segunda-feira, 4 de maio de 2009

Liturgia da Palavra: Estrutura da Liturgia da Palavra na Missa

Pe. Cristiano Marmelo Pinto[1]


A Igreja não inventou a liturgia da Palavra. Ela a herdou da liturgia sinagogal judaica. A estrutura da liturgia das sinagogas estava centrada nas leituras bíblicas. Tanto a liturgia cristã como a liturgia judaica atribui à Palavra uma função toda especial e própria, diferentemente de outras religiões que também têm a palavra em seu culto. Não é difícil perceber a passagem da estrutura da liturgia da Palavra da sinagoga para a liturgia cristã, pois Cristo, Palavra viva do Pai, dá, à palavra celebrada, um maior valor.

O testemunho mais antigo de como a liturgia da Palavra estava estruturada em ambiente cristão é de São Justino, por volta do ano 150. “Lêem-se as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, quando o permite o tempo... Aquele que preside toma a palavra para exortar... Em seguida, levantamo-nos todos e elevamos nossas orações” (S. Justino, Apologia I, 67).

A liturgia da sinagoga dava-se da seguinte forma: “comportava ela a dupla leitura da Lei e dos profetas, acompanhada de salmos; depois das leituras, situava-se uma explicação ou exortação homilética; finalmente, eram feitas orações para o povo da Aliança (Gelineau, J. Em vossas assembléias, p. 160).

É fácil perceber que apenas se acrescentou a leitura dos apóstolos na liturgia cristã e o evangelho, conservando todos os elementos da liturgia judaica. A liturgia da Palavra vai aparecer de maneira mais elaborada na comunidade cristã por volta do século IV. Nesta época já aparecem quatro elementos constitutivos: as leituras das Escrituras, com a explicação na homilia; o cântico do salmo e hinos; a oração do povo e a oração do presidente. Percebe-se aí dois eixos: o anúncio da Palavra e a oração da comunidade.

A estrutura da liturgia da Palavra é formada dos seguintes elementos: leituras bíblicas (Primeiro e Segundo Testamento), salmo responsorial, aclamação ao evangelho, homilia, profissão de fé e preces da comunidade. “As leituras bíblicas da Sagrada Escritura, com os cânticos que se intercalam, constituem a parte principal da liturgia da Palavra: a homilia, a profissão de fé e a oração universal ou oração dos fiéis a desenvolvem e concluem” (cf. Ordo Lectionum Missae, 11).

A Primeira Leitura (Primeiro Testamento): geralmente a primeira leitura é tirada do Antigo Testamento. No tempo pascal a leitura é extraída dos Atos dos Apóstolos, que trata do início da comunidade cristã iluminada pela ressurreição de Jesus. Elas prefiguram e anunciam a plenitude dos tempos. A primeira leitura é sempre lida na perspectiva da vinda de Cristo.

O Salmo Responsorial: em primeiro lugar é preciso ter consciência que o salmo é Palavra de Deus, e, assim como as demais leituras, “é parte integrante da liturgia” (cf. IGMR – Instrução Geral do Missal Romano, 61). Tem a finalidade de favorecer a meditação da Palavra de Deus. É uma resposta orante da comunidade a esta Palavra. Desta maneira ele prolonga, de forma contemplativa, a primeira leitura. Ele é um dos elementos mais antigos da liturgia da Palavra. Por ter relação com as leituras – mais especificamente com a primeira –, nunca deve ser trocado por outro ou um canto qualquer.

A Segunda Leitura (Segundo Testamento): esta leitura é tirada dos escritos dos apóstolos, dos Atos dos Apóstolos, das Cartas e do Apocalipse. Ela atualiza na comunidade cristã a experiência dos apóstolos e das primeiras comunidades, a experiência do Cristo Ressuscitado e do seu Espírito que move a Igreja para a missão e o testemunho. Ela não precisa, necessariamente, ter relação com as demais leituras. Mas, como via de regra, ela mostra como as primeiras comunidades cristãs colocaram na prática os ensinamentos de Jesus.

