, restabelece a relação do Pai com o pecador arrependido. Reconcilia-o consigo mesmo e com a comunidade dos irmãos. Insere-o num novo projeto de vida marcado por relações reconciliadas e reconciliadoras.

À luz da Palavra, o encontro pessoal com Deus transformará a celebração penitencial numa proclamação de fé, numa confissão dos pecados e numa manifestação de alegria pela paz recebida. “Depois de receber o perdão dos pecados, o penitente proclama a misericórdia de Deus e lhe rende graças em breve aclamação da Sagrada Escritura” (RP 20; 29). Quando celebramos a Penitência e a Reconciliação, geralmente escolhemos textos que falem direta e explicitamente do perdão. Tudo bem, mas o Ritual sugere também outros textos que ajudam a questionar e rever toda a nossa vida cristã, nossas opções, nossos valores. Por exemplo, temos no Lecionário do Ritual o texto das Bem-Aventuranças, da Profissão de fé de Pedro, etc.

A valorização da Palavra de Deus na celebração deste sacramento, poderá se transformar num elemento fundamental para a renovação do modo de se entender o pecado, o exame de consciência, a declaração dos pecados e sua relação com a vida dos cristãos. Mais rico, mais profundo e mais sincero será o caminho de quem se deixa interpelar pessoalmente pela Palavra do Deus vivo que, na sua misericórdia, chama à conversão e à relação filial e comunitária.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. O que motivou o Concílio Vaticano II valorizar a Palavra de Deus no Sacramento da Penitência?
2. Na perspectiva do Sacramento da Penitência, que apelos a Palavra de Deus nos faz?
3. Vamos escolher um dos textos bíblicos que o Ritual nos propõe e fazer juntos a leitura orante?

6. Os atos do penitente

Muitas pessoas se perguntam: “o que é necessário para uma boa celebração do sacramento da Reconciliação”? Entre os diferentes aspectos valorizados pelo Concílio, o Ritual da Penitência sublinha os atos da pessoa do penitente, ou seja, a contrição, a confissão e a satisfação (cf. RP n. 6).

Entre os atos do penitente apontados pelo Ritual, a contrição ocupa o primeiro lugar. Trata-se da dor e do arrependimento pelo pecado cometido. O arrependimento é o ato mais profundamente humano que reconstrói aquilo que o pecado destrói. O pecador, movido pelo Espírito Santo (cf RP. n. 6), toma consciência de seu pecado, experimenta a dor pela ofensa cometida e se põe a caminho em busca do perdão (cf RP n. 6). A parábola do Pai e dos Dois Filhos nos revela que o dinamismo que impulsiona à busca de vida nova não está no pecado em si, mas na percepção da graça de Deus. “Na casa do meu pai ...” (cf Lc 15, 17s). Nesta hora, o ser humano pecador não se sente só com sua culpa, mas experimenta a presença de alguém, que embora distante, o espera. A consciência do pecado, longe de afastar a pessoa humana de Deus, aproxima-se dele e a ajuda a descobrir melhor seu amor e sua graça.

No ato da confissão, o arrependimento interior é revelado pela manifestação dos pecados. Confessar os pecados com arrependimento é uma expressão humana e faz parte das exigências da reconciliação. Revelando ao confessor seus pecados, o penitente se insere na dinâmica comunitária da ação penitencial da Igreja que acolhe e perdoa o pecador sinceramente arrependido. Santo Agostinho via na confissão dos pecados a atitude da humildade do pecador arrependido e do louvor ao Deus da misericórdia. A confissão sincera dos pecados se traduz na manifestação da dor que requer acolhida, grito que faz ecoar o desejo de paz, reconciliação e comunhão com Deus e com os irmãos.

A conversão se completa pela satisfação das culpas (comumente chamada de “penitência”), pela mudança de vida e pela reparação dos danos causados (cf RP, n. 6). A ofensa impõe uma ação visível de reparação, uma prática nova de vida. As obras da satisfação “devem se constituir em ações de culto, caridade, misericórdia e reparação” (João Paulo II). Contudo, o perdão que Deus concede ao pecador é gratuito, não depende da satisfação, mas da sinceridade da conversão. O Ritual da penitência exalta o sentido da satisfação afirmando que ela repara e cura o que o pecado destrói e estraga, remedeia os efeitos do pecado e serve para renovar a vida. A satisfação se constitui num sinal externo do começo ou da retomada da vida nova, sobretudo pela prática do amor ao próximo.

Estes atos do penitente expressam e simbolizam a conversão. Embora distintos, um supõe e remete ao outro. Na perspectiva da fé, juntos devem manifestar a sincera e a profunda rejeição daquilo que gera o pecado. São atos que revelam a assimilação da boa nova: “convertam-se e acreditem no Evangelho” (Mc 1,15).

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. O que uma pessoa deve fazer ao desejar celebrar uma boa confissão?
2. Qual é significado de cada um dos atos do penitente?
3. Por que os diferentes atos do penitente não são independentes, mas um supõe outro?

7. O ministério da Reconciliação

Só Deus perdoa os pecados (cf Mc 2,7). Não é o padre! a obra da reconciliação, revelada por Jesus Cristo, confiada aos apóstolos e confirmada pelo Espírito Santo, é iniciativa do Pai. Ele é o “único que pode perdoar os pecados” (RP n. 8). “É Deus quem reconcilia com ele o mundo por meio de Cristo” (2Cor 5,19). São Paulo exorta: “em nome de Cristo, suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5, 20). Deus é a fonte da graça reconciliadora e do ministério da reconciliação. A Igreja, como povo de Deus, é instrumento da conversão e do perdão. Impulsionada pelo Espírito Santo, ela age de diversos modos no exercício da obra da reconciliação que Deus lhe confiou. Chama à conversão pela pregação da Palavra, intercede em favor dos pecadores, ajuda aos penitentes a fim de que reconheçam e confessem suas faltas e, assim, obtenham a misericórdia de Deus (cf. RP n. 8).

A Igreja exerce o ministério do sacramento da Penitência por meio dos bispos e dos presbíteros. Contudo, os ministros do sacramento da Penitência e da Reconciliação, em virtude do sacramento da Ordem, acolhem os penitentes e perdoam seus pecados “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (RP n. 9). Eles não são proprietários, mas servos do perdão de Deus, agindo em nome e segundo a caridade de Cristo. O ministro age sempre em nome de Jesus Cristo, o Bom Pastor e da Igreja, comunidade orante e acolhedora. Através do ministro, Jesus Cristo se encontra com o pecador arrependido e lhe comunica: “a paz esteja contigo”! Libertando-o do pecado, enche-o de luz e de alegria. Deus Pai acolhe e comunica ao penitente seu amor misericordioso. Santo Afonso afirmava que a ação primordial do ministro consistia em “tornar-se imagem do Pai celeste”. Mais do que um inquisidor, o ministro da Reconciliação, é um irmão entre os irmãos, que acolhe com gentileza, escuta com afeição, orienta com firme sabedoria e, animado pela compaixão de Cristo, proclama com largueza a Boa-Nova do perdão.

Ao ministro do sacramento da Penitência, o Ritual recomenda: acolha com benevolência e saúde amavelmente o penitente que se aproxima para confessar seus pecados; faça o sinal-da-cruz juntamente com o penitente; exorte o penitente à confiança na misericórdia de Deus; leia um texto da Sagrada Escritura que proclame a misericórdia de Deus e a conversão; ajude o penitente, se necessário, a fazer a confissão íntegra; oriente à contrição de suas culpas, recordando-lhe que ele, pelo sacramento da penitência, morrendo e ressuscitando com Cristo, renova-se no mistério pascal; sugira ao penitente, segundo a sua condição, a penitência para a satisfação do pecado e renovação de sua vida; solicite que manifeste sua contrição; proclame a absolvição, com as mãos estendidas sobre a cabeça do penitente; louve a Deus por sua misericórdia; despeça o penitente animando-o a viver em paz (cf RP nn. 41-47);

Do ministro da Penitência, além de esmerada preparação teológica e equilíbrio afetivo, requer-se comprovada consciência e experiência das realidades humanas. Ele deve primar pelo respeito e delicadeza, pelo amor à verdade e fidelidade às orientações da Igreja, para conduzir o penitente no rumo do encontro reconciliador com Deus e com a Igreja.
Seria oportuno aqui, recordar uma parte da prece de ordenação presbiteral, onde o Bispo reza sobre o ordenando: “que ele esteja sempre unido a nós, Senhor, para implorar a vossa misericórdia em favor do povo a ele confiado e em favor de todo o mundo”.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Como você entende o ministério do confessor? Que dúvidas você tem?
2. E que experiências significativas este ministério já lhe proporcionou em sua vida?
3. Sugerimos estudar este artigo juntamente com o padre de sua comunidade e dialogar com ele sobre este ministério.

Fonte: Liturgia em Mutirão III - CNBB
http://www.cnbb.org.br/site/component/docman/cat_view/236-liturgia-em-mutirao-iii

quarta-feira, 3 de março de 2010


Olá pessoal! Achei esse texto fantástico e reflete o que infelizmente também vem acontecendo no meio católico. Leiam! Muito interessante! Pe. Cristiano Marmelo


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Idolatria Gospel: Um show de horrores


Qualquer cristão que tem o mínimo de conhecimento bíblico entende que Deus odeia a idolatria. Em 1 Coríntios 6:9 Deus alerta que os idólatras não herdarão o Reino dos céus. Em outra parte das escrituras lemos: “Não terás outros deuses diante de mim”. (Êxodo 20:3). Podemos ficar horas e horas citando trechos bíblicos acerca da mesma verdade: Deus quer estar em primeiro lugar de nossas vidas. Aqueles que querem ser verdadeiros adoradores deverão ter olhos para um só Deus. Isto é uma verdade inquestionável.

Também é verdade que a Igreja precisa ter modelos, precisa ter exemplos de vida com Deus, exemplos em todas as áreas de liderança, pastoral, nas artes, missões etc. A estas pessoas chamamos de referenciais. Paulo era um referencial de sua época: “Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam”. (Filipenses 3:17). Precisamos ter líderes que nos dirijam, que nos abençoem, que nos ajudem a chegar aos níveis já alcançados por eles, que nos dêem um norte em Deus.

Referenciais têm um enorme poder de influência sobre as pessoas como um todo. É por isso que quando algum destes referenciais cai em pecado, muitas pessoas caem em desilusão e os mais fracos tendem a abandonar a fé. Em geral, o povo é abalado quando um líder ou um referencial de grande influência comete falhas em público. E quanto maior a “bomba”, maior é o estrago. A Bíblia alerta: “Não dando nós escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado...” (2 Coríntios 6:3).

Um erro grandioso que a Igreja de hoje tem cometido e sofrido sérias conseqüências é o pecado da idolatria. E fazemos isso dando uma série de boas desculpas esfarrapadas. Por exemplo, quando quero idolatrar meu cantor gospel preferido, exaltando-o sobre as alturas, falo às pessoas que ele é um grande homem de Deus, um referencial para mim. Aí faço desta pessoa meu ídolo, tendo em casa um altar para ele, com todos os seus CDS e livros, com todos os seus artigos escritos, com uma foto autografada, uma camisa do fã-clube e outros apetrechos que farão parte do meu devocional a este ídolo. Assim a pessoa acaba se tornando um idólatra, tornado seu próprio irmão na fé num deus. Atenção: Adorar também significa “devotar a vida”.

Não há outras palavras para se dizer uma verdade dura que já está sendo ecoada no Brasil: a Igreja brasileira fez de seus referenciais grandes ídolos como o bezerro de ouro erguido pelo povo de Israel no deserto (Êxodo 32:4). Isto nós fizemos e por isso estamos pagando um preço tão caro. A Lei da Semeadura está valendo ainda hoje. A Igreja plantou idolatria, vai colher coisa ruim, maldição, destruição. Disto não duvidamos.

