quinta-feira, 11 de abril de 2019



O DIÁCONO PERMANENTE
E SEU SERVIÇO NA CELEBRAÇÃO DA EUCARISTIA

Pe. Cristiano Marmelo Pinto
Mestre em Teologia Sistemática com
Especialização em Liturgia pela PUC-SP

1. A participação do diácono na celebração da eucaristia

            O diácono possui funções específicas dentro da celebração da eucaristia. Estas funções diferem dos demais ministérios exercidos na celebração da eucaristia. “Sua diaconia junto do altar, tendo a sua origem no sacramento da Ordem, difere essencialmente de qualquer outro ministério litúrgico [...] O ministério litúrgico do diácono difere também do próprio ministério ordenado sacerdotal[1]. O diácono recebe o sacramento da Ordem para o serviço e não para o sacerdócio. Deve-se manter a diferença entre ambos os ministérios e não permitir que a comunidade se confunda. Sendo a liturgia o centro da vida cristã ela é fonte de graça para a vida do diácono. A liturgia torna seu ministério fecundo.

            Na celebração da eucaristia, cabe ao diácono auxiliar e ajudar o bispo ou o presbítero presidente da celebração. Paulo VI, na Carta Apostólica Sacrum diaconatus ordinem, ao enunciar as funções do diácono na liturgia, diz que cabe ao diácono “assistir durante as ações litúrgicas, o bispo e o presbítero em tudo quanto lhe compete, segundo as prescrições dos diferentes livros litúrgicos[2]. Para isso, deve desempenhar somente o que lhe é permitido pelas normas litúrgicas. “Em todas as celebrações litúrgicas, ministros e fiéis, no desempenho de suas funções, façam somente aquilo e tudo aquilo que convém à natureza da ação, de acordo com as normas litúrgicas[3]. A ação litúrgica possui exige uma ordem, uma organização e harmonia entre aqueles que exercem algum ministério. Esta ordem e harmonia só são possíveis se cada um fizer apenas a parte que compete a si, permitindo que os demais ministérios tenham também a sua vez de servir.

            O Diretório do ministério e da vida dos diáconos permanentes enumera o que compete aos diáconos na celebração da eucaristia:

a)      Ao altar presta o serviço do cálice e do livro;
b)     Propõe aos fiéis às intenções da oração;
c)      Convida à troca do sinal da paz;
d)     Proclama o Evangelho;
e)      É ministro ordinário da comunhão[4].

Não é permitido ao diácono:

a)      Pronunciar as palavras da oração eucarística;
b)     Realizar ações e gestos que pertencem somente ao sacerdote presidente[5].

A Instrução Ecclesiae de mysterio afirma que certos abusos tanto da parte de diáconos como de leigos devem ser abandonados. Diz o texto:

para salvaguardar, também neste campo, a identidade eclesial de cada um, devem ser abandonados os abusos de vários tipos que são contrários ao que se prevê no cân. 907, segundo o qual, na celebração eucarística, aos diáconos e aos fiéis não ordenados não é permitido proferir as orações e qualquer outra parte reservada ao sacerdote celebrante – sobretudo a oração eucarística com a doxologia conclusiva – ou realizar ações e gestos que são próprios do mesmo celebrante”[6].

            Nesta parte de nossa reflexão iremos fazer dois caminhos: o primeiro relacionando às funções do diácono na participação na eucaristia, e o segundo, daremos algumas dicas para o bom exercício da diaconia da liturgia exercida pelo diácono.

2. Funções do diácono na celebração da eucaristia

            A Instrução Geral do Missal Romano dedica a participação do diácono na celebração da eucaristia os números 171 ao 186. Também o Cerimonial dos Bispos, ao tratar da função do diácono na liturgia, dedica a este ministério os números 23 a 26. Utilizaremos estes dois textos para nossa reflexão por serem a voz oficial da Igreja no que diz respeito à celebração da eucaristia.

2.1. Missa com diácono (IGMR 171)

a)      Quando na celebração da eucaristia o diácono estiver presente, este deve se revestir com os paramentos próprios de seu ministério, a saber: alva, estola na transversal e dalmática (estes dois últimos na cor litúrgica do tempo);
b)     Cabe ao diácono assistir o sacerdote e caminhar ao seu lado;
c)      No altar, encarrega-se do cálice e do livro;
d)     Proclama o Evangelho e se o presidente permitir, pode fazer a homilia;
e)      Orienta a assembleia com breves exortações e enuncia as intenções da oração universal, caso não haja leitor que as façam;
f)       Auxilia na distribuição da comunhão e recolhe os vasos sagrados;
g)     Caso não haja outros ministros, o diácono assume sua função.
h)     Quando a celebração for presidida pelo bispo, deverá ajudá-lo pelo menos três diáconos: um para proclamar o Evangelho, outro para servir o altar, e dois para assistirem o bispo (Cerimonial dos Bispos, n. 26).

2.2. Funções do diácono nos ritos iniciais (IGMR 172-174)

a)      Na procissão de entrada, os diáconos precedem o sacerdote ou bispo;
b)     O diácono que for conduzir o Evangeliário leva-o um pouco elevado, e precedendo o sacerdote;
c)      Chegando ao altar, quem conduz o Evangeliário coloca-o sobre o mesmo, e com o sacerdote beija o altar;
d)     Se não é conduzido o Evangeliário, o diácono juntamente com o sacerdote faz uma profunda inclinação ao altar, e com ele, beija-o;
e)      Caso o sacrário esteja no centro do presbitério, faz-se a genuflexão e depois se dirige para o altar para beijá-lo;
f)       Se for usado o incenso, o diácono que assiste o sacerdote deve ajudá-lo colocar o incenso e depois segue-o na incensação da cruz e do altar;
g)     Após ter incensado o altar, dirige-se para sua cadeira, colocando-se ao lado do sacerdote;
h)     Após a saudação do sacerdote, o diácono pode, com breves palavras, introduzir a assembléia na missa do dia, motivando para uma boa participação na celebração.

