quinta-feira, 13 de maio de 2010


A Formação Litúrgica

Pe. Cristiano Marmelo Pinto


1. Introdução

A liturgia é uma realidade ligada a fé e a expressão pessoal e social da vida da Igreja. Ela é comporta um duplo movimento: 1º. auto manifestação de Deus em Jesus Cristo; 2º. ação / obra do homem em direção à Deus.

A liturgia não é algo fossilizado ou propriedade de algum povo ou cultura. Ela é antes, um fato vivo, dinâmico. Antes de ser ciência, saber humano, a liturgia é vida, é experiência de encontro com o Mistério do Senhor. Ela é antes de tudo intervenção de Deus na vida dos homens e resposta deste a Deus.

“Para celebrar a liturgia de maneira vital, é preciso não só conhecê-la teoricamente, mas experimentar o que significa a participação no mistério que nela se celebra e se comunica eficazmente.” (p. 299).

Para conhecer a liturgia é preciso recorrer ao seu ensino com todos os instrumentais metodológicos e didáticos de uma verdadeira ciência.

Para celebrá-la é necessário uma iniciação litúrgica, que no fundo está no processo de formação cristã. O caráter dinâmico e vital da celebração litúrgica condiciona a finalidade tanto da ciência litúrgica como da formação litúrgica.

“Toda iniciativa para aprofundar a fé cristã deverá ter a liturgia como um de seus aspectos e dimensões fundamentais. A liturgia é fonte e ápice da vida da Igreja” (cf. SC 10).

A formação litúrgica é uma das condições fundamentais para a renovação e vivência mais profunda da liturgia. O ensino de liturgia é apenas uma parte, embora importante, do processo de formação litúrgica. A ciência litúrgica como formação acadêmica deve orientar-se para a formação integral dos fiéis. Porém, a Formação Litúrgica não é privilégio de alguns, ou não pode ser. A Formação desejada pelo Concílio Vaticano II deve chegar a todos os membros do Povo de Deus, embora seja um dever para os candidatos ao sacerdócio ministerial (cf. SC 19, PO 5).

2. A necessidade da Formação Litúrgica

A Formação Litúrgica é um dos objetivos permanente da renovação da liturgia. Já em 1947, o papa Pio XII na encíclica Mediator Dei recomendava a formação litúrgica dos jovens candidatos ao sacerdócio ministerial.

Porém, foi o Concílio Vaticano II que fez da Formação Litúrgica um pressuposto para a participação plena na liturgia e objetivo da reforma e renovação litúrgica (cf. SC 14-19). Também as Instruções Inter Oecomenici de 1964 (cf. 5, 11-17) e Musicam Sacram de 1967 (cf. 52), fazem referência a necessidade de formação litúrgica do clero.

Em 1979 a Congregação para a Educação Católica publicou uma importante Instrução sobre a Formação Litúrgica nos seminários. Porém, constatou-se que nos últimos anos uma das lacunas na aplicação da renovação litúrgica do Concílio Vaticano II foi exatamente a Formação Litúrgica tanto do clero como dos fiéis.

A Renovação Litúrgica foi o fruto mais visível do Concílio Vaticano II e, de modo geral, foi bem aceita. Esta renovação não visa apenas mudanças externas nos ritos e textos, mas principalmente a participação plena, consciente e ativa da comunidade celebrante no mistério pascal de Cristo. Porém, ainda resta fazer a renovação da mentalidade. Uma renovação que permite penetrar no espírito proposto pelo Concílio. No fundo ainda falta levar o povo até o coração da liturgia, para viver em profundidade o mistério celebrado por ela.

Onde se promoveu a participação do povo na liturgia percebe-se seus frutos. Peça fundamental no incentivo do povo para participar de liturgia, evidentemente são os pastores e agentes bem formados. O que a renovação litúrgica propõe não é somente uma mudança nos ritos externos, mas de assegurar uma verdadeira experiência do mistério celebrado na liturgia.

“Cuidem, pois, os pastores que, além de se observar as exigências de validade e liceidade das celebrações, os fiéis participem da liturgia de maneira ativa e frutuosa, sabendo o que estão fazendo” (SC 11).

“A Igreja deseja ardentemente que todos os fiéis participem das celebrações de maneira consciente e ativa” (SC 14)

O papa João Paulo II, na Carta Apostólica Vicesimus Quintus Annus, na celebração dos 25 anos da constituição conciliar sobre a liturgia, afirma a necessidade urgente de uma formação bíblica e litúrgica do Povo de Deus. Esta formação deve ser dada a começar pelos Seminários, Casas Religiosas, na formação Permanente dos Padres e também aos leigos e leigas, enfim, a todo o Povo de Deus.

“A tarefa que se apresenta mais urgente é a da formação bíblica e litúrgica do povo de Deus: dos pastores e dos fiéis” (VQA, 15).

Continua o papa afirmando da Carta Apostólica, que é uma obra de grande amplitude e que deve durar a vida inteira. Isto para afirmar que a Formação Litúrgica é uma tarefa permanente, principalmente na vida dos padres e religiosos. Da formação dos padres depende a formação de todo o Povo de Deus.

3. O problema da Formação Litúrgica

Como vimos, é urgente a Formação Litúrgica tanto dos padres como também de todo o Povo de Deus. Esta questão tem levantado calorosas discussões nos cursos de graduação em Teologia. Uma das questões de fundo é: qual o lugar da formação litúrgica nos cursos de teologia? Infelizmente, muitas vezes a Ciência Litúrgica é vista em segundo plano.

Há uma séria preocupação para que os candidatos ao ministério ordenado, sejam verdadeiramente iniciados na vivência litúrgica. Em algumas faculdades isso já está mudando, dando maior espaço na grade curricular aos temas relacionados a liturgia. Porém, ainda falta muito a fazer. Visto que o problema já vem desde a catequese que não iniciam na vivência litúrgica.

Também em nossas comunidades percebe-se uma deficiência em relação a Formação Litúrgica de nossas equipes de Pastoral Litúrgica e de maneira geral de toda a comunidade. A Pastoral Litúrgica muitas vezes se preocupa mais com execução e pouca formação. Por isso tudo, nós que temos a oportunidade de estudar a liturgia nos tornamos multiplicadores.

4. O que é a Formação Litúrgica?

O que então é Formação Litúrgica? O que entendemos por Formação? O termo “formação” costuma designar uma ação que dá forma, plasma o caráter, a mentalidade, a atuação e o conhecimento de uma pessoa ou grupo. A formação pressupõe um processo de aprendizagem. A formação deve ser abordada como uma realidade que diz respeito à totalidade da pessoa (Gravissimum Educationis 2).
A formação deve conferir à pessoa uma “forma vital” unitária, que permita a pessoa explicitar e pôr em prática suas capacidades e potencialidades, ou seja, adquirir capacidade teórica para agir e assumir determinados comportamentos.

Neste sentido a Formação Litúrgica é um componente fundamental da formação da pessoa cristã na sua integralidade. As vezes a Formação Litúrgica é entendida apenas como intelectual, transmissão de conteúdos.

A Formação Litúrgica compreende aspectos científicos que podem ser assimilados pelo estudo, como qualquer outro tipo de conhecimento, mas permanece sempre algo que vai além desta possibilidade. Ou seja, antes de ser ciência, objeto de estudo, ela será sempre vivência celebrativa.

Por esse motivo, a Formação Litúrgica não pode ser apenas uma disciplina científica, mas antes de tudo uma experiência celebrativa. A Formação Litúrgica introduz as pessoas na vivência do mistério celebrado. Ela funda e anima a fazer da vida uma oferenda agradável a Deus através de uma participação plena, consciente e ativa na liturgia.

“A liturgia transforma-se assim em “fonte primeira e necessária na qual devem os fiéis beber para assimilar o espírito verdadeiramente cristão” (SC 14).

No processo de Formação Litúrgica deve haver um equilíbrio entre formação sistemática e formação para a ação. Deste modo, as celebrações litúrgicas são, como diz a SC, fonte primeira de iniciação no mistério de Cristo. Em outras palavras, antes de estudar sistematicamente a liturgia, deve-se vivê-la, experimentá-la.

A matéria da Formação Litúrgica é a própria celebração. A Formação Litúrgica não é privilégio de alguns. Todo fiel deve receber uma adequada formação. No caso dos pastores e responsáveis pela liturgia, a formação deve ter um caráter pedagógico e pastoral. A Formação Litúrgica constitui um direito de todo membro do Povo de Deus em razão de seu batismo. A Formação Litúrgica é parte essencial no processo de educação (iniciação) cristã.

5. A Formação Litúrgica nos Padres da Igreja (A Catequese Mistagógica)

A Catequese Mistagógica está sendo redescoberta nos dias de hoje. Este método era utilizado pelos Padres da Igreja nos primeiros séculos cristão. Podemos encontrar o método mistagógico nas Catequeses Mistagógicas de:

1. Santo Ambrósio,
2. São Cirilo de Jerusalém,
3. São João Crisóstomo,
4. Teodóro de Mopsuéstia, entre outros.

Mistagogia é o que os documentos e os papas chamam de iniciação ao mistério da salvação, ou seja, uma introdução progressiva e gradual na vida litúrgica da comunidade cristã. A catequese mistagógica não é uma simples doutrinação do iniciado, mas, uma experiência vital e concreta da iniciação na vida cristã em toda a sua realidade (fé, celebração, caridade, testemunho).