Aclamação ao Evangelho: antes da proclamação do Evangelho, faz-se uma aclamação. Esta aclamação tem origem na liturgia judaica e ocupa um lugar de destaque na liturgia cristã. Ela é expressão de acolhimento do Cristo que agora vem nos falar. Ao mesmo tempo é manifestação de nossa fé na presença real de Cristo em sua Palavra. Consta de “aleluias” e um versículo, geralmente tirado do próprio evangelho do dia (cf. Estudo 79 da CNBB, p. 128). Durante a quaresma o aleluia é omitido, mas a aclamação ao Evangelho permanece .

Proclamação do Evangelho: o Evangelho é o ápice da liturgia da Palavra. Não é por menos que, para ele, cantamos “aleluias” e nos colocamos de pé. O Evangelho, por exemplo, é quem determina a escolha das outras leituras. A palavra “evangelho” significa boa notícia, mensagem importante, boa nova. É o próprio Cristo que vem nos falar.

A Homilia (atualização da Palavra): a palavra “homilia” significa “conversa familiar”. Não é uma conferência, nem um sermão, muito menos um discurso e nem aula de catequese ou de teologia. Ela é um serviço à Palavra. A homilia procura explicar e atualizar a Palavra na vida concreta da comunidade. A atualização é o coração da homilia. Ela não pode reduzir-se a uma explicação dos dados históricos ou/e teológicos da Palavra de Deus. Isto pode ser muito útil. Mas a comunidade deve perceber de modo claro e preciso a conexão entre Palavra de Deus e sua vida. Ela deve levar os corações à conversão sincera e radical ao Evangelho. É claro que uma homilia não pode tratar de tudo, por isso, ela deve centrar-se em um elemento da Palavra proclamada e aplicá-lo na vida da comunidade.

Profissão de fé (credo): o credo ou profissão de fé tem como objetivo levar toda a assembléia reunida a responder à Palavra que foi proclamada e atualizada pela homilia (cf. IGMR, 67). Recorda e professa o mistério da fé. Tem eixo cristológico, pois nele professamos que “Cristo é o Senhor”. Ele expressa nossa adesão a Cristo de modo que nossa vida seja centrada nele. Inicialmente, a profissão de fé era usada na celebração do batismo. Foi introduzida na liturgia da missa no Oriente.

Oração da comunidade (preces): é uma das práticas mais antigas da nossa liturgia. Ela responde a Palavra de Deus acolhida na fé. É também chamada “oração universal” porque ela expressa a universalidade da Igreja que deve elevar suas preces por toda a humanidade. Há uma ordem na oração da comunidade: pelas necessidades da Igreja; pelos poderes públicos e pela salvação do mundo; pelos que sofrem e pela comunidade reunida (cf. IGMR, 70).

Procurei tratar da estrutura da liturgia da Palavra de maneira breve e objetiva. Fica evidente que, para podermos compreender melhor o seu valor sacramental, precisaríamos de um maior aprofundamento. Porém, não é esta a nossa proposta neste breve texto. Ele quer sim, suscitar nos leitores o desejo de buscar este aprofundamento. Somente assim participaremos ativa e conscientemente da liturgia da Palavra e permitiremos que ela seja eficaz em nossa vida, produzindo aquilo que ela significa e a transformação de nossas vidas.


Para refletir:
1. Qual a origem da liturgia da Palavra?
2. Quais as partes integrantes da liturgia da Palavra?
3. Como perceber Cristo presente na Palavra mediante a estrutura ritual da liturgia da Palavra?

Referências bibliográficas:
ALDAZÁBAL, J. A Mesa da Palavra I: elenco das leituras da missa. São Paulo: Paulinas, 2007.
FARNÉS, Pedro. A Mesa da Palavra II: leitura da Bíblia no ano litúrgico. São Paulo: Paulinas, 2007.
DEISS, Lucien. A Palavra de Deus celebrada. Petrópolis: Vozes, 1998.
CELAM. Manual de Liturgia II: a celebração do mistério pascal fundamentos teológicos e elementos constitutivos. São Paulo: Paulus, 2005.
[1] Pároco da Paróquia São João Batista, em Santo André, é mestrando em Liturgia pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo.