2.3. Funções do diácono na liturgia da Palavra (IGMR 175-177)

a)      Enquanto se faz o canto do Aleluia, o diácono, quando tem incenso, ajuda o sacerdote na imposição do incenso;
b)     Depois, inclina-se diante do sacerdote, e com voz baixa, pede-lhe a bênção, dizendo: “Dá-me a bênção” e aguarde o sacerdote dar a bênção;
c)      Após a bênção do sacerdote, traça o sinal da cruz e responde amém;
d)     Em seguida, faz uma inclinação ao altar e toma o Evangeliário, seguindo com ele elevado até o ambão, precedido do turiferário e dos ceriferários;
e)      Saúda a assembleia dizendo: “O Senhor esteja convosco...” e em seguida as palavras: “Proclamação do Evangelho...” traça o sinal da cruz sobre o livro com o polegar e depois sobre si mesmo;
f)       Feito isto, incensa o livro;
g)     Faz a proclamação do Evangelho que pode ser cantada ou não;
h)     Terminada a proclamação do Evangelho, o diácono aclama: “Palavra da Salvação” e o povo responde: “Glória a vós, Senhor”;
i)        Em seguida o diácono beija o livro e depois pode levá-lo para o sacerdote também beijar;
j)        Quando a celebração for presidida pelo bispo, o diácono dele levar o livro para o bispo beijá-lo e, às vezes, é costume o bispo dar a bênção com o Evangeliário;
k)      Depois, o Evangeliário pode ser colocado ou na credência, ou no próprio ambão, mas não no altar;
l)        Se não houver ministros da leitura, o diácono poderá proclamar as demais leituras da celebração;
m)   Na oração dos fiéis, após uma introdução do presidente, o diácono pode, do ambão, propor as intenções.

2.4. Funções do diácono na liturgia eucarística (IGMR 178 a 183)

a)      Na preparação das oferendas, o diácono prepara o altar com a ajuda do acólito;
b)     Cabe ao diácono: cuidar dos vasos sagrados e assistir o sacerdote na recepção dos dons;
c)      O diácono prepara a mesa, estendendo sobre ela o corporal, colocando sobre ele as âmbulas com as partículas, em seguida entrega ao sacerdote a patena com a hóstia grande;
d)     O diácono prepara o cálice, derramando nele o vinho e depois derrama um pouco d’água no cálice, dizendo: “pelo mistério desta água...”;
e)      Em seguida entrega-o ao sacerdote;
f)       A preparação do cálice pode ser feita no altar ou na própria credência, conforme a conveniência;
g)     Durante a oração eucarística, o diácono permanece de pé junto ao sacerdote, mas um pouco atrás, para cuidar do cálice e do missal;
h)     A IGMR diz que a partir da epiclese até a apresentação do cálice, o diácono normalmente permanece de joelhos. Porém não é muito prático. Melhor é que o diácono que assiste o sacerdote permaneça de pé um pouco atrás dele;
i)        Na doxologia final da oração eucarística, de pé ao lado do sacerdote, o diácono eleva o cálice, enquanto o sacerdote eleva a patena com a hóstia, até que o povo diga: amém;
j)        Após o sacerdote pronunciar a oração da paz e “a paz esteja convosco”, e o povo responder, o diácono, de mãos unidas, e voltado para o povo, convida ao abraço da paz com uma das fórmulas propostas pelo missal;
k)      O diácono recebe do sacerdote a paz e depois a oferece aos demais que estiverem próximos;
l)        Após o sacerdote comungar, o diácono recebe dele a comunhão, sob as duas espécies, [ou conforme o costume, comunga no altar] e depois o ajuda a distribuir ao povo;
m)   Terminada a distribuição da comunhão, o diácono volta para o altar e consome o restante do cálice, podendo oferecer ao sacerdote ou a outros diáconos, e depois faz a purificação dos vasos sagrados;
n)     A IGMR diz que a purificação deve ser feita na credência, mas nem sempre o espaço é conveniente. Conforme o costume, pode fazer a purificação no próprio altar, porém deve ser ágil e prático, sem se demorar muito;
o)     Pode-se também deixar os vasos na credência, sobre o corporal, e fazer a purificação após o término da celebração;

2.5. Funções do diácono nos ritos finais (IGMR 184-186)

a)      Terminada a oração depois da comunhão, caso não seja o sacerdote ou outra pessoa, o diácono pode fazer as comunicações, os avisos;
b)     Se for usada a oração sobre o povo ou a fórmula solene de bênção, o diácono diz: “inclinai-vos para receber a bênção”;
c)      Dada a bênção pelo sacerdote, o diácono despede o povo conforme uma das fórmulas propostas pelo missal;
d)     [Antes da bênção final, caso seja conveniente, o diácono pode fazer uma breve exortação ao povo, a partir do mistério celebrado, para que possam vivenciar no dia-a-dia, o que celebraram];
e)      Após despedir o povo, o diácono, junto com o sacerdote beija o altar, faz um profunda inclinação, e depois retira-se do presbitério [podendo sair pelo corredor central, ou diretamente para a sacristia].

3. Algumas dicas para a vivência e boa participação na celebração da eucaristia

            As dicas que daremos a seguir são tiradas do livro Presbíteros: Palavra e Liturgia, de Enzo Bianchi[7] e que mesmo sendo direcionado aos presbíteros vale também para os diáconos, seja quando estão presidindo a celebração da Palavra de Deus ou exercendo seu ministério na celebração da eucaristia. Serão feitos alguns acréscimos para aplicação na vivência do ministério diaconal. Fica uma boa dica de leitura.

