quarta-feira, 29 de junho de 2011


OS SÍMBOLOS NA LITURGIA


Pe. Cristiano Marmelo Pinto


1. Compreensão de sinal e símbolo

A celebração litúrgica constitui um conjunto de sinais, símbolos, gestos, palavras, objetos, tempo, lugares, etc. Toda a liturgia tem um caráter simbólico, ou seja, toda a liturgia é simbólica. Nela prevalece a linguagem dos símbolos, mais intuitiva e afetiva do que conceitual. José ALDAZÁBAL afirma que “é a linguagem simbólica que nos permite entrar em contato com o inacessível: o mistério da ação de Deus e da presença de Cristo” . A liturgia é ação, é comunicação, é gestos, movimentos, etc. Através dos sinais e símbolos a liturgia nos permite experimentar, entrar em comunicação e em comunhão com o mistério de Deus em Jesus Cristo. Para Julián L. Martín, “os sinais litúrgicos estão, antes de tudo, a serviço da presença e da realização de uma salvação que está destinada aos homens em suas circunstâncias históricas e existenciais” . Este estudo sobre os símbolos na liturgia pretende buscar, mais do que um elenco de sinais e símbolos na liturgia, quer compreender sua função no contexto da ação litúrgica para sua valorização e melhor participação no mistério de Cristo celebrado.

2. Noções sobre sinal e símbolo

Antes de uma reflexão mais profunda a respeito dos símbolos na liturgia, é necessário compreender o seu significado, sua origem. A filosofia grega, os Padres da Igreja e a própria liturgia utiliza o termo símbolo no seu sentido originário. Ele não é sinônimo de aparente ou irreal. Trata-se, como afirma Alberto Beckhäuser, da “mesma realidade em outro modo de ser” . Porém, é necessário fazer uma distinção entre sinal e símbolo. Um não é o outro. Nem todo sinal é símbolo, mas todo símbolo é sinal.

Sinal leva ao conhecimento de algo que lhe é diferente em si mesma. O sinal por si aponta para algo exterior a ele. “O sinal não é o que significa, mas sim o que nos orienta, de um modo mais ou menos informativo, para a coisa significada” . Ele é uma realidade ponte entre algo conhecido e o conhecimento de outra coisa. O elemento conhecido denomina-se significante enquanto que o que está além é denominado significado. O sinal é um meio de expressão e de comunicação. No sinal podemos verificar as seguintes condições:

a) Ser distinto do significado;
b) Depender de alguma maneira do significado, ou seja, ser menos perfeito do que ele;
c) Guardar alguma relação de semelhança com o significado;
d) Ser mais conhecido que o significado.

A palavra símbolo é de origem grega e significa reunir, por juntas as partes de uma mesma coisa, que se achavam separadas. “O símbolo estabelece uma identidade afetiva entre a pessoa e uma realidade profunda que não se chega a alcançar de outra maneira” . O símbolo reúne em si as realidades, contendo um pouco de cada uma delas. Podemos falar de símbolo, como afirma J. L. Martín, “quando se tem diante de si um significante que remete não a um significado preciso, como no caso do sinal, mas a outro significante que de certo modo se faz presente” . Por este motivo, o símbolo possui uma função representativa, ao tornar presente o significado e ao mesmo tempo participar dele.

Deve-se perceber nos símbolos os seguintes elementos:

a) Uma realidade sensível (um ser, um objeto, uma palavra);
b) Uma correspondência ou relação de significado, com a qual se entre em contato por meio do elemento significante;
c) A realidade significada com a qual se entra em contato está de tal maneira presente e unida ao significante que sem ele não poderia exercer sua influência;

3. O simbolismo na Sagrada Escritura

Assim como as demais religiões, também a Sagrada Escritura está perpassada por sinais e símbolos. O cristianismo não por menos, baseia todo o seu simbolismo na Sagrada Escritura. A Constituição Conciliar sobre a Liturgia Sacrosanctm Concilium afirma que “na celebração litúrgica é máxima a importância da Sagrada Escritura. Pois dela são tiradas as leituras, os salmos que são cantados as preces, orações e hinos (...) e é dela também que recebem seu significado as ações e sinais” (SC 24). Da Sagrada Escritura a liturgia cristã acolhe os gestos e ações simbólicas dos que precederam na fé a partir de Abraão (cf. Rm 4,16-17). Dela também, a liturgia reproduz os símbolos da economia da salvação nas várias etapas da história da salvação.

O termo símbolo é pouco usado na Sagrada Escritura. Utiliza-se com mais freqüência o termo sinal. Porém, o simbolismo é algo natural no mundo semítico e esta linguagem se encontra na Sagrada Escritura. Nela, vemos que a pedagogia dos sinais é constantemente utilizada nas relações de Deus com o povo. Momentos culminantes desta linguagem podemos encontrar na revelação de Deus no monte Sinai. Nos escritos proféticos, nos salmos e nos livros sapienciais. Muitos relatos e narrações possuem um significado simbólico.

Os sinais no Antigo Testamento podem ser classificados em quatro grupos:

a) Sinais da criação: culminando com a criação do homem “imagem e semelhança” de Deus;
b) Sinais acontecimentos: constituem os grandes momentos da história da salvação, cujo momento alto é o êxodo;
c) Sinais rituais: constituem todas as instituições litúrgicas e festivas de Israel (santuário, sábado, sacrifícios, etc.);
d) Sinais figuras: colocam em relevo a missão de alguns determinados personagens (patriarcas, Moisés, etc.), ou determinadas funções (pastor, profetas, sacerdotes, etc.).

A principal característica do simbolismo bíblico é seu pano de fundo histórico-salvífico. Eles expressam a continuidade da presença salvadora de Deus e possuem um caráter prefigurativo e memorial. Os sinais que possuem um caráter litúrgico são prefigurações dos sacramentos da Igreja.

No Novo Testamento, os sinais do Antigo Testamento são aplicados em relação a Jesus Cristo e a comunidade cristã. Em Jesus todo símbolo, toda figura que aparecem na história da salvação estão concentrado nele. Ele não somente se serviu dos sinais do Antigo Testamento, mas deu a eles seu pleno cumprimento.

Jesus não somente se serviu dos sinais da criação para dar a conhecer o Reino de Deus, mas deu cumprimento a quanto anunciavam os sinais-acontecimentos e os sinais-rituais, concentrando-os em sua pessoa e realizando curas por meio de gestos simbólicos que manifestavam seu poder salvador .

O culto inaugurado por Jesus Cristo não estava ligado a nenhum lugar, mas ao “templo do corpo” e a ação do Espírito Santo. Porém, ele perpetuou sua ação salvadora através de sinais e ações simbólicas, confiadas a Igreja. Entre estas ações merecem destaque o batismo e a eucaristia . Destes dois sacramentos renasce e se edifica continuamente a Igreja.

Jesus também empregou a si mesmo sinais do Antigo Testamento, definindo-se a si mesmo como o Novo Moisés (cf. Hb 3,2-3), o Bom Pastor (cf. Mt 15,24), etc.

Alguns sinais e símbolos do Antigo Testamento também foram empregados à Igreja em relação a si mesma e a Cristo. A Igreja esposa, corpo místico de Cristo, etc.

4. O simbolismo na liturgia

A comunidade cristã se serve inicialmente dos sinais e símbolos que ela recebeu do Senhor e de muitos outros. Temos num momento inicial, por exemplo: a imposição das mãos, a concessão de ministérios, a unção com óleo, etc. Como afirma J. Lopéz Martín:

Todas ações significativas às quais progressivamente se foram unindo outros sinais e símbolos procedentes da matriz bíblica e numa constante referência à doutrina e ao exemplo do próprio Cristo que se serviu do simbolismo para expressar e realizar a salvação .

O simbolismo na liturgia é fruto tanto da herança bíblica como também da influência de outras culturas e de modo concreto da cultura helênica. Da junção dos diversos elementos das mais variadas culturas onde o cristianismo se fazia presente, a liturgia cristã foi criando uma nova síntese simbólica dos sinais, imagens, símbolos, dando origem a uma característica totalmente original e cristã. A liturgia cristã não abole estes elementos, sinais e símbolos, proveniente de outras culturas, mas os purifica, dando uma nova significação.

Os sinais e símbolos na liturgia são sinais da fé. Não só são sinais como também alimenta a fé. A Constituição Sacrosanctum Concilium ao tratar dos sacramentos diz que “como sinais, visam também à instrução. Requerem a fé, mas também a alimentam, sustentam e exprimem, com palavras e coisas, merecendo, por isso, ser chamados sacramentos da fé” (SC 59). Todo sinal e símbolo litúrgico remetem para os fatos e palavras do próprio Cristo e de toda a história da salvação. São sinais das “realidades invisíveis presentes, a graça santificante e o culto a Deus” .

5. Sinais e símbolos na liturgia

A liturgia possui um leque enorme de sinais e símbolos. Existem muitas categorias de sinais e símbolos litúrgicos. Existem sinais e símbolos vinculados a pessoas e ao corpo humano, outros relacionados com coisas materiais, de modo que a liturgia se serve de uma série de sinais e símbolos expressivos para manifestar toda a sua beleza e mistério, de modo que precisamos valorizá-los, ao invés de introduzirmos elementos estranhos a própria natureza da liturgia. Passaremos agora a relacionar um breve elenco de sinais e símbolos na liturgia sem a pretensão de esgotá-los.

