quinta-feira, 11 de março de 2010

Vivendo a Semana Santa I (Domingo de Ramos)


DOMINGO
DE RAMOS


1. Introdução

Em Jerusalém, tanto tempo atrás, Jesus entrava de modo triunfante, aclamado pelas multidões. Hoje, na mesma cidade, cristãos de todo o mundo fazem o mesmo percurso que Jesus fez, manifestando a fé e conservando a mesma fé, embora com um sofrimento muito grande, por causa das perseguições que lá ainda existem. Nós fazemos o mesmo gesto com a mesma fé. Santo André de Creta nos ensina: “Corramos, pois, com aquele que se dirige a Jerusalém para chegar logo à Paixão, e imitemos aqueles que foram ao seu encontro. Não vamos com ramos de árvores, mas para colocar debaixo de sua pessoa nossas próprias pessoas com um Espírito de humanidade e coração sincero, para ouvir sua palavra que vem a nós e dar lugar a Deus”.

A celebração de hoje tem dois momentos: Bênção dos ramos, com a procissão entusiasmada de louvor, e a Missa, onde retomamos o caminho da Quaresma na reflexão sobre a Morte e Ressurreição do Senhor. Os ramos são abençoados; e nós os levaremos para casa num sinal de compromisso com aquele que aclamamos.

A multidão, somando crianças e estrangeiros, aclama. Marca o momento da ruptura de Jesus com os aristocratas e com os chefes dos Judeus. Podemos ver que é o mesmo povo que receberá a intervenção de Pentecostes. São aqueles a quem foram revelados os segredos do reino (Lc 10,21). São os verdadeiros adoradores do Pai (Jo 4,23).

Jesus vem como o Messias predito pelo profeta Zacarias: manso, na montadura do povo, como Davi, indicando um projeto de reino da Justiça, do Amor e da Paz, tendo quebrado toda violência. Toda a natureza o acolhe: são os ramos de palmeira e oliveira. São crianças que, se forem caladas, falarão as pedras. Os ramos de palmeira significam a vitória de Cristo sobre a morte, pela ressurreição, e o sentido da vida. Os ramos de oliveira significam sua unção espiritual. É o Cristo, do qual nos vem toda a força, toda a vida.

Com todo o nosso ardor celebremos e clamemos, exultando com sua glória. Este amor nasce em nosso coração quando nós somos tão amados de Cristo. Não se trata de um ato do passado, de uma recordação. O hoje do mistério celebrado leva a reconhecer a divindade de Jesus. Somos chamados a compartilhar de sus paixão e ser instrumento para a redenção do mundo.

2. Bênção e Procissão

2.1. Bênção dos Ramos

A bênção dos ramos evoca a caminhada de Jesus à Jerusalém terrestre. Estimula-nos e convida a continuar a caminhada até a Jerusalém celeste, o céu.

2.2. Evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém

A narração da entrada de Jesus em Jerusalém mostra o gesto de Jesus, como o rei da paz, cuja vitória está na humildade que quebra as armas da violência. É também realização do Deuteronômio (Dt 18,15) que fala do profeta como Moisés. Assim temos as características de seu reino: simplicidade, acolhimento de todo tipo de pessoa. Mostra igualmente a vitória sobre sua dolorosa Paixão. Se houver a recusa pelos chefes que o crucificaram, já houve uma vitória, uma aceitação fundamental por parte do povo, os pobres de Javé, aqueles que cantam para Deus. Como o acolhe hoje o nosso povo? A glorificação por parte de muitíssimos do povo é já o anúncio de sua glorificação da cruz. É também sua gloriosa ressurreição, meta final de sua caminhada para Jerusalém. Os discípulos compreenderão mais tarde, à luz da ressurreição.

3. Procissão

Nós imitamos agora o gesto das multidões que acolheram Jesus como Bendito que vem em nome do Senhor. Entramos com ele na cidade, aclamamos e tendo nele as mais profundas esperanças. Com a mesma disposição façamos a caminhada para nossa cidade, firme manifestação de que temos uma opção: Jesus é o centro de nossa vida. Os ramos serão a lembrança do compromisso e deste encontro de hoje; nós os usaremos nos momentos de tempestades na vida, para nos dar segurança naquele que vem em nome do Senhor. Mais que uma recordação, é nossa caminhada com Cristo para sua entrega a Deus, ato central de nossa redenção.

4. A Missa

4.1. Oração

A celebração da Eucaristia começa com a oração da missa. A missa tem caráter de reflexão sobre a Paixão, mudando o festivo da procissão. É no acolhimento de sua palavra, de sua pessoa redentora que nos tornaremos participante de seu mistério. A oração da missa, lembrando o exemplo de humildade de Cristo demonstrada no seu sofrimento, conduz a comunidade a aprender de sua paixão para chegar à sua ressurreição.

4.2. Primeira Leitura (Is 50,4-7)

A leitura da Palavra traz o Cristo na sua Paixão. Ela não é só um sofrimento, mas uma escolha que o Filho de Deus fez, na sua encarnação, de chegar ao extremo de sua igualdade com as pessoas, para fazer a ressurreição de todos. A primeira leitura é o terceiro cântico do Servo de Javé. A liturgia identifica este servo com Jesus que, pelo sofrimento e humilhação (Arrancar a barba) e resistência, nos entende e ensina a aprender da dor e do sofrimento a aproximar-nos das pessoas e falar com elas.

4.3. Segunda Leitura (Fl 2,6-11)

O servo de Javé, Jesus, humilhou-se ao extremo sofrimento: morte de cruz. Sua aniquilação é sua exaltação. Somos convidados a Ter os mesmos sentimentos de Jesus: participar de sua morte para chegar à sua ressurreição. Este é seu Evangelho.

4.4. Evangelho (Paixão do Senhor)

Ano A: (Mt 26,14-27 ,66;27,11-54)
Jesus realiza sua paixão na total entrega ao Pai, na plena liberdade de seu Dom. é abandonado, traído, renegado. É o homem que morre pelo povo.

Ano B: (Mc 14,1-15,47; ou 15,1-39)
O sofrimento e a morte de Jesus levam a crer: este homem é Messias, Filho de Deus. A fé é completa quando passamos por Jesus na cruz para chegar à ressurreição com ele. Quando o véu do templo se rasga, podemos também entrar no santuário do novo relacionamento de Deus com seu povo.

Ano C: (Lc 22,14-23,56; ou 23,1-49)
A caminhada de Jesus desde a Galiléia chega aos seus passos finais com a proclamação do letreiro da cruz: este é o rei dos judeus! Fala também: lembra-te de mim quando estiveres no teu reino, diz o ladrão. E Jesus: hoje estarás comigo no paraíso. O centurião dá glória a Deus: este homem era justo.

Mensagem

Acolhamos a chegada de Cristo para implantar o reino de Deus em nós. Acolhamos sua Paixão. Agora, durante este tempo que nos separa de sua Ressurreição, estejamos firmes na palavra, seguros na sua cruz, procurando entender os caminhos que nos levam a segui-los perto para estar no momento mais alto da ressurreição.

5. Sugestões

a) Preparar as ruas com um tapete de folhas, por onde passará a procissão.
b) Um burrinho real pode se usado, colocando sobre ele alguma figura representando Jesus: pode ser uma criança, significando o inocente que será condenado; ou algum símbolo, como a figura de um cordeiro ou de uma Cruz.
c) A proclamação da Paixão deve ser bem preparada. Ser criativa para comunicar melhor.
d) Algumas sugestões:

• criar mais movimentos para a Assembléia, fazendo com que mudem mais vezes de posição: sentados (P. ex.: Ceia 26,14-29; Julgamento: 26,57-75;27,1-30), de pé (P. ex.: Agonia e prisão: 26,30-56; Caminho da Cruz: 27,31-50; Enterro: 27,55-66); ajoelhados (P. ex.: Morte: 27,51-54);
• usar projeção de slides ou cartazes com desenhos ou frases que destaquem os vários episódios da Paixão;
• entremear os vários episódios com cantos correspondentes cantados por todo o Povo;
• fazer a proclamação da Paixão ao longo de uma procissão, à semelhança de uma Via-Sacra, que poderia ser ao redor da própria igreja, ou então fazer com que o grupo de Leitores se movimente dentro da igreja;
• enquanto possível, durante a proclamação da Paixão, proporcionar às crianças um outro local onde possam Ter uma catequese apropriada sobre o Domingo de Ramos, através de Catequistas, usando vídeos, cantos teatrinhos etc. as crianças voltariam à igreja para a procissão das Oferendas.

6. Preparação

O documento conciliar Sacrosanctum Concilium (SC) e a Instrução Geral do Missal Romano (IGMR), ao se referirem à atuação na liturgia, falam de serviço, função, parte, encargo, ministério, ministério particular, ofício (Cf. SC 11, 14, 19, 21, 26, 28;IGMR nn. 58-73.127-152).

Olhando para as celebrações litúrgicas da Semana Santa, devemos considerar como um serviço litúrgico as atividades, funções e papéis que ajudam na participação ativa e consciente da assembléia e na realização plena da celebração.

São atividades exercidas pelos fiéis, movidos pela fé. Não precisam do reconhecimento da comunidade. Devem ter certa consistência e estabilidade, vistas como necessárias à realização das ações litúrgicas.

Preparar:

1. Ramos;
2. carvão;
3. incenso;
4. talha de barro ou turíbulo;
5. água benta;
6. cruz processional;
7. mesa pequena;
8. paramentos vermelhos (capa ou casula para o sacerdote);
9. livro dos Evangelhos.

Pessoal e Serviços:

1. Apanhadores dos ramos (serviço que deve ser feito no dia anterior);
2. Preparadores(as) dos ramos (separar os molhos);
3. Ornamentadora da cruz processional (colocar na haste da cruz um ramo grande e bonito);
4. Ornamentadoras da Igreja ( enfeitar a igreja com muitos ramos, criando ambiente festivo);
5. Arrumadeiras da pequena mesa (preparar uma mesa, enfeitando-a para se colocarem os ramos, água benta, a toalha de barro ou o turíbulo e o incenso);
6. Distribuidores(as) dos ramos (distribuir logo após a bênção dos ramos e antes da proclamação do Evangelho);
7. Carregadores(as) das talhas de barro ou do turíbulo;
8. Carregador (acólito) da cruz processional;
9. Carregadores (acólitos) das velas ladeando a cruz processional;
10. Organizadores e animadores da procissão com os ramos bentos;
11. Leitores: o diácono ou, na falta dele, o sacerdote proclama o evangelho da entrada de Jesus em Jerusalém. A história da Paixão que será lida na missa pode ser feita também por leigos(as).

quarta-feira, 10 de março de 2010

CELEBRAR A RETOMADA DO RUMO CERTO: EIS A QUESTÃO


Frei José Ariovaldo da Silva, OFM

1. O ser humano, “desnorteado”: chamado a retomar o rumo de Deus

De repente, o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus e vivendo num paraíso (cf. Gn cap. 1 e 2), se viu sem rumo, sem norte (“desnorteado”!), desequilibrado, muito inseguro, frágil e, ao mesmo tempo, prepotente, violento (e até mortalmente violento!), egoísta, dado à corrupção de todo tipo, sem serenidade na convivência social, muito confuso... É o que transparece já a partir das primeiras páginas a Sagrada Escritura (cf. Gn cap. 3, 4, 6, 7, 11, 19, 27,12ss etc.).

No meio dessa gente, sempre tem alguém que se salva, que se mantém no rumo de Deus. É o caso de Noé e sua família, com quem Deus chega a fazer aliança (cf. Gn cap. 9). É caso de Abraão que deixa sua terra para seguir o rumo de Deus, e Deus faz uma aliança também com ele (cf. Gn cap. 12 e 17). É o caso, depois, de inúmeros descendentes de Abraão que, no meio de dificuldades e contratempos, se esforçam por se deixar conduzir pelo Senhor. Deus, para eles, vai sendo percebido e assumido como o rumo certo de uma vida realizada e feliz. E Deus os acolhe amorosamente.

