terça-feira, 29 de junho de 2010


Liturgia e Beleza
Dom Piero Marini


1. A mudança trazida pelo Concílio

Todos os que têm certa idade, como eu, puderam viver as mudanças ocorridas na liturgia, graças à reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. Os livros litúrgicos foram renovados com uma grande riqueza de textos bíblicos e eucológicos jamais vistos anteriormente; as rubricas, os gestos e os movimentos foram simplificados; os espaços da celebração foram mais bem determinados; as vestes, os mobiliários, a iconografia, o canto e a música foram revistos. De uma liturgia romana caracterizada pela uniformidade (unicidade da língua, excesso de rubricas) passamos a uma liturgia mais próxima da sensibilidade moderna, aberta a adaptação às culturas, expressão de uma Igreja que considera a diversidade como valor positivo, possibilidade de enriquecer a unidade.

No que diz respeito às celebrações pontificais, já com Paulo VI, desde fevereiro de 1965, houve grandes reformas, libertando o rito litúrgico das etiquetas de corte. As celebrações televisivas passaram a falar aos povos de todas as raças e credos, revelando o papa como sucessor de Pedro, servidor dos servidores de Deus, e não como um príncipe medieval (vestes com rendas e brocados, luvas, rigidez dos corpos, demasiadas solenidades...).

A televisão exige um comportamento exemplar de todos os que atuam na liturgia; a câmera revela de uma maneira impiedosa os gestos com seus significados. Era necessário que a liturgia, sobretudo quando presidida pelo papa, fosse um exemplo de renovação, segundo o espírito do Vaticano II. A partir dessa referência, novas escolhas vão se fazendo: o altar despojado e sóbrio; estante digna para a proclamação da Palavra de Deus; simplicidade nos ornamentos a fim de que os ministros não parecessem “figurantes teatrais”; novo repertório de canto e música privilegiando uma execução com moderação dos instrumentos e acompanhada do silêncio. Surge a necessidade de restabelecer a participação dos fiéis à comunhão e de se introduzir a concelebração, há muito em desuso.

Para nós, sempre esteve claro que as celebrações papais deveriam ser modelos exemplares da beleza e da riqueza da reforma litúrgica católica de volta às fontes. O que mudou na liturgia após o Concílio? É apenas adaptação às diferentes culturas, de gestos, e cores; maior liberdade no desenvolvimento dos ritos e na aplicação das rubricas? É somente mudança no aparato externo correspondendo ao gosto atual pelo que se entende por belo?

Encontramos hoje diversas tendências na Igreja: há os que querem uma liturgia horizontal, mais comunitária e participativa e há os que preferem uma liturgia mais vertical e em destaque. De um lado existe a liturgia paroquial, de outro há as que expressam os movimentos de tendências carismáticas ou tridentinas ou ainda dos que se voltam apenas para o canto gregoriano.

2. O fundamento da beleza da liturgia

Existe um limite entre a emoção estética e o verdadeiro sentido espiritual? O que significa uma bela liturgia? A liturgia não é uma espécie de mercadoria que faz parte do “supermercado” da Igreja. Liturgia é, antes de tudo, obra de Deus, adoração, acolhida, gratuidade. Então, nós devemos nos perguntar quais são os critérios fundamentais da beleza na liturgia além dos gostos e das modas. Um grande erro seria aplicar simplesmente à liturgia os gostos profanos de beleza.

2.1. A liturgia, ação do Cristo e da Igreja

Para compreender a beleza da liturgia é necessário partir do conceito de Igreja como “sacramento, isto é, sinal de união com Deus e de unidade de todo gênero humano” (LG 1). A Igreja, por sua condição de “sinal” torna possível, de certa maneira, a percepção do Cristo como sacramento de salvação. É exatamente a partir dessa sacramentalidade que se articulam os sacramentos propriamente ditos. Sendo eles ação da Igreja, são também ação de Cristo, porque a Igreja não faz nada que o Cristo não lhe tenha dito e ensinado a fazer: “Faça isso em memória de mim” (Lc 22,19). Os sacramentos são as modalidades pelas quais Cristo nos comunica a sua salvação: “Quando alguém batiza, é o Cristo que batiza” (SC 7). São Leão Magno, diz: “o que era visível no Cristo passou para os sacramentos da Igreja”.

A liturgia é ação de Cristo e da Igreja; ela não se realiza no plano intelectual, mas repousa sobre o princípio da Encarnação e, portanto, comporta uma dimensão estética. Assim, nos gestos concretos que a celebração litúrgica requer, a Igreja prolonga e atualiza os gestos do Senhor Jesus. Antes de qualquer outra secundária beleza que possamos acrescentar, os gestos da liturgia têm em si a beleza e a estética dos gestos de Jesus.

2.2. A nobre simplicidade do amor

Os Evangelhos nos apresentam a gestualidade concreta e humana de Jesus: ele caminha, abençoa, toca, cura, eleva os olhos, reparte o pão, toma o cálice... Esses são gestos que a liturgia retoma nos sacramentos. Mas foi, sobretudo , às vésperas de sua Paixão que Jesus ensinou os gestos fundamentais que devemos realizar. Ele é o mestre de nossa educação litúrgica. Sua arte consiste em colocar o essencial nas pequenas coisas. O significado da liturgia só se torna transparente na simplicidade e na sobriedade. “Pai Santo, quando chegou a hora de o glorificar, como ele tinha amado os seus que estavam no mundo, ele os amou até o fim: durante a refeição que ele partilhava com eles, ele tomou o pão, partiu e o deu aos seus discípulos, dizendo: tomais e comei todos: este é o meu corpo entregue por vós. Da mesma maneira, ele pegou a taça cheia de vinho, deu graças e a deu aos seus discípulos...” (Missal Romano, Oração Eucarística IV).