A Idolatria Evangélica Gospel Brasileira permitiu este show de horrores:

• Ídolos gospel que não “ministram” por menos de 15, 20, 30 mil reais.
• Ídolos gospel que decidiram por loucura própria fazer uma lista de exigências que nem Jesus, Paulo ou João fizeram quando exerciam seu ministério: hotéis 5 estrelas, frutas tropicais, água mineral de marcas específicas, dezenas de seguranças, carro blindado... e outras coisas que não vou pôr aqui pois não vão acreditar em mim.
• Ídolos gospel que são indiferentes e preconceituosos com certas cidades, regiões, raças, e condição espiritual. Por exemplo: tem gente que não “ministra” em certos lugares porque há muita frieza espiritual, eles só querem “ministrar” em lugares que já estão “avivados”.
• Ídolos gospel que se isolam da liderança espiritual de sua igreja para não precisar responder a ninguém sobre seus trambiques e pecados. Aparentemente chegaram num nível tão alto que não precisam mais de pastor e de igreja para acompanhá-los, agora podem caminhar sozinhos. Por isso temos visto tanto insubmissão e rebeldia em “ministério grande”.

Quem é o responsável por este show de horrores? Quem é o culpado? Penso que o culpado somos todos nós que fazemos parte da igreja pois temos alimentado nossos ídolos. Damos a eles o que eles pedem, e é por isso que as exigências aumentam a cada dia. Enquanto pagamos 25 mil reais pra um irmão cantar num evento, deixamos missionários morrerem de fome aqui no Brasil e lá fora. E ainda dizemos: se o missionário passa fome é porque está em desobediência. Quanta hipocrisia!

A coisa está tão feia que ninguém pode denunciar os pecados da igreja. Se alguém se levanta contra essa pouca vergonha dos absurdos cachês e exigências, dos pecados escondidos, da rebeldia contra os pastores, da idolatria escrachada, da tietagem é rapidamente apedrejado pelos idólatras daquele determinado “deus gospel”. É igualzinho no Velho Testamento: “não desrespeite o meu deus que eu não desrespeito o seu”.

Meus irmãos não me entendam mal. Não me interpretem mal. Estou aqui tecendo pesadas críticas contra a idolatria. Estou denunciando o pecado, não o pecador! É disso que tenho nojo, e é contra este terrível pecado que temos que lutar. Se a Igreja não acordar colherá frutos tenebrosos. Se sabemos da existência de um Deus verdadeiro, se conhecemos o seu amor, e o trocamos deliberadamente por outros deuses, vamos pagar caro por isso. Aliás, já estamos pagando caro por isso!

Deixe-me fazer algumas perguntas que atualmente tem feito meu coração doer: - Quanto Jesus cobrou para exercer seu ministério e morrer na cruz por nós? Qual foi o cachê que Paulo cobrou para ser aprisionado junto com Silas nas piores prisões da época? Quais foram as exigências de nossos irmãos que morreram recentemente na China por não negarem o Evangelho? Quanta glória Jesus quis tomar para si quanto o chamaram de bom mestre? Quantas viagens Paulo negou por não atenderem suas exigências?

Precisamos urgentemente de referenciais que apontem para Deus. Precisamos de mártires. Precisamos de humildade, simplicidade e pureza de espírito. Precisamos nos arrepender. Precisamos saber que “...o viver é Cristo, e o morrer é lucro”. (Filipenses 1:21)

Quanto aos ídolos de ouro que levantamos... não precisamos deles!

"Então disse Jacó à sua família, e a todos os que com ele estavam: Tirai os deuses estranhos, que há no meio de vós, e purificai-vos, e mudai as vossas vestes". (Gênesis 35:2)

Um abração em Cristo Jesus




Ramon Tessmann
http://www ramontessmann.com.br

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010


Os Sacramentos 2


Ione Buyst


1. OS SACRAMENTOS SÃO SÍMBOLOS?

Sacramentos: sinais sensíveis...

Temos o costume de chamar de “sacramentos” os gestos principais que expressam e sustentam nossa fé cristã: batismo, confirmação, eucaristia, reconciliação, unção dos enfermos, ordenação, matrimônio. São sinais sensíveis que realizam aquilo que significam (Cf. SC 7). E o que significam? São chamados a significar, cada qual a seu modo, o mistério da nossa fé, o mistério pascal de Jesus, o Cristo. Pelo batismo, somos mergulhados na morte de Jesus, para ressuscitarmos com ele (Cf. Rm 6, 3-11). Também, ao realizarmos a ação eucarística, realiza-se em nós, sacramentalmente, em mistério, a morte-ressurreição de Jesus, a sua páscoa.

Uma nova teoria para explicar os sacramentos...

Em cada época da história, os cristãos tentaram estudar e explicar, na medida do possível, estas ações sacramentais. Nenhuma explicação será jamais totalmente satisfatória, porque mistério tão grande não cabe em explicações; compreendemos apenas pela fé, instruída pelas Sagradas Escrituras; compreendemos pela experiência celebrativa e pela experiência do seguimento de Jesus no dia-a-dia de nossa vida. Mas, como somos seres racionais, devemos tentar explicar e entender racionalmente, até onde der...

Atualmente, a maneira de explicar o que acontece quando celebramos um sacramento passa pela “teoria simbólica”. A realidade teológica (sacramento) é analisada do ponto de vista antropológico, enquanto símbolo. Por exemplo, o que acontece no batismo? Num sinal sensível (mergulhar e retirar das águas), aparece e começa a atuar uma realidade escondida, oculta a nossos sentidos. Qual é esta realidade? O mistério pascal de Jesus Cristo. Deixando-nos batizar, optamos por uma vida de seguimento de Jesus, que viveu uma vida de doação, de entrega, de compromisso total com o reino de Deus. E confiamos que, assim, o Pai nos dará a vida em plenitude, numa comunhão de vida, para sempre. Somos identificados com Cristo na sua morte-ressurreição. Sua páscoa acontece em nós.

A graça supõe e assume a natureza...

O sinal sensível do batismo é um elemento da natureza (água), uma ação de nossa experiência cotidiana ou social com seu sentido evidente (mergulhar na água, correr o perigo de afogar-se numa enchente, ser retirado(a) das águas por outra pessoa, que às vezes até arrisca sua vida para nos salvar...). Este primeiro sentido recebe um complemento das Sagradas Escrituras, principalmente do Novo Testamento, onde este gesto se refere a Jesus e àqueles que se tornam seus seguidores: seu batismo no Jordão, seu batismo na morte, sua ressurreição, como salvamento por parte do Pai, e nossa participação em sua morte-ressurreição.
A força vital, a energia psíquica gerada pela simbolização é como que potencializada pelo Espírito Santo. O dinamismo do Espírito Santo se manifesta e trabalha no gesto humano simbólico. O Sopro Divino assume a água e a transforma, a transfigura, fazendo aparecer a vida divina na realidade humana. A realidade teologal se encarna e se manifesta e atua na realidade humana, antropológica, seguindo a lei da criação, a lei da encarnação e da epifania, a lei da ressurreição e da escatologia. A atuação do Espírito Santo passa pela ação simbólica; atinge-nos pela simbolização.

Seguindo a lei da criação...

Afinal, Deus nos fez assim, como seres corpóreos/espirituais. Ou como diz o relato bíblico da criação, somos feitos(as) de “barro e brisa”: o Senhor modelou um boneco de barro, soprou sobre ele com sua divina brisa, seu divino sopro, e assim nasceu o ser humano, como ser vivente. Por isso, a comunicação com os seres humanos, mesmo a mais espiritual, passa necessariamente pelo “barro”, pelo corpo, pelos sentidos, pela “matéria”. E os sacramentos seguem esta lógica, esta teo-lógica da criação. Nos sacramentos se unem a “matéria” e o Espírito.

Seguindo a lei da encarnação e da epifania (manifestação)...

São João, o evangelista, diz que em Jesus “o Verbo se fez carne”; a Palavra de Deus se fez gente com a gente; ergueu seu barraco no meio de nós. Deus se fez “barro”, “matéria”, corpo, possível de ser ouvido, visto, apalpado... por nós, seres humanos, para que pudéssemos entrar em comunhão com ele e encontrar assim nossa felicidade. Assim o expressa o mesmo São João no início de sua primeira carta: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e o que nossas mãos apalparam o Verbo da vida - porque a Vida manifestou-se (...) - o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos, para que estejais em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. E isto vos escrevemos para que a vossa alegria seja completa” (1Jo 1,1-4).

Por isso, os sacramentos seguem esta lógica, esta teologia da encarnação e da manifestação de Deus em nossa humanidade: a realidade divina se manifesta a nossos sentidos, em coisas para ver, ouvir, sentir, cheirar, saborear..., e desta maneira entra em comunhão conosco.

Seguindo a lei da ressurreição e da escatologia...

Pela ressurreição, o corpo torturado, mutilado, crucificado de Jesus transformou-se em um corpo espiritual, pneumático. Nele nos tornamos gente nova, não mais escravos da natureza humana, mas gente que se deixa guiar pelo Espírito de Deus que ressuscitou Jesus dos mortos. Com ele iniciam os novos céus e a nova terra, já presente em germe entre nós. E os sacramentos seguem esta lógica, esta teologia da ressurreição e de escatologia: nos sinais sacramentais já está espiritualmente presente a realidade futura, o reino dos céus, a vida que não termina com a morte.

Sacramento é mistério...

É bom lembrar ainda que, a partir do Concílio Vaticano II, a palavra “sacramento” (que vem do latim) está sendo de novo entendida como “mistério” (palavra grega que, nos primeiros séculos do cristianismo, foi traduzida por “sacramento”). Falamos da Igreja como mistério. “Mistérios” são também a eucaristia e o batismo..., porque neles transparece para nós e nos atinge o mistério de Deus, a vida de Deus; Deus enquanto realidade que sustenta e abrange tudo quanto existe. No sacramento vivido como ação simbólica, o mistério aparece e atua: tocando os sinais sensíveis, tocamos o mistério e somos transformados(as) por ele.

Isto nos ajuda a não restringir o sacramento ao momento da celebração: a ação sacramental faz aparecer o sentido de toda a nossa vida, vivida em comunhão com Jesus Cristo, como experiência do mistério de Deus no mistério da vida humana. Ajuda-nos ainda a não entender o sacramento como um gesto quase mágico (batizou, salvou): é o mistério que atua em nós, é Deus, é o Espírito Santo do Cristo ressuscitado, que vai, ao longo de toda a nossa vida e com a nossa participação, nos transformando, nos revitalizando.

Os sacramentos são ações simbólico-sacramentais

Para deixar claro esta realidade humano-divina, gosto de dizer que o batismo (assim como os outros sacramentos) é uma ação simbólico-sacramental. “Simbólica”, enquanto realidade humana: “sacramental”, enquanto realidade divina; “simbólico-sacramental”, enquanto realidade humano-divina, na qual o divino e o humano estão aliados, entrelaçados, inseparáveis. E espero que, assim, vocês tenham se recuperado do primeiro susto com a pergunta que está como título desde artigo! Sim, sacramentos são símbolos, ações simbólicas. Mas para entender isso, você deve superar o sentido muito limitado que às vezes se dá no linguajar cotidiano, quando se diz: “É apenas simbólico”, como se fosse uma coisa que não deva ser levada muito a sério ou que não seja real!

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

1. Qual a compreensão que nós temos de sacramento? E o povo que procura os sacramentos em nossa Igreja, o que pensam a respeito disso?
2. Como entender as três leis da simbologia (criação, encarnação e ressurreição)? Ficou claro para nós esta explicação?
3. Como entender a afirmação de que os “sacramentos são símbolos”?

2. SÍMBOLOS? OU SINAIS?

Todos os símbolos são sinais, mas nem todos os sinais são símbolos. Os sinais não simbólicos recebem sua significação como que de fora, pela convenção entre os membros de um determinado grupo cultural. São arbitrários; poderiam ser substituídos por outros. Um sinal vermelho no trânsito, por exemplo, é um sinal e não um símbolo.

O símbolo tem sua raiz no inconsciente e expressa uma experiência vivida a um nível anterior à conceituação. Ou, como o expressa um outro autor: é movido pelo autor: é movido pelo desejo, que é insaciável e almeja a totalidade do real, ou melhor, almeja Alguém que possa satisfazer nosso desejo.

Por isso, no símbolo existe como que uma relação interna que revela a unidade entre sinal sensível e realidade significada. Por exemplo, água como símbolo de purificação, de vida. A água em si já contém como que o sentido de purificação, de vida. Não é algo que é imposto de fora, racionalmente.

Símbolo não é o resultado de uma transferência de significação além da matéria, mas a própria articulação da densidade da matéria, que conserva sua totalidade de ser, em vez de ser escamoteada pelo espírito. (...) A matéria é investida pelo espírito.