Lendo as páginas da Bíblia, vemos como Deus vai se revelando como o verdadeiro rumo para o ser humano. Mostrou-o quando, “ouvindo o clamor do povo” (cf. Ex 3,7-10), operou através do seu servo Moisés a libertação da escravidão do Egito (cf. Ex cap. 12 a 15). Mostrou-o, sustentando o povo na caminhada pelo deserto (cf. Ex 15,22-18,27). Mostrou-o, por ocasião da aliança do Sinai (cf. Ex 19 e 20), inclusive prometendo: “Se vocês realmente ouvirem minha voz e guardarem a minha aliança, serão minha propriedade exclusiva dentre todos os povos. De fato, é minha toda a terra, mas vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (cf. Ex 19,3-6). Mostrou-o, quando amorosamente acolhia de volta o povo que, eventualmente, resolvia tomar outro rumo e depois se arrependia. E assim por diante...

Sobretudo através dos sábios e profetas, Deus continuou se mostrando, insistente e repetidamente, como sendo o rumo mais certo para o futuro mais certo. E sempre pronto a acolher amorosamente quem se “desnorteou”. Por isso, exclama o salmista: “Bendize, ó minha alma, ao Senhor!... Ele perdoa tuas culpas todas, e cura todas as tuas enfermidades. Ele resgata do fosso tua vida e te coroa de misericórdia e compaixão... O Senhor é compassivo e clemente, lento para a cólera e rico em misericórdia” (Sl 103,1.3-4.8).

Na voz dos profetas vemos constantemente o apelo: Quem tomou outro rumo, volte para o rumo de Deus, pois ele não rejeita ninguém. E quem está no rumo de Deus, não tome outro rumo. A experiência mostra que não vale a pena enveredar por outro. Amor, bondade, perdão, justiça, misericórdia, solidariedade, são algumas características do rumo de Deus. E Deus ainda vai dar a prova final (quando vier o Messias) de que o seu é o rumo mais certo.

2. Peguem o rumo de Deus, porque o seu Reino está próximo!

Assim, aproximando-se o ponto alto da história da salvação de Deus, aparece o profeta João Batista, pregando sobre Deus lá no deserto. E avisava: “Convertam-se porque está próximo o reino dos céus” (cf. Mt 3,1-12; Mc 1,1-8; Lc 3,1-20; Jo 1,19-28). Em outras palavras: Mudem de rumo! Peguem o rumo de Deus, porque a expressão máxima deste rumo está muito próxima de nós: o Messias!

Muita gente, sobretudo o povo mais humilde, passou a acreditar naquilo que João ensinava e, realmente, enveredava pelo rumo de Deus, procurando viver uma vida de solidariedade, honestidade e respeito para com as pessoas. E para simbolizar esta mudança de rumo (entrando – mergulhando – “de cabeça” no rumo apontado pelo profeta) com o conseqüente perdão dos pecados, as pessoas eram batizadas (isto é, mergulhadas) nas águas do rio Jordão. João, no entanto, alertava: Atenção, pessoal! Eu não sou o Messias, não. Eu mergulho vocês na água. Mas, aquele que vem depois de mim, muito mais forte do que eu, este vai mergulhar (batizar) vocês no Espírito Santo. Em outras palavras, ele vai mergulhar vocês “de cabeça” para dentro do sentido máximo do rumo de Deus, que é o próprio Espírito de Deus que nos acolhe e nos perdoa.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Olhando para a Bíblia, em que momentos as pessoas se desviaram do “rumo” proposto por Deus?
2. Qual a atitude de Deus Pai diante dos erros da humanidade?
3. E hoje? Quando e como nós nos desviamos do rumo?

3. Jesus e sua páscoa: revelação e presença vitoriosa do rumo reconciliador de Deus

Vimos no artigo anterior que João Batista pedindo a conversão e batizando. E não há de ver que o próprio Jesus, solidarizando-se com todo aquele povo, se faz batizar nas águas do Jordão, (cf. Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22; Jo 1,29-34)! E o que acontece? Aquele mergulho simbólico nas águas nos fala de Jesus como alguém nítida e totalmente mergulhado no Espírito de Deus. Tão mergulhado está, que nele não podemos ver outro senão o próprio Filho de Deus, o verdadeiro “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Já no início de sua missão, o próprio Jesus anuncia: “Completaram-se os tempos, está próximo o reino de Deus, convertam-se e creiam no Evangelho”.

E como aparece, na prática, que Jesus é o próprio Filho de Deus e, portanto, a expressão máxima do rumo de Deus? Pela sua radical solidariedade com o ser humano. Pela sua encarnação, vida, ações, palavras, sofrimento, morte, ressurreição e dom do Espírito, nós o vemos mergulhado “de cabeça” no abismo da nossa condição humana cheia de anjos e demônios, para nos libertar do pecado e da morte e nos reconciliar com Deus. Assim sendo, ele é o próprio rumo de Deus que nos liberta para a plena realização do ser humano: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (cf. Jo 14,1-14).

Aos que acreditam nesse Jesus e o assumem como o rumo mais certo, ele os perdoa e os cura, pois, sendo Filho de Deus, tem poder para isso (cf. Mc 2,1-12; 2,13-17; Lc 7,36-50; Jo 8,3-11). A Zaqueu ele anuncia: “Hoje a salvação entrou em sua casa”. É que Zaqueu, “chefe dos publicanos e rico”, considerado um “pecador”, vendo Jesus e acolhendo-o “com alegria” em sua casa, resolveu pegar o rumo de Deus, com a promessa de reparar os danos causados aos outros (cf. Lc 19,1-10). A parábola do Filho Pródigo representa bem a história de quem (podemos pensar no ouvinte da Palavra), ao perceber-se de repente “desnorteado” e “sem rumo”, retoma o rumo da casa do Pai e se vê amorosa e festivamente acolhido pelo Pai (cf. Lc 15,11-32).

A páscoa de Jesus (paixão, morte, ressurreição, ascensão e dom do Espírito) é a prova mais nítida e contundente da certeza do rumo reconciliador de Deus. Prova esta que foi transmitida aos apóstolos no dia da páscoa, para que a passassem adiante. Foi quando o ressuscitado soprou sobre eles dizendo: “Recebam o Espírito Santo. Se vocês perdoarem os pecados dos homens, serão perdoados. Se não lhes perdoarem, não serão perdoados” (Jo 20,22-23). E Pedro (após a “explosão do Espírito Santo” na festa de Pentecostes), depois daquele longo discurso falando da ressurreição de Cristo (cf. At 2,1-36), dá uma significativa resposta ao povo que indagava sobre o que então devia ser feito: “Arrependam-se e cada um de vocês seja batizado no nome de Jesus para a remissão dos pecados e vocês receberão o Espírito Santo” (At 2,38). Em outras palavras: Convertam-se, isto é, mudem de rumo; enveredem pelo novo rumo que definitivamente se instaurou pela páscoa, o do Reino de Deus. E como símbolo desta decisão de vocês, pelo qual vocês também são perdoados e admitidos no Reino, sejam batizados (mergulhados na água) em nome de Jesus Cristo.

Foi o que aconteceu, daí para frente. Como símbolo da conversão e entrada no rumo de Deus, e o conseqüente perdão dado por Deus por força da Páscoa, a pessoa era mergulhada na água. Inclusive, para que a decisão pudesse ser a mais madura possível, logo foi se instituindo nas comunidades cristãs um tempo de intenso exercício de conversão e acolhida do dom de Deus (período de catecumenato) antes de a pessoa assumir o rumo de Cristo dentro da comunidade eclesial.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Por que Jesus quis ser batizado?
2. Qual a atitude de Jesus para com os pecadores? O que mais lhe chama a atenção?
3. O que a realidade da Páscoa de Jesus, sua morte e ressurreição, tem a ver com a nossa reconcição?

Fonte: Liturgia em Mutirão III - CNBB
http://www.cnbb.org.br/site/component/docman/cat_view/236-liturgia-em-mutirao-iii

O SACRAMENTO DA RECONCILIAÇÃO

Frei Faustino Paludo, OFMCap

1. O Sacramento da conversão

A reconciliação é uma meta. As pessoas buscam incansavelmente a paz. Mas, para alcançá-la, é necessário um penoso caminho de conversão, de mudanças e de transformações. A verdadeira reconciliação começa no coração de cada pessoa. Isto é, o convite à conversão exige uma mudança de rumo. Contudo, o processo de mudança não afeta exclusivamente o indivíduo, mas tende a expandir-se aos demais – à comunidade e à sociedade.

No processo de conversão atuam diversos fatores: a) a consciência que quer dar um fim ao que está errado ou ao que desvia do rumo certo; b) a necessidade de se corrigir e reorganizar a vida em vista de um novo sentido e de uma nova prática; c) o pressuposto de que Deus está na origem da vida do ser humano e de que o amor misericordioso de Deus é quem dá sentido à existência humana. Converter-se é voltar o coração para Deus (cf Lc 15). É deixar-se reconciliar por Ele (2Cor 5,20) É inserir-se na dinâmica da Aliança. É participar do amor de Deus e ser testemunha da santidade de Deus na comunidade eclesial e no meio em que vive. Converter-se significa abandonar a antiga situação e abrir-se para a nova realidade de vida.

Já no Antigo Testamento Vemos o próprio Deus – por intermédio de seus profetas e mensageiros – convidando o povo à conversão (Sl 4,3; Sl 94,8; Is 44,22; Jr 18,11; Os 6,1). A conversão significa retorno ao Senhor, e, consequentemente, a renúncia ao mal, mudando o próprio modo de viver. O Salmo 51/50 oferece uma síntese da conversão e da misericórdia de Deus. A conversão se traduz em inúmeras práticas penitenciais.
A pregação de Jesus está centralizada no anúncio da conversão (metanóia), da penitência, como única via de ingresso e participação no reino de Deus e como única via de salvação. Não é por acaso que Jesus inicia seu ministério público convidando ao arrependimento: “Convertei-vos porque o reino de Deus chegou” (Mt 4,17; Mc 1,15). É um apelo que reflete a necessidade de colocar-se na dinâmica de quem acolhe a boa nova de salvação. A conversão é o movimento que, por um lado, significa abandonar o “velho homem” e, por outro, revestir-se do “novo” (Rm 6,6; Cl 3,9-10). Converter-se é tornar-se novo na opção de vida pela verdade e a autenticidade. Mais do que uma ação isolada, a mudança sugere a imagem “do caminho”. Isto é, algo dinâmico, que precisa ser feito, construído segundo os critérios apontados pela Palavra de Deus. “O caminho se faz caminhando”.

Notemos que a conversão é dom e graça de Deus. Mas também requer exercício e empenho no sentido de responder fielmente às exigências do Espírito e à identificação com Jesus Cristo, para o louvor e a gloria de Deus Pai. Neste prisma, o sacramento da Penitência celebra o encontro do filho pecador com o amor misericordioso do Pai. Encontro que renova a vida batismal ferida pelo pecado. Encontro que faz crescer no seguimento de Cristo e do seu Espírito. A conversão sincera é o pressuposto necessário para uma autêntica celebração do sacramento da Penitência.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. A reconciliação é uma meta a ser alcançada. O que fazer para atingi-la?
2. O que exige uma verdadeira conversão?
3. Qual é o pressuposto básico da celebração da Penitência?
4. Vamos rezar o Salmo 51(51) com os passos da leitura orante?

2. Sacramento da reconciliação

Muitos se perguntam, hoje, pelo significado do sacramento da reconciliação no horizonte de uma sociedade onde a convivência harmônica e pacífica está se deteriorando face ao crescimento da violência, onde a vida e a dignidade das pessoas são ameaçadas.