“Presente está pela Palavra”
A Palavra de Deus
proclamada na celebração litúrgica



Pe. Cristiano Marmelo Pinto
Mestrando em Liturgia



Estamos em pleno mês da Bíblia, da Palavra de Deus! Creio que esta é uma oportunidade ótima para refletirmos sobre a Palavra de Deus na liturgia. A constituição Sacrosanctum Concilium, além de promover uma ampla reforma da liturgia, também resgatou a importância da Palavra de Deus em nossas celebrações. A liturgia num período de deslocamento de eixo, muitas vezes substituiu a leitura da Bíblia pela vida de santos, privilegiando uma religiosidade devocional. O mesmo aconteceu com a Eucaristia, dando margem as diversas devoções eucarísticas, por exemplo, a adoração ao santíssimo, ao invés de reforçar a própria comunhão do Corpo do Senhor. Estas tendências foram superadas pela reforma litúrgica, preparada pelo movimento litúrgico e bíblico do século passado.

Porém, precisamos abrir nossos corações para acolher a Palavra proclamada em nossas liturgias e podermos comungar do “Pão da Palavra”, que é o mesmo Cristo presente no “Pão da Eucaristia”.


Com efeito, o concílio na constituição dogmática Dei Verbum afirma que “A Igreja sempre venerou a Sagrada Escritura da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor” (DV 21). O concílio pretendeu resgatar a relação com a Palavra de Deus que os cristãos tinham no início da Igreja. Aliás, toda a tentativa da reforma litúrgica foi de resgatar a liturgia original da Igreja romana, chamada “liturgia romana pura”, ou seja, a liturgia celebrada pelas primeiras comunidades da Igreja de Roma, da qual somos herdeiros.

Com esta afirmação da constituição Dei Verbum, podemos dizer que a Palavra de Deus é tão venerada quando o Corpo eucarístico de Cristo. Isto nos leva a outra afirmação do concílio Vaticano II na constituição Sacrosanctum Concilium sobre a presença de Cristo na liturgia: “está presente na Igreja, sobretudo na liturgia... presente está pela sua Palavra, pois é Ele mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras” (SC 7). A Palavra de Deus tem a mesma importância que a Eucaristia para a vida da Igreja e para a liturgia. São Jerônimo diz: “Quanto a mim, penso que o Evangelho é o corpo do Cristo e que a Sagrada Escritura é sua doutrina. Quando o Senhor fala em comer sua carne e beber seu sangue, é certo que fala do mesmo mistério (da eucaristia). Entretanto seu verdadeiro corpo e seu verdadeiro sangue são (também) a Palavra da Escritura e sua doutrina”.

O papa Paulo VI, em sua encíclica Mysterium fidei sobre a Eucaristia, insiste que a presença real de Cristo na Eucaristia não exclui outros modos de presença real. Diz o papa: “Esta presença, chamamo-la de real não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem reais, mas, por excelência, porque ela é substancial” (cf. 30). Para ele, a presença na eucaristia é substância porque está ligada a substância do pão. Mas a presença na Palavra é igualmente real.

Na celebração litúrgica as duas mesas estão intimamente unidas: a mesa da Palavra e a mesa da Eucaristia. O concílio Vaticano II retomou o ensinamento da Tradição da Igreja sobre as duas mesas (cf. DV 21). Isto não é novidade na Igreja. Já na metade do século VIII a.C. o profeta Amós falou de uma fome da Palavra que o povo teria semelhante à fome de pão. Assim diz o profeta: “Eis que virão dias, em que enviarei fome à terra, não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir a Palavra do Senhor” (Am 8,11). Marcos nota que antes de Jesus multiplicar os pães, ele multiplica a Palavra (cf. Mc 6,30-44). Para Jesus, pão e palavra se resumem na obediência a vontade do Pai. “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou” (Jo 4,34).

A celebração litúrgica é o lugar privilegiado para a proclamação da Palavra de Deus. Pois ela é o eixo de toda a liturgia. Na liturgia a Palavra é sempre viva e atual. E esta palavra não é destinada a um indivíduo isoladamente, mas ao povo de Deus, a comunidade celebrante. O povo de Deus é convocado por Deus no Espírito Santo para escutar a Palavra e colocá-la em prática.

A Palavra de Deus proclamada na ação litúrgica tem sua eficácia quando: 1) Cristo estiver presente no ato de sua proclamação; 2) quanto mais conteúdo da mensagem implicar sua ação salvífica; 3) quando o leitor estiver compenetrado em seu ministério de proclamação da Palavra. Estes elementos não podem faltar na proclamação da Palavra na liturgia.