6. Elenco de sinais

a) Pessoas:
- a assembléia litúrgica,
- os ministros ordenados (bispos, presbíteros e diáconos).

b) Atitudes corporais:
- de pé (significa ação, expectação, oração comum);
- sentados (significa escutar, atender e meditar, oração pessoal);
- de joelhos (significa rebaixamento, adoração, oração pessoal);
- genuflexão
- prostração (significa aniquilamento, morte, ressurreição para um estado de vida, oração
pessoal);
- inclinação (significa rebaixamento, súplica, veneração); etc.

c) Gestos de todos os fiéis:
- fazer o sinal da cruz (significa invocação trinitária, memória do mistério pascal, identificação
com Cristo crucificado);
- dar-se a paz (expressa comunhão no espírito);
- bater no peito (significa conversão, penitencia);
- caminhar, ir em procissão, levar o pão e o vinho ao altar, dançar, beijar a cruz, etc.

d) Gestos dos ministros:
- levantar os olhos (significa oração e súplica);
- estender as mãos (significa oração a Cristo na cruz);
- impor as mãos (significa exorcismo, doação do Espírito Santo, cura, reconciliação, transmissão
de carisma, etc.)
- partir o pão (significa autodoação, compartilhar, eucaristia);
- soprar (significa comunicação do Espírito Santo);
- assinalar (significa marcar e selar com o sinal de Cristo);
- outros gestos: lavar os pés, elevar, mostrar, beijar, saudar, ungir, crismar, tocar, acompanhar,
acolher, impor uma veste, etc.

e) Ações:
- ablução e imersão (significa renascer, ressuscitar);
- aspersão (recordação do batismo);
- oração, jejum, silêncio (significa penitência, oração, fome espiritual, participação no mistério
pascal de Cristo);
- outras ações: imposição das mãos, bênção, beijo da paz, sepultar, abrir e fechar, etc.

f) Elementos naturais: água, pão, vinho, óleo, sal, leite e mel, luz, trevas, fogo, círio pascal, incenso, flores, ramos, etc.

g) Objetos: cruz, imagens, lâmpadas, livros litúrgicos, Evangeliário, vestes litúrgicas, cores litúrgicas, insígnias (anel, báculo, pálio), vasos, sino, toalhas, corporais, pala, sacrário, etc.

h) Tempos: dia, noite, horas, vigília, semana, ano, domingo, festas, oitavas, quaresma, cinquentena, ano jubilar, etc.

i) Lugares: igreja, nave, presbitério, cátedra, sede, ambão, altar, batistério, fonte batismal, confessionário, porta, cemitério, etc.

7. O rito litúrgico como expressão simbólica

A liturgia cristã é um conjunto de ritos. A ritualidade é um elemento essencial de toda celebração litúrgica. Conforme a interpretação sociológica, o rito é a expressão, o gesto simbólico destinado à função identificadora de promover a coesão do grupo que celebra, formando uma assembléia. O rito é um mecanismo de orientação que oferece um quadro seguro e fixo para uma experiência determinada. O rito é expressão simbólica, é memorial.

A repetição é uma característica essencial do rito, visto que, por definição, o rito é uma ação representativa dos fatos da história da salvação, fatos que são sempre os mesmos. Pelo rito entramos em contato com os gestos de Cristo. A repetição ritual nos permite entrar, nos aproximar de Cristo e de seus gestos e palavras e nos integra a eles.

A ritualidade litúrgica gira em torno da eucaristia e dos demais sacramentos, que constituem a Igreja e manifestam e comunicam o mistério de Cristo a todos os fiéis.

8. Conclusão

Como vimos, o símbolo faz parte da própria experiência humana. Na liturgia ele se reveste de uma nova e mais profunda significação, remetendo a experiência do mistério pascal de Cristo e de toda a história da salvação. A liturgia cristã é uma constelação de sinais e símbolos que precisam ser valorizados e alguns recuperados. Muitas vezes em nome da “criatividade” acabamos por reduzir os símbolos litúrgicos, ou em alguns casos, introduzindo no contexto celebrativo elementos estranhos a própria natureza da liturgia. A simbologia e a ritualidade litúrgica não exclui a criatividade. Mas é preciso que, no uso da criatividade, façamos uma re-leitura de toda a simbologia litúrgica, para descobrir nela novos aspectos dentro de sua profundidade.




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BIBLIOGRAFIA

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A Liturgia como Celebração

Pe. Cristiano Marmelo Pinto


“As ações litúrgicas não são ações privadas,
mas celebrações da Igreja, que é o ‘sacramento da unidade’,
isto é, o povo santo, unido e ordenado
sob a direção dos bispos” (SC 26).


O CONCEITO DE CELEBRAÇÃO

Para a Teologia e Antropologia Litúrgica, o conceito de celebração é de suma importância. Esta palavra tem sido muito usada ultimamente pela linguagem litúrgica. Embora as palavras liturgia e celebração tenham sido usada indiscriminadamente, elas não se correspondem. Elas possuem concepções diferentes e importantes para a compreensão da Teologia Litúrgica.

A liturgia como culto cristão é uma atitude de uma vida de escuta fiel e de adesão a Palavra de Deus, no seio da Aliança estabelecida por Cristo e realizada na Igreja sob a ação do Espírito Santo. A celebração é o aspecto celebrativo da liturgia, essencial e destinado a inserir o homem no Mistério de Cristo e da Igreja, ou seja, na Salvação.

A liturgia é uma realidade mistérica, ou seja, continuação, prolongamento da obra da salvação na história. Mas ela é também ação, no tempo e no espaço, lugar do exercício sacerdotal que Cristo confiou a Igreja para a santificação do homem e glorificação (culto) de Deus.

A liturgia abarca toda a vida da Igreja, como culto a Deus. A celebração é a sacramentalização dessa vida oferecida como culto espiritual da Deus. Ela se dá num momento histórico, num determinado tempo e espaço, expressivo, ritual e simbólico. Na celebração a oferenda se torna eficaz, agradável e aceita por Deus pela mediação de Jesus Cristo no Espírito Santo. Para que o culto cristão seja sacramentalmente eficaz, a celebração é imprescindível.

Os atores da celebração são a Assembléia Litúrgica e os Ministros que nela desempenham papéis e funções.

Celebrar ou celebração está imerso na vida do homem e na história da humanidade. Celebramos tudo aquilo que nos toca profundamente. O sujeito da celebração não é uma só pessoa, mas um grupo, uma comunidade, uma assembléia. Celebrar e celebração correspondem a uma noção de liturgia como ação de toda a Igreja (cf. SC 26).


CELEBRAR E CELEBRAÇÃO

Devido a importância que a categoria celebração adquiriu para a liturgia, precisamos compreender melhor o significado do conceito. Vamos partir da etimologia da palavra celebrar e de seus derivados.

Celebrar e celebração vem do latim celebrare e celebratio. Estes termos se completam com o adjetivo célebre (celeber).

Célebre (celeber) – se aplica ao lugar freqüentado por muitas pessoas.

Celebrare – significa o mesmo que freqüentar, que designa a ação de reunir-se.

Etimologicamente celebrar equivale a reunir-se num lugar, juntar-se, acorrer em massa.

Celebração – é a reunião numerosa, o ato de reunir-se e o momento de estar congregados.

Célebre – designa o lugar da reunião ou o lugar freqüentado, e o tempo ou momento da reunião.

Num segundo momento da ação de reunir-se, passa-se ao objeto (motivo) da reunião. Este objeto pode ser uma festa, os mistérios, o culto, etc. Cada um desses objetos da celebração torna-se celebritas, ou seja, celebridade, um momento solene. Num terceiro momento passa-se para o nível das manifestações externas ou do ritual desenvolvido na reunião.


O USO DO TERMO NO LATIM CRISTÃO

No final do século II, o latim começa a ser cristianizado. Ela passa a ser usado na tradução da Bíblia, na catequese e na liturgia. Esta cristianização do latim provoca um alargamento no significado do termo, de modo que celebrare e celebratio adquire novos matizes.

O uso do latim no cristianismo facilitou sua comunicação e a liturgia no mundo greco-romano. Nas traduções latinas da Bíblia, celebrar e celebração estão ligados a termos muitos variados.

1. Traduzindo o verbo poeio (fazer) – tem sentido exclusivamente cultual e se refere aos diferentes objetos designados - páscoa, rito dos ázimos, etc. (cf. Ex 12,48; 13,5; Dt 16,10-13).

2. Traduzindo eortázo (fazer festa) – alude a popularidade da festa. Neste sentido celebrar é sempre uma ação comunitária (cf. Ex 12,14; 23,14; Lv 23,39.41).

3. Traduzindo caléo (convocar) – acentua o aspecto do chamado de Deus para que o povo se reúna a fim de celebrar (cf. Lv 23,24).

4. Traduzindo sabbatízo (guardar o sábado) – indica reinteração e continuidade na ação celebrativa, para que o povo se lembre de tudo o que foi feito e ordenado pelo Senhor (cf. Lv 23,32; 2Cr 36,21).

5. Traduzindo ágo (levar a efeito) – significa a ação celebrativa, o ritual, a conduta dos participantes (cf. 2Mc 2,12; 6,11).

Nos Padres latinos da Igreja, as palavras celebrare e celebratio são usadas algumas vezes para se referir às festas e aos espetáculos, sempre em sentido coletivo e popular, e outras aplicando-as aos atos próprios dos cristãos.

Tertuliano transfere esse vocabulário aos sacramentos cristãos e Santo Ambrósio atribui um conteúdo mais especificamente litúrgico ao verbo celebrare.

São Cromácio de Aquiléia, oferece uma idéia da celebração como representação aqui e agora de toda a salvação anunciada no Primeiro Testamento e realizada por Cristo.


APROXIMAÇÃO DO CONCEITO DE CELEBRAÇÃO

Para alguns antropólogos, celebração é um meio interpessoal de relação e de encontro, ou seja, uma manifestação comunitária. A celebração congrega os indivíduos constituindo-os num organismo, numa comunidade. Ela afeta as pessoas e seus sentimentos, de modo que o acontecimento celebrado se transforma numa expressão religiosa.