Ora, o sacramento da Penitência está justamente enraizado na condição humana e na complexa realidade da convivência social. As pessoas ao mesmo tempo que aspiram viver em paz, reconciliadas consigo e com os semelhantes, experimentam a amargura das tensões e dos conflitos. Sentem-se contrariadas frente às adversidades e às rupturas. Em meio às contradições e frustrações, a reação imediata é o isolamento. De fato, quem se dedica ao ministério da Reconciliação, constata que há “muita solidão”! Pessoas que desejam avidamente ser ouvidas em seus desabafos. Contudo, da experiência do sentir-se só e ferido, ecoa o grito pela busca de uma nova realidade, da mudança de vida. É preciso mudar! Ninguém, em sã consciência, consegue viver só e em meio a conflitos e transgressões por muito tempo. “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai” (Lc 15,18)!

O Sacramento da Penitência e da Reconciliação é a festa do reencontro e do amor misericordioso do Pai. É a celebração do perdão e da esperança. O pedido de perdão resgata o sentimento confiante e possibilita a abertura de novos horizontes de relações reconciliadas. O pedir perdão encerra um dinamismo humano muito maior que a simples oração interior, pois insere o ser humano na dinâmica da relação comunitária. “Pai pequei contra Deus e contra ti, já não mereço que me chamem teu filho” (cf Lc 15,21).

Mas, o “pedir perdão” requer a disponibilidade de alguém que se faça “todo escuta”, isto é, acolha com benevolência, ouça atenciosamente, permitindo à pessoa abrir seu coração. Saber ouvir é atitude que brota da bem-aventurança da misericórdia e, do reconhecimento da grandeza da pessoa do outro, apesar de seus limites (cf Jo 8,10-11). Nesta hora, a interlocução (o diálogo) reveste-se de significativa importância. Quem pede perdão, também espera ouvir uma palavra reconciliadora, ou seja, uma palavra que lhe dê a certeza do perdão e da paz. O perdão faz brilhar os olhos e exultar o coração ante as palavras: “irmão (a) tu estás perdoado (a)! Tu és amado (a) por Deus e liberto (a) em Jesus Cristo pela força de seu Espírito. Vai e viva em paz com todos!”
O sacramento da Reconciliação é a celebração do amor incondicional de Deus que se traduz em dom de perdão e de paz. No Sacramento da Penitência, os fiéis “obtêm da misericórdia divina o perdão da ofensa a Deus, e ao mesmo tempo são reconciliados com a Igreja que eles feriram pelo pecado e que colabora para sua conversão com a caridade, o exemplo e as orações” (RP. Introdução. 4). O importante é resgatar a comunhão com Deus e com a Igreja, olhando igualmente para a grande reconciliação com o universo, em vista da cultura de reconciliados (cf. Conclusões do Seminário sobre Reconciliação, publicado no Subsídio Deixai-vos Reconciliar, Estudos da CNBB 96, Brasília, Edições CNBB, 2008).

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Como as pessoas reagem e convivem em meio à violência e aos conflitos sociais?
2. Quando você percebe que machucou alguém, como você reage? O que você faz?
3. Nos momentos difíceis de sua vida, o que você mais deseja? O que você busca?
4. Muita gente sente a necessidade de celebrar o sacramento. Você sabe como, onde, quando e com quem celebrá-lo?

3. A celebração do Sacramento da Reconciliação ao longo da história

A Tradição da Igreja afirma que “Cristo instituiu o sacramento da Penitência para todos os membros pecadores de sua Igreja, antes de tudo para aqueles que, depois do batismo, cometeram pecado grave e com isso perderam a graça batismal e feriram a comunhão eclesial” (Catecismo, 1446). Jesus edificou sua tenda entre nós (Jo 1, 14) para revelar o amor misericordioso do Pai e reconciliar a humanidade com Ele. Iniciou sua pregação conclamando à penitência: “fazei penitência e crede na Boa Nova” (Mc 1,15). Acolheu os pecadores, reconciliando-os com o Pai (Lc 5, 20; 7,48) e por fim, derramou seu sangue na cruz para o perdão dos pecados (Mt 26,28). Ao ressuscitar dentre os mortos, enviou o Espírito Santo sobre os seus discípulos concedendo-lhes o poder de perdoar os pecados (Jo 20, 19-23) e os enviou para pregar a penitência e o perdão dos pecados (Lc 24,47). Portanto, o sacramento da Penitência se enraíza na vida e na prática de Jesus.

A pregação vibrante da Boa Nova de Jesus pelos apóstolos fez com que a multidão clamasse: “irmãos, o que devemos fazer?”. Ao que Pedro responde: “arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, para o perdão dos pecados” (At 2, 38). O batismo é o sacramento da primeira e fundamental conversão. O sacramento da Penitência representa a segunda conversão. “Salvos pelas águas do Batismo, nosso louvor se enfraqueceu pelo pecado que cometemos, mas o Sacramento da Reconciliação nos convida à penitência, nos renova na santidade” (cf Prefácio da Penitência, Missal Romano). Os Padres da Igreja consideravam a Reconciliação um “batismo laborioso” (cf. Sacramentum Caritatis, n. 20).

O processo histórico do sacramento da Penitência passou por diferentes etapas no seu desenvolvimento ao longo dos séculos. Destacaram-se três etapas: a) uma penitência longa e rígida para quem tivesse cometido os pecados graves do adultério, da apostasia e do homicídio após o batismo. Os pecadores eram afastados da comunidade e acompanhados pela oração da mesma, enquanto cumpriam longas penitências. Após demonstrarem arrependimento pelos pecados cometidos, eram reconciliados e readmitidos na comunidade e na participação eucarística. Tal penitência só podia realizaR-se uma vez na vida. Suas exigências tinham por finalidade a conversão. b) a rígida penitência pública e canônica, aos poucos, foi sendo substituída pela confissão privada e comutativa. Trata-se de uma prática dos monges da Irlanda introduzida no Continente Europeu. Os pecadores confessavam seus pecados ao bispo ou ao padre, sempre que recaíssem no pecado. Recebiam longas e pesadas penitências e somente depois de cumpridas é que recebiam a absolvição. As exigentes penitências podiam ser comutadas, isto é, substituídas por outras mais brandas, como a recitação dos salmos, peregrinações, doações etc. c) por fim, a Igreja adotou a confissão auricular. A confissão dos pecados, tanto graves como leves, era feita ao sacerdote no segredo do confessionário. O pecador declarava seus pecados, recebia uma palavra do confessor, era imediatamente absolvido e enviado ao cumprimento da penitência.

As diferentes etapas que caracterizaram o processo histórico do Sacramento da Penitência sublinham a atenção da Igreja para com seus membros pecadores que, arrependidos, desejam ardentemente retornar à comunhão com Deus e com os irmãos. Assim chegamos ao Concilio Vaticano II que pede: “o rito e as fórmulas da Penitência sejam revistos de tal forma que exprimam mais claramente a natureza e o efeito deste Sacramento” (SC 72).

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Por que ainda hoje se fala “no sacramento da confissão”?
2. Buscando o sacramento da Penitência e da Reconciliação, o que mais as pessoas deveriam buscar e celebrar?
3. Como entender que Jesus Cristo instituiu o Sacramento da Penitência e Reconciliação?
4. Ler o Evangelho de João 20, 19-23.

4. A renovação do Sacramento da Reconciliação

O Concilio Vaticano II manifestou ao mundo a vontade da Igreja de se aproximar das pessoas humanas, inteirar-se de suas “alegrias e esperanças, tristezas e angústias” (Gaudium et Spes, 1) para auxiliá-las na compreensão de si mesmas, em especial, de suas tensões e conflitos. A ação mais eficaz que a Igreja pode empreender em vista da reconciliação e da unidade entre as pessoas, consiste em “buscar sem cessar a penitência e a renovação” (Ritual da Penitência (RP), n. 3). Nesta perspectiva, o Vaticano II definiu: “o rito e as fórmulas da Penitência sejam revistos de tal modo que expressem mais claramente a natureza e o efeito do Sacramento (Sacrosanctum Concilium, 72).

À luz da definição Conciliar e da caminhada pós-conciliar, o sacramento passou a ser compreendido como ação litúrgica, memorial do mistério pascal de Jesus Cristo, expressão máxima da misericórdia do Pai que, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo, pacificando tanto as coisas da terra como as do céu. Esta nova realidade de vida é obra do Espírito Santo que move os pecadores a se aproximarem do sacramento da reconciliação (cf RP, introdução, n. 6). A reconciliação é ação da Igreja que valoriza a pessoa e sua situação, os atos do pecador arrependido, a participação comunitária, a ação do ministro. Particular ênfase é dada à Palavra de Deus, à acolhida, à escuta e ao diálogo benevolente com o penitente, à absolvição com o gesto da imposição das mãos, à oração ou gesto de contrição e à ação de graças. Tudo para sublinhar a dinâmica da conversão, numa maior integração entre a vida penitencial e celebração da reconciliação.

O Ritual da Penitência apresenta três formas distintas de celebração: a) Rito para a reconciliação individual dos penitentes; b) Rito para a reconciliação de vários penitentes com confissão e a absolvição individuais; c) Rito para reconciliação de vários penitentes com confissão e absolvição gerais. Por fim, apresenta ainda uma série de Celebrações Penitenciais não sacramentais. Cada uma dessas formas tem seu valor. A Reconciliação individual, através do diálogo personalizado com o penitente, tem a possibilidade de considerar melhor a caminhada de fé, o engajamento comunitário e social, as necessidades e situações concretas do penitente, estimulando-o à conversão, além de favorecer ao ministro o desempenho de sua função como sacerdote, pastor, médico e guia. A Reconciliação de vários penitentes (celebração comunitária) expressa o sentido eclesial e comunitário do sacramento. Esta segunda forma, favorece a participação, a acolhida, a proclamação e a escuta da Palavra, o exame de consciência, a oração comum e a ação de graças. Esta forma destaca o valor da mediação da Igreja na graça da reconciliação. A Reconciliação com confissão e absolvição geral é reservada para necessidades e situações especiais (cf Código de Direito Canônico, cân 961).

O Ritual recomenda, no que se refere às formas individual e comunitária, que a utilização sistemática de uma não obscureça os valores da outra. A utilização das diversas formas, de acordo com o espírito do Ritual e com prudentes critérios pastorais, poderá servir para um maior aprofundamento na graça da reconciliação e evitará que se caia em práticas rotineiras. Todavia, a prática sacramental da penitência requer um planejamento pastoral que organize e articule sua celebração com critérios amplos e realistas, tendo presente o significado dos tempos litúrgicos e o ritmo espiritual da comunidade cristã.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Que motivos levam as pessoas buscarem o sacramento da Penitência? Ou o que afasta as pessoas do sacramento?
2. Quais são as formas rituais do sacramento e qual você mais procura? Por quê?
3. Como celebramos este Sacramento em nossa comunidade?

5. Sacramento enriquecido pela Palavra de Deus

“A palavra de Deus ilumina o fiel para o reconhecimento de seus pecados, chama-o à conversão e leva-o a confiar na misericórdia divina” (RP, n. 17). O atual Ritual da Penitência e Reconciliação recupera o espaço e a função da Palavra de Deus em vista da sincera conversão.

O Lecionário do Ritual foi enriquecido com inúmeros textos Bíblicos (numa média de 80 textos). Além das leituras previstas no Ritual, “podem-se, selecionar outras, segundo a necessidade e a condição das assembléias” (cf RP. P. 80).

Alguém poderia pensar que a proclamação da Palavra de Deus só seria possível na reconciliação de vários penitentes (celebração comunitária). Não! O Rito para a “reconciliação individual dos penitentes”, recomenda: “o sacerdote, se julgar oportuno, lê ou diz de cor algum texto da Sagrada Escritura que proclame a misericórdia de Deus e exorte a pessoa à conversão” (RP, n. 43). O fato da Palavra de Deus ser recomendada no rito da “reconciliação individual” realça ainda mais sua proclamação na celebração comunitária. “Convém que o sacramento da penitência comece com a escuta da palavra, pela qual Deus chama à penitência e conduz à verdadeira conversão interior” (RP 24).