A palavra “mistagogia” vem da composição de duas palavras gregas: “myst” (mistério) e “ agogein” (conduzir, guiar). Literalmente significa: conduzir, guiar para dentro do mistério. Antes de tudo, é a própria liturgia que nos guia para dentro do mistério que celebramos. Ela nos leva à participação do mistério pascal de Cristo, nos insere neste mistério. Mistagogia quer conduzir os iniciados a viver inteiramente o dom recebido, o mistério da salvação.

A meta da catequese mistagógica é a comunhão com Cristo por meio de sua Palavra e da Eucaristia, o que acontece naturalmente no interior da liturgia, segundo o rito da celebração. Esta comunhão com o corpo do Senhor deve levar a participação na vida divina (o que chamamos de deificação).

Hoje se volta a estudar o método mistagógico, não para aplicá-lo tal qual como antes, mas para servir de inspiração e modelo à formação cristã em geral, na catequese, na liturgia e na própria teologia.

A Catequese Mistagógica nos oferece os elementos para entender, intuir o que acontece conosco na ação litúrgica. A Catequese Mistagógica consiste em abrir (ensinar) a mergulhar no mistério celebrado a partir dos sinais sensíveis. Ela nos ajuda na simbolização, nos guia na passagem do sinal material “significante” (objetos, gestos, leituras, ritos, etc.), para a realidade “significada” e realizada pelo sinal. Em outras palavras, nos leva para dentro, para o interior dos sinais e ritos, nos fazendo entrar em contato com o que significa, ou seja, com o próprio mistério celebrado.

Evidentemente que o lugar privilegiado para a Catequese Mistagógica é a própria liturgia, segundo o exemplo dos Padres da Igreja. Há três elementos no método mistagógico:

• A valorização dos sinais sacramentais (gestos, palavras, ritos);
• A interpretação dos ritos à luz da Sagrada Escritura;
• Abertura ao compromisso cristão e eclesial.

É necessário revalorizar a dimensão mistagógica da formação litúrgica. Não podemos permanecer na simples transmissão de conhecimentos, de noções sobre a liturgia. Se queremos de fato promover a participação ativa e consciente é preciso iniciar os fiéis na celebração litúrgica. Enquanto isso não for feito, continuaremos com a mera participação externa na liturgia.

6. Objetivos da Formação Litúrgica

A Formação Litúrgica significa aprofundar na própria realidade litúrgica. É um fato progressivo e permanente. Ela deve estar orientada para os seguintes objetivos: 1. objetivo Global ou Geral; 2. objetivo Eclesial; 3. objetivo Sacramental.

6.1. Objetivo Global

A Formação Litúrgica deve orientar-se para conferir a pessoa uma forma vital, unitária e equilibrada, ajudando-a a assumir o projeto de Jesus em sua vida. Ela não pode ser considerada como um componente isolado da formação cristã. Na vida cristã existem vários níveis: espiritual, religioso e sacramental. A Formação Litúrgica tenderá de preferência para o nível sacramental.

Porém não significa que a Formação Litúrgica deixará de considerar os demais níveis da vida cristã. O nível espiritual se manifesta na reflexão e meditação; o nível religioso é a abertura para o transcendente, sagrado; o nível sacramental realiza uma síntese dos anteriores na busca e abertura para Deus por meio da Palavra proclamada e da ação ritual.

6.2. Objetivo Eclesial

A Formação Litúrgica deve enfatizar que a grande mediadora entre Deus e os homens é a Igreja, a comunidade cristã (cf. LG 1). A liturgia por sua vez é uma ação eclesial – comunitária, de modo que seus participantes fazem parte de um Corpo, que é a Igreja. A Formação Litúrgica deverá educar para a consciência de pertença a Igreja.

Na celebração litúrgica o fiel deve sentir membro da comunidade – assembléia celebrante. Ao mesmo tempo que a Formação Litúrgica deve criar a consciência de pertença a comunidade, o fiel deverá saber que também faz parte de um povo maior – a Igreja Universal.
A Igreja é depositária de tudo o que se vive e celebra na ação litúrgica. Esta convicção garante a unidade e a comunhão. Por isso, a Formação Litúrgica deve ser fiel aos componentes essenciais da liturgia, onde se destaca o caráter eclesial da celebração litúrgica. A comunidade é uma das principais chaves da celebração (cf. SC 26-27, 41-42, 100).

6.3. Objetivo Sacramental

Na liturgia os ritos, gestos e símbolos ocupam uma parte importante, própria da natureza da ação litúrgica. Quem participa da celebração deve estar iniciado na compreensão do significado do símbolo, do rito e do gesto litúrgico. A expressão simbólica e ritual não é um elemento peculiar da liturgia, mas faz parte da própria realidade existencial humana.

A celebração está cheia de gestos que correspondem à dimensão corporal do homem. Isto exige uma iniciação na compreensão da gestualidade e ritualidade litúrgica, e nos diferentes gestos e ritos na liturgia. A Formação Litúrgica deve cuidar da educação para a expressão corporal e para o comportamento ritual, pois gestos e ritos tornam externos atitudes internas.

7. Características da Formação Litúrgica

7.1. Formação Litúrgica Unitária

A Formação Litúrgica tem como tarefa articular a pessoa do aluno em sua situação concreta e o mistério de Cristo presente e atuante na celebração. A pessoa deverá amadurecer em si uma unidade profunda entre liturgia e oração pessoal, entre momento celebrativo e caráter cotidiano. Em outras palavras, quem participa da liturgia é a pessoa na sua totalidade do ser, com sua vida e seu mundo.

A Formação Litúrgica deverá provocar na pessoa uma sincera e total adesão ao Pai, por meio de Jesus Cristo, impulsionado pelo Espírito. Deve considerar que tem diante de si pessoas concretas, com sua realidade. O ponto de partida da é que a própria pessoa que está sendo formada é protagonista da sua formação.

Na Formação Litúrgica o mistério de Cristo deve ser apresentado de maneira sintética e global. Uma visão unitária do mistério de Cristo parte tanto da realização histórica da salvação, como da centralidade da Páscoa de Jesus na história da salvação – tudo tem seu centro no mistério pascal de Cristo. A Formação Litúrgica tem que articular estes dois pólos: o homem em sua realidade concreta de vida e o mistério pascal presente na ação litúrgica.

7.2. Formação Litúrgica adaptada a pessoa

A Formação Litúrgica deve centrar-se antes na pessoa e no sentido dos ritos do que nas formalidades e aspectos estéticos da celebração. Deve levar em conta o processo de desenvolvimento da personalidade cristã de cada pessoa (idade, nível de fé, situação eclesial, etc.).

“Com empenho e paciência procurem os pastores de almas a instrução litúrgica e também promovam a ativa participação interna e externa dos fiéis, segundo a idade, condição, gênero de vida e grau de cultura religiosa” (SC 19).

A Formação Litúrgica não pode apenas referir-se as ações litúrgicas, mas deve orientar e inspirar a vida espiritual. A iniciação na vida litúrgica deve começar no âmbito familiar, continuando depois na catequese comunitária. Por outro lado, os diferentes níveis de fé exigem uma cuidadosa preparação da liturgia e dos que irão dela participar. É preciso formar liturgicamente os fiéis.

Embora a liturgia não deve ser entendida como catequese, ela é um lugar privilegiado para os fiéis receber uma boa formação. No fundo, para a maioria dos cristãos, o momento celebrativo é o espaço que possuem para receber devidas instruções tanto para melhor celebrar como para viver no cotidiano o Projeto de Jesus.

7.3. Formação Litúrgica Mistagógica

Embora já tenhamos falado da Formação Litúrgica mistagógica, daremos mais um espaço á este modelo catequético. Como vimos, mistagogia significa levar os iniciados a viver o mistério da salvação, de modo particular presente na celebração litúrgica. A ação mistagógica é a característica mais significativa da ação litúrgica enquanto ação comunitária. A mistagogia transcende a finalidade meramente educacional, e atende ao objetivo essencial da liturgia.

Ela é mais do que um conjunto de instrumentos e elementos pedagógicos, é a própria ação celebrativa, que nos introduz, nos insere no mistério celebrado. A mistagogia visa formar a partir da própria celebração litúrgica, a partir do rito. Na prática vem a ser o modo pleno de celebrar a liturgia.

Existem apoios que ajudam neste modo pleno de celebrar que configura uma espiritualidade e um estilo de vida. São eles:

1. A comunidade – assembléia litúrgica;
2. O bispo – mistagogo por excelência;
3. A Escritura – Palavra celebrada;
4. A oração e o gesto litúrgico.

8. A Ciência Litúrgica

Depois de percorrermos o tema da Formação Litúrgica, creio ser importante refletirmos sobre o que vem a ser a Ciência Litúrgica. Isso porque no nosso caso, queremos nos formar na Ciência Litúrgica. Porém não vamos aprofundar muito o tema. Uma importante indicação é o texto de Ione Buyst: Como estudar Liturgia (1990), citado na bibliografia básica.