A celebração polariza a totalidade da pessoa em torno de um determinado valor religioso. Ao transformar o significado de todos os elementos integrantes (espaço, tempo, símbolos, etc.), transmite a mensagem religiosa.

A celebração tem o poder de unificar um grupo, de formar uma comunidade com as pessoas que se reúnem para compartilhar a experiência religiosa. A celebração pode atuar como um catalisador moral do grupo, como instrumento educativo. Ainda na linha antropológica, outros põem ênfase na linguagem celebrativa e definem a celebração pela linguagem e pela expressão.

“Celebração é uma linguagem onde pulsa uma misteriosa expressão, dificilmente explicável” (V. Martín Pindado, 1979).

Isto significa que a celebração é uma realidade não reduzível a conceitos, a termos racionais, a normas lógicas, mas é fundamentalmente ação, vida. Quando a ênfase é conceitual, lógica e racional, temos como resultado uma celebração fria, verbalista, apagada e sem expressividade.

Dentro desta linha antropológica, há autores que afirmam que celebrar é brincar, folgar, fazer festa.

• Celebrar é brincar, ou seja, atividade lúdica do cristão;
• Celebrar é folgar, é lazer, é intuição, gozo, antecipado da eternidade;
• Celebrar é fazer festa, com tudo o que festa significa, é deleite do espírito, é liberdade, é contemplação da beleza, etc.

A celebração é uma categoria que pertence à dimensão sensível e visível da liturgia cristã. Odo Casel, primeiro teólogo da liturgia, diz que a celebração é uma epifania, uma manifestação do divino na ação ritual. Para a fenomenologia, a celebração é uma hierofania, ou seja, uma mediação que torna possível a comunicação entre o mistério e o homem, e a participação deste na energia salvadora que se faz presente. Para O. Casel, o elemento principal da celebração é a presença-atualização da salvação na ação ritual.

Na celebração cristã o ato sacramental é sempre o mesmo, ainda que o aspecto do mistério comemorado seja diferente. A celebração é atualização a obra da nossa Redenção (cf. SC 2). O hoje da celebração e da presença renovadora do mistério da salvação confere à liturgia cristã um valor escatológico, ou seja, põe o homem em contato com a eternidade.

O QUE É UMA CELEBRAÇÃO?

Devemos antes afastar duas eventuais confusões: a primeira que identifica liturgia com celebração, sem mais nem menos, e a segunda que confunde celebração com cerimônia. Liturgia é o culto da vida inteira dos crentes, e celebração é o momento simbólico, ritual e festivo.

Celebração é um acontecimento sacramental. Não é a mesma coisa que cerimônia. Cerimônia é um elemento da celebração, uma ação externa sujeita a uma norma ou costume. Infelizmente por muito tempo se identificou liturgia com rubrica e com cerimônia a tal ponto, de bastar que se saiba apenas as rubricas da cerimônia liturgia.

Podemos definir a celebração como o momento expressivo, simbólico, ritual e sacramental, ou seja, um ato que evoca e torna presente, mediante palavras e gestos, a salvação realizada por Deus em Jesus Cristo, com o poder do Espírito Santo. A celebração tem o caráter de ato, ação expressiva, ritual, torna presente a salvação. Na celebração produz-se um diálogo entre Deus e o homem, entre Cristo e a Igreja.

A celebração possui três dimensões:

a) Dimensão mistérica;
b) Dimensão ritual;
c) Dimensão existencial.

A dimensão mistérica: é intervenção, presença e atuação de Deus na vida de seu povo e na vida pessoal de cada participante da ação litúrgica. É o mistério de Cristo, núcleo da liturgia cristã.

A dimensão ritual: a celebração é ação de uma assembléia reunida, que através de ritos e de fórmulas manifestam e realizam aquilo que se está celebrando.

A celebração consiste na evocação e no anúncio de um fato de salvação e na atualização desse fato aqui e agora. Na celebração a Igreja atua como intercessora e mediadora da salvação.

A celebração como ação concreta de uma assembléia, compreende quatro elementos:

1) Um acontecimento que motiva a celebração;
2) Uma comunidade que se faz assembléia;
3) Uma situação festiva que envolve a todos;
4) Um ritual que é executado.

Um acontecimento deve ser algo digno de ser celebrado. A comunidade, no ato de se reunir, se converte em assembléia cultual – Igreja corpo de Cristo. A situação festiva é algo mais que o momento em que se celebra o acontecimento – o dia festivo, é, antes de tudo, um ambiente que impregna e caracteriza tanto a comunidade que celebra como os atos rituais da ação comum e que se exterioriza nos gestos, nos cantos, nas vestes... O ritual é o conjunto de gestos, palavras, ações e objetos que intervém na ação celebrativa tendo em vista a evocação e a atualização do acontecimento celebrado. O que está em jogo no ritual celebrativo da liturgia não e a expressividade ou a mensagem de alguns ritos e gestos, mas a correspondência do ritual com o acontecimento que se está celebrando.

O acontecimento celebrado é sempre Cristo, sua vida e sua obra, especialmente sua morte e ressurreição; a comunidade é sempre a Igreja; a situação festiva é a alegria de saber que o Senhor está presente e atuante, o ritual é sempre uma ação sacramental.

A dimensão existencial: a celebração não apenas leva a comunidade reunida a participar do acontecimento salvífico, mas se torna um programa de vida, manifesta-se como um motivo de compromisso de vida. Os crentes devem viver o que celebram. A celebração deve fazer com que a Igreja e seus fiéis continuem sendo no mundo um sinal sagrado. A liturgia se caracteriza por fazer da vida cristã um ato permanente de culto ao Pai, cujo momento culminante é o momento celebrativo.


ESTRUTURA DA CELEBRAÇÃO

A celebração é uma ação e uma possibilidade de encontro com o mistério da salvação. Ela deverá reunir uma série de condições espirituais e funcionais que possibilitem a participação no mistério e no fruto da celebração.

A estas condições estão: o ritmo da ação, a participação ativa e consciente de toda a assembléia, o exercício de todas as funções e ministérios no interior da celebração. De todas as condições, vamos nos ater no ritmo da celebração enquanto expressão da estrutura interna da ação celebrativa. Chamamos de ritmo da celebração a organização dinâmica e harmoniosa de todos os elementos que intervêm na celebração, o que dá unidade, equilíbrio de todas as partes e progressão dos diferentes momentos.

Os livros litúrgicos se limitam a assinalar os diferentes passos da celebração no ordo ou ritual. Porém o ritmo não depende dos livros, mas sim dos que celebram, seguindo fielmente o ritual, com todas as indicações e rubricas. A estrutura da celebração sustenta todo o conjunto da ação celebrativa e coordena os diferentes elementos e partes. O ritmo da celebração deve deixar evidente a estrutura prévia que é dada pelo ritual.


ESTRUTURA LÓGICO-TEOLÓGICA DA CELEBRAÇÃO

Vamos agora destacar os principais elementos que estão entranhados em toda ação litúrgica cristã e que vêm à tona em determinados momentos da celebração.

São eles:

a) Anamnese;
b) Epiclese permanente;
c) Doxologia;
d) Mistagogia contínua.

A) ANAMNESE

Toda celebração é uma lembrança sagrada do acontecimento salvífico. Neste sentido é anamnese permanente.

1. É anamnese de Deus para com seus filhos, porque lembrou-se da sua misericórdia (cf. Lc 1,54);
2. É anamnese de Cristo para com o Pai, porque intercede em nosso favor (cf. Hb 7,25);
3. É anamnese do Espírito Santo, que nos recorda todas as coisas ditas pelo Senhor (cf. Jo 14,26).

A Igreja, na celebração, faz o memorial e recorda os principais fatos salvíficos que culminam no mistério pascal. O acontecimento da páscoa do Senhor, objeto da anamnese recíproca entre Deus e os homens, ocorreu uma vez para sempre. O ritmo da celebração permite apreciar os momentos com intensidade da anamnese. A celebração, por outro lado, situa-se no centro do tempo litúrgico.

B) EPICLESE PERMANENTE

Em toda celebração litúrgica está presente o Espírito Santo, enviado por Cristo. Toda celebração é epiclese, isto é, invocação da presença santificadora da Santíssima Trindade e não somente do Espírito Santo. O momento cume da epiclese é a invocação da oração eucarística ou das demais orações sacramentais.

A epiclese é:

a) A invocação trinitária que abre a celebração;
b) A proclamação da Palavra de Deus acompanhada de aclamações e orações;
c) A súplica da assembléia (oração dos fiéis);
d) A invocação sacerdotal da oração eucarística e de outras fórmulas;
e) O gesto da paz;
f) Os gestos sacramentais (imposição das mãos, a unção, etc.).

C) DOXOLOGIA

A celebração é doxológica, ou seja, é louvor, culto, adoração, glorificação,reconhecimento e ação de graças, resposta de fé. A doxologia como elemento estrutural e básico está presente em toda e qualquer ação litúrgica. A doxologia é sempre proclamação da glória do Pai mediante Jesus Cristo no Espírito Santo. Toda celebração é louvor ao Pai por Jesus Cristo no Espírito.

A doxologia pode ser notada especialmente:

• No hino ou canto inicial que abre a celebração, especialmente a Liturgia das Horas;
• No hino de louvor, ou Glória;
• No salmo responsorial e em algumas ocasiões no canto do aleluia;
• Nas aclamações que acompanham as preces ou fórmulas (oração eucarística, bênçãos, etc.);
• Na grande doxologia que encerra a oração eucarística;
• Na ação de graças depois da participação eucarística e nas aclamações em alguns ritos (consentimento matrimonial, etc.).