Por que esse lugar privilegiado para a Palavra de Deus? O chamado à conversão feito outrora por Jesus, hoje, ressoa na Igreja. “Desde então, a Igreja jamais deixou de convidar os homens à conversão e a manifestarem a vitória de Cristo sobre o pecado pela celebração da penitência” (RP, 1).

A Palavra de Deus além de iluminar a vida, o senso de pecado e o exame de consciência, renova também a compreensão e a prática do sacramento da Reconciliação. Pois, ao mesmo tempo que questiona, restabelece a relação do Pai com o pecador arrependido. Reconcilia-o consigo mesmo e com a comunidade dos irmãos. Insere-o num novo projeto de vida marcado por relações reconciliadas e reconciliadoras.

À luz da Palavra, o encontro pessoal com Deus transformará a celebração penitencial numa proclamação de fé, numa confissão dos pecados e numa manifestação de alegria pela paz recebida. “Depois de receber o perdão dos pecados, o penitente proclama a misericórdia de Deus e lhe rende graças em breve aclamação da Sagrada Escritura” (RP 20; 29). Quando celebramos a Penitência e a Reconciliação, geralmente escolhemos textos que falem direta e explicitamente do perdão. Tudo bem, mas o Ritual sugere também outros textos que ajudam a questionar e rever toda a nossa vida cristã, nossas opções, nossos valores. Por exemplo, temos no Lecionário do Ritual o texto das Bem-Aventuranças, da Profissão de fé de Pedro, etc.

A valorização da Palavra de Deus na celebração deste sacramento, poderá se transformar num elemento fundamental para a renovação do modo de se entender o pecado, o exame de consciência, a declaração dos pecados e sua relação com a vida dos cristãos. Mais rico, mais profundo e mais sincero será o caminho de quem se deixa interpelar pessoalmente pela Palavra do Deus vivo que, na sua misericórdia, chama à conversão e à relação filial e comunitária.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. O que motivou o Concílio Vaticano II valorizar a Palavra de Deus no Sacramento da Penitência?
2. Na perspectiva do Sacramento da Penitência, que apelos a Palavra de Deus nos faz?
3. Vamos escolher um dos textos bíblicos que o Ritual nos propõe e fazer juntos a leitura orante?

6. Os atos do penitente

Muitas pessoas se perguntam: “o que é necessário para uma boa celebração do sacramento da Reconciliação”? Entre os diferentes aspectos valorizados pelo Concílio, o Ritual da Penitência sublinha os atos da pessoa do penitente, ou seja, a contrição, a confissão e a satisfação (cf. RP n. 6).

Entre os atos do penitente apontados pelo Ritual, a contrição ocupa o primeiro lugar. Trata-se da dor e do arrependimento pelo pecado cometido. O arrependimento é o ato mais profundamente humano que reconstrói aquilo que o pecado destrói. O pecador, movido pelo Espírito Santo (cf RP. n. 6), toma consciência de seu pecado, experimenta a dor pela ofensa cometida e se põe a caminho em busca do perdão (cf RP n. 6). A parábola do Pai e dos Dois Filhos nos revela que o dinamismo que impulsiona à busca de vida nova não está no pecado em si, mas na percepção da graça de Deus. “Na casa do meu pai ...” (cf Lc 15, 17s). Nesta hora, o ser humano pecador não se sente só com sua culpa, mas experimenta a presença de alguém, que embora distante, o espera. A consciência do pecado, longe de afastar a pessoa humana de Deus, aproxima-se dele e a ajuda a descobrir melhor seu amor e sua graça.

No ato da confissão, o arrependimento interior é revelado pela manifestação dos pecados. Confessar os pecados com arrependimento é uma expressão humana e faz parte das exigências da reconciliação. Revelando ao confessor seus pecados, o penitente se insere na dinâmica comunitária da ação penitencial da Igreja que acolhe e perdoa o pecador sinceramente arrependido. Santo Agostinho via na confissão dos pecados a atitude da humildade do pecador arrependido e do louvor ao Deus da misericórdia. A confissão sincera dos pecados se traduz na manifestação da dor que requer acolhida, grito que faz ecoar o desejo de paz, reconciliação e comunhão com Deus e com os irmãos.

A conversão se completa pela satisfação das culpas (comumente chamada de “penitência”), pela mudança de vida e pela reparação dos danos causados (cf RP, n. 6). A ofensa impõe uma ação visível de reparação, uma prática nova de vida. As obras da satisfação “devem se constituir em ações de culto, caridade, misericórdia e reparação” (João Paulo II). Contudo, o perdão que Deus concede ao pecador é gratuito, não depende da satisfação, mas da sinceridade da conversão. O Ritual da penitência exalta o sentido da satisfação afirmando que ela repara e cura o que o pecado destrói e estraga, remedeia os efeitos do pecado e serve para renovar a vida. A satisfação se constitui num sinal externo do começo ou da retomada da vida nova, sobretudo pela prática do amor ao próximo.

Estes atos do penitente expressam e simbolizam a conversão. Embora distintos, um supõe e remete ao outro. Na perspectiva da fé, juntos devem manifestar a sincera e a profunda rejeição daquilo que gera o pecado. São atos que revelam a assimilação da boa nova: “convertam-se e acreditem no Evangelho” (Mc 1,15).

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. O que uma pessoa deve fazer ao desejar celebrar uma boa confissão?
2. Qual é significado de cada um dos atos do penitente?
3. Por que os diferentes atos do penitente não são independentes, mas um supõe outro?

7. O ministério da Reconciliação

Só Deus perdoa os pecados (cf Mc 2,7). Não é o padre! a obra da reconciliação, revelada por Jesus Cristo, confiada aos apóstolos e confirmada pelo Espírito Santo, é iniciativa do Pai. Ele é o “único que pode perdoar os pecados” (RP n. 8). “É Deus quem reconcilia com ele o mundo por meio de Cristo” (2Cor 5,19). São Paulo exorta: “em nome de Cristo, suplicamos: deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5, 20). Deus é a fonte da graça reconciliadora e do ministério da reconciliação. A Igreja, como povo de Deus, é instrumento da conversão e do perdão. Impulsionada pelo Espírito Santo, ela age de diversos modos no exercício da obra da reconciliação que Deus lhe confiou. Chama à conversão pela pregação da Palavra, intercede em favor dos pecadores, ajuda aos penitentes a fim de que reconheçam e confessem suas faltas e, assim, obtenham a misericórdia de Deus (cf. RP n. 8).

A Igreja exerce o ministério do sacramento da Penitência por meio dos bispos e dos presbíteros. Contudo, os ministros do sacramento da Penitência e da Reconciliação, em virtude do sacramento da Ordem, acolhem os penitentes e perdoam seus pecados “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (RP n. 9). Eles não são proprietários, mas servos do perdão de Deus, agindo em nome e segundo a caridade de Cristo. O ministro age sempre em nome de Jesus Cristo, o Bom Pastor e da Igreja, comunidade orante e acolhedora. Através do ministro, Jesus Cristo se encontra com o pecador arrependido e lhe comunica: “a paz esteja contigo”! Libertando-o do pecado, enche-o de luz e de alegria. Deus Pai acolhe e comunica ao penitente seu amor misericordioso. Santo Afonso afirmava que a ação primordial do ministro consistia em “tornar-se imagem do Pai celeste”. Mais do que um inquisidor, o ministro da Reconciliação, é um irmão entre os irmãos, que acolhe com gentileza, escuta com afeição, orienta com firme sabedoria e, animado pela compaixão de Cristo, proclama com largueza a Boa-Nova do perdão.

Ao ministro do sacramento da Penitência, o Ritual recomenda: acolha com benevolência e saúde amavelmente o penitente que se aproxima para confessar seus pecados; faça o sinal-da-cruz juntamente com o penitente; exorte o penitente à confiança na misericórdia de Deus; leia um texto da Sagrada Escritura que proclame a misericórdia de Deus e a conversão; ajude o penitente, se necessário, a fazer a confissão íntegra; oriente à contrição de suas culpas, recordando-lhe que ele, pelo sacramento da penitência, morrendo e ressuscitando com Cristo, renova-se no mistério pascal; sugira ao penitente, segundo a sua condição, a penitência para a satisfação do pecado e renovação de sua vida; solicite que manifeste sua contrição; proclame a absolvição, com as mãos estendidas sobre a cabeça do penitente; louve a Deus por sua misericórdia; despeça o penitente animando-o a viver em paz (cf RP nn. 41-47);

Do ministro da Penitência, além de esmerada preparação teológica e equilíbrio afetivo, requer-se comprovada consciência e experiência das realidades humanas. Ele deve primar pelo respeito e delicadeza, pelo amor à verdade e fidelidade às orientações da Igreja, para conduzir o penitente no rumo do encontro reconciliador com Deus e com a Igreja.
Seria oportuno aqui, recordar uma parte da prece de ordenação presbiteral, onde o Bispo reza sobre o ordenando: “que ele esteja sempre unido a nós, Senhor, para implorar a vossa misericórdia em favor do povo a ele confiado e em favor de todo o mundo”.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Como você entende o ministério do confessor? Que dúvidas você tem?
2. E que experiências significativas este ministério já lhe proporcionou em sua vida?
3. Sugerimos estudar este artigo juntamente com o padre de sua comunidade e dialogar com ele sobre este ministério.

Fonte: Liturgia em Mutirão III - CNBB
http://www.cnbb.org.br/site/component/docman/cat_view/236-liturgia-em-mutirao-iii

quarta-feira, 3 de março de 2010


Olá pessoal! Achei esse texto fantástico e reflete o que infelizmente também vem acontecendo no meio católico. Leiam! Muito interessante! Pe. Cristiano Marmelo


____________________________________________________________________
Idolatria Gospel: Um show de horrores


Qualquer cristão que tem o mínimo de conhecimento bíblico entende que Deus odeia a idolatria. Em 1 Coríntios 6:9 Deus alerta que os idólatras não herdarão o Reino dos céus. Em outra parte das escrituras lemos: “Não terás outros deuses diante de mim”. (Êxodo 20:3). Podemos ficar horas e horas citando trechos bíblicos acerca da mesma verdade: Deus quer estar em primeiro lugar de nossas vidas. Aqueles que querem ser verdadeiros adoradores deverão ter olhos para um só Deus. Isto é uma verdade inquestionável.

Também é verdade que a Igreja precisa ter modelos, precisa ter exemplos de vida com Deus, exemplos em todas as áreas de liderança, pastoral, nas artes, missões etc. A estas pessoas chamamos de referenciais. Paulo era um referencial de sua época: “Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam”. (Filipenses 3:17). Precisamos ter líderes que nos dirijam, que nos abençoem, que nos ajudem a chegar aos níveis já alcançados por eles, que nos dêem um norte em Deus.

Referenciais têm um enorme poder de influência sobre as pessoas como um todo. É por isso que quando algum destes referenciais cai em pecado, muitas pessoas caem em desilusão e os mais fracos tendem a abandonar a fé. Em geral, o povo é abalado quando um líder ou um referencial de grande influência comete falhas em público. E quanto maior a “bomba”, maior é o estrago. A Bíblia alerta: “Não dando nós escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado...” (2 Coríntios 6:3).