8.1. O que significa fazer Ciência Litúrgica

Ciência é um termo que vem do latim e significa: saber, conhecer, aprender. Podemos interpretar o “conhecer” como “saber fazer”. Conhecer a liturgia, saber liturgia significa “saber fazer” a liturgia, saber celebrá-la. Este saber fazer diz respeito ainda à dimensão teológico-pastoral e mistagógica da liturgia. Trata-se de saber fazer, organizar, preparar e celebrar a liturgia de modo que introduza a pessoa no mistério celebrado.

Este tipo de “saber fazer” com seus aspectos técnicos, estéticos, teológicos, pastorais e mistagógicos, não é o tipo que chamamos de científico, mas como habilidade ou arte. Mais então o que é Ciência Litúrgica? O que é conhecer cientificamente a liturgia?

“A Ciência Litúrgica trata-se de fazer um estudo planejado, ordenado e crítico da liturgia, dos vários tipos e formas celebrativas, elementos, estrutura, dinâmica, etc.”.

Trata-se ainda de aprender o sentido da liturgia como um todo e de cada uma de suas partes. A Ciência Litúrgica é aquisição de um saber, aperfeiçoamento de uma metodologia para se obter este saber e a elaboração de uma norma. Porém, temos que considerar que nenhuma teoria é capaz de esgotar todo o sentido da liturgia.

Entre as várias disciplinas teológicas, a Ciência Litúrgica tem um papel específico, ditado pela especificidade da própria liturgia. Ela não se limita a conhecer a liturgia como está sendo celebrada, tem preocupação com a renovação da liturgia, de modo que a Igreja se realize melhor em sua liturgia. Porém, a Ciência Litúrgica não pode ser confundida com a liturgia nem com a pastoral litúrgica.

A liturgia ou prática celebrativa é a celebração do mistério da salvação através de ação ritual. É realizada pelo liturgo, ou seja, pelo povo celebrante. A pastoral litúrgica trabalha com elementos rituais, pedagógicos e organizacionais. Ela é realizada pelos agentes de pastoral. A teologia litúrgico-pastoral acompanha criticamente, sistematiza e teoriza sobre a celebração. É feita pelo pastoralista.

A Ciência Litúrgica acompanha criticamente a vida e a pastoral litúrgica. Realiza pesquisas, sistematiza e teoriza sobre elas, tendo com referência fundamental o dado da Tradição, estabelecendo critérios teológicos para a pastoral e para a celebração. É realizada pelo liturgista.

A Ciência Litúrgica trabalha com categorias, leis e teorias. Deve elaborar métodos e técnicas de abordagem e verificação. Não trabalha diretamente com o fenômeno, com o objeto real, mas com o objeto científico.

9. A modo de Conclusão

Estamos iniciando um Curso de Teologia Litúrgica. É importante concentrarmos nosso aprendizado em vista de uma melhor participação no mistério celebrado, e depois, nos tornamos formadores de comunidades celebrantes conscientes.

Tudo que aprendermos em nosso curso não pode ficar guardado para nós mesmos, tem que ser compartilhado. É lógico que não faremos Ciência Litúrgica como tal, ela fica para os que se especializam em liturgia, mas queremos aprofundar a Teologia Litúrgica, para melhor compreender a liturgia da Igreja e ajudar nossas comunidades para participar plena, consciente, ativa e frutuosamente de nossas celebrações.

O mais importante é celebrar bem. Não adiante conhecermos as leis, normas da liturgia se não participamos dela. A Formação Litúrgica é condição indispensável para a renovação da vida cristã na Igreja, impulsionada pelo Vaticano II. João Paulo II nos convida, pastores e fiéis, a adquirir esta formação, que com certeza será garantia de uma vida litúrgica mais frutuosa para a Igreja.

Esta formação compreende vários aspectos: conhecimento da liturgia, vivência espiritual e atuação prática. Estes três elementos devem estar presentes na Formação Litúrgica de pastores e fiéis. Na sua globalidade, a Formação Litúrgica será o melhor meio de encontrar na liturgia a fonte de espiritualidade cristã.



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BIBLIOGRAFIA BÁSICA:

MARTÍN, Julián López. No Espírito e na verdade: introdução antropológica à liturgia. Vol. 2. Petrópolis: Vozes, 1997, pp. 299-326.

BUYST, Ione. Como estudar Liturgia. São Paulo: Paulus, 2007.

PETRAZZINI, Maria Luísa. Formação Litúrgica. In: TRIACCA, A. M. e SARTORE, D. Dicionário de Liturgia. São Paulo: Paulinas, 1992, pp. 480-495.

A Sacramentalidade da Liturgia

Pe. Cristiano Marmelo Pinto

1. Introdução

Ao refletirmos sobre a sacramentalidade da liturgia, não queremos estudar os sacramentos em particular, mas buscar compreender o que os leva a ser um sacramento. Segundo D. Borobio, o conceito de sacramento deve ser deduzido da própria experiência celebrativa do mesmo. Os sete sacramentos estão inseridos numa realidade sacramental que vai além do septenário sacramental.

Para estudar a sacramentalidade da liturgia deve-se unir liturgia e sacramentologia fundamental, partir da realidade dada e da experiência celebrativa. Deste modo não corre-se o risco de considerar comum o que é particular, ou submeter a um conceito aprioristico o que é experiência plural e concreta.

A sacramentalidade da liturgia deve ser tratada levando em conta quatro elementos:

1. O Organismo sacramental pleno, ou seja, tentar situar os sacramentos no contexto da realidade sacramental total, o sacramento visto a partir de Deus e de seu plano;
2. O homem e os sacramentos, situando os sacramentos na ordem dos símbolos, a partir da natureza simbólica do homem, ou seja, o sacramento visto a partir do homem;
3. A origem, a diversidade e a estrutura dos sacramentos, ou seja, ver os sacramentos a partir da sacramentalidade da Igreja;
4. Os sacramentos como encontro de graça e liberdade, procura-se compreender o como, o para que e o quando dos sacramentos. Sua eficácia simbólica e resposta de fé.

A Igreja deve se perguntar o que é, na verdade, um sacramento? Ele é uma realidade pluridimencional, comportando diversos elementos (Deus-homem-Igreja) e se realiza em diferentes contextos e situações (históricas, culturais e pastorais).

Embora a essência dos sacramentos continua a mesma, haverá sempre a exigência de uma interpretação conforme as circunstâncias dos diversos elementos.

Há diferentes razões para fazer uma nova síntese sacramental. As principais são:

1. Razão teológica: Deus é o mesmo, mas nem todos os homens crê da mesma forma;
2. Razão cristológica: Cristo é o centro dos sacramentos;
3. Razão pneumatológica: qual o lugar do Espírito Santo nos sacramentos e como se relacionam;
4. Razão eclesiológica: o conceito de sacramento depende do conceito de Igreja que temos;
5. Razão escatológica: os sacramentos são a celebração do “já” e do “ainda não” – dimensão escatológica dos sacramentos;
6. Razão antropológica: leitura antropológica dos sacramentos, sua origem, diversificação e eficácia;
7. Razão sociocultural: o sacramento é sempre celebrado a partir de uma realidade concreta;
8. Razão pastoral: a pastoral sacramental é decisiva na vida da Igreja.

2. Realidades sacramentais e dimensões do sacramento

Por muito tempo o conceito de sacramento ficou restrito aos sete sacramentos da Igreja ou aos ritos sacramentais.

Existem outros centros de sacramentalidade, não é nenhuma novidade. Nos doze primeiros séculos do cristianismo a palavra mistério – sacramento era empregada para designar diversas realidades, tais como Cristo, a Igreja, a Escritura, etc.

A fixação do septenário sacramental (os sete sacramentos) se dá a partir do Concílio de Trento e da controvérsia com os protestantes. A partir de então limita-se aos seguintes requisitos:

1. Instituição por Cristo;
2. Estrutura de forma e matéria;
3. Eficácia;
4. Intenção por parte do ministro e disposição do sujeito.

O Concílio Vaticano II utiliza o termo sacramento no sentido mais amplo, aplicando-o a Cristo, a Igreja, a Palavra, ao homem, ao cosmo, a história, etc. Trata-se de reconhecer a essência sacramental das diversas realidades, reconhecendo seus elementos comuns e diferentes.

Esta visão parte do conceito mais amplo de sacramento, que significa a manifestação da visibilidade histórica do dom invisível da graça de Deus.

A história da salvação é história humana enquanto plena da presença de Deus e suas intervenções, tendo como ápice a encarnação de Jesus Cristo. O que dá a estrutura sacramental a história é o estar de Deus nela. Cristo, por sua encarnação é o ponto culminante da sacramentalidade da história. Os sacramentos atualizam, realizam a história da salvação na Igreja.

3. Cristo, sacramento original

A fonte, o sentido e o centro da sacramentalidade é Cristo. Ele entra na história como sinal-sacramento. Cristo é sacramento porque a salvação tomou figura humana e se manifestou visivelmente.

A presença de Cristo na história não é um acréscimo a presença pré-existente de Deus na história, mas ponto culminante. A encarnação é a sacramentalização radical da presença de Deus na história humana.

Cristo é o “proto-sacramento”, ou seja, o sacramento original, que torna visível o amor e a graça de Deus. Ele é a origem, o sentido e o centro da sacramentalidade.