D) MISTAGOGIA CONTÍNUA

A liturgia é iniciadora na ação celebrativa, nas atitudes com as quais é preciso celebrar. Por meio da liturgia a Igreja procura introduzir os fiéis na vivência interior e profunda da salvação. A mistagogia, como já vimos, é a iniciação no mistério celebrado, através dos ritos.

A celebração é toda ela mistagógica, no sentido de que é uma ação que leva todos os participantes a viver o mistério de Cristo. A celebração na perspectiva da mistagogia, possui um ritmo na condução da assembléia ao interior do mistério celebrado.

A celebração possui uma dinâmica que leva a comunidade celebrante a vivenciar o mistério por meio dos ritos, dos gestos, das palavras, dos símbolos, etc.

Alguns elementos particulares significativos do ponto de vista mistagógico:

a) As saudações litúrgicas;
b) Os momentos penitenciais;
c) A liturgia da Palavra;
d) A homilia;
e) Bênção da água ou do óleo, etc.;
f) Os cantos que acompanham determinados momentos;
g) As admoestações presidenciais; etc.

A mistagogia ajuda a executar o que o Senhor mandou: “Fazei isto em memória de mim”.


PARA CONCLUIR NOSSA REFLEXÃO...

A celebração é atualmente um dos conceitos mais ricos da liturgia. Há nos elementos da celebração uma relação que os une:

• O acontecimento;
• A reunião da assembléia;
• O clima festivo;
• A escuta da Palavra;
• Os cantos e orações;
• A ação celebrativa com sinais, gestos e símbolos;
• O espaço e o tempo.

A celebração se desenvolve seguindo um ritmo de acordo com as estruturas que sustentam toda ação celebrativa. Existe um fio condutor em toda celebração:

1. A memória do acontecimento;
2. A súplica da presença e ação de Deus;
3. O louvor e a ação de graças;
4. E a iniciação ao mistério celebrado.

Foi o que vimos quando tratamos da anamnese, epiclese, doxologia e mistagogia. Dentro dessa estrutura fundamental inserem-se as formas litúrgicas concretas: leituras, cantos, preces, aclamações, gestos, ritos, etc. O conjunto de todas elas e seu funcionamento, descritos nos rituais, não são mais que um meio ao serviço dos fins da celebração, ou seja, dos fins da própria liturgia.


QUESTÕES ATUAIS DE TEOLOGIA MORAL
MORAL MATRIMONIAL

D. Sérgio da Rocha


1. MORAL MATRIMONIAL: O MATRIMÔNIO VIVIDO À LUZ DA FÉ

A realidade do matrimônio e da família está marcada por luzes e sombras, isto é, por grandes valores, mas também por sérios problemas que representam um grande desafio para a reflexão e para a vida moral dos cristãos. A fé cristã tem contribuido muito para uma compreensão mais aprofundada do sentido do matrimônio, bem como, para orientar a vivência moral dos casais e das famílias. É à luz da fé que o cristão deve procurar compreender e resolver os desafios que surgem na vida a dois. A maneira de se viver a moral conjugal no dia a dia depende muito do modo como se entende o próprio casamento. À luz da fé, o casamento não é visto como um mero contrato entre um homem e uma mulher, mas acima de tudo, como um sacramento que tem a sua fundamentação em Jesus Cristo e na Tradição da Igreja. Assim sendo, precisamos compreender a moral conjugal à luz da sacramentalidade do matrimônio, isto é, o modo de se orientar os problemas de um casal dependerá bastante da visão que se tem do matrimônio enquanto sacramento.

Afirmar que o matrimônio é um sacramento significa reconhecer que o amor que une homem e mulher no casamento tem um sentido que ultrapassa a própria realidade humana, histórica e cultural. Este sentido mais profundo tem a sua razão de ser em Deus. Aceitar que o matrimônio é um sacramento implica em compreendê-lo e vivê-lo em relação a Deus, no âmbito da fé. O matrimônio enquanto sacramento é sinal visível do próprio amor de Deus, da Aliança de amor fiel, perene e fecundo, entre Deus e seu Povo, da união inseparável entre Cristo e a Igreja. Portanto, quem assume o matrimônio como sacramento, celebrando-o e vivendo-o na comunidade eclesial, está reconhecendo que o seu casamento é sinal do amor de Deus, da Aliança, e, portanto, assume o compromisso de amar como Deus ama. A realidade humana da aliança conjugal torna-se sacramento, sinal visível e eficaz, da Aliança que une Jesus e a Igreja, Deus e seu Povo. Assumindo a sacramentalidade do matrimônio, o casal assume o compromisso de amar “como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25).

E como é que Deus ama o Povo? Como Jesus ama a Igreja? Deus ama “na alegria, na tristeza, na saúde e na doença, em todos os dias da vida”. Ama sempre, e não de vez em quando; portanto, seu amor é perene, indissolúvel. Ama sendo fiel, não abandonando jamais o seu povo, mesmo quando este cai na infidelidade. Ama gerando vida e educando: o amor de Deus é Criador, dá existência a todas as coisas, especialmente ao Povo da Aliança, educando-o com muita misericórdia; portanto, o amor de Deus é fecundo. Do mesmo modo deve ser o amor conjugal assumido no sacramento do matrimônio. Ao casar-se na Igreja, o casal assume o compromisso de amar como Deus ama: sempre, de modo inseparável, sendo fiel um ao outro, gerando a vida dos filhos e educando-os na fé.

Este modo de se entender o amor conjugal à luz do amor de Deus tem conseqüências muito concretas e profundas para a vivência do casal. Assumindo o matrimônio como sacramento, celebrando-o na Igreja, os esposos se comprometem a amar-se “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, em todos os dias da vida”, isto é, como Deus ama. Aceitando e vivendo o seu casamento como sinal sacramental do amor de Deus, o casal se compromete a amar “como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (Ef.5,25). Portanto, em conseqüência da sacramentalidade do matrimônio, o amor conjugal passa a ser entendido e vivido de modo perene, indissolúvel, fiel e fecundo, à semelhança do amor de Deus. Na vida cotidiana, em seus atos e atitudes, o casal deverá realizar cada vez mais as características do sacramento do matrimônio: a perenidade ou indissolubilidade, a unidade e a fidelidade, a fecundidade, excluindo tudo aquilo que as contradizem. É à luz destas características do matrimônio que o casal deve discernir o que fazer em cada momento. Um casal cristão e feliz é aquele que, mesmo no meio dos desafios e adversidades, faz tudo para permanecer fiel aos compromissos assumidos na Igreja, procurando concretizar na vida do dia a dia esse amor perene, fiel e fecundo, reflexo do amor divino.

Assim sendo, os que se casam na Igreja, ao aceitar o matrimônio como sacramento, se comprometem a permanecer unidos para sempre no amor, isto é, em todas as situações, procurando superar as crises no diálogo paciente e misericordioso, não permitindo que as dificuldades se tornem motivo de brigas ou separação mas de crescimento e amadurecimento. Quem se casa na Igreja se compromete a ser fiel em todas as circunstâncias, consciente de que a fidelidade é condição indispensável para a felicidade na vida do casal e da família, rejeitando assim qualquer forma de adultério. Quem se casa na Igreja se compromete ainda a viver o amor conjugal gerando e educando filhos. A fecundidade do amor conjugal, que é sinal sacramental do amor fecundo de Deus, exige dos que se casam abertura à transmissão da vida, isto é, a geração dos filhos. Trata-se, porém, de uma atitude de fecundidade responsável, de transmissão responsável da vida, que pressupõe não só procriar, mas acima de tudo, acolher e cuidar dos filhos com amor, e de educá-los na fé da Igreja. Daí, a exigência de planejamento familiar, segundo as orientações da Igreja, decorrente da responsabilidade na transmissão da vida, expressão da fecundidade responsável.

Diante de uma realidade tão bela e ao mesmo tempo tão exigente, é preciso muita disposição, seriedade, e preparação. Entretanto, o amor que une o esposo e a esposa, não depende apenas do compromisso sincero e dos esforços do casal. O autêntico amor conjugal tem a sua fonte em Deus, que é Amor. A graça de Deus, mediada pelo sacramento do matrimônio, sustenta o compromisso de amor e fidelidade do casal, em cada momento do seu longo processo amadurecimento. O amor de Deus que é graça, dom, se faz presente de modo eficaz e não apenas simbólico, na celebração litúrgica e na vida matrimonial, sustentando e animando o casal na vivência dos compromissos matrimoniais em meio a tantos desafios. A confiança na graça de Deus é fonte de alegria e esperança para aqueles que, à luz da fé, vislumbram na aparente fragilidade do amor conjugal um sinal sensível e eficaz do próprio amor divino.

2. DIVÓRCIO

Um dos principais problemas que afligem as famílias hoje é o das separações e divórcios. Tem crescido bastante o número de casais separados e divorciados. Este fato tem sido objeto de muitos estudos e discussões por parte de especialistas de várias áreas, motivando discussões teológicas, pronunciamentos do Magistério da Igreja e muita reflexão entre os que se dedicam à pastoral familiar em nossas comunidades. Neste contexto, é muito importante recordar o que Deus propõe na Bíblia a respeito do matrimônio, bem como, o que a Igreja ensina hoje a respeito dessa problemática.

2.1. O que a Bíblia diz?

Logo nos inícios da Bíblia, nos relatos da Criação, encontramos o matrimônio como algo querido por Deus. O modo como Deus propõe a união conjugal entre o homem e a mulher encontra-se resumido pela expressão “uma só carne” (cf. Gn. 2,24), exprimindo união total e inseparável, doação e cooperação recíproca, igualdade fundamental. Mais tarde, ao longo da história da Igreja, esta atitude será chamada pelos teólogos de indissolubilidade, isto é, vínculo ou união que não se dissolve.