Símbolos atingem o ser humano como um todo

Vamos nos lembrar de alguma celebração passada... O que ficou gravado em nossa memória? Provavelmente, os cantos, os símbolos e principalmente as ações simbólicas. Por que isso? Porque atingem nossa pessoa como um todo; não só a nossa mente, mas também nossa afetividade, partindo do corpo e, atingindo através dele, as camadas mais profundas de nosso ser.

Uma especialista em eutonia, Thérèse Bertherat, nos lembra o seguinte:

Cuidado com o corpo, disse-me há muito um psicanalista que assistira às minhas aulas. Nosso corpo pertence ao domínio da mãe. Quando você procura abordar o ser pelo corpo, você entra diretamente nas camadas arcaicas da personalidade.

E podemos dizer que nos liga não somente com o domínio da mãe, matriz geradora de nossa vida, mas nos liga ainda com a matriz geradora de toda vida: Deus.

A liturgia é feita com “sinais sensíveis” (SC 7), usados simbolicamente. Partindo de nosso corpo, penetram nossa afetividade, nossa consciência, nosso inconsciente...

São capazes de ligar, unir, juntar (symbállo):

• Corpo, alma, mente, espírito... de cada um de nós;
• As várias pessoas participantes, estreitando os laços na assembléia;
• Cada um de nós e a comunidade reunida com a realidade (tanto cósmica quanto histórica) que nos cerca;
• Cada um de nós e a comunidade reunida com Aquele que é a fonte da vida;
• Presente e passado, céu e terra, “matéria” e “espírito”...

Através de nossa participação nas ações simbólicas, temos acesso à realidade que existe para além do sensível, para a qual os símbolos e ações simbólicas remetem. E qual é esta realidade? Para nós, cristãos, esta realidade é o próprio Jesus Cristo glorificado em sua páscoa. Assim, a nossa participação na ação ritual da liturgia é páscoa de Cristo na páscoa da gente, páscoa da gente na páscoa de Cristo.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

1. Conseguimos entender a diferença que existe entre “sinal” e “símbolo”?
2. Vamos elencar alguns “sinais” e alguns “símbolos” mais presentes em nossa vida para que possamos fazer bem esta distinção?
3. Quais as realidades de nossa vida, de nossa história e de nossa comunidade que um “símbolo” pode “ligar, unir, juntar”?

3. AÇÕES SIMBÓLICAS DE DIFERENTES PESOS E “DENSIDADES”

Nem todos os símbolos e ações simbólicas têm um peso igual. Há gestos considerados fundamentais, porque foram deixados pelo próprio Senhor Jesus, como por exemplo a ceia e o batismo; outros também têm um peso bastante grande, porque fazem parte da tradição apostólica; outros podem ser criados por cada comunidade.

Podemos imaginar a eucaristia no centro de vários círculos concêntricos; em volta dela, os outros sacramentos e sacramentais, e depois a Celebração da Palavra, a Liturgia das Horas...
Gestos litúrgicos no prolongamento de gestos cotidianos

Cada um dos gestos fundamentais dos sete sacramentos estão no prolongamento de gestos cotidianos, domésticos, muitos deles ligados à cozinha, à higiene e saúde... Estão no prolongamento também de gestos religiosos da piedade popular ou mesmo de outras religiões, fora de nosso universo cultural... Devemos estudar, observar e anotar as relações que existem entre eles.

• Eucaristia tem a ver com agradecer, fazer um brinde para homenagear alguém..., comemorar um aniversário ou uma vitória com comes e bebes, confraternização, comer e beber para se alimentar, tomar refeição juntos, festejar...; tem a ver com a festa das folias de Reis e do Divino, com sua fartura de comida e bebida partilhada...

• Batismo tem a ver com tomar banho, quase se afogar e ser retirado da água, salvar alguém de uma enchente; tem a ver com os banhos medicinais da hidroterapia; tem a ver com os batismos e banhos em tantos ritos religiosos...

• Ungir tem a ver com passar óleo, bálsamo, unguento, creme, pomada medicinal (azeite, óleo de almíscar, de pinho, de alfazema,...). Tem a ver com passar perfume... É sinal do Espírito de Deus com o qual somos consagrados para Deus, consagrados para a missão messiânica (Cristo= Ungido= Messias); sinal do Espírito que penetra em nós para dar força, dignidade, alívio; sinal do Espírito que nos faz espalhar na sociedade a boa-nova de Jesus Cristo, como um perfume agradável e cheiroso que conquista, anima e dá alegria...

• O sacramento da reconciliação tem a ver com os gestos da pessoa que reconhece seu erro, pede perdão, sente-se perdoada, tem a ver com a reconciliação de duas ou mais pessoas que se desentenderam... Vamos observar ou lembrar as expressões verbais e os gestos com os quais, no dia-a-dia, as pessoas se reconciliam... (abraços, apertos de mão, olhar, sorriso, presentes...).

É importante a gente sentir e fazer sentir a relação que existe entre os gestos cotidianos, os gestos religiosos e os gestos expressamente sacramentais. É importante valorizar ações simbólicas que estão como que no prolongamento dos sete sacramentos e vice-versa:

• Ligada ao batismo está a aspersão com água (na celebração dominical, nas bênçãos, nas exéquias...)
• Ligado à celebração eucarística está o ágape, ou refeição fraterna.
• Ligados com o sacramento da ordem estão os ritos para reconhecimento de outros ministérios, como ministros (as) extraordinários (as) da sagrada comunhão, ministro (as) do batismo etc.
• Ligadas ao sacramento da reconciliação estão as celebrações penitenciais.
• Ligadas ao sacramento do matrimônio estão as celebrações de bodas, com sua bênção das alianças.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

1. Você já tinha percebido que os gestos e ritos sacramentais tem tudo a ver com nossos gestos e ritos cotidianos?
2. Qual a frase que mais lhe chamou a atenção neste artigo? Por que? Como ela pode lhe ajudar a melhor compreender, celebrar e viver os sacramentos?

4. A LITURGIA COMO REALIDADE SIMBÓLICO-SACRAMENTAL

Sacramentos são liturgia, liturgia é sacramento

Sacramentos são ações simbólico-sacramentais, pelas quais o Cristo Ressuscitado, presente em sua Igreja, nos atinge e nos transforma com seu Espírito vivificante. Por seus sinais sensíveis, quando realizados na fé, trazem presente e realizam em nós aquilo que significam: a salvação, a páscoa, a chegada do Reino, nossa comunhão em Deus.

Acontece que toda essa teologia que encontramos no início da constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia (SC 5-8) não diz respeito somente aos sacramentos, mas à liturgia como um todo. Basta olhar a seqüência dos capítulos da constituição para nos darmos conta disso. Vejam: o capítulo primeiro trata da liturgia em geral (incluindo os sacramentos); os capítulos seguintes tratam de várias celebrações litúrgicas específicas ou de alguns de seus elementos: Eucaristia, demais sacramentos e sacramentais, ofício divino, ano litúrgico, música sacra, arte sacra e sagradas alfaias.

Portanto, não somente nos gestos centrais dos sacramentos Cristo está presente e atua com seu Espírito, mas em todas as celebrações litúrgicas (ofício divino, por exemplo) e na celebração litúrgica como um todo, em todos os seus elementos (assembléia, ministérios, palavra, música, silêncio, gestos e atitudes do corpo, ano litúrgico, espaço sagrado...). Vale a pena reler o n. 7 da constituição conciliar, que fala dessas várias maneiras de Cristo estar presente na liturgia: no ministro da celebração eucarística, no pão e no vinho eucarísticos, nos sacramentos, pela sua palavra, quando a Igreja ora e salmodia:

“Para levar a efeito obra tão importante [obra da salvação], Cristo está presente em sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas. Presente está no sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro, “pois aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na cruz”, como sobretudo sob as espécies eucarísticas. Presente está pela sua força nos sacramentos, de tal forma que quando alguém batiza é Cristo mesmo que batiza. Presente está pela sua palavra, pois é ele mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na igreja. Está presente finalmente quando a Igreja ora e salmodia, ele que prometeu: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estarei no meio deles” (Mt 18, 20)”.

Assim, a liturgia como um todo é celebrado sacramental do mistério pascal de Jesus Cristo. A liturgia como um todo tem força simbólico-sacramental e como tal deve ser celebrada e vivida.

A cada gesto, a cada palavra, a cada olhar..., estamos trazendo presente e atuante (ou não!) o mistério e a força da páscoa de Jesus, que veio para transformar nossas vidas: entrar na igreja, andar, encontrar-se com os irmãos, fazer o sinal da cruz, abraçar-nos uns aos outros(as), beijar o altar, proclamar ou ouvir a palavra, cantar, mergulhar no silêncio, ver as flores que enfeitam o espaço de celebração... Em todos esses gestos e momentos, podemos viver (ou não!) o encontro com o Ressuscitado e, através dele, com o Pai, no Espírito Santo.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

1. Vamos ler juntos e comentar o número 7 da Constituição Sacrosanctum Concilium?
2. Olhando para as nossas comunidades: os sacramentos são valorizados e vividos como ações simbólicas? Como podemos ajudar as pessoas a perceberem esta realidade?

5. NÃO À “SIMBOLOMANIA”

Infelizmente, tanto no estudo da teologia, como na prática pastoral, a liturgia é tratada muitas vezes como se fosse um enfeite, uma parte “externa”, um “embrulho” para a graça sacramental. Não é levada suficientemente a sério enquanto realidade simbólico-sacramental. Os sinais sensíveis, nem mesmo os dos gestos sacramentais, são vividos como ações simbólicas: é água de qualquer jeito; são hóstias que não têm aparência nem gosto de pão e que são entregues sem levar em conta o relacionamento pessoal entre quem dá e quem recebe; é vinho só para os padres; são textos bíblicos lidos de folhetos, são pessoas que estão juntas no mesmo espaço, porém já sem se reconhecerem e sem se tratarem como irmãos e irmãs, como Corpo de Cristo... Caímos no formalismo, no ritualismo, no sacramentalismo, na rotina.

“Simbolomania”

E aí, quando a própria liturgia já não é vivida como ação simbólico-sacramental, surge a necessidade de criar... símbolos! Outro dia, alguém disse que estamos sofrendo de “simbolomania”: queremos “encher” a celebração de “símbolos” (serão, de fato, símbolos? Ou apenas objetos mostrados à assembléia, com longas apresentações, querendo “explicar” o que significam ou “simbolizam”?). Nós nos esquecemos de que a ação simbólica mais central, mais importante, porque mais densa de expressão de nossa fé, é a celebração da Eucaristia (ceia do Senhor). Ao redor dela giram também e participam de sua dimensão sacramental, todos os outros elementos que juntos formam a realidade litúrgica. Portanto, não se trata de nos preocupar em trazer uma série de símbolos e ações simbólicas na liturgia, mas de redescobrir cada gesto, cada objeto, cada pessoa..., dentro da liturgia como ação ou realidade simbólico-sacramental. Trata-se de vivenciar profundamente cada parte da celebração como manifestação, participação e comunhão no mistério revelado em Jesus.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

1. A sua comunidade sofre de “simbolomania”? Caso sim, como remediar?
2. Como sugestão:
• Vamos tentar viver a liturgia, com todos os seus elementos, como ação simbólico-sacramental, começando com a própria Eucaristia e os demais sacramentos e sacramentais.
• Introduzindo outros símbolos ou ações simbólicas, vamos fazer com que estejam integrados no tempo litúrgico, na ação litúrgica que estamos celebrando.


Fonte:
www.cnbb.org.br (Liturgia em Mutirão III)

sábado, 20 de fevereiro de 2010


Os Sacramentos

Pe. Gregório Lutz, CSSp


1. O que se entende por “Sacramento”?

Muitos católicos dizem que os sacramentos são sinais de graça. Alguns dizem com mais precisão que são sinais eficazes de graça. Outros acrescentarão que foram instituídos por Jesus Cristo. E certamente não faltará quem diz que existem sete sacramentos, e os enumera: Batismo, confirmação, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio. Mas assim é realmente claro o que é um sacramento?