4. A Igreja como sacramento principal e o homem como sacramento existencial

Cristo é a única origem dos sacramentos, mas precisa de um prolongamento na história. A Igreja é esse prolongamento. Ela é sinal-sacramental da graça redentora. Por ser o sacramento principal, a Igreja revela a dimensão eclesial dos sacramentos.

No homem há também uma realidade sacramental. Ele é sinal-sacramental de Deus e de Cristo. Foi criado a imagem e semelhança de Deus. Por isso, todo homem, pelo fato de existir é sinal, imagem de Deus.

O homem é chamado a tornar Deus presente no mundo e a colaborar com ele na obra da criação. Portanto, todo homem, batizado ou não, é sacramento de Cristo.

Jesus Cristo, com sua encarnação, assumiu a natureza humana, fazendo de todo homem um sinal privilegiado seu. Cristo potencializou a imagem de Deus no homem. Por isso, podemos dizer que onde há uma existência humana, há igualmente a presença de Deus. Mesmo não havendo fé, há uma existência não explícita da graça de Deus. O que a Igreja nos oferece de forma explícita nos sacramentos, já está de forma implícita na existência humana.

O cristão por sua vez é sinal-sacramental de Cristo e da Igreja. Tudo o que foi dito sobre a existência humana, é aplicado de modo rígido ao cristão. Ele, o cristão, vive sua sacramentalidade de forma eclesial, no interior da comunidade dos crentes. O cristão é sacramento de Cristo e da Igreja ao mesmo tempo.

5. Os sacramentos da Igreja como concentração simbólica de uma sacramentalidade plural

Os sacramentos da Igreja concentram tudo o que foi dito até agora. Para D. Borobio os sacramentos só são explicados se neles se integram diversas realidades e dimensões sacramentais.

O Concílio Vaticano II avançou na síntese em que palavra e sinal são dois aspectos integrantes e necessários dos sacramentos.

Os sacramentos como concentração simbólica deve ter um caráter sensível e visível. Esta compreensão dos sacramentos enquanto sinal sensível tem seu ponto de partida de renovação no movimento litúrgico e da sacramentologia geral.

A estrutura dos setes sacramentos, de toda a Igreja, é a própria estrutura da história da salvação. Essa estrutura sacramental manifesta e presentifica o mistério invisível de Deus.

6. O caráter simbólico da sacramentalidade

Não há uma noção uniforme de símbolo. Etimologicamente a palavra símbolo – simbólico vem do grego e significa por algo em relação, juntar, unir, articular, etc.

As diversas ciências, tais como a psicologia, a filosofia, a teologia, a semiótica, entre outras, contribuem destacando diversos aspectos do símbolo. O símbolo é uma realidade humana, de ordem externa e visível, que tem uma função mediadora e comunicadora ao remeter ao que é simbolizado.

Como já vimos, a história da salvação tem uma estrutura sacramental. É através dessa estrutura é que se explica a diversidade de realidades simbólicas.

Tudo o que se diz do símbolo pode-se dizer do sacramento. O sacramento é uma imagem ou símbolo eficaz a medida que significa o que é significado. O símbolo é um signo – sinal no qual o significado torna-se presente pela referência simbólica. A essência dos sacramentos consiste em mostrar, expressar, revelar... o seu significado.

D. Borobio assim descreve a liturgia e os sacramentos:

Devemos entender a liturgia e os sacramentos como a expressão simbólica de Deus, da Igreja e do homem. E isso porque Deus, a Igreja e o homem são realidades simbólico-sacramentais e, enquanto tais, precisam expressar-se e se expressam pelos símbolos sacramentais que fazem parte de sua realidade e a ela remetem (p. 337).

Os sacramentos são expressões simbólicas das situações fundamentais da vida humana. Essas situações são: nascimento, morte, responsabilidade, doença, pecado, escolha, etc. Dentro dessas situações fundamentais da vida, os sacramentos são ponto de partida para um novo futuro.

7. Origem, diversidade e estrutura do sinal sacramental

Os sacramentos tendo sua origem e fundamento em Cristo, sua diversidade entende-se a partir da Igreja. Sua estrutura encontra-se em Cristo, mas a determinação dessa estrutura é compreendida mediante a explicação histórica da Igreja.

A instituição dos sacramentos deve ser explicada a partir da Escritura. Sua origem deve compreender-se a partir do mistério salvífico de Cristo, os sacramentos não podem ter outra origem senão Cristo.

A própria Igreja, embora seja a primeira sacramentalização, precisa de um desdobramento sacramental (por exemplo os sete sacramentos). O mistério pascal não é origem somente da Igreja, mas também dos sinais sacramentais.

O sacramento tem uma estrutura de aliança, ou seja, dialogal, de encontro inter-pessoal, de inter-relação comunicativa entre Deus e o homem. Possui uma estrutura mais dinâmica, ou seja, entende-se o sacramento como processo e movimento, e não somente como ato celebrativo.

8. Eficácia e graça sacramental

A questão da eficácia sacramental é importante, visto que estão envolvidos a verdade, a plenitude, o efeito e o fruto do sacramento. As celebrações dos sacramentos s]ao salvíficas, atualizadoras do mistério, santificadoras e eficazes.

Tomas de Aquino pensa os sacramentos como sinais eficazes de graça, porque significa, contém a graça e causam a santificação. Trento não entra na questão da eficácia u causalidade dos sacramentos, procura apenas corrigir alguns erros.

A expressão “graça sacramental” surge na escolástica. É considerada como um elemento constitutivo da estrutura do sacramento, que indica sua meta, objetivo. Para Tomas de Aquino, graça sacramental é a graça produzida pelo sacramento. Para E. Schillebeeckx é a graça santificadora. Sua centralidade é o mistério pascal de Cristo.

A centralidade do mistério pascal na graça sacramental significa que sendo presença e atualização da história da salvação, os sacramentos são de igual modo, presença e atualização do centro da história da salvação: o mistério pascal de Cristo.

A graça sacramental é pascal e pneumatológica, ou seja, é também ação do Espírito Santo.

9. O caráter sacramental

A doutrina tradicional da Igreja fala de dois efeitos da graça sacramental: o caráter sacramental (sacramentum et res) e a graça sacramental (res tantum). Trento afirma que caráter é um sinal espiritual e indelével que se imprime no batismo, na confirmação e na ordem.

O termo “character” procede da cultura profana antiga e significa sinal de reconhecimento, de distinção, de pertinência ou propriedade. Ser marcado significa começar a fazer parte, pertencer a um grupo, a uma comunidade determinada.

Será no decorrer do século XII que vai se firmando e organizando a doutrina do caráter como algo irrepetível e permanente, principalmente em relação ao batismo. O Concílio Vaticano II irá situar a questão do caráter dentro de uma nova eclesiologia e pneumatologia.

10. A resposta de fé como elemento constitutivo do sacramento

Na ação sacramental são dois os sujeitos que intervem de maneira direta: o ministro e o sujeito.

Quanto ao ministro, a verdade santificadora do sacramento parte de Deus, sua origem. O ministro só tem o poder de administrar os sacramentos, mas não de conceder a graça. Quanto a intenção do ministro exige-se que seja a intenção da Igreja. O Concílio Vaticano II vai falar do ministro como presidente e não com administrador.

A validade do sacramento não está vinculada ao ministro. A função do ministro é de serviço. Ela é necessária a ação sacramental pois, os sacramentos tem uma estrutura ministerial.

O fato do sujeito ter que participar com sua fé dos sacramentos, sempre foi uma verdade para a Igreja. Mas foi o Concílio Vaticano II quem recuperou o lugar do sujeito nos sacramentos.

Os sacramentos destinam-se a santificação dos homens. Eles não só supõem, mas também a alimentam e a exprimem. A fé e o homem é parte constitutiva do sacramento. A fé pessoal é elemento constitutivo e necessário para a plenitude do sacramento.

11. Conclusão

O batismo é o sacramento que sela a primeira fé, a conversão primeira, ou seja, a opção por Jesus Cristo e a sua salvação. A fé que se expressa no sacramento é a própria fé vivida. A fé sacramental não é apenas a fé batismal, é também a fé vivida.

A fé precisa ser celebrada para afirmar-se. Só quem vive pode celebrar e só quem celebra pode viver. Essa fé batismal vivida deve ser fé eclesial, ou seja, deve coincidir com a fé da Igreja.

A fé do sacramento deve ser uma fé pessoal, ou seja, quem recebe o sacramento deve ser uma pessoal fiel, que vive a sua fé batismal em sintonia com a fé da Igreja.

O sacramento só pode realizar-se quando há um livre acordo entre Deus que oferece gratuitamente, e o homem que acolhe livremente. O risco de Deus é a liberdade do homem, pois o exercício da liberdade é parte fundamental do sacramento.

Deus está sempre presente no sacramento. Sua ação é absolutamente livre e gratuita. Mas o homem é chamado para colaborar na ação sacramental e participar dela. A fé é ao mesmo tempo um ato do homem e uma dádiva de Deus.

Por outro lado, pode-se dizer que a resposta de fé da Igreja e do homem é a possibilidade de realização da graça de Deus no sacramento.


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Bibliografia:

BOROBIO, Dionísio. Da Celebração à teologia: que é um sacramento? In: BOROBIO, D. (org.). A Celebração na Igreja I: Liturgia e sacramentologia fundamental. São Paulo: Loyola, 1990, pp. 283-424.