Um erro grandioso que a Igreja de hoje tem cometido e sofrido sérias conseqüências é o pecado da idolatria. E fazemos isso dando uma série de boas desculpas esfarrapadas. Por exemplo, quando quero idolatrar meu cantor gospel preferido, exaltando-o sobre as alturas, falo às pessoas que ele é um grande homem de Deus, um referencial para mim. Aí faço desta pessoa meu ídolo, tendo em casa um altar para ele, com todos os seus CDS e livros, com todos os seus artigos escritos, com uma foto autografada, uma camisa do fã-clube e outros apetrechos que farão parte do meu devocional a este ídolo. Assim a pessoa acaba se tornando um idólatra, tornado seu próprio irmão na fé num deus. Atenção: Adorar também significa “devotar a vida”.

Não há outras palavras para se dizer uma verdade dura que já está sendo ecoada no Brasil: a Igreja brasileira fez de seus referenciais grandes ídolos como o bezerro de ouro erguido pelo povo de Israel no deserto (Êxodo 32:4). Isto nós fizemos e por isso estamos pagando um preço tão caro. A Lei da Semeadura está valendo ainda hoje. A Igreja plantou idolatria, vai colher coisa ruim, maldição, destruição. Disto não duvidamos.

A Idolatria Evangélica Gospel Brasileira permitiu este show de horrores:

• Ídolos gospel que não “ministram” por menos de 15, 20, 30 mil reais.
• Ídolos gospel que decidiram por loucura própria fazer uma lista de exigências que nem Jesus, Paulo ou João fizeram quando exerciam seu ministério: hotéis 5 estrelas, frutas tropicais, água mineral de marcas específicas, dezenas de seguranças, carro blindado... e outras coisas que não vou pôr aqui pois não vão acreditar em mim.
• Ídolos gospel que são indiferentes e preconceituosos com certas cidades, regiões, raças, e condição espiritual. Por exemplo: tem gente que não “ministra” em certos lugares porque há muita frieza espiritual, eles só querem “ministrar” em lugares que já estão “avivados”.
• Ídolos gospel que se isolam da liderança espiritual de sua igreja para não precisar responder a ninguém sobre seus trambiques e pecados. Aparentemente chegaram num nível tão alto que não precisam mais de pastor e de igreja para acompanhá-los, agora podem caminhar sozinhos. Por isso temos visto tanto insubmissão e rebeldia em “ministério grande”.

Quem é o responsável por este show de horrores? Quem é o culpado? Penso que o culpado somos todos nós que fazemos parte da igreja pois temos alimentado nossos ídolos. Damos a eles o que eles pedem, e é por isso que as exigências aumentam a cada dia. Enquanto pagamos 25 mil reais pra um irmão cantar num evento, deixamos missionários morrerem de fome aqui no Brasil e lá fora. E ainda dizemos: se o missionário passa fome é porque está em desobediência. Quanta hipocrisia!

A coisa está tão feia que ninguém pode denunciar os pecados da igreja. Se alguém se levanta contra essa pouca vergonha dos absurdos cachês e exigências, dos pecados escondidos, da rebeldia contra os pastores, da idolatria escrachada, da tietagem é rapidamente apedrejado pelos idólatras daquele determinado “deus gospel”. É igualzinho no Velho Testamento: “não desrespeite o meu deus que eu não desrespeito o seu”.

Meus irmãos não me entendam mal. Não me interpretem mal. Estou aqui tecendo pesadas críticas contra a idolatria. Estou denunciando o pecado, não o pecador! É disso que tenho nojo, e é contra este terrível pecado que temos que lutar. Se a Igreja não acordar colherá frutos tenebrosos. Se sabemos da existência de um Deus verdadeiro, se conhecemos o seu amor, e o trocamos deliberadamente por outros deuses, vamos pagar caro por isso. Aliás, já estamos pagando caro por isso!

Deixe-me fazer algumas perguntas que atualmente tem feito meu coração doer: - Quanto Jesus cobrou para exercer seu ministério e morrer na cruz por nós? Qual foi o cachê que Paulo cobrou para ser aprisionado junto com Silas nas piores prisões da época? Quais foram as exigências de nossos irmãos que morreram recentemente na China por não negarem o Evangelho? Quanta glória Jesus quis tomar para si quanto o chamaram de bom mestre? Quantas viagens Paulo negou por não atenderem suas exigências?

Precisamos urgentemente de referenciais que apontem para Deus. Precisamos de mártires. Precisamos de humildade, simplicidade e pureza de espírito. Precisamos nos arrepender. Precisamos saber que “...o viver é Cristo, e o morrer é lucro”. (Filipenses 1:21)

Quanto aos ídolos de ouro que levantamos... não precisamos deles!

"Então disse Jacó à sua família, e a todos os que com ele estavam: Tirai os deuses estranhos, que há no meio de vós, e purificai-vos, e mudai as vossas vestes". (Gênesis 35:2)

Um abração em Cristo Jesus




Ramon Tessmann
http://www ramontessmann.com.br

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010


Os Sacramentos 2


Ione Buyst


1. OS SACRAMENTOS SÃO SÍMBOLOS?

Sacramentos: sinais sensíveis...

Temos o costume de chamar de “sacramentos” os gestos principais que expressam e sustentam nossa fé cristã: batismo, confirmação, eucaristia, reconciliação, unção dos enfermos, ordenação, matrimônio. São sinais sensíveis que realizam aquilo que significam (Cf. SC 7). E o que significam? São chamados a significar, cada qual a seu modo, o mistério da nossa fé, o mistério pascal de Jesus, o Cristo. Pelo batismo, somos mergulhados na morte de Jesus, para ressuscitarmos com ele (Cf. Rm 6, 3-11). Também, ao realizarmos a ação eucarística, realiza-se em nós, sacramentalmente, em mistério, a morte-ressurreição de Jesus, a sua páscoa.

Uma nova teoria para explicar os sacramentos...

Em cada época da história, os cristãos tentaram estudar e explicar, na medida do possível, estas ações sacramentais. Nenhuma explicação será jamais totalmente satisfatória, porque mistério tão grande não cabe em explicações; compreendemos apenas pela fé, instruída pelas Sagradas Escrituras; compreendemos pela experiência celebrativa e pela experiência do seguimento de Jesus no dia-a-dia de nossa vida. Mas, como somos seres racionais, devemos tentar explicar e entender racionalmente, até onde der...

Atualmente, a maneira de explicar o que acontece quando celebramos um sacramento passa pela “teoria simbólica”. A realidade teológica (sacramento) é analisada do ponto de vista antropológico, enquanto símbolo. Por exemplo, o que acontece no batismo? Num sinal sensível (mergulhar e retirar das águas), aparece e começa a atuar uma realidade escondida, oculta a nossos sentidos. Qual é esta realidade? O mistério pascal de Jesus Cristo. Deixando-nos batizar, optamos por uma vida de seguimento de Jesus, que viveu uma vida de doação, de entrega, de compromisso total com o reino de Deus. E confiamos que, assim, o Pai nos dará a vida em plenitude, numa comunhão de vida, para sempre. Somos identificados com Cristo na sua morte-ressurreição. Sua páscoa acontece em nós.

A graça supõe e assume a natureza...

O sinal sensível do batismo é um elemento da natureza (água), uma ação de nossa experiência cotidiana ou social com seu sentido evidente (mergulhar na água, correr o perigo de afogar-se numa enchente, ser retirado(a) das águas por outra pessoa, que às vezes até arrisca sua vida para nos salvar...). Este primeiro sentido recebe um complemento das Sagradas Escrituras, principalmente do Novo Testamento, onde este gesto se refere a Jesus e àqueles que se tornam seus seguidores: seu batismo no Jordão, seu batismo na morte, sua ressurreição, como salvamento por parte do Pai, e nossa participação em sua morte-ressurreição.
A força vital, a energia psíquica gerada pela simbolização é como que potencializada pelo Espírito Santo. O dinamismo do Espírito Santo se manifesta e trabalha no gesto humano simbólico. O Sopro Divino assume a água e a transforma, a transfigura, fazendo aparecer a vida divina na realidade humana. A realidade teologal se encarna e se manifesta e atua na realidade humana, antropológica, seguindo a lei da criação, a lei da encarnação e da epifania, a lei da ressurreição e da escatologia. A atuação do Espírito Santo passa pela ação simbólica; atinge-nos pela simbolização.

Seguindo a lei da criação...

Afinal, Deus nos fez assim, como seres corpóreos/espirituais. Ou como diz o relato bíblico da criação, somos feitos(as) de “barro e brisa”: o Senhor modelou um boneco de barro, soprou sobre ele com sua divina brisa, seu divino sopro, e assim nasceu o ser humano, como ser vivente. Por isso, a comunicação com os seres humanos, mesmo a mais espiritual, passa necessariamente pelo “barro”, pelo corpo, pelos sentidos, pela “matéria”. E os sacramentos seguem esta lógica, esta teo-lógica da criação. Nos sacramentos se unem a “matéria” e o Espírito.

Seguindo a lei da encarnação e da epifania (manifestação)...

São João, o evangelista, diz que em Jesus “o Verbo se fez carne”; a Palavra de Deus se fez gente com a gente; ergueu seu barraco no meio de nós. Deus se fez “barro”, “matéria”, corpo, possível de ser ouvido, visto, apalpado... por nós, seres humanos, para que pudéssemos entrar em comunhão com ele e encontrar assim nossa felicidade. Assim o expressa o mesmo São João no início de sua primeira carta: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, o que contemplamos e o que nossas mãos apalparam o Verbo da vida - porque a Vida manifestou-se (...) - o que vimos e ouvimos vo-lo anunciamos, para que estejais em comunhão conosco. E a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo. E isto vos escrevemos para que a vossa alegria seja completa” (1Jo 1,1-4).

Por isso, os sacramentos seguem esta lógica, esta teologia da encarnação e da manifestação de Deus em nossa humanidade: a realidade divina se manifesta a nossos sentidos, em coisas para ver, ouvir, sentir, cheirar, saborear..., e desta maneira entra em comunhão conosco.

Seguindo a lei da ressurreição e da escatologia...

Pela ressurreição, o corpo torturado, mutilado, crucificado de Jesus transformou-se em um corpo espiritual, pneumático. Nele nos tornamos gente nova, não mais escravos da natureza humana, mas gente que se deixa guiar pelo Espírito de Deus que ressuscitou Jesus dos mortos. Com ele iniciam os novos céus e a nova terra, já presente em germe entre nós. E os sacramentos seguem esta lógica, esta teologia da ressurreição e de escatologia: nos sinais sacramentais já está espiritualmente presente a realidade futura, o reino dos céus, a vida que não termina com a morte.

Sacramento é mistério...

É bom lembrar ainda que, a partir do Concílio Vaticano II, a palavra “sacramento” (que vem do latim) está sendo de novo entendida como “mistério” (palavra grega que, nos primeiros séculos do cristianismo, foi traduzida por “sacramento”). Falamos da Igreja como mistério. “Mistérios” são também a eucaristia e o batismo..., porque neles transparece para nós e nos atinge o mistério de Deus, a vida de Deus; Deus enquanto realidade que sustenta e abrange tudo quanto existe. No sacramento vivido como ação simbólica, o mistério aparece e atua: tocando os sinais sensíveis, tocamos o mistério e somos transformados(as) por ele.

Isto nos ajuda a não restringir o sacramento ao momento da celebração: a ação sacramental faz aparecer o sentido de toda a nossa vida, vivida em comunhão com Jesus Cristo, como experiência do mistério de Deus no mistério da vida humana. Ajuda-nos ainda a não entender o sacramento como um gesto quase mágico (batizou, salvou): é o mistério que atua em nós, é Deus, é o Espírito Santo do Cristo ressuscitado, que vai, ao longo de toda a nossa vida e com a nossa participação, nos transformando, nos revitalizando.