1)     O diácono deve preparar-se para a celebração da eucaristia através da oração. No dia anterior à celebração deve aproximar-se da liturgia que irá celebrar, com uma oração de escuta;
2)     Também nós que exercemos um ministério na celebração da eucaristia fazemos parte da assembleia, portanto, também participamos como Igreja junto com o povo. Como diz E. Bianchi: “se você não estiver evangelizado, não poderá evangelizar; se não morar em você a Palavra, não poderá comunicá-la para a assembleia[8];
3)     Você precisa acolher a Palavra no coração, na inteligência, no espírito, discerni-la, antes de tudo, como alimento para sua fé;
4)     Chegue sempre com antecedência para a celebração;
5)     Enquanto se reveste dos paramentos diaconais, peça ao Espírito Santo que venha habitar em você e o revista com a beleza de Cristo, aliás, é isto que as vestes litúrgicas devem transparecer;
6)     As vestes litúrgicas devem manifestar que você é sinal de Cristo e não um exibicionista;
7)     As vestes com sua cor indicam o tempo litúrgico, a festa, etc.;
8)     Na procissão de entrada, entre serenamente, em paz, disposto, sem pressa. A procissão de entrada deve manifestar o Cristo que está chegando;
9)     Você não substitui Cristo, é apenas sinal. É ele quem deve aparecer. Evite chamar a atenção para você, seja discreto nas suas ações, porém, faça-as com profundidade;
10) Chegando à frente do altar, faça profunda inclinação, plena de veneração, e beije com amor o altar, sinal de Cristo;
11) Tudo na liturgia começa com o sinal da cruz. Faça-o solenemente e não de qualquer jeito, com superficialidade ou apressadamente;
12) No ato penitencial, procure junto com a assembleia, sentir-se como voz da Igreja que invoca a misericórdia de Deus;
13) Os ritos iniciais atingem o cume na oração da coleta. Acompanhe em silêncio esta oração. Sinta-se unido com o sacerdote e toda a assembleia nesta oração;
14) Na liturgia da Palavra você estará sentado e ouvindo a proclamação das leituras e também fará a proclamação do Evangelho. Acolha a Palavra proclamada no coração. “Como todos os outros participantes da celebração, você também ouve, recebe e abre o coração para a Palavra[9];
15) Antes de ir para o ambão proclamar o Evangelho, incline-se profundamente pedindo ao Senhor que purifique o coração e os lábios para você poder proclamar com dignidade o Evangelho. “O Senhor cumpre em você o que você não é capaz de cumprir: ele purifica os seus lábios e lhe confere a autoridade e a missão de anunciar o evangelho dele[10];
16) Você proclama a Palavra no poder do Espírito Santo. Não confie na sua própria palavra, mas na Palavra de Deus e do Evangelho. E proclamando o Evangelho, seja você o primeiro ouvinte;
17) Reserve um lugar para o silêncio. A Palavra precisa de um momento de silêncio para ser interiorizada, ruminada, guardada no coração;
18) Na profissão de fé, faça junto com o povo, pronunciando pausadamente as palavras e meditando-as no coração. O Credo confessa a nossa unidade na fé;
19) Ao preparar as oferendas, faça com profunda reverência. Não precisa correr e nem ser muito devagar. Que o povo perceba que ao exercer seu ministério você está serenamente ali prestando o seu serviço;
20) Auxilie o padre sem porém tumultuar o espaço;
21) Esteja atento ao padre para que, caso ele necessite de algo, você possa atendê-lo;
22) Na oração eucarística, além de exercer suas funções, participe junto com a comunidade, respondendo as aclamações. O único que não faz as aclamações é o sacerdote e se tiver os concelebrantes;
23) Reze o Pai-nosso junto com o povo, pausadamente;
24) O Missal Romano diz que o abraço da paz deve ser um gesto discreto e breve. Não estenda este momento mais do que o necessário. Na celebração da eucaristia não se disperse querendo cumprimentar todos que estão na igreja, cumprimente apenas quem estiver ao seu redor, ou mais próximo;
25) Você não é ministro extraordinário da comunhão, mas ordinário. Procure distribuir a comunhão com alegria, pois você está distribuindo o Corpo do Senhor que se dá como alimento sob o sinal sacramental do pão consagrado, e isto é motivo de alegria. Sorria para a pessoa a quem você dará a comunhão, mesmo que sobriamente, isto faz com que quem recebe a comunhão também sinta a alegria de receber o Senhor;
26) Não esqueça daqueles que têm dificuldades de caminhar. Se for preciso, vá até eles;
27) Quando presidir a celebração da Palavra de Deus, no momento da comunhão, faça de tudo para que a comunidade perceba a necessidade de participar do Corpo do Senhor por meio da eucaristia;
28) Na comunhão acontece um maravilhoso metabolismo: nos tornamos aquilo que comemos, ou seja, tornamo-nos corpo do Senhor;
29) Se presidir a celebração da Palavra, deixe espaço para o silêncio após a comunhão. Silêncio para você e para a comunidade;
30) No momento da purificação, caso seja feita sobre o altar, procure ser prático e breve. Não demore muito para purificar os vasos sagrados;


[1] CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Diretório do ministério e da vida dos diáconos permanentes. n. 28.
[2] PAULO VI, Carta Apostólica Sacrum diaconatus ordinem, V, 22.a.
[3] Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium, n. 28; Cf. também IGMR, n. 91.
[4] Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Diretório do ministério e da vida dos diáconos permanentes. n. 32.
[5] “Na celebração da Eucaristia, não é lícito aos diáconos e leigos proferir as orações, especialmente a oração eucarística, ou executar as ações próprias do sacerdote celebrante” (CIC, cân. 907).
[6] CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Instrução Ecclesiae de mysterio, art. 6,2.
[7] BIANCHI, Enzo. Presbítero: palavra e liturgia. São Paulo: Paulus, 2010.
[8] BIANCHI, Enzo. Presbítero: palavra e liturgia. p. 9.
[9] Ibidem, p. 18.
[10] Ibidem, p. 19.