Esse texto do Gênesis foi retomado por Jesus Cristo, ao responder àqueles que lhe perguntavam a respeito do divórcio, a fim de prová-lo (cf. Mt.19,1-9; Mc.10,1-12; Lc.16,18). Havia duas posições principais no tempo de Jesus, representadas por dois conhecidos mestres da Lei: Hillel ensinava que o divórcio poderia ser realizado por qualquer motivo; Shammai permitia o divórcio apenas em caso de adultério. Jesus escapa da armadilha que lhe prepararam, distanciando-se daquelas posturas, recordando explicitamente o querer de Deus desde a Criação a respeito do matrimônio: “Não lestes que o Criador, no princípio, os fez homem e mulher e que disse: Eis por que o homem deixará seu pai e sua mãe e se ligará à mulher e os dois se tornarão uma só carne? Assim, eles não são mais dois, mas uma só carne. Não separe, pois, o homem o que Deus uniu!” (Mt. 19,4-6).

Encontra-se apenas em Mateus uma expressão que tem sido muito discutida e estudada: a permissão de um novo casamento em uma situação especial, designada na língua grega, na qual o Evangelho foi escrito, pela palavra porneia (cf. Mt. 5,32; 19,9). Nesses textos de Mateus, não se permite a separação e a nova união, exceto em caso de “pornéia”. Esta palavra grega tem sido traduzida, muitas vezes, por fornicação, como encontramos, por exemplo, na conhecida versão A Bíblia de Jerusalém. Há novas versões da Bíblia traduzindo-a de uma forma diferente, que corresponde melhor ao seu sentido original, retomando o Lv. 18,6-18, isto é, por união ilegal ou ilícita, como faz a respeitada Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB). A atual prática da Igreja Católica de conceder um novo matrimônio somente em caso de nulidade do primeiro corresponde bem a este modo de traduzir e interpretar esse texto de Mateus.

No Novo Testamento, encontramos ainda outra importantíssima passagem em que a expressão uma só carne é retomada para falar da unidade inseparável do casal à exemplo da união de amor entre Cristo e a Igreja. Trata-se de um texto muito utilizado ao longo da história para fundamentar a afirmação de que o matrimônio é um sacramento: Efésios 5, 25-33.

2.2. O Magistério da Igreja

O ensinamento atual da Igreja, mantendo firme o ideal bíblico do matrimônio indissolúvel, rejeita o divórcio, isto é, a dissolução do vínculo matrimonial. O matrimônio, enquanto sacramento, deve ser visto e vivido, à luz da fé, como sinal do amor de Deus que é perene, da Aliança indissolúvel de amor de Deus por seu Povo, do amor inseparável que une Cristo e Igreja. O casal é chamado a “amar como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela” (cf. Ef. 5,25), como Deus ama o seu Povo: de modo fiel e inseparável, sempre e para sempre.

Contudo, a Igreja tem enfatizado a necessidade de se acolher e valorizar as pessoas divorciadas, procurando superar, assim, a postura de condenação ou de exclusão em relação a elas. Um dos mais importantes documentos a respeito é a Familiaris Consortio, publicada por João Paulo II em 1981. Esta carta sobre a missão da família cristã no mundo de hoje, em sua última parte, dá orientações para o discernimento ético e para a ação pastoral diante da problemática dos separados e divorciados. As pessoas separadas ou divorciadas são chamadas a participar da vida da comunidade cristã, embora permaneça o impedimento à comunhão eucarística para pessoas divorciadas que se casaram novamente.

Assim afirma o Papa a respeito dos divorciados recasados: “Juntamente com o Sínodo, exorto vivamente os pastores e a inteira comunidade dos fiéis a ajudar os divorciados, procurando com caridade solícita, que eles não se considerem separados da Igreja, podendo, e melhor devendo, enquanto batizados, participar da sua vida. Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a freqüentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus. Reze por eles a Igreja, encoraje-os, mostre-se mãe misericordiosa e sustente-os na fé e na esperança” (Familiaris Consortio, nº 84).

2.3. O que significa “casamento nulo”?

Existem matrimônios que a Igreja declara que foram nulos, permitindo, assim, a realização de um novo casamento. A declaração de nulidade de matrimônio pela Igreja não pode ser confundida com divórcio. O divórcio implica na dissolução de um vínculo que foi validamente realizado e consumado por um casal. Declarar nulo é afirmar que um casamento não valeu, isto é, que não foi validamente realizado. Não se pode dizer que a Igreja anula um casamento, pois esse modo errado de se expressar daria a entender que houve um matrimônio válido e que agora não vale mais. O certo é dizer que a Igreja declara que foi nulo, isto é, que não houve propriamente matrimônio, em certos casos. Para se chegar a isso, é preciso passar por um longo processo através do Tribunal Eclesiástico para um correto discernimento da situação e apuração das causas.

Conclusão

Diante do desafio representado hoje pela situação dos separados ou divorciados, é preciso: testemunhar o valor do matrimonio indissolúvel, fundado no amor e na fidelidade conjugal; combater as causas das separações e divórcios, e não as pessoas divorciadas; ajudar os divorciados; promover a reconciliação na vida dos casais, auxiliando os que passam por crises; preparar melhor (educar para o amor...) valorizar e dinamizar a Pastoral Familiar, um dos principais instrumentos à serviço dos casais e famílias, nas comunidades. Urge criar meios de educação para o amor responsável e proporcionar uma adequada preparação para o matrimônio. Além disso, o serviço da reconciliação é um desafio permanente na vida da grande família que é a comunidade cristã a serviço dos casais e das famílias que sofrem com o rompimento da comunhão.
3. FIDELIDADE CONJUGAL E ADULTÉRIO

O problema do adultério ou infidelidade conjugal tem se tornado cada vez mais sério na atualidade, aparecendo frequentemente em dados de pesquisas, apresentados por jornais e revistas. Um vocabulário variado tem servido para exprimir esta realidade desafiadora para a ética cristã: relacionamento extra conjugal, trair, ser traído, ter caso, ter amante, etc. A ‘traição’, no casamento, já não choca como antes, mas na realidade continua a causar muita dor, levando a separações e trazendo sofrimento para o resto da família, especialmente para os filhos menores, com consequências muitas vezes traumáticas.

Múltiplos são os fatores que têm levado à difusão e ao agravamento da infidelidade conjugal. Dentre eles, podemos destacar diversas causas de natureza sócio-cultural.

A infidelidade no matrimônio reflete uma problemática muito mais ampla, que é a crise de fidelidade verificada em outros níveis: falta de fidelidade à palavra dada, à própria consciência, a outros compromissos assumidos no dia a dia da vida. A infidelidade chamada adultério surge no conjunto de outras infidelidades cotidianas, mais facilmente aceitas ou toleradas, mas não menos significativas sob o ponto de vista ético.

Há ainda o risco de se deixar levar, hoje, pela lógica do descartável. Num mundo em que tudo muda rapidamente, a pessoas podem ir se acostumando a trocar e a descartar-se facilmente não somente de mercadorias, idéias, hábitos, mas também de pessoas e compromissos. Trocar de pessoas, variar, como se fosse uma diversão ou artigo de consumo, implica em reduzir e banalizar o compromisso de vida a dois. A fidelidade exprime a lógica do compromisso com o outro, daquilo que permanece e amadurece. Daí, dificuldade ainda maior de vivência da fidelidade conjugal num mundo assim.

Além disso, ao lado do crescimento da emancipação da mulher na sociedade, com reflexos também na questão da iniciativa em casos de adultério, a infidelidade do marido continua a ser mais difusa e aceita em relação à da mulher, segundo pesquisas, sinal de permanência da cultura machista, entre nós, que chega a permitir ao homem orgulhar-se de casos extra conjugais em roda de amigos.

Temos também outros fatores mais diretamente relacionados ao próprio matrimônio, favorecendo a infidelidade conjugal: a falta de preparação, especialmente de maturidade, para assumir o compromisso matrimonial, as crises conjugais, o desacerto entre o casal, a falta de diálogo e afeto. A maioria dos que chegam a situações de adultério alegam problemas na vivência do casamento, no relacionamento conjugal.

No discernimento dessa situação, é preciso ter presente o sentido ético e teológico da fidelidade matrimonial, resgatando-a como fundamento e condição para a felicidade do casal.

Fidelidade conjugal é, antes de tudo, uma exigência ética, um sinal de amor e compromisso com o outro. O desinteresse, a falta de compromisso com o outro, no dia a dia do casamento, é tão grave quanto o adultério propriamente dito ou consumado, podendo abrir caminho para ele.

Fidelidade implica em partilha permanente de um projeto comum de vida, representado pelo matrimônio. É sinal de retidão moral e de coerência com uma opção de vida. Fidelidade é fator de confiança e de estabilidade no casamento.

Este sentido ético da fidelidade conjugal se completa e se aprofunda à luz da fé, recebendo motivação teológica. A fidelidade no matrimônio, iluminada pela fé, se converte em sinal sacramental da fidelidade de Deus. Toda a Bíblia testemunha a fidelidade de Deus: Deus permanece fiel, amando e cumprindo sua palavra, mesmo quando o povo se mostrava infiel. A fidelidade divina é modelo e apelo para os seres humanos, tornando-se fundamento e condição da fidelidade conjugal. Daí, a firme recusa do adultério encontrada ao longo da Sagrada Escritura, tanto no Novo como no Antigo Testamento. Quem aceita a sacramentalidade do matrimônio, assume o compromisso de amar e ser fiel, fazendo da união conjugal um sinal do amor e da fidelidade do próprio Deus.