Para conseguirmos mais clareza, olhemos uma vez como se realiza um sacramento, por exemplo, o batismo, um casamento ou uma celebração da eucaristia! Há sempre um grupo grande ou pequeno de pessoas reunidas que ouvem a Palavra de Deus e a ela respondem em oração e canto, e há sempre também um rito, gestos e sinais, acompanhados por palavras que dizem o que este gesto significa. Tal significado vai sempre além da simples ação física. A ação sacramental opera a salvação, leva a ação salvífica de Cristo aqui e agora a efeito nas pessoas que celebram o sacramento. Esta eficácia dos sacramentos é evidentemente obra divina que se dá através das ações simbólicas dos ministros dos sacramentos, e não sem a cooperação da assembléia dos fiéis e, sobretudo, daqueles que recebem um sacramento. Estes devem se abrir para o dom da graça que Deus lhes quer dar no respectivo sacramento. E toda a comunidade reunida participa da ação sacramental, pelo menos ouvindo a Palavra de Deus e respondendo a ela em ação de graças e louvor, assim como em súplica e intercessão.

A instituição dos sacramentos por Jesus Cristo procurava-se - e muitos ainda procuram - prová-la para cada sacramento do Novo Testamento. Isso é possível para o batismo e a eucaristia, talvez ainda para a penitência; para os outros sacramentos é mais difícil ou impossível. Mas, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, a origem dos sacramentos em Jesus Cristo não se vê como instituição jurídica, mas como um nascimento do próprio Jesus.

Reflexões posteriores mais detalhadas sobre a origem dos sacramentos, sua estrutura em sinais e palavras, e a ação sacramental em conjunto de Deus e da Igreja, nos ajudarão a entender ainda melhor o que é mesmo um sacramento.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Que definição ou descrição de “sacramento” você aprendeu na catequese?
2. Que perguntas esta definição ou descrição deixou em aberto?
3. O que você diria agora em breves palavras, se alguém perguntasse: o que é um sacramento?

2. A origem dos Sacramentos

Geralmente se diz que os sacramentos foram instituídos por Jesus Cristo. No entanto, os evangelhos nos relatam apenas a respeito de dois sacramentos que foram claramente instituídos por Jesus: a eucaristia e o batismo. Na aparição do Senhor ao grupo dos apóstolos na tarde do dia da ressurreição, quando Ele soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo! A quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aos quais retiverdes, ser-lhes-ão retidos”, se vê ainda a instituição do sacramento da penitência.

Poderia-se entender a instituição dos sacramentos como uma ordem, um ato jurídico de Jesus. Mas para podermos afirmar tal instituição dos outros sacramentos não se encontram dados suficientes no Novo Testamento, embora todos os sete sejam de alguma maneira mencionados nos Atos ou em cartas dos apóstolos.

No entanto, a origem dos sacramentos em Jesus Cristo pode ser vista de outra maneira, como de fato vários Padres da Igreja a tem visto e como o Concílio Vaticano II, que também a esse respeito voltou às fontes, reafirmou. Conforme eles, os sacramentos não têm sua origem num ato jurídico de Jesus, mas no seu próprio ser. Como Ele é sacramento do Pai e a Igreja é sacramento de Jesus Cristo, assim a Igreja, o sacramento universal, se desdobra nos sete sacramentos. Eles têm, portanto, sua origem em Jesus, como a Igreja mesma. O Vaticano II diz em sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia, a “Sacorsanctum Concilium”, citando Santo Agostinho: “Do lado aberto de Cristo dormindo na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja” (SC 5). A origem da Igreja e, com ela, dos sacramentos, é, portanto, não um mandato jurídico, e sim um ato vivencial Dele, pelo qual o Senhor da Glória se torna e fica presente na Igreja, seu corpo místico, até o fim dos tempos.

O evangelista São João escreve no seu evangelho que Jesus morrendo entregou o espírito. Com isso ele quer dizer mais do que simplesmente afirmar a morte de Jesus. Pelo contexto do quarto evangelho é claro que São João quer dizer que Jesus na sua morte entregou o Espírito Santo e que assim nasceu a Igreja com os sacramentos, particularmente os do batismo e da eucaristia, simbolizados pelo sangue e a água que jorraram do lado aberto de Jesus.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Porque a explicação da origem dos sacramentos aqui apresentada pode satisfazer mais do que a tradicional, que supõe um ato jurídico de Jesus para cada sacramento?
2. Por que os sacramentos podem ser chamados “sinais do amor de Deus”?

3. Os sacramentos como sinais da ação de Deus

Os sacramentos são sinais. Um sinal remete a uma realidade diferente do próprio sinal. Por exemplo, um sinal numa estrada que diz que até uma determinada cidade a distância é de tantos quilômetros, remete a esta cidade. Mas o sinal não é a cidade. Há outros sinais que remetem a uma outra realidade, mas de alguma maneira esta outra realidade já está presente no sinal mesmo. Por exemplo, o respirar de um corpo humano ou de um animal é sinal de que este corpo vive. O sinal do respiro não apenas remete à vida, mas ele mesmo é vida. Tais sinais que remetem e já contêm em si a realidade significada, normalmente são chamados de símbolos.

Devemos ainda lembrar que não somente coisas ou objetos podem ser sinais, mais igualmente gestos e ações. Assim, por exemplo, o sinal ou símbolo principal do batismo não é bem a água, mas a ação que se realiza com a água, o mergulho nela ou o derramamento da mesma. No entanto, os sinais dos nossos sete sacramentos podem ser ambíguos em seu significado. Um mergulho na água pode levar ao afogamento e a morte, mas pode também refrescar e vitalizar o organismo, pode dar a sensação de um novo nascimento. Os sinais e símbolos sacramentais podem ter sua origem em culturas que não são bem conhecidas, como é o caso da unção. Além de ser curativo e servir para fortalecer o corpo, ela pode significar, a partir da sua origem em Israel, a bênção de Deus ou a instituição de um rei ou sacerdote. Por isso que é muito importante a palavra que acompanha um gesto sacramental, porque determina o que ele significa na respectiva ação sacramental.

Na celebração dos sacramentos, além do rito central ou essencial, também outros elementos rituais tem valor simbólico, igualmente os objetos do culto, a assembléia e os ministros, sobretudo os ministros próprios do sacramento e até o espaço no qual se realiza a celebração

Necessariamente coloca-se, neste contexto, a pergunta: Como tais sinais, ações, pessoas e objetos que entram no rito do sacramento, podem ter valor salvífico? Isso é possível porque Deus está agindo nos sacramentos. Ele está presente e agindo na Igreja, da qual os sacramentos são os momentos mais intensos de vida, desde que a Igreja com seus sacramentos nasceu na cruz, quando Jesus entregou o Espírito. Os sacramentos são um prolongamento da presença e ação de Jesus no mundo. A ação de Deus se mostra e realiza não somente pela ação dos ministros da celebração, mas também de todos aqueles que na celebração se abrem para a ação de Deus, em primeiro lugar quem recebe o sacramento. Assim pode-se realizar aquilo que os sacramentos e toda a liturgia visam: levar a efeito a obra de salvação realizada por Jesus, sobretudo na sua páscoa.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Por que os sinais sacramentais não são magia?
2. A quem se deve que os sacramentos levam a efeito a salvação?

sábado, 26 de dezembro de 2009


A inculturação da liturgia romana
na história da Igreja (I Parte)

Pedro Boléo Tomé

1. A Antiguidade apostólica e o nascimento da liturgia romana

A liturgia cristã nasce e desenvolve-se em estreita ligação e dependência da tradição judaica. Não são abolidos os antigos ritos, ao menos em totalidade, mas outorga-se-lhes um novo significado. O próprio estilo e modo de rezar sofre uma forma de inculturação 1.

A liturgia cristã não nasce, portanto, como algo totalmente novo, mas, sob a orientação do Espírito Santo, desenvolve-se sobre matrizes preexistentes mediante um discernimento: de acolhimento de tudo aquilo que está em harmonia com a tradição apostólica e fiel à história da salvação; de exclusão (ou de purificação) de aquilo que é contrário ao Evangelho e à prática cristã; de reinterpretação, dando aos sinais, ritos e modelos, novos conteúdos e novos significados 2.

Pouco a pouco, fez-se sentir uma certa influência helênica. Com a paz de Constantino (édito de Milão, 313), dá-se um mais aberto contacto com a cultura helênica, atenua-se a oposição aos ritos pagãos e alguns elementos desta tradição são assumidos na liturgia.

Mas olhemos para Roma, pois o presente artigo pretende tratar da inculturação da liturgia romana. A Igreja localizada no território romano começa a ser Igreja Romana. Assumem-se na liturgia e, particularmente, no cerimonial pontifical certos elementos provenientes da corte imperial. A linguagem e os sinais são, no entanto, espiritualizados à luz da Sagrada Escritura e referidos ao mistério de Cristo 3.

Posteriormente, a sociedade sofrerá profundas transformações, no entanto estas insígnias e elementos permanecerão tal como foram assumidos. São institucionalizados e estilizados. Tornam-se, assim, sinais de uma cultura que já não é civil, profana, mas puramente simbólica, «sacra» 4.

Foi tradicional durante muito tempo considerar a existência de uma única liturgia para toda a Igreja, que depois viria a dar lugar às restantes tradições litúrgicas. Atualmente, alguns autores começam a pôr em dúvida essa uniformidade litúrgica dos primórdios da Igreja. No entanto, derivada de uma única liturgia ou não, com o tempo, nas sedes das grandes metrópoles antigas (Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla, Roma, Milão, Ravena, Aquileia, etc.) nascem tradições litúrgicas, ou também chamadas famílias litúrgicas. A estas sedes estava ligada a memória e a voz autorizada de santos bispos, e deve-se tanto à necessidade de uma adequação a diversas culturas, como à busca de diferentes formas e fórmulas que permitissem conservar inalterada, mais facilmente, a vitalidade da tradição litúrgica 5. Este fenômeno pode ser descrito como sendo simultaneamente de desenvolvimento, adaptação e inculturação.

Tanto a Oriente como no Ocidente, depois de um período de gestação caracterizado por uma incipiente criatividade de textos e da estruturação do tempo litúrgico, passa-se, na tentativa de se adaptar aos novos contextos culturais, a um período de verdadeira e própria criatividade litúrgica, tanto no que diz respeito aos textos, como às estruturas para os ciclos litúrgicos ou para a celebração dos sacramentos, de modo a alcançar a codificação ou cristalização dos tipos de famílias litúrgicas.

Encontramo-nos, portanto, hoje em dia numa situação diferente daquela da antiguidade apostólica. A inculturação que tratamos neste artigo, e que é impulsionada pela Igreja, a partir do Vaticano II, é a inculturação da liturgia romana, e é neste sentido que deve ser entendida. Não tem por objetivo a criação de novas famílias rituais. Por isso, para responder às necessidades de uma cultura determinada, o Concílio Vaticano II abre a possibilidade de adaptar o Rito romano 6, partindo das edições típicas estabelecidas 7. Nesta época inicial começa a desenvolver-se a liturgia romana ou o Rito romano. Foi opinião generalizada durante o século XX por parte dos estudiosos a existência de uma liturgia romana «pura», que teria existido entre os séculos V e VII. Alguns falam especificamente dessa liturgia «pura» e procuram analisá-la 8. Outros, ao tratar a história da liturgia parecem, de alguma forma, partir dessa pressuposição 9. Por fim, surgem ainda autores que preferem falar, mais do que de um momento estático e bem delimitado no qual se formou a «essência» do Rito romano, de um desenvolvimento orgânico de enriquecimento e crescimento progressivo. Neste sentido, a liturgia romana pura nunca teria existido e, se alguma vez existiu, nunca foi igual a si mesma. Isto é, preferem falar de uma liturgia romana em evolução, de uma liturgia que se encontra continua e simultaneamente desenvolvida e em fase de desenvolvimento 10.

Este rito, que talvez nunca tenha existido numa forma «pura», era a liturgia vigente na metrópole de Roma e nas dioceses sufragâneas. Havia substituído uma liturgia em língua grega e comum à cristandade dos primeiros dois ou três séculos. Os Papas Dâmaso (366-384), Inocêncio I (401-461), Gelásio I (492-496), Vigílio (537-555) e Gregório Magno (590-604), são os grandes responsáveis da sua implantação e formação. Com Gregório Magno promove-se a codificação da liturgia e alcança-se uma estrutura fixa em que a criatividade litúrgica é mínima.