A proclamação da Palavra de Deus na liturgia deve provocar na assembléia celebrante uma participação ativa e consciente, ou seja, uma resposta viva e concreta. Os fiéis devem dar uma resposta de fé. Para tornar-se verdadeiramente em “Palavra da Salvação”, ela deve passar de palavra escrita para palavra viva e eficaz que comunica o plano de Deus e atinja os corações de todos os seus ouvintes. Jesus nunca quis ser lido, mas proclamado para atingir o mais íntimo dos ouvintes, transformá-los e convertê-los.

Que ao compreendermos a importância da Palavra de Deus na liturgia, sua função memorial, e principalmente a presença real de Cristo em sua Palavra proclamada, passemos a participar mais ativamente e conscientemente da liturgia da Palavra e deixemos que esta Palavra nos transforme em criaturas novas para implantarmos em nossa sociedade o Reino de Deus.


Pe. Cristiano Marmelo Pinto
Mestrando em Liturgia








Referências bibliográficas:
COMPÊNDIO DO VATICANO II: constituições, decretos, declarações. Petrópolis: Vozes, 1968.
ALDAZÁBAL, J. A Mesa da Palavra I: elenco das leituras da missa. São Paulo: Paulinas, 2007.
FARNÉS, Pedro. A Mesa da Palavra II: leitura da Bíblia no ano litúrgico. São Paulo: Paulinas, 2007.
DEISS, Lucien. A Palavra de Deus celebrada. Petrópolis: Vozes, 1998.
CELAM. Manual de Liturgia II: a celebração do mistério pascal fundamentos teológicos e elementos constitutivos. São Paulo: Paulus, 2005.

sábado, 19 de abril de 2008

Bases Eclesiológicas para uma Igreja no Terceiro Milênio

Pe. Cristiano Marmelo Pinto


Antes de traças o perfil da Igreja do Terceiro Milênio, é preciso levantar alguns aspectos da situação atual na qual a Igreja se encontra e tem como desafio na sua evangelização. Segundo Agenor Brighent, a “Igreja do futuro depende da sua capacidade e audácia em ser de fato uma Igreja do futuro”. Vivemos uma grande crise que obriga as instituições a se re-situarem diante deste novo contexto. E a instituição que não for capaz disto corre o risco de não mais corresponder as necessidades e anseios de seus membros. O mesmo vale para a Igreja.

Atualmente estamos diante de dois fenômenos que estão interligados entre si: a globalização e a re-descoberta das culturas. A globalização rompe com o nacionalismo. Ela nos leva a uma consciência global, planetária. Faz-nos sentir parte integrante do todo, do cosmo. A globalização rompe com as fronteiras e com todas as barreiras que possa se impor a ela. Também vivemos uma re-descoberta e abertura para o diálogo com as culturas. Este diálogo por sua vez nos leva ao diálogo inter-religioso, uma vez que a religião é a alma da cultura. Isto nos desperta enquanto Igreja para uma maior inculturação da fé, que possa responder adequadamente as expectativas de cada cultura. A Igreja hoje, esbarra com um grande desafio que é a questão urbana. Como dialogar nos centros urbanos, onde todas as culturas se encontram? Diante disto tudo, fica o desafio maior que é o de “ser Igreja no novo milênio”. Que tipo de Igreja queremos ser, para que, permanecendo fiel a sua vocação e missão, corresponda aos anseios das pessoas neste terceiro milênio. A Igreja se encontra numa encruzilhada: é preciso optar por um caminho que seja coerente com o projeto de Deus, e ao mesmo tempo responda a cada cultura no que é específico de cada povo.