Entretanto, a fidelidade conjugal não significa fechamento a relacionamentos de amizade e cooperação dos cônjuges em relação a outras pessoas, nem ciúmes doentio. Ciúmes, em grau elevado pode fazer muito mal, provocando sofrimento tanto quanto a infidelidade, podendo acabar com um relacionamento conjugal. Tal atitude, atribuindo ao outro suposta infidelidade, chegando a perder a noção da realidade, é expressão de sentimento possessivo, de dominação e de desconfiança. Para evitar isso, é indispensável abertura, diálogo e confiança A fidelidade, ao contrário da infidelidade e do ciúme, é sinal de amor maduro e de confiança no outro.

Quando ocorrem problemas de infidelidade conjugal, é comum acontecer sérias dificuldades de perdoar, o que dificulta ou impossibilita, consequentemente, a reconciliação e o crescimento do casal. Em tal situação, faz-se cada vez mais necessário promover o diálogo, a busca de aconselhamento espiritual, de orientação psicológica e outras iniciativas que favoreçam a reconciliação. Neste processo, podem desempenhar papel importantíssimo pessoas amigas e familiares, e especialmente, a comunidade cristã. Espera-se das comunidades cristãs o anúncio e o testemunho do valor da fidelidade no casamento e em outros campos da vida, bem como, o acolhimento misericordioso e o apoio fraterno àqueles que tendo passado pela amarga experiência da infidelidade, se propõem a reconstruir a vida conjugal tendo como alicerce a fidelidade, sustentada pela presença amorosa de Deus que permanece sempre fiel.

4. FECUNDIDADE RESPONSÁVEL

A questão da geração dos filhos é, hoje, um dos temas que mais preocupa os casais. Embora possa ser refletida à luz da Bioética, a questão situa-se principalmente no campo da teologia e da moral matrimonial. Por isso, para entendê-la bem, precisamos: 1º) situá-la à luz do sacramento do matrimônio; 2º) ter uma justa compreensão do que é o planejamento familiar; 3º) considerar as orientações da Igreja a respeito.

A fecundidade do amor de Deus e do amor conjugal

A referência maior para a compreensão da questão da geração e educação dos filhos deverá ser o amor de Deus, do qual o sacramento do matrimônio é sinal visível. As características do amor conjugal devem espelhar as características do amor de Deus, especialmente, a fidelidade, a perenidade ou indissolubilidade, e a fecundidade. Nas diversas situações da vida matrimonial, o casal é chamado a amar como Deus ama.

A fecundidade é uma característica do amor de Deus e, portanto, da sacramentalidade do matrimônio. O amor de Deus é criador, gerador da vida de tudo o que existe (Criação), da existência do Povo da Aliança, enfim, da nossa vida. O amor do casal, sinal sacramental do amor de Deus, também deve ser fecundo, aberto à geração e educação dos filhos. Por isso, para realizar o sacramento do matrimônio, a Igreja exige, ordinariamente, dos casais esta atitude de abertura para gerar e educar filhos. Entretanto, esta fecundidade deve ser vivida de modo responsável, sustentada pelo autêntico amor e pela fé.

Planejamento familiar ou controle de natalidade?

O planejamento familiar é expressão de fecundidade responsável, isto é, de transmissão responsável da vida; é sinal de responsabilidade e de amor do casal. Nas últimas décadas, divulgou-se bastante a expressão paternidade responsável. Embora alguns considerem preferível falar em transmissão responsável da vida ou em fecundidade responsável, é correto utilizar a expressão paternidade responsável, que é bastante difundida, desde que seja bem compreendida. Ao utilizar a expressão paternidade responsável, é necessário destacar o papel indispensável de ambos, pai e mãe.

O que não se deve fazer é utilizar a expressão controle de natalidade como sinônimo de planejamento familiar, pois este é muito mais do que mero controle de natalidade. Controle de natalidade, como dá a entender a própria expressão, tem como objetivo impedir novos nascimentos baseando-se, sobretudo, na eficácia dos métodos e designando geralmente programas de redução da população motivados por critérios políticos e econômicos. O planejamento familiar, segundo a própria expressão, implica no planejamento consciente da vida familiar, por parte do casal, em relação à geração e educação dos filhos, de modo responsável. Por isso, o planejamento familiar não é motivado por critérios predominantemente técnicos de eficiência dos métodos, ou por critérios políticos e econômicos, mas pelo critério cristão da transmissão responsável da vida.

A atitude cristã de transmissão responsável da vida levará o casal a acolher um filho, com amor generoso e responsável, em caso de falhas dos métodos. Deste modo, a abertura à vida permaneceria quando se recorre a métodos de planejamento familiar, evitando abortos ou qualquer outra forma de rejeição de uma nova vida, enfim, impedindo que um filho seja gerado apenas pela falha de um método e não gerado e acolhido pelo amor dos pais.

A postura da Igreja

Há muita confusão a respeito da posição da Igreja sobre o planejamento familiar. Há quem diga que a Igreja é contra. Na verdade, a Igreja propõe aos casais a fecundidade responsável. O problema está no modo como se entende e se quer praticar o planejamento familiar.

Encontram-se, atualmente, diversos documentos da Igreja que orientam o planejamento familiar, bem como, estudos teológicos muito bons a respeito do tema. Um dos primeiros e dos mais importantes, é o texto do Concílio Vaticano II a respeito da dignidade do matrimônio e da família, que se encontra na Gaudium et Spes, publicada em 1965, mas que continua profundamente atual, como todos os outros textos do Concílio. A Gaudium et Spes reconhece as dificuldades vividas pelos casais em relação ao número dos filhos, chama com insistência à responsabilidade, apontando alguns critérios importantíssimos de discernimento, conforme os seus números 50 e 51. O número 50 desse grande documento conciliar assim resume esta postura de discernimento da questão: os cônjuges, com “responsabilidade cristã e humana”, numa atitude de docilidade para com Deus e o Magistério da Igreja, “formarão um juízo reto, de comum acordo e empenho, atendendo ao bem próprio e ao bem dos filhos, seja já nascidos, seja que se prevêem nascer, discernindo as condições seja materiais, seja espirituais, dos tempos e do estado de vida e finalmente levando em conta o bem comum da comunidade familiar, da sociedade temporal e da própria Igreja. Os próprios esposos, em última análise, devem formar esse juízo diante de Deus”.

Posteriormente, o tema foi retomado em dois documentos de especial importância, bastante divulgados: a carta encíclica de Paulo VI Humanae Vitae, em 1968, e a exortacão apostólica Familiaris Consortio, de João Paulo II, em 1981. Esses documentos admitem os métodos naturais para o planejamento familiar e rejeitam os métodos artificiais. O método natural mais divulgado e respeitado tem sido o método da ovulação, também chamado de método Billings, devido ao nome do médico que o elaborou Dr. John Billings. Muitos casais que têm recorrido a este método, praticando-o corretamente com as devidas orientações, têm conseguido realizar, de modo feliz, o planejamento familiar. Além de respeitar a saúde da mulher, sem provocar-lhe danos ou efeitos colaterais, o método Billings, ao exigir o diálogo, o comum acordo e a partilha da responsabilidade, tem promovido o crescimento e o amadurecimento do casal.

Conclusão

A fecundidade conjugal não é somente biológica, bem como, a paternidade não se reduz à transmissão biológica da vida; daí, a importância dos filhos e da realização da fecundidade conjugal mesmo em casos de esterilidade física, através de outros meios, sobretudo, da adoção. É muito importante ter presente o “múltiplo serviço à vida”, que o casal pode viver, segundo a Familiaris consortio (n. 41), aqui mencionado no tema da fecundação artificial.



INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS

A) MAGISTÉRIO DA IGREJA SOBRE MATRIMÔNIO E FAMÍLIA

VATICANO II, Constituição pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo de hoje, nºs. 47-52: A promoção da dignidade do matrimônio e da família.

PAULO VI, Encíclica Humanae vitae sobre a regulação da natalidade, 25-07-68

JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Familiaris consortio sobre A missão da família cristã no mundo de hoje, 22-11-1981.

CÓDIGO DE DIREITO CANÔNICO, cânones 1055-1165.

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA, Preparação para o Sacramento do Matrimônio, 13-05-96, Paulus.

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA, Recomendações e sugestões pastorais a respeito dos divorciados novamente casados, in SEDOC 29 (1997) 666-670.

PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A FAMÍLIA, Vade-mécum para os confessores. Temas de moral relacionados com a vida conjugal, in SEDOC 29 (1997) 671-689.

BISPOS ALEMÃES DO RENO SUPERIOR, Carta pastoral sobre divorciados recasados, in SEDOC 26/242 (1994) 423-438.

CNBB, Em favor da família, Doc. 3, E. Paulinas, 1976.

CNBB, Orientações pastorais sobre o matrimônio, Doc. 12, E.Paulinas, 1978.

CNBB, Valores da vida e da família, Doc. 18, E.Paulinas, 1980.

CNBB, Pastoral da Família, Col. Estudos 20, E.Paulinas, 1978.

CNBB, A família e a promoção da vida, Col. Estudos 32, E.Paulinas, 1981.

CNBB, Pastoral familiar no Brasil, Col. Estudos 65, E.Paulinas, 1993.

CNBB-Setor Família, Pastoral familiar. Reflexões e propostas, E.Santuário, 1990.

CNBB-Sul 1, Introdução à Pastoral Familiar, E.Santuário, 1990.


B) OBRAS TEOLÓGICAS

BOFF Leonardo, O sacramento do matrimônio, in Concilium 1973/7, 796-806.

HAERING Bernhard, Livres e fiéis em Cristo. Teologia moral para sacerdotes e leigos, vol. 2: A verdade vos libertará

HORTAL Jesus, O que Deus uniu. Lições de Direito Matrimonial Canônico, Loyola, 1979.