Os sacramentos são ações simbólico-sacramentais

Para deixar claro esta realidade humano-divina, gosto de dizer que o batismo (assim como os outros sacramentos) é uma ação simbólico-sacramental. “Simbólica”, enquanto realidade humana: “sacramental”, enquanto realidade divina; “simbólico-sacramental”, enquanto realidade humano-divina, na qual o divino e o humano estão aliados, entrelaçados, inseparáveis. E espero que, assim, vocês tenham se recuperado do primeiro susto com a pergunta que está como título desde artigo! Sim, sacramentos são símbolos, ações simbólicas. Mas para entender isso, você deve superar o sentido muito limitado que às vezes se dá no linguajar cotidiano, quando se diz: “É apenas simbólico”, como se fosse uma coisa que não deva ser levada muito a sério ou que não seja real!

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

1. Qual a compreensão que nós temos de sacramento? E o povo que procura os sacramentos em nossa Igreja, o que pensam a respeito disso?
2. Como entender as três leis da simbologia (criação, encarnação e ressurreição)? Ficou claro para nós esta explicação?
3. Como entender a afirmação de que os “sacramentos são símbolos”?

2. SÍMBOLOS? OU SINAIS?

Todos os símbolos são sinais, mas nem todos os sinais são símbolos. Os sinais não simbólicos recebem sua significação como que de fora, pela convenção entre os membros de um determinado grupo cultural. São arbitrários; poderiam ser substituídos por outros. Um sinal vermelho no trânsito, por exemplo, é um sinal e não um símbolo.

O símbolo tem sua raiz no inconsciente e expressa uma experiência vivida a um nível anterior à conceituação. Ou, como o expressa um outro autor: é movido pelo autor: é movido pelo desejo, que é insaciável e almeja a totalidade do real, ou melhor, almeja Alguém que possa satisfazer nosso desejo.

Por isso, no símbolo existe como que uma relação interna que revela a unidade entre sinal sensível e realidade significada. Por exemplo, água como símbolo de purificação, de vida. A água em si já contém como que o sentido de purificação, de vida. Não é algo que é imposto de fora, racionalmente.

Símbolo não é o resultado de uma transferência de significação além da matéria, mas a própria articulação da densidade da matéria, que conserva sua totalidade de ser, em vez de ser escamoteada pelo espírito. (...) A matéria é investida pelo espírito.

Símbolos atingem o ser humano como um todo

Vamos nos lembrar de alguma celebração passada... O que ficou gravado em nossa memória? Provavelmente, os cantos, os símbolos e principalmente as ações simbólicas. Por que isso? Porque atingem nossa pessoa como um todo; não só a nossa mente, mas também nossa afetividade, partindo do corpo e, atingindo através dele, as camadas mais profundas de nosso ser.

Uma especialista em eutonia, Thérèse Bertherat, nos lembra o seguinte:

Cuidado com o corpo, disse-me há muito um psicanalista que assistira às minhas aulas. Nosso corpo pertence ao domínio da mãe. Quando você procura abordar o ser pelo corpo, você entra diretamente nas camadas arcaicas da personalidade.

E podemos dizer que nos liga não somente com o domínio da mãe, matriz geradora de nossa vida, mas nos liga ainda com a matriz geradora de toda vida: Deus.

A liturgia é feita com “sinais sensíveis” (SC 7), usados simbolicamente. Partindo de nosso corpo, penetram nossa afetividade, nossa consciência, nosso inconsciente...

São capazes de ligar, unir, juntar (symbállo):

• Corpo, alma, mente, espírito... de cada um de nós;
• As várias pessoas participantes, estreitando os laços na assembléia;
• Cada um de nós e a comunidade reunida com a realidade (tanto cósmica quanto histórica) que nos cerca;
• Cada um de nós e a comunidade reunida com Aquele que é a fonte da vida;
• Presente e passado, céu e terra, “matéria” e “espírito”...

Através de nossa participação nas ações simbólicas, temos acesso à realidade que existe para além do sensível, para a qual os símbolos e ações simbólicas remetem. E qual é esta realidade? Para nós, cristãos, esta realidade é o próprio Jesus Cristo glorificado em sua páscoa. Assim, a nossa participação na ação ritual da liturgia é páscoa de Cristo na páscoa da gente, páscoa da gente na páscoa de Cristo.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

1. Conseguimos entender a diferença que existe entre “sinal” e “símbolo”?
2. Vamos elencar alguns “sinais” e alguns “símbolos” mais presentes em nossa vida para que possamos fazer bem esta distinção?
3. Quais as realidades de nossa vida, de nossa história e de nossa comunidade que um “símbolo” pode “ligar, unir, juntar”?

3. AÇÕES SIMBÓLICAS DE DIFERENTES PESOS E “DENSIDADES”

Nem todos os símbolos e ações simbólicas têm um peso igual. Há gestos considerados fundamentais, porque foram deixados pelo próprio Senhor Jesus, como por exemplo a ceia e o batismo; outros também têm um peso bastante grande, porque fazem parte da tradição apostólica; outros podem ser criados por cada comunidade.

Podemos imaginar a eucaristia no centro de vários círculos concêntricos; em volta dela, os outros sacramentos e sacramentais, e depois a Celebração da Palavra, a Liturgia das Horas...
Gestos litúrgicos no prolongamento de gestos cotidianos

Cada um dos gestos fundamentais dos sete sacramentos estão no prolongamento de gestos cotidianos, domésticos, muitos deles ligados à cozinha, à higiene e saúde... Estão no prolongamento também de gestos religiosos da piedade popular ou mesmo de outras religiões, fora de nosso universo cultural... Devemos estudar, observar e anotar as relações que existem entre eles.

• Eucaristia tem a ver com agradecer, fazer um brinde para homenagear alguém..., comemorar um aniversário ou uma vitória com comes e bebes, confraternização, comer e beber para se alimentar, tomar refeição juntos, festejar...; tem a ver com a festa das folias de Reis e do Divino, com sua fartura de comida e bebida partilhada...

• Batismo tem a ver com tomar banho, quase se afogar e ser retirado da água, salvar alguém de uma enchente; tem a ver com os banhos medicinais da hidroterapia; tem a ver com os batismos e banhos em tantos ritos religiosos...

• Ungir tem a ver com passar óleo, bálsamo, unguento, creme, pomada medicinal (azeite, óleo de almíscar, de pinho, de alfazema,...). Tem a ver com passar perfume... É sinal do Espírito de Deus com o qual somos consagrados para Deus, consagrados para a missão messiânica (Cristo= Ungido= Messias); sinal do Espírito que penetra em nós para dar força, dignidade, alívio; sinal do Espírito que nos faz espalhar na sociedade a boa-nova de Jesus Cristo, como um perfume agradável e cheiroso que conquista, anima e dá alegria...

• O sacramento da reconciliação tem a ver com os gestos da pessoa que reconhece seu erro, pede perdão, sente-se perdoada, tem a ver com a reconciliação de duas ou mais pessoas que se desentenderam... Vamos observar ou lembrar as expressões verbais e os gestos com os quais, no dia-a-dia, as pessoas se reconciliam... (abraços, apertos de mão, olhar, sorriso, presentes...).

É importante a gente sentir e fazer sentir a relação que existe entre os gestos cotidianos, os gestos religiosos e os gestos expressamente sacramentais. É importante valorizar ações simbólicas que estão como que no prolongamento dos sete sacramentos e vice-versa:

• Ligada ao batismo está a aspersão com água (na celebração dominical, nas bênçãos, nas exéquias...)
• Ligado à celebração eucarística está o ágape, ou refeição fraterna.
• Ligados com o sacramento da ordem estão os ritos para reconhecimento de outros ministérios, como ministros (as) extraordinários (as) da sagrada comunhão, ministro (as) do batismo etc.
• Ligadas ao sacramento da reconciliação estão as celebrações penitenciais.
• Ligadas ao sacramento do matrimônio estão as celebrações de bodas, com sua bênção das alianças.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

1. Você já tinha percebido que os gestos e ritos sacramentais tem tudo a ver com nossos gestos e ritos cotidianos?
2. Qual a frase que mais lhe chamou a atenção neste artigo? Por que? Como ela pode lhe ajudar a melhor compreender, celebrar e viver os sacramentos?

4. A LITURGIA COMO REALIDADE SIMBÓLICO-SACRAMENTAL

Sacramentos são liturgia, liturgia é sacramento

Sacramentos são ações simbólico-sacramentais, pelas quais o Cristo Ressuscitado, presente em sua Igreja, nos atinge e nos transforma com seu Espírito vivificante. Por seus sinais sensíveis, quando realizados na fé, trazem presente e realizam em nós aquilo que significam: a salvação, a páscoa, a chegada do Reino, nossa comunhão em Deus.

Acontece que toda essa teologia que encontramos no início da constituição conciliar sobre a Sagrada Liturgia (SC 5-8) não diz respeito somente aos sacramentos, mas à liturgia como um todo. Basta olhar a seqüência dos capítulos da constituição para nos darmos conta disso. Vejam: o capítulo primeiro trata da liturgia em geral (incluindo os sacramentos); os capítulos seguintes tratam de várias celebrações litúrgicas específicas ou de alguns de seus elementos: Eucaristia, demais sacramentos e sacramentais, ofício divino, ano litúrgico, música sacra, arte sacra e sagradas alfaias.

Portanto, não somente nos gestos centrais dos sacramentos Cristo está presente e atua com seu Espírito, mas em todas as celebrações litúrgicas (ofício divino, por exemplo) e na celebração litúrgica como um todo, em todos os seus elementos (assembléia, ministérios, palavra, música, silêncio, gestos e atitudes do corpo, ano litúrgico, espaço sagrado...). Vale a pena reler o n. 7 da constituição conciliar, que fala dessas várias maneiras de Cristo estar presente na liturgia: no ministro da celebração eucarística, no pão e no vinho eucarísticos, nos sacramentos, pela sua palavra, quando a Igreja ora e salmodia:

“Para levar a efeito obra tão importante [obra da salvação], Cristo está presente em sua Igreja, sobretudo nas ações litúrgicas. Presente está no sacrifício da missa, tanto na pessoa do ministro, “pois aquele que agora oferece pelo ministério dos sacerdotes é o mesmo que outrora se ofereceu na cruz”, como sobretudo sob as espécies eucarísticas. Presente está pela sua força nos sacramentos, de tal forma que quando alguém batiza é Cristo mesmo que batiza. Presente está pela sua palavra, pois é ele mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na igreja. Está presente finalmente quando a Igreja ora e salmodia, ele que prometeu: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estarei no meio deles” (Mt 18, 20)”.

Assim, a liturgia como um todo é celebrado sacramental do mistério pascal de Jesus Cristo. A liturgia como um todo tem força simbólico-sacramental e como tal deve ser celebrada e vivida.

A cada gesto, a cada palavra, a cada olhar..., estamos trazendo presente e atuante (ou não!) o mistério e a força da páscoa de Jesus, que veio para transformar nossas vidas: entrar na igreja, andar, encontrar-se com os irmãos, fazer o sinal da cruz, abraçar-nos uns aos outros(as), beijar o altar, proclamar ou ouvir a palavra, cantar, mergulhar no silêncio, ver as flores que enfeitam o espaço de celebração... Em todos esses gestos e momentos, podemos viver (ou não!) o encontro com o Ressuscitado e, através dele, com o Pai, no Espírito Santo.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

1. Vamos ler juntos e comentar o número 7 da Constituição Sacrosanctum Concilium?
2. Olhando para as nossas comunidades: os sacramentos são valorizados e vividos como ações simbólicas? Como podemos ajudar as pessoas a perceberem esta realidade?

5. NÃO À “SIMBOLOMANIA”

Infelizmente, tanto no estudo da teologia, como na prática pastoral, a liturgia é tratada muitas vezes como se fosse um enfeite, uma parte “externa”, um “embrulho” para a graça sacramental. Não é levada suficientemente a sério enquanto realidade simbólico-sacramental. Os sinais sensíveis, nem mesmo os dos gestos sacramentais, são vividos como ações simbólicas: é água de qualquer jeito; são hóstias que não têm aparência nem gosto de pão e que são entregues sem levar em conta o relacionamento pessoal entre quem dá e quem recebe; é vinho só para os padres; são textos bíblicos lidos de folhetos, são pessoas que estão juntas no mesmo espaço, porém já sem se reconhecerem e sem se tratarem como irmãos e irmãs, como Corpo de Cristo... Caímos no formalismo, no ritualismo, no sacramentalismo, na rotina.