2. Período franco-alemão: de Gregório Magno (590) a Gregório VII (1073)

Os livros da liturgia romana passam com relativa rapidez ao território franco-germano e aqui entram em contacto com a liturgia galicana (que existia e florescia já há vários séculos). Inicia-se assim uma múltipla e recíproca penetração.

Já com Pipino difunde-se o sacramentário gelasiano e verifica-se um início de reforma litúrgica. Posteriormente, no séc. IX, o imperador Carlos Magno, com a intenção de unificar o império, recorre à unidade da fé e da liturgia. Para tal, manda trazer os livros da liturgia romana e adapta-os à cultura galicana e, concretamente, à liturgia vigente nesse ambiente. Este período em questão constitui a época da liturgia romana sujeita ao influxo franco-germano. Confrontando tanto com os Ordines Romani originais como com o Pontifical Romano posterior, é fácil reconhecer o tipo de liturgia preferida por estes povos: desenvolvimento riquíssimo, material variado e abundante, estilo novo (mais longo, verboso, e dramático por vezes). O resultado é, portanto, uma combinação harmônica da herança romana antiga (caracterizada pelo equilíbrio, simplicidade, sobriedade, expressão estática) com o vigor dos novos povos (mais dinâmico, expansivo, vital, com tendência por vezes a uma espécie de anarquia) 11.

Por volta do século X sucede um processo similar com os imperadores da Germânia. Neste período Roma está em forte decadência litúrgica e a cúria está sem controlo. Os próprios imperadores, nas suas visitas a Roma, impõem o uso destes livros litúrgicos, outrora romanos, mas agora romano-germanos 12. O caráter simples, sóbrio e prático da liturgia romana cede lugar a uma nova cultura com outro tipo de mentalidade.

Vemos então como, sobre a base da liturgia romana, se adicionaram tradições tanto galicanas como germânicas que, posteriormente, foram introduzidas em Roma como próprias.

Parece conveniente salientar que, durante esta continua evolução, se realizaram inculturações erradas, que foram corrigidas ou eliminadas, em conjunto com as legítimas e verdadeiras, que perduraram 13.

Como a história demonstra, são casos pontuais de inculturações abusivas movidas por finalidades pastorais desviadas que a Igreja corrigiu e rejeitou.



3. De Gregório VII (1073) ao Concílio de Trento (1545)

No século X a vida litúrgica em Roma encontrava-se bastante degenerada e sofre uma influência muito positiva da obra litúrgica dos mosteiros franceses e germanos que, entretanto, tinham chegado a Roma graças aos imperadores. Efetivamente, Cluny, com a sua reforma, constituiu um fundamento seguro para a reforma da Igreja e da liturgia. A liturgia volta a florescer sob o influxo dos Papas da reforma: Gregório VII e Inocêncio III.

Gregório VII protesta contra a destruição da velha liturgia romana e procura restaurá-la. No entanto, ao não conhecer a real situação histórica, instaura e consolida a liturgia romano - franco - germana.

Os Papas ao retomarem o controlo da liturgia romana, põem fim às ingerências imperiais, e é imposto a todos os bispos da Igreja o uso dos livros litúrgicos de Roma. A partir de então, o nascente centralismo romano apenas permite a coexistência das liturgias de Milão e de Espanha. Para tal, a ordem mendicante de S. Francisco de Assis desempenhou um importante papel. Efetivamente, centrada, desde o segundo decênio do séc. XIII, num tipo de apostolado itinerante, constituiu-se em propagadora involuntária de uma forma muito concreta de liturgia romana: a liturgia da cúria romana. A razão é simples, tratava-se de uma liturgia adaptada às exigências dos capelães do Papa, que necessitavam de um ofício mais simples e prático 14, e que, portanto, possuía livros de transporte mais cômodo e de fácil manuseamento. Desta forma, por obra dos frades franciscanos, estas redações práticas e, especialmente, o «Missal» e o «Breviário da cúria romana», correram por todo o mundo, conseguiram uma boa aceitação e, evidentemente, foram copiadas. Assim, os discípulos de S. Francisco, facilitaram à liturgia ocidental uma standartização não só teórico - jurídica, mas sim efetiva.

Se este período se caracteriza pela adesão das dioceses ocidentais à liturgia romana e na progressiva unificação litúrgica, também se adverte que a atitude dos fiéis diante da liturgia se modifica profundamente. A liturgia, ação comum de sacerdotes e povo, parece reduzir-se agora a uma incumbência quase exclusivamente clerical. O povo assiste à missa, mas atento às suas devoções subjetivas, extra-litúrgicas. A assistência contenta-se com «ver», sem participar verdadeiramente, e produz-se uma distancia cada vez maior entre o celebrante e os fiéis 15.
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NOTAS
1. Cf. B. NEUNHEUSER, Storia della liturgia attraverso le epoche culturali, Tivoli 1988, pp. 15-22.
2. Cf. Ibíd., p. 41; A. TRIACCA, Sviluppo - Evoluzione - Adattamento - Inculturazione?, em I. SCICOLONE (ed.), L’adattamento culturale della liturgia, Roma 1993, p. 85.
3. Cf. A. CHUPUNGCO, Liturgia e inculturazione, em A. CHUPUNGCO (ed.), Scienzia liturgica, II, Casale Monferrato 1998, pp. 363 ss.
4. Cf. B. NEUNHEUSER, Storia della liturgia attraverso le epoche culturali, Tivoli 1988, p. 50.
5. No entanto, através destas variadas manifestações continua, no seio dos povos que aderem ao cristianismo, sem variações através dos tempos e dos testemunhos humanos, a única e comum (católica) tradição litúrgica. Da unidade primordial (judaico-cristã) passa-se à pluralidade expressivo-litúrgica. Por outras palavras, a universalidade da tradição litúrgica encarna-se na lei do particularismo das diversas tradições litúrgicas. Cf. A. TRIACCA, Liturgia e tradizione, em A. BERNARDINO (ed.), Dizionario patristico e di antichità cristiane, II, Casale Monferrato 1983, pp. 1980 ss.
6. Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instrução Varietates legitimae (25.I.94), 36: AAS 87 (1995) 302.
7. Cf. SC, 38-39. Deve-se respeitar “a unidade substancial do Rito romano” (SC, 38) e partir das edições típicas estabelecidas (SC, 39).
8. Cf. B. NEUNHEUSER, Storia della liturgia attraverso le epoche culturali, Tivoli 1988, pp. 57-74. Este autor descreve desta forma os elementos formais característicos do génio da liturgia romana: “(...) notiamo subito la loro semplicità precisa, sobria, breve, non verbosa, poco sentimentale; la loro disposizione chiara e lucida; la loro grandeza sacra e umana insieme, spirituale e di gran valore letterario” (Ibíd., p. 67).
9. Cf. E. CATTANEO, Il culto cristiano in occidente, Roma 1984, pp. 97-123; M. RIGHETTI, Manuale di storia liturgica, I, Milano 1964, pp. 187-696; T. KLAUSER, Breve historia de la liturgia occidental, Barcelona 1968, pp. 28 ss.
10. Cf. A. TRIACCA, Sviluppo - Evoluzione - Adattamento - Inculturazione?, em I. SCICOLONE (ed.), L’adattamento culturale della liturgia, Roma 1993, p. 73-75.
11. Cf. B. NEUNHEUSER, Storia della liturgia attraverso le epoche culturali, Tivoli 1988, pp. 80 e 84.
12. Cf. T. KLAUSER, Breve historia de la liturgia occidental, Barcelona 1968, pp. 60 s
13. Citamos por exemplo, os casos enunciados por Vogel, como é o caso das missas secas (sem ofertório, nem comunhão, nem cânon), as missas bi-, tri-, quadrifacciatas (vários formulários de missa com apenas um cânon e uma só comunhão), etc. (cfr. C. VOGEL, Introduction aux sources de l’histoire du culte chrétien au moyen âge, Spoleto 1966, p. 136). Neunheuser explica estes abusos como consequência de uma evolução na espiritualidade e na prática pastoral. Começam a celebrar-se muitas missas nas Igrejas, capelas e santuários que se vão construindo. Esta multiplicação parece dever-se a facilitar uma maior participação dos fiéis, no entanto, posteriormente, esta diversificação verifica-se por razões puramente devocionais, privadas, especialmente pelo sufrágio dos defuntos. São necessárias, assim, uma maior quantidade de missas e começa-se a celebrar mais de uma vez por dia. As autoridades eclesiásticas reagem proibindo a binação que, nos séculos X-XI, desaparece. Então, para satisfazer a piedade de muitos que requerem missas por intenções pessoais surgem os abusos antes referidos.
14. Cf. B. NEUNHEUSER, Storia della liturgia attraverso le epoche culturali, Tivoli 1988, p. 104.
15. Ibidem, p. 107.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009


A FORMAÇÃO LITÚRGICA[1]

Ione Buyst

1. Formação litúrgica integral

De 11 a 15 de fevereiro deste ano, a CNBB organizou um seminário sobre pastoral litúrgica. Participaram umas sessenta pessoas (bispos, padres, leigos e leigas, músicos e compositores, arquitetos e arquitetas...) representando vários regionais do Brasil. Aprofundamos os três aspectos da pastoral litúrgica: a celebração, a formação e a articulação (organização). No final do seminário, o ‘grito geral’ foi por mais formação litúrgica em todos os níveis da vida eclesial: do povo, das equipes de liturgia, dos compositores, cantores e instrumentistas, dos arquitetos e outros responsáveis pela organização do espaço litúrgico, das/dos catequistas, das religiosas e dos religiosos, dos diáconos, presbíteros e bispos, dos professores nos institutos de teologia e casas de formação... Ninguém escapa!

Mas, afinal, como devemos entender a ‘formação litúrgica’ e qual o objetivo da mesma? Na ‘carta magna’ da liturgia, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II, nos nn. 14-18, a formação litúrgica é apontada como uma necessidade para que o povo cristão, povo santo e sacerdotal, possa participar da liturgia. Na liturgia não pode haver ninguém na platéia ou na arquibancada! Liturgia não é espetáculo! A comunidade toda é ‘atora’, ‘jogadora’, agente, sujeito ativo da ação litúrgica! Participar significa tomar parte, atuar na liturgia: reunir-se com os irmãos e irmãs da comunidade para fazer memória de Jesus, ouvindo e meditando a Palavra de Deus, orando, louvando e agradecendo, experimentando a ação de Deus e respondendo a ele, tudo isso com gestos e sinais sensíveis, sinais simbólicos.

Portanto, liturgia tem a ver com ação. Só que o ser humano não é uma máquina! Não pode fazer as coisas mecanicamente, sem pensar, sem sentir! Uma ação humana de verdade envolve o ser humano ‘integral’: corpo, mente, coração. Na liturgia, não basta fazer o sinal da cruz, cantar, entrar na procissão, ‘tomar a hóstia’... É preciso agir e acompanhar esta ação com a mente e o coração; é preciso entender e sentir o que se está fazendo. Como diz o texto da SC: trata-se de uma participação ativa, externa e interna, consciente, plena, frutuosa. Daí a necessidade de uma formação litúrgica ‘integral’, envolvendo todas as dimensões do ser humano e envolvendo todas as dimensões da liturgia: a ação ritual, seu sentido teológico, sua espiritualidade.

Há muita gente formada, muita gente engajada na pastoral litúrgica; há muitos cursos e encontros de estudo sobre a liturgia, mas o resultado não está sendo de todo satisfatório. Em muitos lugares, há muita insatisfação com a maneira como celebramos e com os resultados de tantos cursos e encontros. Por que? Talvez porque na maior parte das vezes ficamos na teoria. Falta-nos integrar na formação a dimensão teologal e espiritual da liturgia. Falta-nos aprender a fazer liturgia, integrando corpo, mente e coração nesta ação. É uma questão de método! Ninguém aprende a cozinhar ou conduzir um carro, ou tocar um instrumento musical, ou jogar futebol sentado num banco de escola, assistindo somente aulas teóricas; assim também com a liturgia! Daí a necessidade urgente de se rever a maneira de ‘dar’ formação litúrgica. Somente com o esforço conjugado de todas as pessoas envolvidas poderemos dar a volta por cima e modificar a ‘cara’ da liturgia. E é bom lembrar: quando falamos de liturgia e formação litúrgica, estamos incluindo a música e a organização do espaço litúrgico.