quarta-feira, 10 de abril de 2019


segunda-feira, 8 de abril de 2019




HOMILIA DO QUINTO DOMINGO DA QUARESMA
(Is 43,16-21; Sl 125; Fl 3,8-14; Jo 8,1-11)

São Maximiliano Kolbe, um santo franciscano vítima do nazismo dizia: “O meu olhar está constantemente voltado para novos horizontes.” Foi um homem de uma visão que ia além do seu tempo. Só caminha para frente quem se torna capaz de olhar para o horizonte, para frente. Quem olha para trás não caminha. Quem fica preso ao seu passado dificilmente também conseguirá caminhar.

A liturgia de hoje fala disso: precisamos deixar o passado no seu lugar e começarmos a olhar para frente. Não viver do passado, mas no presente para o futuro. Muitos ficam tão presos ao passado, remoendo seus traumas, suas frustrações, suas derrotas e decepções, e se esquece de viver, se seguir em frente. A liturgia de hoje tem uma receita para isso: para nos libertarmos e nos curarmos de nossos traumas e sofrimentos passados é preciso perdoar.

Mais uma vez na liturgia a palavra-chave é perdão. Porém, a novidade de hoje é que a liturgia fala do perdão em três estágios: ser perdoado por Deus (já vimos que ele nos perdoa); ser perdoado pelo outro, e perdoar-se a si mesmo. Precisamos passar por estas três fases do perdão
Se queremos seguir em frente.

Precisamos ouvir os apelos da primeira e segunda leitura de hoje. Em Isaías diz-se: “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. Eis que eu farei  coisas novas e que já estão surgindo” (Is 43,18-19); e São Paulo diz na Carta aos Filipenses: “Esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente” (Fl 3,13).

Estamos já bem próximos da Páscoa. E Páscoa é vida nova! É hora de esquecer o passado e começar uma vida nova, vida de pessoas renascidas em Deus. Esquecer na liturgia de hoje significa perdoar. Isaías mostra um Deus misericordioso que liberta. Uma vez libertados, não podemos ficar olhando para o passado, para coisas antigas, para erros passados. Quem fica olhando para o passado é sinal de que não se perdoou. Não se deve mexer em defunto enterrado.

O importante é saber que Deus faz coisas novas, nos dá novas oportunidades, abre novos caminhos que devem ser trilhados. Quem tem dificuldade de esquecer os erros e os sofrimentos passados mostra que tem dificuldade de perdoar e por isso, não é uma pessoa livre para seguir em frente.

Quem consegue perdoar, quem se perdoa, consegue ver que Deus tem aberto caminhos em nossa vida para sermos felizes. Ficar preso ao passado nos impede de vermos isso. Quem fica preso ao passado, mesmo que se confesse, não consegue sentir-se perdoado, isso acontece porque a própria pessoa não se perdoou. E é muito provavelmente não é capaz de perdoar os outros.

O evangelho de hoje é um exemplo de que devemos passar pelas três fases do perdão. Os doutores da Lei e os fariseus tramaram uma armadilha para pegar Jesus. Colocam diante dele uma mulher surpreendida em adultério e, pela Lei, ela deveria ser apedrejada. O que faz Jesus diante desta situação? Solta a famosa frase que usamos muito, mas temos dificuldade de colocar em prática: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra” (Jo 8,7). O evangelho diz que foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos. Sobrou ele e a mulher adultera. Então ele pergunta para a mulher: “Onde estão eles? Ninguém te condenou?” (Jo 8,10). Ela respondeu: “Ninguém, Senhor” (Jo 8,11). Diante disso Jesus diz para ela: “Eu também não te condeno. Podes ir e, de agora em diante, não peques mais” (Jo 8,11).

O que Jesus mostra com isso? Que aqueles que condenavam a mulher não eram santos como pareciam. Que Deus não nos condena. E que nos dá sempre a chance de uma vida nova. De seguirmos em frente sem cometer os mesmos erros. Em outras palavras, aqueles homens viram que não podiam condenar aquela mulher, mas perdoá-la. Então, o fato de terem saído significa que tiveram que perdoar aquela mulher. Jesus perdoou, ou seja, Deus perdoou. E por fim, ela mesma se perdoou e se deu a chance de uma vida nova. Sabemos que ela se tornou uma fiel discípula de Jesus. Deixou o seu passado de lado e assumiu uma nova vida, renascida pela graça do perdão. Então, Jesus a perdoou, possibilitou que os outros a perdoassem e fez com que ela mesma se perdoasse e seguisse em frente.

Nós também podemos e devemos fazer o mesmo, seja dando o nosso perdão aos outros, reconhecendo também nossas fragilidades, perdoando-se a si próprio, e sentindo-se perdoado por Deus. E o que nos resta diante disso: vida nova! Seguir em frente, abraçar os novos caminhos que Deus nos abre, os novos horizontes.

Portanto, meus amigos e irmãos, se você está vivendo do seu passado, se você está preso nele e não consegue ver uma vida nova, um futuro para você, se liberte, deixe tudo para trás, deixa partir... deixa seguir... deixa morrer... Como diz aquela música do Pe. Fábio de Melo (Perdas Necessárias): “Abra a porta do quarto e a janela, que o possível da vida te espera. Vem depressa que a vida precisa continuar...”

Permita ser perdoado e a perdoar a si mesmo. Como diz a música: “O que foi já não serve, é passado, e o futuro ainda está do outro lado, e o presente é o presente que o tempo quer te entregar...” Peça para que Deus te liberte e te cure do passado, e siga em frente, seja feliz, seja de Deus...