FERNÁNDEZ, Conrado. A Sacramentalidade da Liturgia. In: CELAM. Manual de Liturgia II. São Paulo: Paulus, 2005, pp. 85-110.

DA SILVA, José Ariovaldo. Sacramentalidade da Liturgia. In: COSTA, Paulo Cezar (org.). Sacramentos e Evangelização. São Paulo: Loyola, 2004, pp. 13-31.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O Canto Litúrgico
no Ciclo Pascal

Ir. Miria T. Kolling


A Instrução Geral sobre o Missal Romano – IGMR, assim nos diz à pág. 110: “Como o Cristo realizou a obra da redenção humana e da perfeita glorificação de Deus principalmente pelo seu mistério pascal, quando morrendo, destruiu a nossa morte e ressuscitando renovou a vida, o sagrado Tríduo Pascal da Paixão e Ressurreição do Senhor resplandece como o ápice de todo o ano litúrgico. Portanto, a solenidade da Páscoa goza no ano litúrgico a mesma culminância do domingo em relação à semana”.

O Tríduo Pascal tem seu início na Missa vespertina da Quinta-Feira Santa, com a memória da última Ceia de Jesus. A sexta-feira da Paixão, o sábado da sepultura e o domingo da ressurreição são chamados por Santo Agostinho de tríduo do “crucificado, sepultado e ressuscitado”, culminando com a Vigília Pascal, na noite santa em que o Senhor ressuscitou. Considerada pelo mesmo santo como a “mãe de todas as vigílias”, é a Celebração Maior do Ano Litúrgico.O tríduo se encerra com as Vésperas do Domingo da Ressurreição.

- É vivamente recomendada a participação do povo: gestos corporais, símbolos e imagens, sobretudo o canto, devido à solenidade desses dias e porque os textos bíblicos e litúrgicos, densos e profundos, adquirem maior força quando são cantados.
- A Quinta-feira Santa tem como centro o Lava-pés e a Ceia, que o Senhor instituiu naquela noite em que foi entregue... Por isso canta-se solenemente o Glória. Pode-se dar destaque à procissão dos dons, sobretudo o pão e o vinho, escolhidos por Jesus para sua doação; a coleta, sinal de solidariedade, é em favor dos necessitados. A Missa termina com o translado do Santíssimo ao lugar da reserva, com o “Tão sublime Sacramento”.
- A Sexta-feira Santa é centralizada na cruz, quando a comunidade proclama a paixão do Senhor, rezando pela humanidade toda. É o dia do silêncio, do jejum, da sobriedade, manifestado na Celebração: início, sem canto, o que seria bom também na Comunhão.
- O Sábado Santo, segundo uma feliz afirmação de Irmã Penha Carpanedo, é o dia de “viver a ausência do Amado”, portanto, de silêncio, meditação e permanência da Igreja junto ao sepulcro, à espera da Ressurreição do Senhor.
- A Vigília Pascal abre o terceiro dia do Tríduo, sendo uma celebração repleta de símbolos: o fogo do início; o círio pascal aceso no fogo novo, sinal do Senhor ressuscitado; a solene procissão até o local da celebração, com a aclamação “A luz de Cristo”; a proclamação jubilosa da feliz noite, no Exultet; a rica liturgia da Palavra, percorrendo a história da salvação; a celebração do Batismo, com a renovação das promessas batismais; e a solene Eucaristia, que como nenhuma outra, faz a memória da Páscoa de Jesus, carregada de sonoros aleluias, cantos festivos e alegres aclamações.
- O Domingo da Ressurreição prolonga a festa pascal ao longo do dia, cantando a vida que se renova no amor e na justiça de Deus.

O Tempo Pascal ou “cinqüentena pascal”, são sete semanas de festa, com a duração de cinqüenta dias, incluindo a Ascensão do Senhor e Pentecostes, último dia da Páscoa: o Espírito Santo é o grande dom do Ressuscitado. Os domingos deste tempo sejam celebrados com alegria e exultação, como se fossem um só dia festivo, “um grande domingo”, segundo Santo Atanásio. É tempo de júbilo, manifestado na cor branca, nas flores e luzes, no Círio aceso, nos instrumentos e nos cantos: dê-se mais realce ao Glória que ao Ato Penitencial; o Aleluia seja o canto vibrante ao Senhor ressuscitado, vivo e glorioso. Valorize-se o rito da aspersão. Boas opções de cantos para este tempo estão no Hinário Litúrgico da CNBB, bem como no livro CANTOS E ORAÇÕES, da Editora Vozes.

Antonio Alcalde bem expressa como deve ser nosso canto pascal:

“Sendo a Páscoa a festa das festas... ocorre fazer com que a liturgia, em seu todo, soe e ressoe como uma grande obra sinfônica: a sinfonia da nova criação em Cristo, com todos os seus instrumentos afinados e vibrantes.


FONTE:
www.irmamiria.com.br

Cantar a Quaresma e a Semana Santa

Ir. Míria T. Kolling


Cada ano, a Igreja se une ao mistério de Jesus no deserto, durante quarenta dias – quaresma -, vivendo um tempo de penitência e austeridade, de conversão pessoal e social, especialmente pelo jejum, a esmola e a oração, conforme o Evangelho de Mateus (Mt 6, 1-6.16-18), proclamado na Quarta-feira de Cinzas, em preparação às festas pascais. São cinco domingos mais o Domingo de Ramos na Paixão do Senhor, que inicia a Semana Santa, também chamada Semana Maior. É este um tempo forte e privilegiado, em que fazemos nosso caminho para a Páscoa, renovando nossa fé e nossos compromissos batismais, cultivando a oração, o amor a Deus e a solidariedade com os irmãos. Tal austeridade deve se manifestar no espaço celebrativo, nos gestos e símbolos, como também no canto, para depois salientar a alegria da ressurreição, que transborda na Páscoa do Senhor:

A cor roxa, as cinzas e a cruz lembram o caráter penitencial, de conversão;

O espaço celebrativo deve ser sóbrio, sem ornamentação nem flores no altar;

Não se recita nem se canta o “Glória”, assim como o “Aleluia”, que são aclamações jubilosas, marcadas pela festa e alegria, o que não combina com a Quaresma;

É tempo de favorecer o silêncio musical. Por isso, os instrumentos devem acompanhar os cantos de forma discreta, somente para sustentar o canto... um teclado ou um violão apenas, silenciando os demais, para manifestar o caráter penitencial desse tempo. Sua função é apenas “prática”, na medida do necessário, para apoiar o canto;

- Cada tempo litúrgico tem seus cantos próprios; assim também a Quaresma. Cantos que expressem o conteúdo, os temas, a Palavra de Deus, enfim o aspecto do mistério pascal que celebramos. É preciso saber escolher bem os cantos, que acentuem a conversão, o perdão, a fraternidade e solidariedade, a vida, a luz, inspirados no Evangelho do dia. Mas sempre com os horizontes voltados para a Páscoa de Jesus, mistério central que celebramos em nossas liturgias.

Neste tempo acontece no Brasil, já há mais de 40 anos, a Campanha da Fraternidade, que propôs, durante muito tempo, também cantos apropriados ao tema de cada ano, o que foi uma riqueza, mas também limitou o repertório dos cantos quaresmais. A partir de 2006 está havendo um esforço para se cantar o espírito e a liturgia da Quaresma, compondo-se apenas um Hino, que pode ser cantado no início ou no final da Celebração. A CNBB, em parceria com a Paulus, tem gravado uma série de CDs do chamado “Hinário Litúrgico”, apropriados para o Ano A, B e C.

Cantos tradicionais e que já estão na memória do povo, devem fazer parte do repertório: Pecador, agora é tempo... O vosso coração de pedra... Prova de amor maior não há...

Não se cante o Abraço da Paz, que aliás nem faz parte do rito, mas valorize-se o canto que acompanha a fração do pão, o “Cordeiro de Deus”, pois Jesus é o Cordeiro que tira o pecado do mundo. O “Senhor, tende piedade de nós” também seja valorizado, além das aclamações e pequenos refrãos orantes. O chamado canto final poderia ser omitido, deixando o povo sair em silêncio. Poderia ser outra também a resposta à Oração dos fiéis, que em geral é “Senhor, escutai a nossa prece”, como por exemplo: “Jesus, Filho de Deus, tem compaixão de nós!” além de outras, sugeridas pelo Missal Dominical.

É importante intensificar o silêncio, criando um clima orante já antes do início da Celebração e ao longo da mesma. Sobretudo no Ato penitencial, na Oração da Coleta, entre as leituras, durante a Narrativa da Última Ceia, após a Comunhão...

A Quaresma desemboca na Semana Santa assim chamada, porque nela celebramos os momentos mais importantes da nossa salvação: “Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único... Tendo amado os seus, amou-os até o fim.” (Jo 3,16;13,1). Diz-nos Evair H. Michels, em seu livro “Pastoral da Música Litúrgica – Dicas Práticas”:

“Os ritos da Semana Santa devem ser realizados com particular solenidade, pois este tempo é o coração do ano litúrgico.”
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FONTE:

A ABSOLVIÇÃO

Frei José Ariovaldo da Silva, OFM


A absolvição é uma ação do sacerdote, ação simbólico-sacramental, pela qual, em virtude do mistério pascal e pela ação do Espírito Santo, na mediação eclesial, o penitente é reconciliado com Deus e com a Igreja. A oração que o ministro pronuncia é de uma densidade bíblica e teológica incalculável. É só prestar bem atenção na fórmula:

“Deus, Pai de misericórdia, que, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para remissão dos pecados, te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz. E eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”.