2. Formação litúrgica autêntica

Os primeiros cristãos eram considerados ateus, gente sem religião, porque não tinham templo, nem altar, nem sacerdócio. Entendiam que era preciso fazer de sua própria vida uma liturgia, da qual eles mesmos/as eram, em Cristo e no Espírito, o templo, o altar, o sacerdócio. Assim, a liturgia cristã autêntica é a vida vivida no amor e no Espírito de Cristo, em todos os momentos de nossa vida, no serviço (‘leiturgia’!) a Deus e aos irmãos e irmãs, no trabalho incansável pelo Reino, até a doação da própria vida se for preciso, tendo como exemplo o próprio Jesus. “Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão...” (Cf. Jo 15,13).

Mas, como fica, então, a celebração litúrgica? Não serve para nada? Claro que sim. Mas é preciso equilibrar as duas coisas. Liturgia-celebração e liturgia-vida se relacionam como a última ceia de Jesus de um lado e de outro lado sua missão messiânica no meio do povo e sua morte de cruz como conseqüência desta missão. Uma não existe sem a outra. A última ceia foi um gesto simbólico no qual Jesus nos faz compreender o sentido de sua vida e de sua morte. Sem sua vida de doação e sua morte real, a ceia perderia seu sentido. Assim também a nossa liturgia: se não vivermos no dia-a-dia aquilo que celebramos, de nada vale a celebração. A liturgia-celebração sem a liturgia-vida é como aquela casa construída sobre a areia: ‘caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos (...) e a casa caiu. E foi grande sua ruína” ). De nada adianta chamar ‘Senhor, Senhor!’ É preciso por em prática a palavra do Senhor. (Cf. Mt 7,21-27; Lc 6,46-49).

De outro lado, a liturgia-vida sem a liturgia-celebração carece de referências. É na liturgia-celebração que a comunidade reunida encontra o sentido atual para sua ação. Alimenta-se no encontro com o Cristo Ressuscitado, na escuta e interpretação da Palavra, no memorial da celebração eucarística; no louvor e na intercessão da liturgia das horas. Em cada celebração litúrgica une-se mais profundamente a Cristo, no Espírito Santo, renovando seu compromisso de viver a serviço do Reino de Deus, de organizar de uma sociedade justa, fraterna, igualitária de modo a eliminar a fome, a miséria, a exclusão, o ódio, a vingança, as guerras...; de fazer valer a lei do amor e do serviço, incluir os excluídos, salvar vidas, salvar o planeta; impregnar nossa própria vida e a sociedade com os valores evangélicos, tão contrários a certos ‘valores’ apregoados pelo mundo dos negócios, da política, da propaganda comercial.

Celebrações litúrgicas que não tem por base e fundamento este compromisso, não é liturgia cristã de verdade, não é liturgia autêntica. Uma formação litúrgica que se preocupa apenas com o aspecto celebrativo, sem a referência à vida vivida como liturgia, não é uma formação litúrgica cristã autêntica.

3. Formação litúrgica teologal

Para conhecer e compreender a liturgia, é preciso saber ver para além daquilo que se vê, ouvir para além daquilo que é falado e cantado, saborear além daquilo que é servido. É que ‘liturgia’ é um acontecimento teologal: Deus vem ao nosso encontro e nos atinge de cheio com sua palavra e sua ação transformadora, por meio das ações rituais, simbólico-sacramentais. Olhemos hoje mais de perto este lado ‘escondido’ da liturgia, o ‘mistério’ que nela celebramos, aquilo que Deus - Pai, Filho, Espírito Santo - realiza em nós, conforme nos ensinam os textos litúrgicos, tirados das sagradas escrituras ou nelas inspiradas.

Fomos batizados/as na água da fonte batismal. São Paulo nos fala do sentido ‘escondido’ deste nosso batismo: “Fomos sepultados com ele [Cristo] na sua morte, para que, como Cristo ressurgiu dos mortos para a glória do Pai, assim também nós vivamos uma vida nova. Se nos tornamos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, o seremos igualmente por uma comum ressurreição” (Rm 6). Somos assim, para sempre, destinados/as a carregar em nós as marcas da morte e da ressurreição de Cristo e de viver de acordo com esta realidade.

Fomos confirmados/as com o óleo do santo crisma e a imposição das mãos do bispo. As palavras que acompanham esta ação nos ensinam a realidade ‘escondida’ que acontece conosco: “Receba, por este sinal, o Espírito Santo, dom de Deus.” A partir deste momento, somos destinados/as a viver de acordo com este Espírito.

Celebramos juntos e juntas a liturgia eucarística em volta da mesa com pão e vinho; e, bem no coração desta liturgia, depois da narrativa da última ceia, cantamos: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, e proclamamos vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!” Eis, de fato, o ‘mistério de nossa fé’, o sentido escondido, a realidade sacramental. Pela ‘memória’ litúrgica, pela ação do Espírito Santo, acontece em nós aquilo que celebramos: juntos participamos da morte e ressurreição de Jesus, enquanto esperamos a plena realização de seu Reino entre nós. Comungando do Pão e do Vinho sobre a qual foi pronunciada a ação de graças e invocado o Espírito Santo, somos feitos um só Corpo em Cristo morto e ressuscitado.

‘Mistério da fé!’ Em que consiste, pois, ‘nossa fé’? Não se trata simplesmente de uma atitude religiosa, reverente, para com o mistério da vida. Isso é importante, mas não basta. O ‘mistério da fé’ proclamado na liturgia cristã, refere-se à ‘fé’ recebida dos apóstolos e transmitida de geração em geração. É sintetizada no ‘Creio...’. Expressa nossa aceitação, nossa adesão à pessoa de Jesus, reconhecido com o revelador de Deus, e adesão ao projeto do Reino de Deus que ele veio proclamar e inaugurar, como relatam os evangelhos. E isso só é possível, porque o Espírito de Deus, que nos foi dado, nos ajuda a compreender e viver aquilo que cremos. Ele nos transforma gradativamente em gente renovada, gente que sabe interpretar os sinais da presença de Deus no dia-a-dia e que dá testemunho do amor de Deus pelo seu modo de viver e atuar na sociedade.

Liturgia é uma ação ritual, expressão simbólico-sacramental de nossa fé. É o ‘mistério de nossa fé’ como que ‘escondido’ nos ‘sinais sensíveis’ da celebração litúrgica. Não basta participar ‘exteriormente’, é preciso deixar-se transformar interiormente pela ação do Espírito do Cristo Ressuscitado, que atua nas ações litúrgicas.

4. Formação litúrgica espiritual.

Todas as celebrações litúrgicas são 'ações rituais', simbólico-sacramentais, que vem carregadas de uma profunda realidade teologal. Por isso, a formação litúrgica deve se preocupar com a ritualidade e com teologia litúrgica. Mas não basta. Devemos abrir caminhos para que as pessoas aprendam a 'beber' da liturgia como sendo fonte da vida espiritual cristã. Por que? Para nós, cristãos, 'vida espiritual' é 'vida no Espírito de Jesus Cristo'. E este Espírito nos é dado, ele é dom do Pai. Mas, onde nos é dado o Espírito de Jesus Cristo? O lugar principal, a fonte 'primeira e necessária' (SC 14), são as celebrações litúrgicas: o batismo, a confirmação, a eucaristia, a celebração da palavra, o ofício divino, o ano litúrgico, as bênçãos, etc... (contanto que sejam, de fato, celebradas com qualidade espiritual, e não como puro formalismo!). E como funciona isso? De que forma temos acesso a este dom do Pai? Não basta simplesmente 'assistir' às celebrações litúrgicas; é preciso abrir nosso próprio espírito para receber o Espírito de Jesus Cristo, o Espírito de Deus. É preciso prestar atenção a cada gesto, cada palavra..., participar corporal e espiritualmente. Pois é! Esta é a característica da espiritualidade litúrgica: ela passa pelo corpo, atento e sensível. As ações litúrgicas são ações do próprio Cristo e de seu Espírito para nos fazer parte de sua vida, para vivermos constantemente em comunhão com ele e com o Pai. Voltando à imagem da fonte: pela participação corporal-espiritual na liturgia, 'bebemos' o jeito de ser de Jesus, sua relação com o Pai e com o povo, sua entrega radical a serviço do Reino e nos deixamos 'moldar' por ele mediante o encontro com os irmãos e irmãs, os salmos, as orações, a escuta e interpretação das leituras bíblicas, as ações simbólicas, a música ritual, o espaço litúrgico... Somos assim como que 'encharcados' pelo Espírito de amor que nos leva a viver em união com Jesus, continuando em nossa história atual a missão dele, abrindo espaço para a vinda do Reino de Deus em todas as realidades de nossa vida pessoal e social. Portanto, nada de confundir 'Espírito Santo' e 'espiritualidade' com intimismo ou sentimentalismo. Interioridade, sim; intimismo, não. Afeto e sentimento, sim; sentimentalismo, não.

E por falar em interioridade: é uma dimensão do ser humano muito esquecida hoje em dia. Muita gente perdeu (ou nunca teve) contato com seu 'eu' mais genuíno, mais profundo, onde nos aguarda Deus, o Mistério. O que podemos fazer para crescer em interioridade? Algumas coisas bem simples podem ser um bom começo: 1- Aprenda a respirar conscientemente, profundamente, prestando atenção a cada inspiração e expiração, 'conectando' com Deus, lembrando que nosso 'sopro' é símbolo do próprio Espírito de Deus que anima todo o nosso ser. 2- Sempre que puder (no ônibus, no metrô, antes de levantar ou se deitar, nos intervalos...), pare, fique em silêncio, olhe para dentro de si e 'pense na vida', sinta-se em comunhão com as outras pessoas, com as árvores, as flores, os pássaros, as estrelas... e com Deus! 3- Adquira o hábito de fazer um ou dois momentos de meditação a cada dia, com um texto bíblico (leitura orante) ou simplesmente repetindo, de coração, uma invocação bíblica, como por exemplo, Maranatha (Vem, Senhor Jesus!), ou Senhor Jesus, tem compaixão... Fazendo assim, o Espírito Santo encontrará a porta aberto para nos atingir profundamente, em nossa interioridade, como discípulos/as, para depois nos 'lançar' como missionários/as, para fora, na sociedade, no mundo, na busca de uma maneira mais solidária e igualitária de se organizar a sociedade.

5. Formação litúrgica mistagógica

'Mistagogia' vem de uma composição de duas palavras gregas: 'myst- ' e 'agogein'. É uma palavra que indica uma prática muito antiga, redescoberta recentemente: guiar para dentro do mistério.

Antes de tudo, é a própria liturgia que nos guia para dentro do mistério que celebramos. Pela participação na ação ritual somos introduzidos/as, iniciados/as, mergulhados/a no mistério. A liturgia nos leva à experiência da fé através da participação nos 'ritos e preces' (Cf. SC 48). Todos os elementos e o dinamismo das celebrações (eucaristia e outros sacramentos, palavra, ofício divino...) nos levam à participação no mistério da vida, morte e glorificação de Jesus, o Cristo. Ajudam-nos a nos identificar com ele nas inúmeras atividades do dia-a-dia, nas escolhas decisivas que temos de fazer em determinados momentos, nas encruzilhadas da vida em que tudo nos parece obscuro e incompreensível, sem saída, sem perspectivas, assim como nos momentos de certeza, de júbilo, de paz, de alegria, de doação, de entrega. Uma palavra das escrituras, um aperto de mão ou um abraço, o versículo de um salmo, um gesto de oração, a água benta respingando em nós, a luz de uma vela acesa, o cheiro do incenso e sua subida para o alto, a luz do sol que passa persistente por uma fresta da porta ou da janela, as palavras ou o gesto da bênção, um profundo silêncio, uma aclamação vigorosa, um abraço verdadeiro de reconciliação, o Pão e o Vinho partilhados, a unção com o crisma ou com o óleo dos enfermos... tudo isto pode se tornar para nós um momento de descoberta, de revelação da profundidade do amor de Deus e do sentido de nossa vida e de nossa morte, de nossos encontros e desencontros, de nossas alegrias e tristezas, de nossas esperanças e desilusões... Tudo isso pode aprofundar nossa opção por ele, pelo caminho do seguimento e da missão em seu nome, na fidelidade a todo custo.