HORTAL Jesus, Casamentos que nunca deveriam ter existido. Uma solução pastoral, Loyola, 1987.

KASPER Walter, Teologia do Matrimônio Cristão, E.Paulinas, 1993.

LE BOURGEOIS Armand, Cristãos divorciados e casados de novo, E. Ave Maria, 1997.

LEGRAIN Michel, A Igreja e os divorciados, E.Paulinas, 1989.

LÓPEZ AZPITARTE Eduardo, Ética da sexualidade e do matrimônio, Paulus, 1997.

NOCENT A., Os sacramentos. Teologia e história da celebração, E.Paulinas, 1989: O Matrimônio cristão (p.335-401).

RINCÓN ORDUÑA R. (e outros), Práxis cristã, vol. 2. Opção pela vida e pelo amor, E.Paulinas, 1984.

SCHILLEBEECKX E., O matrimônio. Realidade terrestre e mistério de salvação, E.Vozes, 1969.

VIDAL Marciano, Moral do matrimônio, Vozes, 1993.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Semana de Liturgia 2011
"Liturgia: ação de Cristo e da Igreja"


A Diocese de Santo André – SP realiza entre os dias 11 e 15 de julho, a 3ª Semana Diocesana de Liturgia, que acontece simultaneamente em 5 regiões pastorais, das 19h30 às 21h30. O tema escolhido para este ano é “Liturgia: ação de Cristo e da Igreja”. Cada assessor irá abordar um aspecto da liturgia como ação. Eis os assuntos:

1. Liturgia como ação organizada (Pastoral Litúrgica)
Assessor: Pe. Rui Melati

2. Liturgia como ação preparada (Preparação da Celebração)
Assessor: Pe. Roberto Carlos Queiroz Moura

3. Liturgia como ação participada (Ministérios Litúrgicos)
Assessor: Pe. Joel Nery

4. Liturgia como ação inculturada (Inculturação da Liturgia)
Assessor: Pe. Cristiano Marmelo Pinto

5. Liturgia como ação num espaço sagrado (Espaço Litúrgico)
Assessora: Ir. Paula Carlos Souza, pddm

Eis os locais da formação para as regiões:

Regiões Santo André Centro e Leste:
Instituto Sagrado Coração de Jesus – R. Siqueira Campos, 483 – Centro – Santo André.

Regiões São Caetano do Sul e Utinga:
Paróquia Santa Maria Goretti – R. Nova York, 20 – Vila Metalúrgica – Santo André.

Regiões São Bernardo do Campo Centro e Anchieta:
Matriz N. Sra. da Boa Viagem – Pça da Matriz, – Centro – SBC.

Região Diadema:
Paróquia Senhor Bom Jesus – Pça B. Jesus de Piraporinha, 60 – Piraporinha – Diadema.

Região Mauá:
Colégio Monsenhor Alexandre – Pça Mons. Alexandre V. Arminas, 1 – Matriz – Mauá.

Venha participar! Informe-se na secretaria de sua paróquia ou no Centro Pastoral Diocesano: 4438 2077.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Quando o missal se torna uma bandeira
Enzo Bianchi, monge beneditino comenta documento de Ratzinger


O Motu proprio Summorum Pontificum de Bento XVI repercute intensamente em muitas partes do mundo. Enzo Bianchi, fundador e prior do mosteiro de Bose, publicou o seguinte artigo no jornal La Repubblica, 8-07-2007.

"Conferências episcopais, bispos, teólogos e liturgistas analisaram com espírito de paz e vontade de reconciliação, junto com os tradicionalistas cismáticos, os problemas e as decorrências que poderiam inocular contraposições e ulteriores divisões entre os católicos. Sim, porque nestes quarenta anos do período pós-conciliar, as igrejas percorreram um longo trajeto, com freqüência fatigante, na atualização da reforma litúrgica, registraram também cá e lá alguns abusos e contradições ao espírito da autêntica liturgia católica, mas, como afirmou João Paulo II em 1988, “este trabalho foi feito sob a orientação do princípio conciliar: fidelidade à tradição e abertura ao legítimo progresso; por isso, pode-se dizer que a reforma litúrgica é estritamente tradicional, “segundo os santos padres” (XXV annus, n. 4)”. Conseqüentemente, ao clarear as possibilidades oferecidas aos tradicionalistas, João Paulo II precisava que “a concessão do indulto não é para procurar pôr um freio à aplicação da reforma empreendida após o concílio” (Audiência geral de 28.09.1990).

“Nós católicos, pela profunda convicção que o bispo de Roma é o servo da comunhão eclesial, obedecemos, também ao preço de fadiga, de sofrimento e de não plena compreensão do que nos é solicitado autorizadamente e que não contradiz ao Evangelho: sejamos também capazes de obediência, embora dissentindo lealmente e com pleno respeito. Esta obediência, que quer ser evangélica e 'in ecclesia', requer que nos exercitemos em pensar e refletir, para melhor entender e para animar a comunicação em vista de uma comunhão madura e robusta, para fazer de tudo a fim de que a igreja não sofra por desordem e por ulteriores contraposições: quem tem verdadeiro ‘sensus ecclesiae’ teme sobretudo isto!”

Por conseguinte, este “motu próprio” deve ser acolhido como um ato de Bento XVI tendente a pôr fim ao cisma aberto pelos lefebvrianos e ao “sofrimento” de outros ainda remanescentes em comunhão com Roma. O papa é sabedor que, mais passam os anos, mais as posições endurecem, mais a gente se habitua ao cisma e se debilita o desejo de uma reconciliação recíproca entre igreja e cismáticos. Por isto, o papa autoriza com liberalidade a celebração da missa conforme o missal dito de Pio V. Sai-se, assim, do indulto concedido por João Paulo II, porque então se dava a possibilidade de celebrar a missa dita de Pio V se o bispo o permitisse, enquanto agora existe a possibilidade de celebrá-la e o bispo não poderá proibi-la. Portanto, ela já não é mais “excepcional”, mas “extraordinária”, já não é mais uma derrogação às regras, mas permitida pelas regras.

Mas para quem foi promulgada esta nova legislação? A resposta não é simples, porque os que solicitam a possibilidade de praticar o missal de Pio V são uma galáxia numericamente reduzida, mas muito variegada. Em todo o mundo estes católicos com sensibilidade tridentina são em torno de 300.000, com uns 450 padres, num total de um bilhão e duzentos milhões de católicos, e destes, aproximadamente a metade pertence à porção cismática dos sequazes de mons. Lefebvre. No “motu próprio” pensa-se certamente nestes últimos – para os quais, afirma a carta, “a fidelidade ao missal antigo se tornou um contra-sinal externo” – mas, atende-se sobretudo aos tradicionalistas em comunhão com Roma, aqueles ligados ao rito tornado para eles familiar desde a infância.

Junto a estes católicos, cismáticos ou não, afloram no horizonte também jovens sacerdotes que gostariam de retornar ao antigo rito e alguns movimentos eclesiais que auspiciam uma retomada de uma identidade católica fundamentalista; há também uma emergente deriva de várias confraternidades e ordens cavalheirescas que esperam poder celebrar em latim para revigorar o seu folclore e restituir lustro às suas servidões medievais.

Mas aqui surge uma série de perguntas que exigem uma resposta evangélica e uma responsabilidade conforme ao sensus ecclesiae da parte de todos: bispos, presbíteros, fiéis católicos. Não é que estes grupos se escondem por trás dos véus do ritualismo pós-tridentino para não acolher outras realidades assumidas hoje pela igreja, sobretudo através do concílio? O missal de Pio V não corre o risco de ser o porta-voz de reivindicações de uma situação eclesial e social que hoje não mais existe? A missa de Pio V não é para muitos uma missa identitária, preferencial e, por conseguinte preferida com respeito àquela celebrada pelos outros irmãos, como se a liturgia de Paulo VI fosse carente de elementos essenciais à fé?

Há hoje demasiada busca de sinais identitários, demasiado gosto pelas coisas “à antiga”, sobretudo em certos intelectuais que se dizem não católicos e não crentes e desconhecem o mistério litúrgico. Mais ainda: por que alguns jovens que não nasceram na época pós-tridentina e jamais praticaram como eles a missa “nativa”, aquela pré-conciliar, querem um missal desconhecido? Procuram, quem sabe, um missal afastado do coração, mas praticado pelos lábios? E, se a celebração da missa responde às sensibilidades, aos gostos pessoais, então não reina mais na igreja a ordem objetiva, mas a gente se abandona a escolhas subjetivas ditadas por emoções do momento. Não há, talvez, o risco, neste subjetivismo, de encorajar o que Bento XVI denuncia como obediência à “ditadura do relativismo”?

E por que aqueles que solicitam o rito de Pio V se sentem os “salvadores da igreja romana”? Salvadores com respeito a quê? A um concílio ecumênico presidido pelo bispo de Roma? Por que asseguram: “Venceremos... toda a igreja voltará à antiga liturgia!”?

Este não é um caminho de reconciliação e de comunhão, mas de desforra, de condenação do outro, de recusa em reconhecer as culpas respectivas... Sim, existe o temor que se desperte na igreja uma série de relações de força, nas quais há quem perde e quem ganha. Mas isto corresponde mais a uma ótica mundana do que a uma ótica evangélica!

Cada católico – também quem como eu pode testemunhar com alegria, por tê-lo praticado por longo tempo, que o missal de Pio V o fez crescer na fé, na compreensão eucarística e na vida espiritual e o sente como um monumento litúrgico, uma arquitetura ritual capaz de fazer viver a comunhão diacrônica de toda a igreja – deve interrogar-se para não deixar espaço a formas de idolatria e, com o cardeal Ratzinger, “admitir que a celebração da antiga liturgia se extraviara demasiadamente no espaço do individualismo e do privado e que a comunhão entre presbítero e fiéis era insuficiente”. Sim, que não haja nenhum idealismo, nem sobre o missal, nem sobre sua prática, e que não seja um missal a fazer guerra ao outro missal, porque assim se desconfigura a igreja.