“Simbolomania”

E aí, quando a própria liturgia já não é vivida como ação simbólico-sacramental, surge a necessidade de criar... símbolos! Outro dia, alguém disse que estamos sofrendo de “simbolomania”: queremos “encher” a celebração de “símbolos” (serão, de fato, símbolos? Ou apenas objetos mostrados à assembléia, com longas apresentações, querendo “explicar” o que significam ou “simbolizam”?). Nós nos esquecemos de que a ação simbólica mais central, mais importante, porque mais densa de expressão de nossa fé, é a celebração da Eucaristia (ceia do Senhor). Ao redor dela giram também e participam de sua dimensão sacramental, todos os outros elementos que juntos formam a realidade litúrgica. Portanto, não se trata de nos preocupar em trazer uma série de símbolos e ações simbólicas na liturgia, mas de redescobrir cada gesto, cada objeto, cada pessoa..., dentro da liturgia como ação ou realidade simbólico-sacramental. Trata-se de vivenciar profundamente cada parte da celebração como manifestação, participação e comunhão no mistério revelado em Jesus.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:

1. A sua comunidade sofre de “simbolomania”? Caso sim, como remediar?
2. Como sugestão:
• Vamos tentar viver a liturgia, com todos os seus elementos, como ação simbólico-sacramental, começando com a própria Eucaristia e os demais sacramentos e sacramentais.
• Introduzindo outros símbolos ou ações simbólicas, vamos fazer com que estejam integrados no tempo litúrgico, na ação litúrgica que estamos celebrando.


Fonte:
www.cnbb.org.br (Liturgia em Mutirão III)

sábado, 20 de fevereiro de 2010


Os Sacramentos

Pe. Gregório Lutz, CSSp


1. O que se entende por “Sacramento”?

Muitos católicos dizem que os sacramentos são sinais de graça. Alguns dizem com mais precisão que são sinais eficazes de graça. Outros acrescentarão que foram instituídos por Jesus Cristo. E certamente não faltará quem diz que existem sete sacramentos, e os enumera: Batismo, confirmação, eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem e matrimônio. Mas assim é realmente claro o que é um sacramento?

Para conseguirmos mais clareza, olhemos uma vez como se realiza um sacramento, por exemplo, o batismo, um casamento ou uma celebração da eucaristia! Há sempre um grupo grande ou pequeno de pessoas reunidas que ouvem a Palavra de Deus e a ela respondem em oração e canto, e há sempre também um rito, gestos e sinais, acompanhados por palavras que dizem o que este gesto significa. Tal significado vai sempre além da simples ação física. A ação sacramental opera a salvação, leva a ação salvífica de Cristo aqui e agora a efeito nas pessoas que celebram o sacramento. Esta eficácia dos sacramentos é evidentemente obra divina que se dá através das ações simbólicas dos ministros dos sacramentos, e não sem a cooperação da assembléia dos fiéis e, sobretudo, daqueles que recebem um sacramento. Estes devem se abrir para o dom da graça que Deus lhes quer dar no respectivo sacramento. E toda a comunidade reunida participa da ação sacramental, pelo menos ouvindo a Palavra de Deus e respondendo a ela em ação de graças e louvor, assim como em súplica e intercessão.

A instituição dos sacramentos por Jesus Cristo procurava-se - e muitos ainda procuram - prová-la para cada sacramento do Novo Testamento. Isso é possível para o batismo e a eucaristia, talvez ainda para a penitência; para os outros sacramentos é mais difícil ou impossível. Mas, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, a origem dos sacramentos em Jesus Cristo não se vê como instituição jurídica, mas como um nascimento do próprio Jesus.

Reflexões posteriores mais detalhadas sobre a origem dos sacramentos, sua estrutura em sinais e palavras, e a ação sacramental em conjunto de Deus e da Igreja, nos ajudarão a entender ainda melhor o que é mesmo um sacramento.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Que definição ou descrição de “sacramento” você aprendeu na catequese?
2. Que perguntas esta definição ou descrição deixou em aberto?
3. O que você diria agora em breves palavras, se alguém perguntasse: o que é um sacramento?

2. A origem dos Sacramentos

Geralmente se diz que os sacramentos foram instituídos por Jesus Cristo. No entanto, os evangelhos nos relatam apenas a respeito de dois sacramentos que foram claramente instituídos por Jesus: a eucaristia e o batismo. Na aparição do Senhor ao grupo dos apóstolos na tarde do dia da ressurreição, quando Ele soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo! A quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aos quais retiverdes, ser-lhes-ão retidos”, se vê ainda a instituição do sacramento da penitência.

Poderia-se entender a instituição dos sacramentos como uma ordem, um ato jurídico de Jesus. Mas para podermos afirmar tal instituição dos outros sacramentos não se encontram dados suficientes no Novo Testamento, embora todos os sete sejam de alguma maneira mencionados nos Atos ou em cartas dos apóstolos.

No entanto, a origem dos sacramentos em Jesus Cristo pode ser vista de outra maneira, como de fato vários Padres da Igreja a tem visto e como o Concílio Vaticano II, que também a esse respeito voltou às fontes, reafirmou. Conforme eles, os sacramentos não têm sua origem num ato jurídico de Jesus, mas no seu próprio ser. Como Ele é sacramento do Pai e a Igreja é sacramento de Jesus Cristo, assim a Igreja, o sacramento universal, se desdobra nos sete sacramentos. Eles têm, portanto, sua origem em Jesus, como a Igreja mesma. O Vaticano II diz em sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia, a “Sacorsanctum Concilium”, citando Santo Agostinho: “Do lado aberto de Cristo dormindo na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja” (SC 5). A origem da Igreja e, com ela, dos sacramentos, é, portanto, não um mandato jurídico, e sim um ato vivencial Dele, pelo qual o Senhor da Glória se torna e fica presente na Igreja, seu corpo místico, até o fim dos tempos.

O evangelista São João escreve no seu evangelho que Jesus morrendo entregou o espírito. Com isso ele quer dizer mais do que simplesmente afirmar a morte de Jesus. Pelo contexto do quarto evangelho é claro que São João quer dizer que Jesus na sua morte entregou o Espírito Santo e que assim nasceu a Igreja com os sacramentos, particularmente os do batismo e da eucaristia, simbolizados pelo sangue e a água que jorraram do lado aberto de Jesus.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Porque a explicação da origem dos sacramentos aqui apresentada pode satisfazer mais do que a tradicional, que supõe um ato jurídico de Jesus para cada sacramento?
2. Por que os sacramentos podem ser chamados “sinais do amor de Deus”?

3. Os sacramentos como sinais da ação de Deus

Os sacramentos são sinais. Um sinal remete a uma realidade diferente do próprio sinal. Por exemplo, um sinal numa estrada que diz que até uma determinada cidade a distância é de tantos quilômetros, remete a esta cidade. Mas o sinal não é a cidade. Há outros sinais que remetem a uma outra realidade, mas de alguma maneira esta outra realidade já está presente no sinal mesmo. Por exemplo, o respirar de um corpo humano ou de um animal é sinal de que este corpo vive. O sinal do respiro não apenas remete à vida, mas ele mesmo é vida. Tais sinais que remetem e já contêm em si a realidade significada, normalmente são chamados de símbolos.

Devemos ainda lembrar que não somente coisas ou objetos podem ser sinais, mais igualmente gestos e ações. Assim, por exemplo, o sinal ou símbolo principal do batismo não é bem a água, mas a ação que se realiza com a água, o mergulho nela ou o derramamento da mesma. No entanto, os sinais dos nossos sete sacramentos podem ser ambíguos em seu significado. Um mergulho na água pode levar ao afogamento e a morte, mas pode também refrescar e vitalizar o organismo, pode dar a sensação de um novo nascimento. Os sinais e símbolos sacramentais podem ter sua origem em culturas que não são bem conhecidas, como é o caso da unção. Além de ser curativo e servir para fortalecer o corpo, ela pode significar, a partir da sua origem em Israel, a bênção de Deus ou a instituição de um rei ou sacerdote. Por isso que é muito importante a palavra que acompanha um gesto sacramental, porque determina o que ele significa na respectiva ação sacramental.

Na celebração dos sacramentos, além do rito central ou essencial, também outros elementos rituais tem valor simbólico, igualmente os objetos do culto, a assembléia e os ministros, sobretudo os ministros próprios do sacramento e até o espaço no qual se realiza a celebração

Necessariamente coloca-se, neste contexto, a pergunta: Como tais sinais, ações, pessoas e objetos que entram no rito do sacramento, podem ter valor salvífico? Isso é possível porque Deus está agindo nos sacramentos. Ele está presente e agindo na Igreja, da qual os sacramentos são os momentos mais intensos de vida, desde que a Igreja com seus sacramentos nasceu na cruz, quando Jesus entregou o Espírito. Os sacramentos são um prolongamento da presença e ação de Jesus no mundo. A ação de Deus se mostra e realiza não somente pela ação dos ministros da celebração, mas também de todos aqueles que na celebração se abrem para a ação de Deus, em primeiro lugar quem recebe o sacramento. Assim pode-se realizar aquilo que os sacramentos e toda a liturgia visam: levar a efeito a obra de salvação realizada por Jesus, sobretudo na sua páscoa.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Por que os sinais sacramentais não são magia?
2. A quem se deve que os sacramentos levam a efeito a salvação?

sábado, 26 de dezembro de 2009


A inculturação da liturgia romana
na história da Igreja (I Parte)

Pedro Boléo Tomé

1. A Antiguidade apostólica e o nascimento da liturgia romana

A liturgia cristã nasce e desenvolve-se em estreita ligação e dependência da tradição judaica. Não são abolidos os antigos ritos, ao menos em totalidade, mas outorga-se-lhes um novo significado. O próprio estilo e modo de rezar sofre uma forma de inculturação 1.

A liturgia cristã não nasce, portanto, como algo totalmente novo, mas, sob a orientação do Espírito Santo, desenvolve-se sobre matrizes preexistentes mediante um discernimento: de acolhimento de tudo aquilo que está em harmonia com a tradição apostólica e fiel à história da salvação; de exclusão (ou de purificação) de aquilo que é contrário ao Evangelho e à prática cristã; de reinterpretação, dando aos sinais, ritos e modelos, novos conteúdos e novos significados 2.

Pouco a pouco, fez-se sentir uma certa influência helênica. Com a paz de Constantino (édito de Milão, 313), dá-se um mais aberto contacto com a cultura helênica, atenua-se a oposição aos ritos pagãos e alguns elementos desta tradição são assumidos na liturgia.

Mas olhemos para Roma, pois o presente artigo pretende tratar da inculturação da liturgia romana. A Igreja localizada no território romano começa a ser Igreja Romana. Assumem-se na liturgia e, particularmente, no cerimonial pontifical certos elementos provenientes da corte imperial. A linguagem e os sinais são, no entanto, espiritualizados à luz da Sagrada Escritura e referidos ao mistério de Cristo 3.

Posteriormente, a sociedade sofrerá profundas transformações, no entanto estas insígnias e elementos permanecerão tal como foram assumidos. São institucionalizados e estilizados. Tornam-se, assim, sinais de uma cultura que já não é civil, profana, mas puramente simbólica, «sacra» 4.