Mas é preciso que alguém nos ajude a perceber o caminho da participação espiritual, integral, de corpo, mente, coração, rumo ao mergulho no encontro com o Transcendente, com Deus, com o Cristo em sua morte-ressurreição, na profundidade da experiência ritual. A catequese mistagógica nos oferece os elementos para podermos entender, intuir o que acontece conosco na ação ritual. Trata-se de ajudar na simbolização, guiar na passagem do sinal material, ‘significante’ (objeto, gesto, leitura, ação ritual), para a realidade teologal-espiritual significada e realizada pelo sinal, fazendo referência à história da salvação (experiências de vida vividas na fé). Aí entram a familiaridade com a Sagrada Escritura e o aprofundamento teológico, que culmina no encontro pessoal com Jesus Cristo, no momento atual, existencial de nossa vida pessoal, comunitária, social. A mistagogia nos leva a uma conversão da interioridade, uma adesão existencial à pessoa de Jesus Cristo e não apenas intelectual ou moral. E esta adesão nos leva a uma atitude ética, um modo de vida de acordo com o evangelho de Jesus Cristo.

Há pelo menos três instâncias nas quais deveríamos receber uma formação mistagógica: no catecumenato e na catequese, nas reuniões de preparação das celebrações (equipes de liturgia, ensaios dos ministros da música ritual), nos cursos de formação litúrgica. Além disso, não nos esqueçamos da importantíssima dimensão mistagógica da homilia.

6. Educar para a ritualidade.

Toda a vida do ser humano é fortemente marcada por ritos. São ações simbólicas que expressam o sentido da vida. Há ritos para os momentos marcantes da vida: o nascimento, a passagem para a adolescência, o casamento, um aniversário, a doença, a morte... E estes ritos são diferentes de acordo com cada grupo humano ou cada cultura, porque expressam a maneira daquele grupo ou daquela cultura entender a vida, o mundo, a morte... Os ritos servem também para passar este sentido para as novas gerações, garantindo a continuidade. Assim, cada cultura tem suas regras para comer, cumprimentar, se vestir. Cada povo indígena tem sua maneira de caçar, iniciar, dançar, enterrar seus mortos. Cada região do país conserva ritos característicos próprios. Cada time de futebol tem sua bandeira, sua camisa, seus slogans. Cada tradição religiosa tem suas rezas, suas músicas, suas danças que expressam seu senso do sagrado. Também nós, cristãos, temos ritos para expressar nossa fé, nossa relação com o sagrada, com Deus.

Normalmente, as novas gerações recebem a tradição ritual dos ‘velhos’, ‘anciãos e anciãs’, da geração anterior. O problema é que séculos de racionalismo e tecnicismo ‘vacinaram’ contra os símbolos, os mitos e os ritos, por considerá-los ultrapassados, não ‘científicos’. E agora, são poucas as pessoas capazes de realizar e ‘curtir’ um rito, sentir prazer, vivê-lo em profundidade, deixando-se atingir por inteiro. Sobrou um frio ritualismo: liturgias realizadas de modo formal, sem alma, sem coração, sem prazer e até sem entendimento. Daí a necessidade de reaprender, de educar para a ‘ritualidade’ da liturgia, para a capacidade de viver as ações rituais ‘na inteireza do ser’.

Podemos aprender com quem não perdeu ou recuperou a sensibilidade ritual: povos indígenas, grupos de afro-descendentes, devotos da religião popular e até com atitudes espontâneas da vida cotidiana. Um dia observei uma mãe que estava com o filho bem pequeno no braço, diante do crucifixo. Ela apontou o dedo para o crucifixo e disse: ‘Olhe aí! É Jesus!’. A criança olhou, espichou o bracinho, e a mãe se aproximou mais para que ele pudesse tocar na cruz. Depois ela disse: ‘Jesus gosta muito de você, gosta da mamãe, gosta de papai... Jogue um beijinho para Jesus.’ Neste quadro tão familiar, tão simples, encontramos os três ‘ingredientes’ que compõem a receita da formação para a ritualidade: fazer um gesto para alguém, saber o que significa, ser movido/a por um afeto.

Em casa, na catequese, nos encontros e cursos de formação litúrgica, devemos oferecer momentos de aprendizagem, simples e profundos, dos gestos rituais com os quais nos relacionamos com Deus, consciente- e ‘amorosamente’: entrar na igreja, inclinar-se diante do altar, acender uma vela, benzer-se, cruzar as mãos em prece, andar em procissão, cantar, escutar uma leitura bíblica, ficar de pé, beijar a Bíblia, ficar sentado, orar em silêncio, fazer uma prece, acompanhar a oração eucarística, partilhar um pedaço de pão, comer o pão, estender a mão para receber o copo, beber e passar o copo para outra pessoa, abraçar alguém desejando-lhe a paz, inclinar a cabeça para receber a bênção, despedir-se...



[1] Texto extraído de Liturgia em Mutirão II, edições CNBB.

A LITURGIA FORMADORA
DE MISSIONÁRIOS
DE JESUS CRISTO[1]

Dom Manoel João Francisco
Bispo de Chapecó


1. A liturgia e a missão

Todos sabemos que a missão antes de ser um "fazer" é um "receber". Se cremos que, como nos ensina o Concilio Vaticano II, "a liturgia é o cume para o qual tende toda a ação da Igreja" (SC 10), ou seja, a liturgia é o ponto alto de todo trabalho missionário, também cremos que a mesma liturgia é primordialmente fonte de toda a vida cristã (LG 11), fonte da santificação dos homens e da glorificação de Deus (SC 10), fonte e ápice de toda evangelização (PO 5) e que cada vez que comemos do pão e bebemos do cálice, anunciamos a morte do Senhor até que ele venha (cf. 1Co 11,26).

"A missão da Igreja está em continuidade com a de Cristo: 'Como o Pai me enviou, também eu vos envio' (Jo 20,21). Por isso, a Igreja tira força espiritual de que necessita para levar a cabo sua missão da perpetuação do sacrifício da cruz na eucaristia e da comunhão do corpo e sangue de Cristo. Deste modo a eucaristia apresenta-se como fonte e simultaneamente vértice de toda evangelização, porque seu fim é a comunhão dos homens com Cristo e, nele, com o Pai e com o Espírito Santo" (Carta Encíclia de João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, 22).

Assim, a comunidade cristã de Antioquia envia seus membros em missão: depois de ter jejuado, rezado e celebrado a Eucaristia, ela faz notar que o Espírito escolheu Paulo e Barnabé para serem enviados (cf. At 13,1-4).

Da liturgia, portanto, enquanto irrupção gratuita de Deus, nasce a força e o dinamismo missionário da Igreja, como muito bem intuiu o primeiro documento do Concílio Vaticano II, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia em seus parágrafos iniciais. "O Sacrossanto Concilio propõe-se [...] promover tudo o que conduz ao chamamento de todos ao seio da Igreja. Por isso julga ser seu dever cuidar de modo especial da reforma e do incremento da Liturgia".(SC 1)

"Por isso, enquanto a Liturgia cada dia edifica em templo santo no Senhor, em tabernáculo de Deus no Espírito aqueles que estão dentro dela [...], ao mesmo tempo admiravelmente lhes robustece as forças para que preguem Cristo. Destarte ela mostra a Igreja aos que estão fora como estandarte erguido diante das nações, sob o qual se congreguem num só corpo os filhos de Deus dispersos, até que haja um só rebanho e um só pastor" (SC 2).

A presença pascal de Cristo comporta sempre um duplo aspecto: ao mesmo tempo que é uma boa notícia, também é um envio em missão. Assim o mesmo Cristo que diz aos discípulos, trancados numa casa, com medo: "a paz esteja com vocês", também diz simultaneamente "como o Pai me enviou eu os envio" (Jo 20,21). Os dois aspectos são indivisos. O Ressuscitado se manifesta, mas não é retido. À Madalena pede:

"Não me retenhas, [...]. Vai, porém a meus irmãos [...]. Maria foi então anunciar aos discípulos que vira o Senhor, narrando-lhes as coisas que ele lhe tinha dito” (cf. Jo 19,17-18). Aos discípulos de Emaús se tornou invisível, depois de ter-lhes aberto os olhos, fazendo-os voltar para Jerusalém a fim de anunciar que tinham reconhecido o Senhor na fração do pão (Lc 24.33-35). Tal como o anjo que anuncia a ressurreição, a liturgia refere-se sempre a um outro passo: "ide contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vos precede na Galiléia. Ali o vereis" (Mt 28,7).

São Paulo define sua ação missionária de anunciar o Evangelho com verbos litúrgicos, a saber, prestar culto e fazer memória. Esta memória de que fala São Paulo, segundo os exegetas, deve ser colocada na linha da anámnesis litúrgica e significa a memória da obra salvífica de Deus que se faz presente em cada liturgia que celebramos. "Deus, a quem presto um culto espiritual, anunciando o evangelho de seu Filho, é testemunha de que, em minhas orações, faço memória de vós continuamente" (Rm 1,9-10). Outro texto paulino em que a relação entre liturgia e missão aparece de forma muito clara é Rm 15,15-16:

"Em alguns trechos desta carta eu vos escrevi com certa ousadia, a fim de vos reavivar a memória, em virtude da graça que Deus me deu: a graça de ser ministro de Jesus Cristo junto aos pagãos, prestando um serviço sacerdotal ao evangelho de Deus, para que os pagãos se tornem uma oferenda bem aceita, santificada no Espírito Santo".

Neste texto a vocação missionária é descrita como a graça de ser ministro (liturgo) de Jesus Cristo entre os pagãos, exercitando o ofício sagrado do evangelho de Deus, para que os pagãos se tornem uma oblação agradável, santificada, pelo Espírito Santo. Como se pode ver, aqui, "a evangelização é função litúrgica, sagrada e, com sua conversão a Cristo, os que se convertem, tornam-se oferta santificada pelo Espírito e aceita a Deus"[2].

2. A liturgia: fonte de espiritualidade do missionário

A uma Igreja que caminha e que se põe na estrada, tal como os discípulos de Emaús (Lc 23,13-35), a liturgia oferece três experiências marcantes que alicerçam e fundamentam a missão:

a) A experiência propriamente eclesial de reunir-se com os irmãos e as irmãs na fé, de acolher e ser acolhido, de reunir-se em nome de Cristo. Por mais solitário que possa estar, ou por mais árdua que possa ser sua missão, o cristão missionário reporta-se sempre a uma comunidade que o sustenta;
b) A experiência de aprender a Palavra de Deus de forma que o coração se abrase, numa nova estruturação de sentidos, capaz de integrar o sofrimento, a dor e a morte. O missionário sabe que na base de sua missão está uma Palavra - ou melhor, está a Palavra - que o envia e o convoca;
c) A experiência da fração do Pão e do reconhecimento da presença do Cristo, como memória explícita e reconhecimento expresso de sua aliança conosco. O dinamismo missionário da Igreja não nasce da vontade dos homens que decidem fazer-se propagadores de sua fé. Nasce do Espírito que atua nas celebrações litúrgicas. A missão não é nunca proselitismo ou mero serviço humano, mas decorre sempre da aliança que se constitui e se estrutura na eucaristia e no partir do pão que é o próprio Cristo.

"Terminada a assembléia, o discípulo de Cristo volta a seu ambiente cotidiano, com o compromisso de fazer, de toda a sua vida, um dom, um sacrifício espiritual agradável a Deus (cf. Rm 12,1). Ele sente-se devedor para com os irmãos daquilo que recebeu na celebração, tal como sucedeu com os discípulos de Emaús que, depois de terem reconhecido Cristo Ressuscitado na 'fração do pão' (cf. Lc 24,30-32), sentiram a exigência de ir imediatamente partilhar com seus irmãos a alegria de terem encontrado o Senhor" (João Paulo II, Carta Apostólica sobre o Domingo, Dies Domini 45).

Afirma ainda o mesmo Papa na Carta Apostólica Mane Nobiscum Domine:

"O apóstolo põe em estreita inter-relação o banquete e o anúncio: entrar em comunhão com o Cristo no memorial da Páscoa significa ao mesmo tempo experimentar o dever de tornar-se missionário do acontecimento que esse rito atualiza. A despedida no final de cada missa constitui um mandato, que impele o cristão para o dever de propagação do Evangelho e de animação cristã da sociedade" (24).

3. Os desafios para a liturgia a partir da missão

Para ser sentida e vivenciada como formadora de missionários de Jesus Cristo, a liturgia precisa ser aquilo que ela é: liturgia.