Primeiro cita-se o nome de Deus. Neste nome podemos vê-lo como o Criador. E, como Criador, ele se revelou como Pai (nosso familiar, portanto). Por isso, o chamamos de Pai. Como familiar nosso (nosso Pai), é caracterizado por um atributo peculiar: misericordioso (Pai de misericórdia, que desce e ouve o clamor da humanidade).

Mas vamos adiante. A humanidade em geral e o pecador que está recebendo o perdão, concretamente, se afastaram do Senhor por sua desobediência e orgulho. Mas Deus, por assim dizer, fica chateado com esta atitude orgulhosa, desobediente e rebelde do ser humano. Assim, “neste transfundo aparece Cristo, que ‘se despojou e se rebaixou até a morte’ (cf. Fl 2,7-8); com sua atitude humilde e obediente, Cristo muda o rosto da humanidade; agora, pela obediência de Cristo, a humanidade é santa e agradável a Deus. O corpo santo de Jesus, destruído na cruz, vem a ser, então, como que a imagem – o ‘símbolo’ ou o ‘sacramento’ – de como foi destruído o pecado dos seres humanos: ‘Carregou nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro para que, mortos para o pecado, vivêssemos para a justiça’ (1Pd 2,24). Por isso que a fórmula litúrgica diz: ‘Deus reconciliou o mundo pela morte do seu Filho’. Aquele que não tinha nada a ver com o pecado, diz Paulo, ‘Deus o fez pecado por nós, para que nele fôssemos justiça de Deus’ (2Cor 5,21)”. Mas não só a morte do Senhor!... Também se fala da sua ressurreição. Como afirma Paulo: ele foi “entregue por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação” (Rm 4,25). “Por isso vale a pena insistir que também a ressurreição, aludida na fórmula, é ‘sacramento’ ou símbolo do perdão. Com efeito, se o corpo do Senhor destruído na cruz simboliza o pecado humano destruído, este mesmo corpo glorificado e colocado à direita do Pai – um homem verdadeiro como nós, sentado junto de Deus – simboliza intensamente a reconciliação da humanidade com Deus e é o início da humanidade reconciliada e amiga de Deus: ‘Na pessoa de Cristo Deus nos fez sentar com ele no céu’ (Ef 2,6)”. Como se vê, a Igreja, diante dos sinais de conversão do penitente, “faz o memorial das grandes ações do mistério pascal do Senhor que, em nome da humanidade..., passa deste mundo de pecado ao reino da luz do Pai. E este memorial, tornado presente nas palavras e gestos do ministro, faz com que o Amor de Deus – o Espírito Santo – que ressuscitou Cristo dentre os mortos (Rm 8,10), seja derramado de novo também sobre o pecador. É o que expressa a bonita fórmula de absolvição” , através da qual o pecador acolhe o perdão e a paz que lhe vêm do mistério pascal, sendo libertado da escravidão do pecado para estar livre para Deus.

A oração da fórmula é acompanhada pelo importantíssimo gesto da imposição das mãos, ou pelo menos da mão direita, símbolo da transmissão do Espírito Santo para o perdão dos pecados.

Enfim, a fórmula conclui celebrando o fato de que toda a reconciliação é obra da própria Trindade agindo mediante pessoa do ministro representante da Igreja: “E eu te absolvo em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”.


Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Vamos retomar a fórmula da absolvição e comentar o seu conteúdo.
2. Qual a imagem de Deus que aí transparece? O que a reconciliação faz acontecer em nossa vida?
3. Qual a importância do gesto da imposição das mãos?
Liturgia em Mutirão III - CNBB



TEUS PECADOS ESTÃO PERDOADOS...
VAI EM PAZ!

Frei Faustino Paludo, OFMCap


Jesus disse à pecadora: “eu não te condeno. Podes ir, e não peque mais” (Jo 8,11). O sacramento da Penitência não visa culpabilizar as pessoas, mas absolve-las, isto é, libertá-las, reconciliando-as. “Ao pecador que manifestou sua conversão ao ministro da Igreja, pela confissão sacramental, Deus concede o perdão mediante o sinal da absolvição” (RP n. 6 d). Absolver (latim absolvere) significa perdoar, desligar do pecado. Jesus disse: “Eu lhes garanto: tudo o que vocês desligarem na terra, será desligado no céu” (Mt 18,18; cf Mt 16, 19). “Os pecados daqueles que vocês perdoarem serão perdoados” (Jo 20,23).

No sacramento da Penitência, o sacerdote, impondo as mãos sobre o penitente, diz: “Deus, Pai de misericórdia, que, pela morte e ressurreição de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e enviou o Espírito Santo para remissão dos pecados, te conceda, pelo ministério da Igreja, o perdão e a paz. E eu te absolvo dos teus pecados, em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”. Aqui, a celebração atinge seu fim: o perdão reconciliador. Pela ação do ministro, a Igreja proclama o perdão misericordioso de Deus, pela morte e ressurreição de Jesus Cristo e pela ação do Espírito Santo. O pecador arrependido é novamente acolhido na comunidade daqueles que ouvem a Palavra e tomam parte na ceia eucarística.

Que beleza! A fórmula da absolvição é uma exclamação de louvor que explicita a ação reconciliadora da Trindade. Observemos que o perdão e a paz, a reconstituição da aliança, são frutos da ação conjunta e solene da Trindade e da Igreja (cf CEC 1449). A reconciliação se traduz no retorno ao Pai, que nos amou por primeiro; a Jesus Cristo, que doou sua vida por nós; e ao Espírito Santo, que foi derramado abundantemente sobre nós. A fórmula da absolvição se constitui numa manifestação do amor sem limites de Deus para com seus filhos e filhas. Ao proclamá-la, o ministro transforma-se num servidor do amor e do perdão que liberta e ressuscita o pecador da morte para a vida.

A absolvição do pecador é dom gratuito do Deus rico em misericórdia. Fique bem claro: o perdão brota da ação misericordiosa de Deus e não de um simples gesto jurídico da Igreja. É expressão do gesto de Jesus que, encontrando a ovelha perdida, coloca-a sobre os ombros e a reconduz ao redil (cf Lc 15, 3-7). É ação do Espírito Santo que renova e santifica aquele que é seu templo (cf RP 6d).

Absolvido, o pecador experimenta em si a alegria da paz. O projeto da vida batismal, desfigurado pelo pecado, é reconstruído pela graça de Deus. O penitente é, agora, uma nova criatura. Por isso que, na opinião do Pe. Härig, “a alegria é a nota mais viva da absolvição”.

Perguntas para reflexão pessoal ou em grupos:
1. Por que há gente que prefere se confessar diretamente a Deus?
2. Quem é que declara ao pecador o perdão de seus pecados?
3. Mas se o Padre é também pecador, em nome de quem ele proclama: “eu te absolvo de teus pecados”?
4. Qual deveria ser a atitude da pessoa perdoada e reconciliada ao concluir a celebração da Penitência?
Liturgia em Mutirão III - CNBB

quinta-feira, 18 de março de 2010


COMENTÁRIO SOBRE A MÚSICA
“FAZ UM MILAGRE EM MIM”


Este artigo do estudante de Teologia Reginaldo Guergolet, faz um comentário crítico a respeito da Música “Faz um milagre em mim” de Regis Danesi. Leia e reflita.


Reginaldo Antonio GHERGOLET

1. Compreendendo a realidade

Temos visto ultimamente a explosão de sucesso na mídia de uma música aparentemente de caráter religioso que aos poucos caiu na graça do povo e tem sido muito utilizada em encontros e liturgias entre católicos muitas vezes desavisados sobre o conteúdo daquilo que estão propagando sem o mínimo de senso crítico a respeito do teor proposto pela canção. Trata-se da música “faz um milagre em mim” de Regis Danesi que ganhou força exatamente por sua índole religiosa e sua suposta fundamentação bíblica que abriu caminho para o sucesso.

Essa crítica é algo que poderia ser deixado de lado sem o mínimo de prejuízo para a doutrina cristã católica, mas devido os constantes questionamentos sobre o assunto e o mau uso dessa música nas liturgias, faz-se necessário um estudo mais aprofundado da mensagem da letra em paralelo a mensagem de Lucas onde o autor imagina ter buscado inspiração. Nada disso precisaria ser feito, mas devido à distância entre as duas mensagens, é interessante esclarecer certos aspectos para que os equívocos com relação ao uso da canção sejam evitados. Afinal de contas, onde seríamos levados por tal mensagem?

Observa-se na letra da música a grande quantidade do uso do pronome possessivo singular que dá idéia de posse indicando a astúcia do autor para o seu sucesso. Vivemos em um tempo onde o individualismo está em alta. Onde a ascensão imediata é adorada como valor absoluto, basta observar os reality shows que são promovidos constantemente. É uma tendência criada pela mídia por interesse do mercado que precisa vender seus produtos. O autor percebeu que a maioria das pessoas que vivem sobre essa realidade e se familiarizam com uma mensagem intimista que acima de tudo tem aspectos de religiosidade, eis o segredo do sucesso.