Em primeiro lugar, devemos resgatar o modelo de Igreja do Concílio Vaticano II, ainda pouco vivenciado. Uma Igreja de comunhão e participação, Igreja Povo de Deus. O modelo da koinonia (cf. LG 8). Sabemos que o Concílio Vaticano II teve uma preocupação eclesiológica. A Constituição Dogmática Lumen Gentium, no artigo 9, fala do Povo de Deus. A Igreja é a comunidade dos crentes em Jesus Cristo, novo povo de Deus. Ela se torna, portanto sacramento da unidade. A constituição configura o povo de Deus com o mistério da Trindade. Isto nos leva a resgatar a dimensão mística e mistérica da Igreja. Neste terceiro milênio a Igreja será mística e mistérica. A dimensão mistérica da Igreja é derivada da Santíssima Trindade. A Igreja será impregnada da irradiação do Espírito Santo e deverá viver sua dimensão sobre-natural e sacramental, porém sem descuidar de ser uma Igreja voltada para o cuidado com os pobres. Deverá ser uma Igreja militante. A Igreja deverá se re-orientar para sua missão original de criar comunhão entre Deus e os homens e dos homens entre si. A missão da Igreja é de inclusão e não de exclusão. Ela deverá incluir no projeto do Reino de Deus todos os homens e mulheres na sua diversidade, porém, criando unidade em Jesus Cristo, único Senhor e Mestre. Como sacramento, ela deve dar testemunho de Jesus Cristo ao mundo. Jesus foi testemunha do Pai e depois ordenou aos apóstolos e por conseqüência a todos nós, que sejamos também suas testemunhas.

Na Sagrada Escritura podemos buscar bases para uma eclesiologia para o terceiro milênio. Em Mt 18, a Igreja é sinal do Reino e este constitui a sua meta principal. Rejeita uma Igreja triunfalista e faz a opção por uma Igreja dos pequeninos. O poder na Igreja segundo Mateus, é uma Igreja que está a serviço.

O maior desafio porém, para a Igreja de hoje, é o de como anunciar o Evangelho e cumprir sua missão de promover a unidade do gênero humano, diante de um sistema político e econômico que gera uma multidão de miseráveis. Para isso ela deverá colocar-se numa postura de diálogo e abertura com o mundo em constante mudanças, com as instituições, com as demais denominações cristãs e com as religiões. Deverá formar uma rede de pequenas comunidades, onde será possível criar relações afetivas entre seus membros, compromisso e solidariedade com os mais necessitados. Também terá que se questionar e deixar-se ser questionada nas suas posturas para que possa ser cada vez mais coerente com sua missão e vocação. A Igreja do futuro, ou seja, a Igreja deste terceiro milênio terá que ser uma Igreja em diálogo com as culturas, com as religiões e com seus próprios membros, e deverá buscar sempre na fonte primordial, a Sagrada Escritura e na Tradição seus fundamentos para anunciar ao mundo e as culturas a Boa Notícia de Jesus Cristo.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A Caridade Pastoral do Padre Diocesano

A espiritualidade do padre diocesano é um mosaico composto por diversos elementos: a fé, esperança, pobreza evangélica, celibato, a oração, disponibilidade, apostolicidade, opção pelos pobres. Mas dentre todos estes elementos, um é central e se destaca dos demais, dando a todos o seu colorido. Estamos falando da caridade pastoral. É ela quem cria unidade entre todos os elementos acima citados, formando o rosto do padre diocesano. João Paulo II diz que: “O princípio interior, a virtude que anima e guia a vida espiritual do presbítero, enquanto configurado com Cristo cabeça e pastor, é a caridade pastoral” (Pastores dabo vobis - PDV, 23). Ela é central na vida e na espiritualidade do padre diocesano.

Mas o que vem a ser a Caridade Pastoral? É a participação do padre na caridade pastoral do próprio Cristo Pastor. Na vida do padre diocesano, podemos dizer que ela é o amor de Cristo encarnado, prolongado, atualizado no amor concreto do padre em relação à comunidade a ele confiada, onde ele exerce o seu ministério. Não é um sentimento que nasce do temperamento afetivo do padre, mas tem sua origem fundante na própria caridade de Cristo. Ela é o amor primeiro, é uma opção originária que o padre faz por Cristo Pastor. O padre diocesano não está subordinado em sua vida a nenhum outro amor, seja de amizade, sexual, familiar ou político, mas está ligado diretamente ao amor de Cristo por seu povo. Todos os demais interesses e valores do padre diocesano estão sim, subordinados a este amor.

Os destinatários imediatos da caridade pastoral são a comunidade eclesial para a qual o padre diocesano foi designado pelo bispo. A comunidade e cada um de seus membros. Nenhum outro interesse ou opção poderá vir antes desta. Também tem como destinatários a Diocese e a Igreja Universal. O padre diocesano ama sua paróquia, ama a sua diocese e ama toda a Igreja de Cristo com o mesmo amor pastoral.