Paz no coração de todos!
Pe. Cristiano Marmelo Pinto

terça-feira, 2 de abril de 2019


O SACERDOTE:
SUA CRUZ, INCOMPREENSÕES E FIDELIDADE

São João Maria Vianney, presbítero e padroeiro dos padres foi um homem que se destacou pela simplicidade e pelo zelo pastoral. O Senhor disse: "Eu vos darei pastores segundo o meu coração, que vos conduza com inteligência e sabedoria" (Jr 3,15). São João Maria Vianney certamente foi um desses. É dele aquela frase que diz: "O sacerdote é o amor do Coração de Jesus".

Ele também diz que: "O sacerdote só será bem compreendido no céu. Se o compreendêssemos na terra, morreríamos, não de pavor, mais de amor". De fato, o mistério do sacerdócio é tão grande que dificilmente alguém conseguirá compreendê-lo. E se o compreendesse, certamente os que amam seus sacerdotes o amariam mais, e os que odeiam, odiariam menos.

Por outro lado, não devemos condicionar o ministério sacerdotal baseado na compreensão ou no reconhecimento. Não nos cabe este mérito. Cabe-nos tão somente cumprir nossa missão, ora doce, ora amarga. E no grande leque dos fiéis, haverá sempre os que nos amarão e os que nos odiarão.

Todos os que se dispõe a seguir Jesus Cristo tem a sua cruz. Ele mesmo foi quem disse que: "Todo aquele que não carrega a sua própria cruz e segue após mim não pode ser meu discípulo" (Lc 14,27). Todos nós temos as nossas cruzes. Talvez uma delas na vida de cada sacerdote seja a de caminhar nesta vida, exercer seu ministério sem ser compreendido. É por isso que Jesus diz que devemos renunciar a nós mesmo (cf. Mc 8,34; Lc 9,23).

Dentro deste contexto, o evangelho de Mt 16,13-23 é extremamente didático para o caminho espiritual e ministerial dos sacerdotes. Jesus está conversando com seus discípulos e quer tirar a prova dos nove acerca de algumas coisas. Primeiro pergunta o que dizem sobre Ele. A resposta é frustrante, mas, creio que esperada, visto que muitos faziam confusão a respeito d'Ele, de sua pessoa e de seu ministério. Diziam que era João, Elias, Jeremias ou outro profeta qualquer (cf. Mt 16,14). Mas Jesus é pedagógico e quer saber na verdade o que seus discípulos pensam sobre Ele. No fundo esta é uma situação humana. Todos nós a certo ponto gostaríamos de saber o que os outros pensam da gente. Isto revela o grau de envolvimento, de comprometimento. Então resolve perguntar o que eles, seus discípulos, pensam sobre Jesus. Pedro responde: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo" (Mt 16,16). E Jesus surpreende revelando que Pedro não o conhece porque um ser humano o revelou, mas o próprio Pai (cf. Mt 16,17). É claro que Pedro não teve uma revelação divina a respeito de quem é Jesus, nem mesmo o Pai apareceu para ele e disse. Mas sua resposta brotou de uma experiência pessoal e profunda com Jesus que o fez conhecê-lo plenamente. E isto deu a Pedro a convicção de que Jesus é o Messias, o Filho de Deus e de quem ele estava seguindo.

Após dar a Pedro um encargo sobre a Igreja, Jesus manda que seus discípulos não revelassem para outros quem Ele é. Ao dar esta ordem, Jesus deixa claro que cada um deve fazer a sua experiência pessoal com Ele e não acreditar porque outro falou. Nós apenas devemos apontar para Jesus, mostrar o caminho que leva a Ele. Mas cada um deve dar os seus próprios passos em direção a Jesus. Isto é pessoal. Não podemos forçar, muito menos carregar alguém até Ele.

Na vida de cada sacerdote esta convicção é extremamente necessária. É preciso que nós façamos por primeiro a experiência de encontro com Jesus para que dela nasça a convicção de nossa vocação, de nosso ministério. Só assim, seja pelo que os outros dizem, seja pelas adversidades encontradas no exercício do ministério sacerdotal, nos manteremos sempre fixos na meta, não se desviando e nem desanimando.

É necessário notar que, logo em seguida, Jesus fala aos discípulos do seu sofrimento. De como Ele haveria de sofrer nas mãos dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da lei (cf. Mt 16,21). Pedro o chama de lado e o repreende na tentativa de afastar d'Ele tal destino. Jesus o manda se afastar, chamando-o de satanás. E diz que Pedro não pensa as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens, e o chama de pedra de tropeço (cf. Mt 16,23). Todo sacerdote tem também seus sofrimentos, seus dramas. Mas não podemos nos deixar iludir ou convencer por aqueles que acham que não devemos passar por estas situações. Elas são consequências de nossa missão. Fugir delas é abandonar a cruz.

É interessante que antes, Jesus chama Pedro de "pedra", sobre a qual edificaria sua Igreja. Depois o chama de pedra de tropeço, porque deixou de pensar as coisas de Deus e sim, as coisas dos homens. Pode haver várias interpretações a respeito desta afirmação de Jesus. Uma das possíveis, e que acho mais sensata, é que a pedra serve para dar solidez, firmeza. Por exemplo, uma pedra colocada no caminho é para torná-lo mais firme e seguro. Mas quando esta pedra sai do lugar, ela se torna perigosa, uma pedra por onde quem passar pode tropeçar e se ferir. Quando baseamos nosso ministério no que os outros dizem ou querem de nós, atendendo a demanda das necessidades pessoais de cada um ou de certos grupos ou ideologias, com muita facilidade nos deslocamos de nossa missão e nos tornamos pedra de tropeço. Ao invés de darmos segurança para quem passa, tornamos o caminho perigoso onde os transeuntes podem se ferir.