Com freqüência, aproveitam-se as celebrações para fazer campanha missionária. A liturgia, no entanto, não deveria ser ocasião de campanha missionária. Ela, em si, é fonte de missão. Mas aí é que reside o desafio. Para ser fonte de missão, a liturgia antes de tudo precisa ser lugar de experiência de Deus, que como Pai, por Cristo, no Espírito Santo acolhe e reúne seus filhos e filhas como comunidade de irmãos e irmãs e não apenas como justaposição de crentes. Deve permitir uma leitura cordial e vivificante da Palavra de Deus, mais do que doutrinária e moralista. Deve ser a renovação da aliança que acolhe o projeto vivificador e libertador de Cristo, mais que uma simples devoção ou ato piedoso.

A liturgia só será plenamente missionária se for plenamente liturgia, ou seja, se for experiência densa e transformadora de Cristo ressuscitado, a exemplo das primeiras comunidades que a cada dia viam o número de fiéis crescer porque "dia após dia, unânimes, mostravam-se assíduos no Templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração. Louvavam a Deus e gozavam da simpatia de todo o povo" (At 2,46-47).

O tempo depois do Concílio foi marcado pelo esforço da Igreja de responder a este desafio. Por isso, procurou inserir-se profeticamente na transformação social, política e cultural do continente, mergulhando solidariamente na defesa dos pobres. Medellín colocou a liturgia no centro dessa missão na história do povo, ligando liturgia e vida, celebração e compromisso histórico, afirmando que “a celebração litúrgica coroa e comporta um compromisso com a realidade humana”(Medellin 9,4). Puebla assumiu o maior entrosamento que começou a existir entre formas litúrgicas tradicionais e a piedade popular (cf. Puebla 465). Santo Domingo quis assumir uma liturgia em total fidelidade ao Concílio Vaticano II, bem como recuperar a adoção de formas, sinais e ações próprias das culturas da América e Caribe (cf. Santo Domingo, 53).

Apesar de orientações tão claras e firmes, sem desconsiderar os grandes avanços, a liturgia ainda tem diante de si muitos e sérios desafios:

a) Desafio proveniente da cultura das grandes cidades. O ritmo de vida de nossas cidades induz as pessoas ao stress, à pressa, ao secularismo, ao anonimato, à dispersão familiar, a o lazer pelo lazer nos fins de semana. Essa situação com certeza vai exigir muita criatividade em termos de espaço celebrativo, locais, horário e duração das celebrações, linguagem, acolhida, critérios de pertença à comunidade, bem como o processo de iniciação e formação litúrgica. Ainda, nas grandes cidades, em suas periferias, além do individualismo, do anonimato, da privatização da vida espiritual, vamos encontrar sérios problemas sociais (fome, doenças, violência, desemprego...). A prática da partilha de alimentos, os mutirões para construção de casas, a preparação de festas da comunidade, a visita aos doentes em equipe, o serviço organizado aos pobres são forças que levam à quebra do individualismo. A liturgia só será eficaz, se engajar a comunidade neste processo, como fundamento e conseqüência da celebração. A fonte renovadora da nossa liturgia, sob a ação do Espírito Santo, vem dos pobres, das suas lutas, das suas experiências de Deus, dos seus compromissos com a solidariedade e dos seus sofrimentos.
b) Desafios de uma perigosa tendência que centraliza a liturgia na pessoa do ministro ordenado e pede cautela para expressões tais como “comunidade celebrante” ou “assembléia celebrante”. Por trás deste desafio está uma visão muito estreita do ministério ordenado, um medo infundado de perder o poder e uma concepção errada do verdadeiro sentido da assembléia como sujeito da ação litúrgica. É o desafio mais conflitivo no momento. A saída será um grande mutirão de informação e formação em todos os níveis sobre o significado de Igreja Povo de Deus, sobre o sentido da participação do povo sacerdotal e da teologia dos ministérios litúrgicos.
c) Desafios que vêm da visão angelical, desligada do mundo e da história, onde a participação nas celebrações litúrgicas é o momento de abstrair-se das lutas do dia-a-dia, transportando-se para uma realidade etérea e alucinante, totalmente contrária a natureza da liturgia. A celebração deverá recuperar a ligação da vida com a liturgia, celebrar o mistério pascal de Cristo presente e em realização na vida do povo (Ver Animação da Vida Litúrgica no Brasil, doc. 43 da CNBB, nn. 55 e 157).
d) Desafios que vêm da visão que privilegia apenas a ótica da política ou do compromisso social. Sem dúvida, a liturgia é práxis, mas é também festa, gratuidade. Limitar a celebração a um protesto, a uma campanha de conscientização significa adulterá-la. Por isso a ação litúrgica cuidará de unir verticalidade com horizontalidade na celebração, dando prioridade a dimensão orante, de modo que a assembléia se una a Deus e a Cristo e se sinta ungida e urgida a assumir o compromisso profético de transformação das estruturas injustas.
e) Desafios que vêm da pouca formação teológica e a quase completa falta de iniciação aos ritos e ao sentido da celebração, gerando uma mentalidade rubricista, preocupada em assegurar a validade das ações rituais. Para conseguir a participação consciente e frutuosa dos participantes a liturgia terá que fundamentar teologicamente em que consiste a natureza da celebração cristã e, ao mesmo tempo, encontrar um jeito simples de celebrar com o povo, valorizando suas aspirações e investindo numa acolhida calorosa e no emprego de uma linguagem acessível. Os ritos fechados em si mesmos nada dizem. Devem estar relacionados e em íntima conexão com o mistério celebrado. Aqui falta a verdadeira teologia do que seja uma celebração do mistério pascal de Cristo e sua relação profunda com o hoje da história das pessoas e das comunidades.
f) Desafios provenientes do descuido com a formação litúrgico-musical do clero, dos religiosos e demais agentes de pastoral. Em conseqüência, encontramo-nos diante de situações pastorais preocupantes, como por exemplo, o inadequado exercício do ministério litúrgico do canto nas "missas show" transmitidas por alguns canais de televisão, além da divulgação de produções musicais de baixa qualidade e quase sempre não condizentes com a natureza da liturgia.
g) Desafios que vêm do uso indiscriminado dos meios de comunicação social pela liturgia. A espetacularização e a mercantilização tendem a fazer das celebrações objeto de mercado e concorrência. O problema é muito sério. Os ritos não são feitos para serem assistidos, mas participados. Diferente da TV que produz espetáculos para serem assistidos, a ação ritual não se deixa assistir. É um evento que os atores fazem para si mesmos. O uso indiscriminado dos MCS pela liturgia com certeza faz concessões ao sistema midiático provocando conflitos com a natureza das celebrações litúrgicas caracterizados por um retorno ao devocionalismo, à transformação do presbitério em palco, da assembléia em platéia e do padre em animador de "show" ou de programa de auditório. Na relação mídia - liturgia, geralmente a mídia acaba sendo a que dita as regras do jogo, nem sempre consoantes com as regras da liturgia.

4. As contribuições da liturgia para a missão continental

Num continente com tantos desafios para que a liturgia realize sua missão de "promover tudo o que conduz ao chamamento de todos ao seio da Igreja" (SC 1) parece que se poderia considerar as seguintes frentes de trabalho:

1. Recuperar as expressões celebrativas autênticas, fundadas na Bíblia e na tradição litúrgica para que sejam, de fato, alimento da verdadeira mística cristã;
2. Promover as grandes linhas teológicas da SC e dos demais documentos do Concílio Vaticano II, diante do reflorescimento e crescimento de uma tendência devocionalista, intimistas e subjetivista que desponta com muito vigor;
3. Trabalhar, não obstante os avanços feitos, a linguagem simbólica, própria da liturgia e que, com facilidade, se esvai em alegorias ou em linguagem "espetacular" próprias da televisão;
4. Ajudar as pastorais entender que a liturgia é fonte da espiritualidade cristã e de toda ação evangelizadora;
5. Fazer um investimento sério, a médio e a longo prazo, na inculturação da liturgia na cultura urbana, bem como nos meios indígenas e afros;
6. Encaminhar ações concretas para superar o vazio e a distância que se criou ou está se criando entre o que se entende por celebração cristã e a "liturgia" veiculada pelos meios de comunicação social e a praticada em alguns movimentos eclesiais;
7. Planejar por todos os meios disponíveis a formação litúrgica em todo os níveis;
8. Trabalhar a organização de espaços celebrativos inculturados, à luz da teologia da liturgia;
9. Estudar alternativas para fomentar a formação da música ritual como "parte integrante da liturgia" e alimento e condicionante eficaz da fé.
10. Inserir na celebração as preocupações com a preservação da criação, enfatizando os aspectos cósmicos e a responsabilidade com o meio ambiente;
11. Possibilitar uma liturgia mais ecumênica, que avance para além do calendário da semana de oração pela unidade dos cristãos, e que inclua a referência e a prece a outras expressões religiosas, exercitando a tolerância e ultrapassando o proselitismo, como expressão de nossa catolicidade;
12. Acolher na dinâmica da celebração a necessidade de uma cultura de paz e os avanços feitos neste sentido, enfatizando os aspectos pacifistas do Evangelho.

5. Conclusão

A liturgia e a missão devem ser vividas na unidade do mistério. Jamais terá sentido opor, justapor ou preferir uma à outra. Não são duas especializações ou duas faces da Igreja.

Tudo é questão de FONTE.

“A Igreja não é uma quando celebra a liturgia e outra quando seus membros a vivem: apenas age diversamente. O mesmo acontece com sua missão. Não tem uma face voltada para Deus e outra voltada para os homens. Sua missão nos últimos tempos é ser o rosto de Deus no qual os homens podem reconhecer aquele que procuram e, na mesma luz, o rosto dos homens que reflete a glória de Deus (cf. 2 Cor 4,6)” (J. Corbon, Liturgia de Fonte, São Paulo, Paulinas, 1981, pág. 192).

A Igreja recebe e descobre a sua missão quando celebra a Liturgia. “A liturgia celebrada e a liturgia da missão são os dois momentos do mesmo amor: como amar nossos irmãos se não acolhemos antes Aquele que nos ama primeiro? São os dois movimentos do mesmo mistério pascal” (J. Corbon, idem, pág. 193).

Sem a Liturgia, a missão vira publicidade.

“Só podemos ser testemunhas daquele que ouvimos, que nossos olhos contemplaram e que nossas mãos tocaram se seu fogo nos purificar até moldar-nos totalmente a ele. Da epiclese de nosso batismo à de nossas eucaristias, é este mesmo fogo que age em nós para que a vida realize sua obra em nossos irmãos” (Ibidem, pág. 196).

É por isso que em todas as celebrações somos enviados:

“IDE! O Senhor vos acompanhe!
A alegria do Senhor seja a vossa força!
Glorificai o Senhor com vossa vida!
Levai a todos a alegria do Senhor ressuscitado!”

E de nosso coração dilatado, alimentado pela partilha do pão da Palavra e da Eucaristia, brota a expressão de júbilo pelo dom da Liturgia e da Missão: “Graças a Deus!”


Perguntas para os grupos:

1. O que entendemos com a afirmação de que “a missão, antes de ser um ‘fazer’, é um ‘receber’”?
2. Por que a força e o dinamismo missionário da Igreja nasce da Liturgia?
3. Comentem as três experiências litúrgicas que alicerçam e fundamentam a missão.
4. Como preparamos, celebramos e vivenciamos estas experiências em nossas celebrações litúrgicas?
5. Como preparamos e como as pessoas participam e se sentem enviadas nos Ritos Finais? O que poderíamos melhorar?
6. Qual a condição essencial para que a Liturgia seja fonte de missão?
7. Dos desafios acima apresentados, quais deles estão mais presentes em nossa comunidade? Por que?
8. Se tivéssemos que enumerar as contribuições acima citadas, em valor de prioridade para a nossa comunidade, quais seriam as 3 que apontaríamos como mais urgentes?
9. O que poderíamos fazer concretamente para colocá-las em prática? Como? Quem? Quando?

[1] Texto extraído de Liturgia em Mutirão II, edições CNBB.
[2] J. LOPEZ-GAY, Missões e Liturgia, em D.SARTORE - A. M. TRIACCA, Dicionário de Liturgia, Paulinas, S. Paulo, 1992, p. 751.