Foi tradicional durante muito tempo considerar a existência de uma única liturgia para toda a Igreja, que depois viria a dar lugar às restantes tradições litúrgicas. Atualmente, alguns autores começam a pôr em dúvida essa uniformidade litúrgica dos primórdios da Igreja. No entanto, derivada de uma única liturgia ou não, com o tempo, nas sedes das grandes metrópoles antigas (Jerusalém, Antioquia, Alexandria, Constantinopla, Roma, Milão, Ravena, Aquileia, etc.) nascem tradições litúrgicas, ou também chamadas famílias litúrgicas. A estas sedes estava ligada a memória e a voz autorizada de santos bispos, e deve-se tanto à necessidade de uma adequação a diversas culturas, como à busca de diferentes formas e fórmulas que permitissem conservar inalterada, mais facilmente, a vitalidade da tradição litúrgica 5. Este fenômeno pode ser descrito como sendo simultaneamente de desenvolvimento, adaptação e inculturação.

Tanto a Oriente como no Ocidente, depois de um período de gestação caracterizado por uma incipiente criatividade de textos e da estruturação do tempo litúrgico, passa-se, na tentativa de se adaptar aos novos contextos culturais, a um período de verdadeira e própria criatividade litúrgica, tanto no que diz respeito aos textos, como às estruturas para os ciclos litúrgicos ou para a celebração dos sacramentos, de modo a alcançar a codificação ou cristalização dos tipos de famílias litúrgicas.

Encontramo-nos, portanto, hoje em dia numa situação diferente daquela da antiguidade apostólica. A inculturação que tratamos neste artigo, e que é impulsionada pela Igreja, a partir do Vaticano II, é a inculturação da liturgia romana, e é neste sentido que deve ser entendida. Não tem por objetivo a criação de novas famílias rituais. Por isso, para responder às necessidades de uma cultura determinada, o Concílio Vaticano II abre a possibilidade de adaptar o Rito romano 6, partindo das edições típicas estabelecidas 7. Nesta época inicial começa a desenvolver-se a liturgia romana ou o Rito romano. Foi opinião generalizada durante o século XX por parte dos estudiosos a existência de uma liturgia romana «pura», que teria existido entre os séculos V e VII. Alguns falam especificamente dessa liturgia «pura» e procuram analisá-la 8. Outros, ao tratar a história da liturgia parecem, de alguma forma, partir dessa pressuposição 9. Por fim, surgem ainda autores que preferem falar, mais do que de um momento estático e bem delimitado no qual se formou a «essência» do Rito romano, de um desenvolvimento orgânico de enriquecimento e crescimento progressivo. Neste sentido, a liturgia romana pura nunca teria existido e, se alguma vez existiu, nunca foi igual a si mesma. Isto é, preferem falar de uma liturgia romana em evolução, de uma liturgia que se encontra continua e simultaneamente desenvolvida e em fase de desenvolvimento 10.

Este rito, que talvez nunca tenha existido numa forma «pura», era a liturgia vigente na metrópole de Roma e nas dioceses sufragâneas. Havia substituído uma liturgia em língua grega e comum à cristandade dos primeiros dois ou três séculos. Os Papas Dâmaso (366-384), Inocêncio I (401-461), Gelásio I (492-496), Vigílio (537-555) e Gregório Magno (590-604), são os grandes responsáveis da sua implantação e formação. Com Gregório Magno promove-se a codificação da liturgia e alcança-se uma estrutura fixa em que a criatividade litúrgica é mínima.

2. Período franco-alemão: de Gregório Magno (590) a Gregório VII (1073)

Os livros da liturgia romana passam com relativa rapidez ao território franco-germano e aqui entram em contacto com a liturgia galicana (que existia e florescia já há vários séculos). Inicia-se assim uma múltipla e recíproca penetração.

Já com Pipino difunde-se o sacramentário gelasiano e verifica-se um início de reforma litúrgica. Posteriormente, no séc. IX, o imperador Carlos Magno, com a intenção de unificar o império, recorre à unidade da fé e da liturgia. Para tal, manda trazer os livros da liturgia romana e adapta-os à cultura galicana e, concretamente, à liturgia vigente nesse ambiente. Este período em questão constitui a época da liturgia romana sujeita ao influxo franco-germano. Confrontando tanto com os Ordines Romani originais como com o Pontifical Romano posterior, é fácil reconhecer o tipo de liturgia preferida por estes povos: desenvolvimento riquíssimo, material variado e abundante, estilo novo (mais longo, verboso, e dramático por vezes). O resultado é, portanto, uma combinação harmônica da herança romana antiga (caracterizada pelo equilíbrio, simplicidade, sobriedade, expressão estática) com o vigor dos novos povos (mais dinâmico, expansivo, vital, com tendência por vezes a uma espécie de anarquia) 11.

Por volta do século X sucede um processo similar com os imperadores da Germânia. Neste período Roma está em forte decadência litúrgica e a cúria está sem controlo. Os próprios imperadores, nas suas visitas a Roma, impõem o uso destes livros litúrgicos, outrora romanos, mas agora romano-germanos 12. O caráter simples, sóbrio e prático da liturgia romana cede lugar a uma nova cultura com outro tipo de mentalidade.

Vemos então como, sobre a base da liturgia romana, se adicionaram tradições tanto galicanas como germânicas que, posteriormente, foram introduzidas em Roma como próprias.

Parece conveniente salientar que, durante esta continua evolução, se realizaram inculturações erradas, que foram corrigidas ou eliminadas, em conjunto com as legítimas e verdadeiras, que perduraram 13.

Como a história demonstra, são casos pontuais de inculturações abusivas movidas por finalidades pastorais desviadas que a Igreja corrigiu e rejeitou.



3. De Gregório VII (1073) ao Concílio de Trento (1545)

No século X a vida litúrgica em Roma encontrava-se bastante degenerada e sofre uma influência muito positiva da obra litúrgica dos mosteiros franceses e germanos que, entretanto, tinham chegado a Roma graças aos imperadores. Efetivamente, Cluny, com a sua reforma, constituiu um fundamento seguro para a reforma da Igreja e da liturgia. A liturgia volta a florescer sob o influxo dos Papas da reforma: Gregório VII e Inocêncio III.

Gregório VII protesta contra a destruição da velha liturgia romana e procura restaurá-la. No entanto, ao não conhecer a real situação histórica, instaura e consolida a liturgia romano - franco - germana.

Os Papas ao retomarem o controlo da liturgia romana, põem fim às ingerências imperiais, e é imposto a todos os bispos da Igreja o uso dos livros litúrgicos de Roma. A partir de então, o nascente centralismo romano apenas permite a coexistência das liturgias de Milão e de Espanha. Para tal, a ordem mendicante de S. Francisco de Assis desempenhou um importante papel. Efetivamente, centrada, desde o segundo decênio do séc. XIII, num tipo de apostolado itinerante, constituiu-se em propagadora involuntária de uma forma muito concreta de liturgia romana: a liturgia da cúria romana. A razão é simples, tratava-se de uma liturgia adaptada às exigências dos capelães do Papa, que necessitavam de um ofício mais simples e prático 14, e que, portanto, possuía livros de transporte mais cômodo e de fácil manuseamento. Desta forma, por obra dos frades franciscanos, estas redações práticas e, especialmente, o «Missal» e o «Breviário da cúria romana», correram por todo o mundo, conseguiram uma boa aceitação e, evidentemente, foram copiadas. Assim, os discípulos de S. Francisco, facilitaram à liturgia ocidental uma standartização não só teórico - jurídica, mas sim efetiva.

Se este período se caracteriza pela adesão das dioceses ocidentais à liturgia romana e na progressiva unificação litúrgica, também se adverte que a atitude dos fiéis diante da liturgia se modifica profundamente. A liturgia, ação comum de sacerdotes e povo, parece reduzir-se agora a uma incumbência quase exclusivamente clerical. O povo assiste à missa, mas atento às suas devoções subjetivas, extra-litúrgicas. A assistência contenta-se com «ver», sem participar verdadeiramente, e produz-se uma distancia cada vez maior entre o celebrante e os fiéis 15.
__________________________
NOTAS
1. Cf. B. NEUNHEUSER, Storia della liturgia attraverso le epoche culturali, Tivoli 1988, pp. 15-22.
2. Cf. Ibíd., p. 41; A. TRIACCA, Sviluppo - Evoluzione - Adattamento - Inculturazione?, em I. SCICOLONE (ed.), L’adattamento culturale della liturgia, Roma 1993, p. 85.
3. Cf. A. CHUPUNGCO, Liturgia e inculturazione, em A. CHUPUNGCO (ed.), Scienzia liturgica, II, Casale Monferrato 1998, pp. 363 ss.
4. Cf. B. NEUNHEUSER, Storia della liturgia attraverso le epoche culturali, Tivoli 1988, p. 50.
5. No entanto, através destas variadas manifestações continua, no seio dos povos que aderem ao cristianismo, sem variações através dos tempos e dos testemunhos humanos, a única e comum (católica) tradição litúrgica. Da unidade primordial (judaico-cristã) passa-se à pluralidade expressivo-litúrgica. Por outras palavras, a universalidade da tradição litúrgica encarna-se na lei do particularismo das diversas tradições litúrgicas. Cf. A. TRIACCA, Liturgia e tradizione, em A. BERNARDINO (ed.), Dizionario patristico e di antichità cristiane, II, Casale Monferrato 1983, pp. 1980 ss.
6. Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Instrução Varietates legitimae (25.I.94), 36: AAS 87 (1995) 302.
7. Cf. SC, 38-39. Deve-se respeitar “a unidade substancial do Rito romano” (SC, 38) e partir das edições típicas estabelecidas (SC, 39).
8. Cf. B. NEUNHEUSER, Storia della liturgia attraverso le epoche culturali, Tivoli 1988, pp. 57-74. Este autor descreve desta forma os elementos formais característicos do génio da liturgia romana: “(...) notiamo subito la loro semplicità precisa, sobria, breve, non verbosa, poco sentimentale; la loro disposizione chiara e lucida; la loro grandeza sacra e umana insieme, spirituale e di gran valore letterario” (Ibíd., p. 67).
9. Cf. E. CATTANEO, Il culto cristiano in occidente, Roma 1984, pp. 97-123; M. RIGHETTI, Manuale di storia liturgica, I, Milano 1964, pp. 187-696; T. KLAUSER, Breve historia de la liturgia occidental, Barcelona 1968, pp. 28 ss.
10. Cf. A. TRIACCA, Sviluppo - Evoluzione - Adattamento - Inculturazione?, em I. SCICOLONE (ed.), L’adattamento culturale della liturgia, Roma 1993, p. 73-75.
11. Cf. B. NEUNHEUSER, Storia della liturgia attraverso le epoche culturali, Tivoli 1988, pp. 80 e 84.
12. Cf. T. KLAUSER, Breve historia de la liturgia occidental, Barcelona 1968, pp. 60 s
13. Citamos por exemplo, os casos enunciados por Vogel, como é o caso das missas secas (sem ofertório, nem comunhão, nem cânon), as missas bi-, tri-, quadrifacciatas (vários formulários de missa com apenas um cânon e uma só comunhão), etc. (cfr. C. VOGEL, Introduction aux sources de l’histoire du culte chrétien au moyen âge, Spoleto 1966, p. 136). Neunheuser explica estes abusos como consequência de uma evolução na espiritualidade e na prática pastoral. Começam a celebrar-se muitas missas nas Igrejas, capelas e santuários que se vão construindo. Esta multiplicação parece dever-se a facilitar uma maior participação dos fiéis, no entanto, posteriormente, esta diversificação verifica-se por razões puramente devocionais, privadas, especialmente pelo sufrágio dos defuntos. São necessárias, assim, uma maior quantidade de missas e começa-se a celebrar mais de uma vez por dia. As autoridades eclesiásticas reagem proibindo a binação que, nos séculos X-XI, desaparece. Então, para satisfazer a piedade de muitos que requerem missas por intenções pessoais surgem os abusos antes referidos.
14. Cf. B. NEUNHEUSER, Storia della liturgia attraverso le epoche culturali, Tivoli 1988, p. 104.
15. Ibidem, p. 107.