No campo religioso, não é diferente. Vivemos em um mundo imediatista onde muitas denominações cristãs buscam na religião um consolo individual descompromissado. Agrada a idéia de um “deus” à disposição da vontade humana que está pronto para atender os caprichos dos homens no momento em que precisar. Deus atende aos pedidos sim, mas somente aqueles que vão fazer um bem verdadeiro, ou seja, que vão ajudar na minha salvação e não os puramente interesseiros. É fácil aceitar Jesus, mas os valores cristãos exigem posturas diferentes, por isso sua doutrina acaba sendo rejeitada. O milagre e a cura são sempre bem vindos, mas assumir um compromisso com Jesus não interessa a ninguém. É a religião do proselitismo onde muitos percebem essa realidade e tiram vantagem para atrair adeptos.

Uma pequena reflexão sobre o contexto em que vivemos, mas que abre o caminho para explicar o sucesso da música que vamos analisar em paralelo a mensagem do Evangelho. Lucas tem seu objetivo e Regis Danesi também. A diferença das duas mensagens e a relevância para nossas vidas e para a vida da Igreja será explorada nesse estudo. Resta ainda a pergunta: com qual mensagem vamos ficar? Essa decisão é pessoal. Que Deus abençoe a escolha.

2. As duas mensagens

2.1 Faz um milagre em mim

O título da música evoca toda a intenção do autor e dá para se ter uma idéia do caminho que ele vai percorrer. O que muitos querem é o milagre e isso ele propõe. Não teria problema algum se ele não tivesse utilizado como base de sua mensagem a passagem de Lucas no capítulo 19, 1-10 onde está a narração da conversão de Zaqueu . Lucas narra a caminhada de Jesus que sai da Galiléia e vai até Jerusalém para o cumprimento da missão e nessa caminhada vai encontrando as pessoas que ao perceberem Jesus mudam de vida e passam a viver conforme seus ensinamentos mostrando a riqueza de seu seguimento conforme vemos em Lc 9,51-19 (Cf PIKAZA, 1985, p. 74).

No final dessa caminhada está o episódio de Zaqueu que é exclusividade de Lucas. Nenhum outro evangelista fala sobre Zaqueu, portanto, só podemos chegar à conclusão que foi aqui que o autor da música se inspirou. Nessa passagem Lucas fala abertamente sobre a conversão de Zaqueu e enfatiza suas atitudes após o encontro e como sabemos conversão não é milagre . O termo milagre nem se quer faz parte dos temas teológicos de Lucas que trabalha a conversão, a oração, a universalidade e o Espírito Santo. Marcos é quem contempla essa realidade dos milagres, mas Lucas não, principalmente nessa passagem que o autor em questão se baseou mostrando assim a distância de sua mensagem com o que a Bíblia coloca.

Para Lucas o que interessa é a conduta de Zaqueu e mais nada. Ele sentiu o chamado e foi ao encontro de Jesus, subiu na árvore e desceu para uma vida nova. Converteu-se definitivamente ultrapassando qualquer expectativa. Zaqueu mudou de vida e dá provas disso, pois deu a metade do que tinha aos pobres e ainda prometeu restituir quatro vezes mais o que tinha roubado (Cf. Lc 19,8). Sua conversão foi autêntica, pois o levou ao cumprimento radical das prescrições da Lei (Cf. Ex 21,37; Lev 5,20-26). Não restitui apenas os 120%, mas vai além porque encontrou o amor de Deus em Jesus (Cf. STÖGER, 1973, p 139). Sua atitude mostra decisão e força de vontade. Seguir Jesus requer decisão, não basta dizer “estou são”, não bastam as boas intenções. Da conversão o discurso não serve para nada, são os frutos que interessam e isso o Lucas enfatiza (Cf. PIKAZA, 1985, p. 111). Não vemos nada de milagre, não se dá para entender de onde o autor tirou essa idéia. Sendo assim, podemos ter uma noção do equívoco em comparar as mensagens. Mas isso é só o título, vamos ao restante da letra.

Como Zaqueu eu quero subir
O mais alto que eu puder
Só pra te ver, olhar para ti
E chamar sua atenção para mim

Nessa primeira estrofe o autor se encarna em Zaqueu e tenta reproduzir seus sentimentos ou talvez sentir o que Zaqueu sentiu. Até que a construção poética é bela, mas o objetivo não foi alcançado. Ele fala que como Zaqueu ele quer subir, mas agora fica a pergunta: será que Zaqueu queria subir? Um homem de posição, um ”empresário”, rico e com uma reputação a zelar não se prestaria ao papel de macaquinho apenas por achar bonito subir na árvore. Subir na árvore é perder a dignidade social baseada no poder e na riqueza (Cf. STORNIOLO, 2004, p.167). Talvez Zaqueu preferisse utilizar de sua influência, mas não estava em condições de exigir muita coisa. Zaqueu era considerado como cobrador de impostos pecador para os judeus e sendo rico distante do Reino dos céus para Jesus (Cf Lc 12,33; 18,24-27), portanto, um caso muito difícil de resolver. Assim se conclui que Zaqueu não queria subir na árvore, mas subiu porque precisava subir, porque era de baixa estatura, era pequeno (Cf Lc 9,48), era pecador e precisava de Jesus e tinha a consciência atormentada. É por isso que seu coração palpitava de desejo de ver Jesus (Cf. STÖGER, 1973, p. 139).

O fato é que Zaqueu subiu sim, não se sabe se foi tão alto como fala a música, mas certamente deu para ele ver Jesus. A única coisa que queria era ver Jesus e sentir seu amor porque já ouvira falar coisas boas dele. Mas Jesus não se contenta apenas em ver Zaqueu, vem ao seu encontro e envolve sua vida com a de Zaqueu. Jesus não se contenta, quer ir mais a fundo na questão. Todo mundo só via em cima daquela árvore um pecador, mas Jesus viu um homem de consciência atormentada que precisava de sua ajuda (Cf. BORTOLINI, 2003, p. 55). Entretanto o autor coloca no final da estrofe que queria chamar a atenção só para ele. Com certeza essa não era a vontade de Zaqueu, pois ele não gritou, não escreveu faixas e não fez nada de extraordinário, apenas subiu.

O chamar a atenção só para si revela a religiosidade de interesse e intimista impregnada na mentalidade popular. Como é grande o desejo de muitos de terem um Deus à sua disposição pronto para atender as suas necessidades. É o sonho de muita gente que Jesus fosse um gênio da lâmpada mágica que na hora em que precisasse, era só esfregar e ele aparece para realizar o desejo. A atenção de Jesus só para mim, para mais ninguém. Como se só eu precisasse de Jesus. É a mentalidade de muitas religiões e muitas seitas e pessoas que pensam em enquadrar Jesus a suas necessidades e objetivos. Talvez o autor nem tenha consciência disso, mas está sujeito a esse tipo de ideologia infelizmente comum em nossos dias. O pior é saber que se essa música faz tanto sucesso, não é só ele que está nesse barco, muitos navegam sem saber.

Basta apenas frisar que um dos temas teológicos mais profundos de Lucas é a universalidade, ou seja, Jesus veio para salvar a todos sem distinção e os pecadores são os preferidos de seu coração misericordioso. Portanto, o chamar a atenção só para mim é algo do autor e da mentalidade popular, não de Lucas para quem Jesus é para todos. Não precisa nem dizer que foi mais uma bola fora, talvez a maior delas, mas confiemos, Jesus é misericordioso.

Eu preciso de ti senhor
Eu preciso de ti oh pai
Sou pequeno demais
Me dá tua paz
Largo tudo pra te seguir

Nessa estrofe pode-se concluir que o autor foi mais feliz, mas não tanto assim. Todo mundo precisa de Jesus, Zaqueu eu e você, todos nós. Que bom que essa consciência ainda perdura. Claro que como já vimos, saber que precisa é uma coisa, aceitar Jesus e suas exigências é outra. Mas mesmo assim, é preciso dizer que Jesus não é Pai, mas sim, o Filho, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. Jesus é Deus tal e qual o Pai, com a mesma substância, mas com missão diferente. É Deus quem fez uma aliança com o povo de Israel e prometeu fidelidade para sempre (Cf. Gn 6,18; Ex 19,9-15). Mas Zaqueu, como o povo de Israel, como eu e como você quebrou essa aliança e caiu na infidelidade. Deus ama e por isso mandou seu Filho que é Jesus para salvar Zaqueu e a nós, e para mostrar a misericórdia divina. A abertura do homem à graça da conversão é obra do Espírito Santo. É a Santíssima Trindade agindo na obra da salvação (Cf. GOMES, 1981, p. 215-221). A missão do Filho que é Jesus ao qual o autor se refere é salvar, mas ele não é o Pai, Pai é Deus (Cf LG nº 3).