Outro ponto curioso é o fato de Jesus chamar a Pedro de "Satanás". José Antônio Forte diz em sua "Summa Daemoniaca" que "Satã" ou "Satanás" é o mais poderoso, o mais inteligente e o mais belo dos demônio. Satanás significa aquele que acusa, que ataca, é o adversário, o inimigo, o opositor (cf. Summa Daemoniaca, p. 23). Não se enganem: Satanás nos ilude com sua beleza e inteligência. E de fato, o mau se apresenta como algo bom, belo e correto. E nos iludimos com suas ideias. Isto pode ser uma pessoa, uma ideologia, ou outra coisa qualquer. Ou nos deixamos guiar pelas coisas de Deus, ou nos iludimos com as coisas dos homens. Se for a última, já sabemos no que vai dar, vamos viver nosso ministério a partir dos que os outros pensam e falam de nós. Se conduzido pelas coisas de Deus, viveremos nosso ministério consciente de nossa cruz, mas sempre com os olhos fitos no Senhor, e poderemos dizer com São Paulo: "O que desejo e espero é não fracassar, mas, agora como sempre, manifestar com toda a coragem a glória de Cristo em meu corpo, tanto na vida como na morte. Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro" (Fl 1,20-21).

Paz no coração!
Pe. Cristiano Marmelo Pinto
Mestre em Teologia Sistemática com Especialização em Liturgia pela PUC-SP

sábado, 30 de março de 2019



HOMILIA DO QUARTO DOMINGO DA QUARESMA
(Js 5,9-12; Sl 33; 2Cor 5,17-21; Lc 15,1-3.11-32)

A liturgia de hoje possui um tom de alegria. Por esse motivo, o quarto domingo da quaresma é chamado de “domingo da alegria”, porque, na travessia do deserto quaresmal, nos deparamos como que com um “oásis” e podemos vislumbrar as festas que se aproximam. É como rezamos na oração inicial da missa de hoje, pedindo a Deus que: “concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam cheios de fervor e exultando de fé” (Oração da Coleta).

Mas poderíamos também chamar a celebração de hoje de: “domingo da reconciliação”, sim, porque os textos de hoje falam da misericórdia de Deus e da nossa reconciliação com ele. São Paulo na segunda leitura faz este apelo: “Deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). Penso que a palavra que define a liturgia de hoje é: perdão! Deus nos perdoa e nós também devemos aprender a perdoar os nossos irmãos. Não importa o que tenham feito, é importante que aprendamos a nos reconciliar uns com os outros. E a maior lição de que temos que nos perdoar é o fato de que fomos reconciliados com Deus por meio de Jesus Cristo. São Paulo diz isso: “Por Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo” (2Cor 5,19).

No evangelho, Jesus fala do perdão em meio as críticas que ele recebe dos fariseus, porque ele se aproxima dos pecadores. Neste contexto, Jesus conta uma das mais lindas parábolas dos evangelhos. Alguns a chama de “Parábola do filho pródigo”, outros de “Parábola do pai misericordioso”. Talvez este último seja o melhor título, isto porque, em meio ao pecado, o que deve sobressair é a misericórdia. Embora o filho mais novo tenha levado uma vida desenfreada e de esbanjamento, o que importa é seu retorno para seu pai. E a atitude do pai é de festa com o seu retorno. Esta parábola mostra a atitude de Deus conosco. Ele faz festa com o nosso retorno,  com a nossa conversão. Num dos versículos omitidos no evangelho de hoje Jesus diz que: “Há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15,10).

Nós temos um pouco de cada um dos personagens desta parábola: somo um pouco do filho mais novo, quando levamos uma vida de esbanjamento e desenfreada, longe de Deus; somo um pouco do filho mais velho, quando não somos capazes de ver e agir com misericórdia como agiu aquele pai; e também, somos um pouco do pai, quando superando nossas limitações  nos tornamos capazes de agir com misericórdia e nos alegrarmos em nos reconciliarmos com aqueles que tenham nos ofendido. Em nós deve sobressair as atitudes do pai, agindo com misericórdia e alegria.

O que isso tem a ver com nossa vida pessoal, com nossa vida comunitária...? Creio que tudo. Às vezes precisamos passar pelo sofrimento, pela dor, para descobrirmos e valorizarmos Deus em nossa vida. Quantos conhecemos que só se reaproximaram de Deus depois de um grande sofrimento ou dor? Deus estará sempre a nossa espera, ele é paciente.

Mas quando se trata de outra pessoa a coisa muda de figura. Se demorarmos demais para nos reconciliar, para pedir ou dar o perdão, pode não haver mais tempo. E se a pessoa em questão morrer, é pior ainda. Perdoe, dê o seu perdão, seja a quem for, enquanto existe tempo para isso. Depois, quando o outro morre, o que fica é o sentimento de culpa. E contra isso quase nada se pode fazer.

Somos como o filho mais velho quando nos relacionamos com Deus por se fosse um patrão, fazendo as coisas por obrigação, esperando receber dele uma recompensa. Pode-se até fazer as coisas bem, com perfeição, mas ficará sempre esperando ser recompensado. São pessoas que cumprem as regras da Igreja, participam das missas, pagam dízimo, porém, faz tudo por obrigação, às vezes sem amor, e não consegue aceitar que alguém que tenha cometido algum erro possa ser readmitido na comunidade, no grupo, na pastoral... São pessoas que, embora façam as coisas bem feitas, não conseguem perdoar os outros.

Porém, todos nós precisamos ser mais como o pai misericordioso, que espera o retorno do filho, que perdoa e faz festa, se alegra. Somos um pouco desse pai quando nos alegramos com a volta de alguém que se afastou da comunidade, quando não ficamos olhando para seus pecados, mas o que eles têm de bom, quando enxergamos com misericórdia.