Mons. Fellay (sucessor de Lefebvre na condução da Fraternidade de São Pio X) declarou que “a liberalização do missal de Pio V provocará uma guerra na igreja, com uma deflagração semelhante àquela da bomba atômica”. São palavras graves, mas que nos fazem ficar vigilantes! Bento XVI escreve na carta que de ora em diante não há dois ritos, mas “um uso duplo do único e mesmo rito” e, no entanto, não se podem calar as diferenças: entre um “uso” e o outro: haverá leituras bíblicas sempre diversas, os tempos litúrgicos serão vivenciados de modo diverso, com festas do Senhor e dos santos em datas diversas, com o missal de Pio V se estará autorizado a rezar de modo não conforme ao ensinamento ecumênico do Vaticano II: assim se orará por “hereges e cismáticos para que o Senhor os arranque de todos os seus erros”, enquanto para os judeus se usará a expressão “povo obcecado”. O que significará isto nas relações ecumênicas com as igrejas e com os judeus?

Sim, verificaremos o que acontecerá na igreja e como crescerá ou será contraditada a comunhão. Será determinante a ação dos bispos, aos quais “compete salvaguardar a unidade concorde, vivida nas celebrações da diocese” (Sacr. Car. 39). A absoluta maioria dos bispos e inteiras conferências episcopais nacionais e regionais, também italianas, têm manifestado sua oposição a esta medida, mas agora, na obediência e por amor à igreja deverão discernir como compaginar a comunhão que é sempre e acima de tudo comunhão litúrgica. Os bispos não cessem de solicitar, a quantos queiram praticar a missa de Pio V, uma aceitação do concílio e de sua reforma litúrgica como legítima e conforme à verdade e à tradição católica: as expressões podem ser diversas, mas um é o bispo e o presbitério em torno dele. A unidade não pode ser realizada a qualquer preço, nem prescindir da autoridade do bispo em comunhão com o papa. A viagem da barca da igreja ainda não chegou ao seu termo e ninguém poderá inventar uma meta, mas somente um lugar de parada e de trânsito: também o missal de Pio V, também aquele de Paulo VI... Há ainda um outro amanhã também para a forma da liturgia.

sexta-feira, 6 de maio de 2011



DEFESA DE DISSERTAÇÃO DE MESTRADO


A experiência do mistério pascal de Cristo
na experiência do amor humano,
celebrado no sacramento do matrimônio


Pe. Cristiano Marmelo Pinto

Orientador:
Prof. Dr. Pe. Valeriano dos Santos Costa

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC

Campus Ipiranga
Av. Nazaré, 993 - Ipiranga - São Paulo
 
Dia 12 de maio de 2011
Horário: às 14h

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Ecologia e Páscoa


O próprio Espírito intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis.


Diversas pessoas têm manifestado certa perplexidade com o lema da Campanha da Fraternidade deste ano: “a criação geme em dores de parto”. Acham a frase inconveniente, pessimista, exagerada. Há também fiéis que consideram inadequado à Igreja meter-se nesses assuntos muito científicos, políticos e econômicos. A meu ver, uns e outros não percebem a relação entre a fé cristã em Deus criador e as atuais questões ecológicas.


AS DORES DO PARTO

A citação da Carta aos Romanos tem um fundo pascal. Depois das dores do parto, vem a alegria pelo nascimento da criança. Depois da tempestade, a bonança. Da cruz vem a ressurreição. Jesus consolou os discípulos ante a aproximação de sua Páscoa, lembrando as dores do parto: “Ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. A mulher, quando vai dar à luz, fica angustiada, porque chegou a sua hora. Mas depois que a criança nasceu, já não se lembra mais das dores, pela alegria de um ser humano ter vindo ao mundo” (Jo 16,20-21).

A expressão bíblica dores do parto, citada em diversas passagens (por ex.: Gl 4,19; 1 Tes 5,3; Ap 12,2; Gl 4,27, citando Is 54,1; Jr 13,21; Is 66,7-8) designa, ao mesmo tempo, um doloroso estado atual e a espera de um futuro estado glorioso. Enquanto estivermos neste mundo, morte e vida caminham juntas. Mas a esperança da vida plena é sempre maior. Na Carta aos Romanos 8,19-22, Paulo faz uma profissão de fé pascal e afirma que o mundo material será associado à glorificação do corpo humano no Cristo ressuscitado. Ele ensina que, como o ser humano passa pela morte para ressuscitar em Cristo, também a natureza, que sofre as dores de parto, ressuscitará, será transfigurada e glorificada no corpo cósmico de Cristo. A natureza participa da páscoa de Cristo e do ser humano. Enquanto a filosofia grega queria libertar o espírito da relação com a matéria, considerada má, o cristianismo prega a libertação da própria matéria. Não só o espírito, mas também o corpo humano e, com ele, a natureza, são chamados à participação da glória de Cristo. Todo o universo, criado pela Palavra de Deus (Jo 1,3) que em Jesus Cristo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14), é chamado a participar da reconciliação final de todas as coisas em Cristo (Col 1,20).


OS GEMIDOS DA NATUREZA

O mundo material, criado para o ser humano, participa do nosso destino. Amaldiçoada por causa do pecado humano (“maldito será o solo por tua causa”: Gn 3,17), a natureza se encontra em estado de tensão: “submetida à vaidade”, espera ser liberta da “escravidão da corrupção” (Rm 8,20-21). A fé cristã entende que a origem para os males no mundo se concentra em duas vertentes, entre si indissociáveis: a dimensão frágil de nossa criaturidade, e o pecado humano. Como criaturas, o ser humano e as coisas que existem são frágeis, mortais. Não é preciso muita atenção para perceber os gemidos de dor da criação: terremotos, enchentes, furacões, tsunamis etc. A criação sofre e, com ela, também o ser humano, a começar com os mais pobres, os primeiros a padecer com os flagelos da natureza. É claro que muitos desses gemidos e sofrimentos não têm causa direta na ação humana; fazem parte da própria condição criatural, frágil e caduca do mundo; explicam-se pelas leis internas da própria condição natural: surgir e desaparecer. Mas também é claro que muitos gemidos vêm, sim, de causas humanas, da ganância, do consumismo, do desrespeito e da depredação da natureza. O pecado humano introduziu em nossa condição criatural o vírus da violência e da agressão. O ser humano passa a usar e abusar da natureza, que lhe foi dada para ser transformada; em vez de acolhê-la como um ninho em que o Criador o colocou, a degrada e depreda; em vez de ser co-criador, julga-se dono prepotente, excluindo Deus das decisões no que concerne ao conhecimento e ao uso dos bens do mundo.

A natureza espera ser libertada desse uso egoísta e consumista e predatório que dela fazemos, a fim de ser partilhada e colocada ao serviço de todos. Criada por Deus para o bem comum dos seres humanos, a natureza geme esperando que aconteça o parto pascal da vida para todos. Há uma relação intersubjetiva entre o ser humano e os outros seres vivos e inanimados. Somos feitos da mesma matéria do mundo. Os mesmos elementos químicos e leis físicas compõem e regem a natureza e o corpo humano. Por isso, na concepção cristã, assim como o pecado humano teve como consequência a maldição da terra, também a libertação e glorificação do ser humano se dão em conjunto com a libertação e glorificação da natureza.


OS GEMIDOS DO ESPÍRITO

Mas não é só a criação que geme. Também nós “gememos em nosso íntimo, esperando a condição filial e a redenção de nosso corpo” (Rm 8,23). A criação geme à espera de ser libertada do cativeiro em que o ser humano a colocou. O ser humano geme à espera de sua redenção física, de sua salvação espiritual e sua confirmação como filho de Deus em Cristo. Mas os gemidos da criação e do ser humano não fariam sentido e se perderiam em lamentações infindas e sem solução, se não fosse o próprio Deus a gemer conosco, em nós e por nós. Por isso, mais adiante, São Paulo diz: “é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inenarráveis” (Rm 8,26). Gemer é um verbo atribuído ao Espírito Santo, que tudo cria e renova a face da terra (Sl 104,30), que geme e sofre, em todo o percurso da evolução, a fim de que as coisas venham à existência. E agora, geme ainda mais, à espera de que o ser humano se converta e não destrua a obra que ele criou.

O Espírito Santo, que geme dentro de nós e pelo qual clamamos Abbá, Pai (Rm 8,15), nos deu uma nova lei: a lei do amor e da partilha. O próprio Espírito, derramado em nossos corações, habita em nós e nos impede de seguir instintos egoístas (Rm 8,9). O Espírito Santo é o grande dom da Páscoa de Cristo. Ao morrer, “inclinando a cabeça, Jesus entregou o Espírito” (Jo 19,30) e como ressuscitado soprou sobre os discípulos e lhes deu o Espírito Santo (Jo 20,22).

Os cristãos não vivem na lei dos instintos, segundo a carne e os ídolos do mundo, na preocupação de ter mais, poder mais, gastar mais, comprar mais e, com isso, depredar mais a natureza. Ao contrário, a partir da Páscoa de Cristo, vivem na lei do Espírito que dá vida, vivem na sobriedade e na solidariedade. Assim, na vida segundo o Espírito não só são refeitas as relações sociais entre as pessoas e classes, mas também as relações ecológicas entre o ser humano e a natureza.

Pe. Vitor Galdino Feller
Coord. Arquidiocesano de Pastoral da Arquidiocese de Florianópolis
Prof. de Teologia e Diretor do ITESC


Fonte:
http://www.arquifln.org.br