A caridade pastoral é o amor com o qual o padre diocesano ama sua paróquia e a Cristo Pastor. João Paulo II diz que “é a virtude com a qual imitamos Cristo em sua entrega de si e em seu serviço” (PDV, 23). Existem dois tipos de amor, segundo a psicologia: o amor identificação, com o qual tendemos a apropriar e a encarnar em nosso ser as atitudes, os comportamentos e as opções de quem amamos. E o amor objetal, ou amor adesão, através do qual nos comunicamos com a pessoa amada e nos entregamos a ela e esperamos reciprocidade. A caridade pastoral do padre diocesano está ligada ao amor identificação. Primeiro ele se identifica com a caridade pastoral de Cristo e por conseqüência com sua comunidade. Não é por menos que ouvimos dizer que “a comunidade é a cara do padre”. Mas seria correto dizer que o padre é a cara da comunidade, porque ele, pela caridade pastoral, vai se identificando com a mesma. O amor de Jesus se torna visível por meio do amor do padre por sua comunidade.

Tudo na vida do padre diocesano é direcionado para a caridade pastoral. Suas opções, suas atividades, seu cuidado pelos fiéis, sua vida pessoal, devem ser meios de exercer a caridade pastoral. As predileções, as amizades, as relações inter-pessoais, as ocupações, a forma de vida, tudo deve estar de acordo com as exigências da caridade pastoral. Tudo na vida do padre diocesano terá matizes na caridade pastoral, que fará com que o padre diocesano seja presença viva e atuante de Cristo Bom Pastor, na sua comunidade paroquial. A caridade pastoral vai unificar e potencializar todas as atividades do padre. Todas as atividades pastorais, todas as relações do padre diocesano é expressão da caridade pastoral. Quando faltam estes elementos, há dispersão, desassossego, esterilidade.

A fonte originária e permanente da caridade pastoral é a caridade pastoral de Cristo e o amor de Deus Pai pelo seu povo. Mas a fonte mais próxima é o carisma presbiteral recebido na ordenação. Este carisma nos é dado pelo Espírito Santo para amar pastoralmente a comunidade. Nos faz pessoas diferentes. Graças a este carisma temos a capacidade de investir, cada um com seu temperamento, na comunidade paroquial.

A caridade pastoral encontra seu alimento na Eucaristia. Ela é a atualização da entrega de Cristo ao Pai pela humanidade. Em outras palavras, a Eucaristia é a atualização da caridade pastoral de Cristo. Quando na Eucaristia se diz: “Isto é o meu Corpo que é dado por vocês...”, também o padre diocesano é chamado a dar sua vida, seu corpo pela comunidade. Na Eucaristia temos a oportunidade de vivenciar “in persona Christi”, mas também na própria pessoa do padre, este mistério de amor e entrega da própria vida em favor da comunidade e principalmente em favor dos mais necessitados.

O Concílio Vaticano II, na Presbiterorum ordinis, 13, relaciona as diversas atitudes derivadas da caridade pastoral.

A Abnegação: o amor abnegado do padre diocesano faz com que ele suporte com firmeza a dificuldade, o sacrifício, o sofrimento em seu ministério pastoral. Não deixa que ele desista de seguir vivendo o seu amor pela comunidade.

A Esperança Pastoral: a caridade pastoral permite que o padre não perca a esperança em relação a sua comunidade de fiéis. Quem ama tem esperança em Deus e também em sua comunidade paroquial. “Confiar nas pessoas é a melhor maneira de despertar nelas o melhor e adormecer o pior”.

Atitude Consoladora e Alentadora: o padre diocesano tem a capacidade de consolar e alentar aqueles que vivem em qualquer “aperto”. Pela caridade pastoral o padre estará sempre à disposição para animar os desanimados, estar junto das pessoas abatidas. O padre prestará às pessoas o serviço do consolo e do alento.

Crescimento Pastoral: o padre diocesano deve procurar realizar sua tarefa pastoral sempre com mais perfeição. Guiado pelo Espírito Santo, estará disposto a encontrar novos caminhos pastorais. A Presbiterorum ordinis diz que o desejo de melhorar nosso serviço pastoral deriva da caridade pastoral.

Este é o rosto do padre diocesano que vive integralmente a caridade pastoral. Configura-se com Cristo Bom Pastor e ama com o mesmo amor sua comunidade paroquial, tornando-se presença viva e atuante do próprio Cristo na vida da comunidade e de cada pessoa.