Diante do amor de Deus manifestado em Jesus somos todos pequenos, porque amor de Jesus nos constrange (Cf. 2Cor 5,14). Reconhecer a pequenez é um bom caminho e isso tem a ver com a mensagem de Lucas. Foi o que Zaqueu fez. A paz de Jesus também é uma boa, mas a paz de Jesus incomoda e exige (Cf. Mt 10,34-35). A paz que muita gente deseja é a ilusão de que tudo está bem. É isso que muita gente busca na religião, um consolo psicológico apenas, o estar perto de Jesus porque isso faz bem. Adorá-lo, adorá-lo e adorá-lo é o objetivo de muitos. A paz é sim dom de Deus, mas é preciso construí-la. Não apenas se recebe gratuitamente de Jesus porque ela é fruto da justiça (Cf. Is 32,17). É nos pequenos atos de doação, de partilha, de amor que a paz se faz presente, a paz é uma conquista.

O autor ainda coloca que larga tudo para seguir Jesus. É uma promessa um pouco leviana e contraditória do autor a não ser que estivéssemos falando de um Francisco de Assis. Mas Jesus em Lucas não quer apenas seguidores atrás de si sem nada para oferecer (Cf. Lc 8,1–3). Ele quer pessoas generosas que mesmo tendo alguma coisa, sabem partilhar aquilo que tem (Cf. Lc 21,1-4). Devemos seguir Jesus sim, mas com o que temos e com o que somos, no lugar em que estamos. O deixar tudo (Cf. Lc 5,11) para Lucas é colocar tudo a serviço do seguimento de Jesus continuando sua palavra e ação no mundo (Cf. STORNIOLO, 2004, p.55). Largar tudo não é a vontade de Jesus, mas sim o amor que leva a pessoa a se doar pela causa do Reino.

Entra na minha casa
Entra na minha vida
Mexe com minha estrutura
Sara todas as feridas
Me ensina a ter santidade
Quero amar somente a ti
Porque meu senhor é meu bem maior
Faz um milagre em mim

Pelo que parece, esse é o refrão da música e certamente nele esta as “grandes verdades” do autor. Mas o que percebemos é que ele nem sequer leu o Evangelho no qual ele pensa que se baseou. Algo que angustia é saber que Lucas de todas as formas enfatiza as atitudes de conversão de Zaqueu e as iniciativas que tomou. Aqui, o que vemos é alguém exigindo um monte de coisa de Jesus. Ao invés de servir Jesus como propõe o Evangelho, aqui Jesus é feito de empregado com um monte de tarefa a cumprir. É alguém dando ordens e esperando tudo de braços cruzados como se as pessoas não precisassem fazer nada. É o que o mundo quer, é o que o autor propõe por isso faz sucesso.

A primeira ordem é: entra na minha casa, entra na minha vida. No Evangelho não houve isso. Zaqueu nem sequer abriu a boca. Não chamou Jesus e nem exigiu nada. Jesus gratuitamente se apresentou e chamou Zaqueu pelo nome. Jesus conhece o pecador, conhece o coração, conhece a necessidade, por isso se aproxima. Mais ainda, Zaqueu não convida Jesus para entrar em sua casa, Jesus se oferece espontaneamente (Cf. Lc 19.5). Ele vai não porque o pecador chama, mas porque o pecador precisa dele. Para Zaqueu bastou apenas descer da árvore e recebe-lo com alegria. Descer da árvore é mais importante que subir porque indica a aceitação de Jesus. Com a acolhida de Jesus e das exigências que sua presença supõe tudo mais acontece.

As ordens continuam: Mexe com minha estrutura, sara todas as feridas. São pedidos interessantes, mas exigentes. Jesus não mexeu na estrutura de Zaqueu. Ele mesmo tomou consciência de seu pecado, depois disso mudou de vida e tomou as atitudes que tomou. Não é preciso mexer com as estruturas, é perigoso desmoronar tudo. Basta perceber a presença de Jesus e tomar consciência, tomar vergonha dos erros e querer melhorar. Mexer nas estruturas é função minha não de Jesus. Foi o que Zaqueu fez, é o que Lucas transmite.

A outra ordem para Jesus também é reveladora: sara todas as feridas. É o que muita gente pensa, reduz Jesus a Curandeiro como se essa fosse sua única função ao se encarnar no mundo. É inegável que Jesus fazia milagres, realizava curas, o próprio Lucas relata isso (Cf. Lc 5,17-25; 6,6-11), mas sua maior função é salvar a humanidade, foi por isso que ele fez o caminho e morreu na cruz.

Quando o autor fala de todas as feridas se referindo a Zaqueu, certamente ele está falando do pecado. A cura de todas as feridas (pecado) não depende somente de Jesus, depende de mim, da minha força de vontade de sair da situação de pecado, de me arrepender e buscar o perdão de Deus. As piores feridas que carregamos existem em função do pecado e da falta de perdão. Zaqueu buscou o perdão de Deus e experimentou a sua misericórdia. Dar ordens para Jesus não adianta nada, é preciso aceitar o remédio e esse - para surtir efeito - às vezes causa dor. Não foi fácil para Zaqueu tomar as atitudes que tomou. A cura depende também de quem está doente.

Me ensina ter santidade, mais uma ordem. Jesus já ensinou e continua ensinando. Basta ler os evangelhos (Cf. Mt 5,1-12). O maior ensinamento de Jesus é o amor a Deus e ao próximo, eis o caminho da santidade. Zaqueu percebeu isso. Depois aparece uma atitude típica da religiosidade atual. Uma contradição com a primeira proposição. Santidade é amar a Deus e aos irmãos, como é que agora aparece esse desejo de amar somente Jesus?

Jesus não quer apenas pessoas ajoelhadas diante de si para adorá-lo. Quer pessoas dispostas a aprender a mansidão e a bondade de coração que ele transmite e pessoas que tenham coragem de ajoelhar aos pés dos irmãos para lavar-lhes os pés (Cf. Jo 13,2-11). Se não acreditamos nisso, podemos rasgar os Evangelhos de nossas Bíblias que não irão fazer falta alguma. Não dá para ser santo amando apenas Jesus, isso é um absurdo, pois seu maior mandamento é amar uns aos outros como ele próprio amou, isso todos os evangelistas falam (Cf. Mt 22,39; Mc 12,30-31; Lc 10,27-28; Jo 13,34).

Por fim, uma coisa interessante. O senhor é meu bem maior. Ainda bem que a música termina com uma afirmação verdadeira. Ter consciência que Jesus é o bem maior deve produzir atitudes em nós que valorizem esse bem. Zaqueu assim o fez e Lucas cravou na história essa passagem para mostrar a todos nós o que deve ser feito. Se Jesus é um bem, deve ser buscado como um bem, não por interesse apenas. Zaqueu subiu na árvore, se esforçou. Quais esforços realizamos para adquirir esse bem? E o autor finaliza com o tema da música que já estudamos.

3. Finalizando

É inegável o sucesso da música e a grande aceitação popular de sua mensagem. Não se pode questionar o talento de Regis Danese que soube utilizar as expectativas atuais para lançar suas idéias. Certamente tinha o objetivo de evangelizar e o fez segundo a proposta de seu segmento religioso. Não podemos exigir dele o conhecimento bíblico que acabamos de verificar. Mas dos pastores e agentes pastorais da Igreja Católica que utilizam essa música em suas liturgias, é preciso exigir o mínimo de senso crítico. Para isso foi feito e estudo do Evangelho em contraponto a letra da música.

A música em si é bela e as coisas belas fazem bem a alma, mas a ideologia que transmite nem sempre é benéfica. É por isso que o senso crítico é necessário. Nossa Igreja é rica em conteúdo, temos uma tradição grande e belíssimos cânticos com amplas mensagens fiéis às escrituras, não há motivos para se rebaixar ao gosto popular. Seguir o modismo não é critério sábio para quem deseja fazer uma boa evangelização. De intimismo e individualismo o mundo está cheio, o que precisamos é do amor de Deus e de uma liturgia lúcida que transmita esse amor. Para isso temos nossos cantos, nossa tradição, temos bons compositores que são fiéis às Sagradas Escrituras, não precisamos recorrer e depender do modismo e suas peripécias.

Podemos depois de tudo encontrar alguém que venha dizer: “mas essa música me faz bem”. Diante disso basta apresentar a mensagem do Evangelho. Se a música faz bem, Deus age até por meios imperfeitos, mas se queremos “um bem maior”, devemos buscar Jesus e isso os evangelistas oferecem em seus evangelhos com mensagens verdadeiras. Entre Regis Danese e Lucas, fiquemos com o Evangelista porque sua mensagem, apesar de exigir conversão e atitudes verdadeiramente cristãs, produz efeitos benéficos na vida dos homens e da Igreja. Esses são os efeitos queridos por Deus ao enviar seu filho Jesus Cristo ao mundo para morrer por nossos pecados.

Esses efeitos não são passageiros como os da música porque tem o objetivo de produzir em nós a salvação eterna. Em poucos dias ninguém mais se lembrará dessa música, enquanto Lucas com sua mensagem já atravessou milênios. Jesus misericordioso de Lucas nos ama incondicionalmente e está pronto a nos ajudar na conversão que deve ser diária e constante. O Milagre ele já fez, assumiu nossa condição e nos resgatou da morte e do pecado. Não precisamos pedir mais milagre, precisamos da graça de acolhê-lo e deixar sua presença nos transformar em verdadeiros discípulos e missionários. Esse efeito, tal música não produzirá na vida da Igreja de Cristo.

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Referências

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