Para terminar, como dizia Machado de Assis: “Nunca levante a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão.” Em outras palavras, seja misericordioso. Não negue seu perdão a quem te pedir. Não seja orgulhoso. Negar o perdão nunca trouxe nada de bom para quem o nega. E como Vinícius de Moraes diz numa de suas canções: “Quem não pede perdão, não é nunca perdoado.” Seja humilde para reconhecer que errou e pedir perdão de suas faltas.

Paz no coração de todos!
Pe. Cristiano Marmelo Pinto




OBRAS DE MISERICÓRDIA CORPORAIS

Pe. Cristiano Marmelo Pinto

Foi-me proposto conversar sobre as obras de misericórdia corporais. O Papa Francisco nos convida para nos tornarmos uma Igreja da misericórdia. A proposta para a reflexão é bem simples, de modo que, veremos quais são as obras de misericórdia corporais e quais suas implicações na vida concreta, seja pessoal e comunitária, ou seja, como cada um de nós devemos praticá-las e como a comunidade também deve colocá-las em prática na sua vivência pastoral.

Quais são as obras de misericórdia corporais?
1ª) Dar de comer a quem tem fome;
2ª) Dar de beber a quem tem sede;
3ª) Vesti o nu;
4ª) Acolher o forasteiro;
5ª) Assistir os enfermos;
6ª) Visitar os presos;
7ª) Enterrar os mortos.

Antes de falarmos de cada uma destas obras acho oportuno entendermos o que quer dizer “misericórdia”, e por que das “obras de misericórdia”?

Misericórdia tem a ver comportamento. Ela diz respeito ao comportamento de quem é altruísta, sensível e preocupado com a condição de miséria do outro, e se compromete em buscar soluções. Poderíamos dizer que a misericórdia é tudo que humaniza. Como o próprio significado da palavra diz: “Ir ao encontro das misérias do coração do outro, para ajudá-lo a se libertar!”  Misere (miséria) / cordis (coração). O coração misericordioso é cordial, benevolente, compassivo, não olha para trás, mas para frente, em busca de novos caminhos, novos horizontes. Quem olha para trás não vê o caminho que se abre à frente. Isto é muito comum em pessoas rancorosas. Não conseguem se libertar do passado, e por isso a vida para em torno do que aconteceu. Daí gera-se sentimentos de vingança, ódio, falta de esperança e de perdão.

1ª obra de misericórdia corporal
“Dar de comer a quem tem fome”

Jesus ao falar de sua volta e reunir a sua direita as ovelhas diz: “Eu estava com fome e me deste de comer” (Mt 25,35). Estamos tratando de uma das mais duras realidades humanas: a fome. Segundo dados do IBGE de 2014, cerca de 7,2 milhões de brasileiros passam fome. Segundo a ONU, dados de 2015, embora no mundo a fome tenha diminuído, ela ainda atinge cerca de 805 milhões de pessoas. É um número alarmante. Como se sabe, a fome é uma realidade que atinge particularmente os pobres. Quando Jesus opta por anunciar a Boa Notícia as pobres, ele está também denunciando estar triste realidade vivida por eles. É por isso que ele diz em Mateus 5,6: Felizes os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados”. E ele mesmo apresenta-se como pão, como alimento descido do céu. É nosso dever como comunidade cristã empreender ações de combate à fome.

O papa emérito Bento XVI na Encíclica Caritas in veritate, diz que: “Dar de comer a quem tem fome é uma responsabilidade da Igreja, que deriva da ação de Jesus”. O papa Paulo VI diz que dar de comer aos famintos é um imperativo ético para toda a Igreja. É por isso que nós cristãos, temos que alimentar os pobres, temos que partir o “pão”, temos que assistir os famintos.

Em muitas comunidades católicas existem grupos que atuam nesta realidade. Temos os vicentinos, a pastoral da caridade, existem os grupos que cuidam dos moradores de rua levando comida, o famoso “sopão”, e com certeza vocês aqui também tem algum grupo que assiste as famílias. Cabe a cada um da comunidade duas atitudes: primeira: dar comida a quem bate à sua porta e segunda: dar condições aos grupos ou pastorais da comunidade que cuidam dos famintos, trazendo na igreja alimentos para estas famílias. Sejam generosos com os irmãos famintos. Mesmo que a situação esteja difícil, não deixem de ajudar a quem tem fome.


2ª obra de misericórdia corporal

“Dar de beber a quem tem sede”

Ainda em Mateus 25,35, Jesus dirá: “Eu estava com sede, e me deram de beber”. Esta é outra
realidade de carência humana. A água é vital para a vida no planeta. Poucos anos atrás o Estado de São Paulo passou por uma profunda crise hídrica. Todos fomos afetados pela seca que diminuiu os nossos reservatórios, nos privando de um dos bens mais vitais para a vida como um todo. A falta de água atinge várias coisas: a sede, afeta a plantação de alimentos, e o próprio meio ambiente é afetado. A escassez de água afeta cerca de 40% da população mundial. Presume-se que em 2032 cerca de 5 bilhões de pessoas serão afetadas pela escassez de água. Cerca de 60% da água potável está em apenas nove países, o Brasil é um deles. Enquanto que, em 80 países há escassez. E poderíamos ir além com os dados. 


Diante da ameaça da falta d’água, e do que isso pode acarretar para a vida no planeta, é importante colocarmos em prática esta segunda obra de misericórdia corporal. Podemos dar de beber a quem tem sede de vários modos: não negando um copo d’água a quem nos pede; economizando a água que usamos em casa; colaborando com comunidades afetadas por catástrofes naturais, por exemplo, doando água, pois uma das primeiras necessidades é a água para beber.

3ª obra de misericórdia corporal
“Vesti o nú”

No evangelho Jesus diz: “Eu estava sem roupa, e me vestiram” (Mt 25,36). Conta-se que São Martinho de Tours no inverno de 337, ao encontrar perto da porta da cidade um homem com frio, rasgou-lhe o manto e deu a metade para aquele homem. Na noite seguinte, Jesus apareceu para ele vestido com a metade do mando dada, para lhe agradecer o gesto. Conta-se também que no grupo dos companheiros de São Francisco de Assis, havia um frei chamado Junípero, que todas as vezes em que ia na cidade, voltava nu, sem o hábito franciscano, porque o dava para alguém mais pobre do que ele. Um antigo frei dizia para nós no seminário franciscano que, as roupas guardadas em nosso guarda-roupas por mais de dois meses, já não nos pertence mais, e sim, aos pobres. Vestir o nu nos questiona duas posturas frequentes: a primeira é a necessidade ilusória de possuir e possuir mais roupas. Tem gente que falta espaço para tanta roupa. Por que isso se nos basta o necessário? A segunda coisa é o apego as roupas que não nos serve mais. Por que guardá-las? Tem gente que fica esperando emagrecer e nunca emagrece, e a roupa estraga guardada a espera de tal “milagre”. Se não nos serve, se não usamos mais, precisamos aprender a doar para os maltrapilhos. E como tem gente precisando de roupas.

4ª obra de misericórdia corporal
“Acolher o forasteiro (estrangeiro)”

No evangelho Jesus diz: “Eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa” (Mt 25,35). Conheci
uma senhora em Curitiba, que quando íamos almoçar na casa dela, sempre havia um prato a mais na mesa. Certa vez resolvi perguntar por que daquele prato. Ela me respondeu que era para Jesus que poderia chegar a qualquer momento. São Bento na sua regra para os monges dizia que: “Todo hóspede deve ser acolhido como Cristo, porque Ele um dia nos dirá: ‘Era peregrino e me hospedastes’”. Acolher o estrangeiro tem a ver com a nossa hospitalidade. Devemos receber quem nos visita, como que recebendo o próprio Cristo que nos vem. Também cabe aqui a questão dos refugiados. Estamos vivendo uma crise de refugiados sem precedentes no mundo,
seja por causa das guerras, seja por causa da perseguição religiosa. E por outro lado, nos deparamos com atitudes de fechamento em recebê-los. Vejam a Europa. Mas também aqui no Brasil. Temos gente de todas as partes do mundo. Como são recebidos? Como vivem?

5ª obra de misericórdia corporal
“Assistir os doentes - enfermos”

Jesus diz: “Eu estava doente, e cuidaram de mim” (Mt 25,36). A doença e o sofrimento estão entre os problemas mais graves que afligem a vida humana. A saúde pública está em crise, principalmente em lugares mais pobres e menos atendidos. Além do sistema de saúde ineficiente também temos os doentes que estão em casa. Muitos deles vivem só. A obra de misericórdia: “assistir os doentes” começa na família quando se lida com doenças prolongadas e, às vezes irreversíveis. Seja em qualquer idade, e por qualquer problema de saúde que podem ser, entre tantos: o câncer, as paralisias, a anencefalia, e socorrer sem preconceito os portadores do HIV.

Trata-se também de um trabalho voluntário em hospitais, asilos, e casas de recuperação. Estende-se a uma pastoral que visite e acompanhe aqueles que, vivem a dor de sua enfermidade na solidão, e no esquecimento. Não deixe de visitar, de assistir alguém doente. Não deixe de visitar e de se reconciliar, seja um familiar, um amigo... Faz bem pra ele e faz bem pra gente também.

6ª obra de misericórdia corporal
“Visitar os presos – os encarcerados”

Ficará à direita de Deus, no grupo dos bem-aventurados, aquele que visitou os que estavam na
prisão (Mt 25, 36). Hoje o acesso nos presídios não é livre, há um certo rigor e triagem para visitas presidiários. Porém, nossas dioceses ainda são deficientes em se tratando de uma pastoral carcerária efetiva, e dinâmica. É claro que nem todo mundo tem jeito para estar num ambiente deste. Deus entende. Mais também, tem muitas outras ações que a comunidade pode realizar para ajudar os que estão presos. Por piores que tenham sido os crimes praticados, é nosso dever cuidar dos presos. As visitas normalmente são realizadas pela pastoral carcerária. Mais também, podem acompanhar a família. Assistindo em suas necessidades, combatendo o preconceito que essas famílias são submetidas...

7ª obra de misericórdia corporal
“Enterrar os mortos”

Crer na ressurreição da carne, na vida eterna, faz parte da oração pela qual professamos nossa fé. No Livro de Tobias encontramos o seguinte:  Tobias com uma solicitude toda particular, sepultava os defuntos e os que tinham sido mortos (Tb 1, 17ss). O Novo Catecismo da Igreja Católica, assim diz: “Os corpos dos defuntos devem ser tratados com respeito e caridade, na fé e na esperança da ressurreição. O enterro dos mortos é uma obra de misericórdia corporal que honra os filhos de Deus, templos do Espírito Santo” (CIC n. 2300). Cada pessoa é templo do Espírito Santo e mesmo depois de morta, seu corpo merece respeito. A Igreja permite a cremação do corpo, desde que não seja um ato que se faça numa manifestação de contrariedade à fé na ressurreição dos mortos (CIC n. 2301). A doação gratuita de órgãos não é um desrespeito ao corpo quando desejada pela própria pessoa, é uma pratica legitima, incentivada pela Igreja. É importante recuperarmos o respeito pelos mortos. Enterrá-los com dignidade e respeito.

Por fim, coloquemos em práticas as obras de misericórdia, pois, essa é a vontade de Deus.