O que torna belo o gesto do Senhor? A decoração da sala? A maneira de como preparada a mesa? A riqueza da toalha? Sim, tudo isso serve para colocar em destaque, como a moldura evidencia a beleza de uma pintura. Mas o sentido da beleza vai muito além. “Ele os amou até o fim... Ele tomou o pão”. É por isso que o gesto é belo. Quando a Igreja repete o gesto de Cristo, ela se torna bela porque se reconhece no gesto de amor do seu Senhor. O sentido estético da liturgia não depende em primeiro lugar da arte, mas do amor presente no mistério pascal. Para colaborar com a liturgia, a arte tem necessidade de ser evangelizada pelo amor. A beleza de uma celebração eucarística não depende da arquitetura, dos ícones, das decorações, dos cantos, dos ornamentos, da coreografia e das cores em si, mas da sua capacidade de deixar transparecer o mistério de Jesus em seu amor. Por meio dos gestos, das palavras e das orações litúrgicas, nós devemos fazer transparecer os gestos, a oração e a palavra de Jesus. É esse o mandamento que recebemos do Senhor: “Fazei isto em memória de mim”.

O estilo litúrgico, como o de Jesus, deve ser simples e austero. Segundo os padres do Concílio, nas celebrações, temos que nos tornar mestres da arte, da “nobre simplicidade” (SC 34).

2.3. Gesto, Palavra, espaço, tempo e ordem

Na liturgia, o gesto é sempre acompanhado pela palavra. Tudo se desenvolve como diz o Concílio, “per ritus et preces”, ritos e orações esclarecedoras, vivificadas pela palavra (cf. SC 48; 21; 59; 7; 24). A palavra e o gesto tem sempre necessidade, do tempo e do espaço. “O Verbo feito carne” teve necessidade do tempo e do espaço para dizer a sua palavra e realizar os seus gestos de salvação.

Porém, na liturgia, o espaço e o tempo são submetidos a uma ordem. Uma das funções do rito é ordenar. Com efeito, não existe liturgia sem indicações dadas pelas rubricas. Isto se atesta desde os mais antigos ritos litúrgicos. A beleza da liturgia é, portanto, fruto da ordem. A quase totalidade dos livros da reforma litúrgica, tem como palavra de título: Ordo. A ordem requerida pela liturgia diz respeito ao tempo, ao espaço, às relações interpessoais; muito mais, a liturgia exige a ordem em nós mesmos.

Quarenta anos após a Sacrosanctum Concilium, somos convidados a nos interrogar: os ritos e os gestos que realizamos são verdadeiramente os gestos de Cristo? A liturgia que celebramos é um espaço dado ao Cristo ou apenas reservado a nós mesmos? O tempo consagrado à liturgia é o tempo onde Cristo nos fala ou um tempo vazio? A liturgia é apenas uma seqüência de ritos, ou ela é uma fonte, algo que nos ordena interiormente e em relação às pessoas e ao cosmo? São questões que nos colocamos para esclarecer o sentido da participação ativa sobre a qual tanto insistiu o Concílio.

3. A atenção às exigências da Comunidade

A liturgia é a expressão mais completa do mistério da Igreja. Assim, é indispensável, em toda celebração, fixar a atenção em primeiro lugar sobre a assembléia e promover a sua formação. De fato, a assembléia é a imagem da Igreja que oferece, de certa maneira, a hospitalidade a Cristo e às pessoas que ele ama. O lugar da assembléia deve ser acolhedor e saudável, bem pensado quanto à disposição dos fiéis para proveito de cada pessoa participante e para expressar que se trata do Corpo de Cristo.

3.1. ícones e outras expressões

A liturgia requer a colaboração de nossos sentidos: a vista, a audição, o odor, o toque... Assim, ela recorre à contribuição dos ícones (imagens), da música, do canto, da luz, das flores, das cores, da coreografia. Incorpora também os elementos da criação: o vinho, a água, o pão, o sal, o fogo, as cinzas, etc... O louvor que se eleva na liturgia, não é um ato reservado somente ao ser humano: toda a criação é convidada a se unir a nós, dando glória ao Pai, pelo Cristo, no Espírito Santo. Além disso, a liturgia é um convite a construirmos uma relação harmoniosa com a criação.

Os espaços de celebração e seus componentes (a fonte batismal, o ambão, a cadeira, o altar...) não são apenas funcionais, são antes, manifestação da Igreja que revela, pela imagem, a identidade cristã. De fato, a liturgia deve revelar o sacerdócio comum dos fiéis assim como a estrutura ministerial da Igreja desejada pelo Cristo. A fonte batismal, o ambão, a cadeira e o altar exprimem o seio materno onde o cristão é gerado pelo Espírito Santo, o meio onde se nutre e vive sua comunhão com o Cristo e com seus irmãos. Esses elementos, de per si, são já um ícone (imagem). Portanto, é necessário vigiar para que as contribuições artísticas não obscureçam o sinal original.

3.2. A preparação das celebrações

Uma “bela” celebração depende da maneira como ela foi preparada por todos os participantes. Assim, todos os textos litúrgicos da reforma conciliar são introduzidos por um preâmbulo teológico e pastoral referente ao rito. Pequenos livros preparatórios podem ser publicações de grande valor artístico e catequético, pois a celebração não se deve explicar tudo, pois o fato litúrgico é um acontecimento, um ato de amor e não aula. É interessante promover o estudo e a pesquisa científica indo a fundo no sentido das celebrações.

3.3. Conclusão

Partindo da Igreja como sacramento para sublinhar a importância das ações e atitudes na liturgia, especialmente da ação de Deus: o Cristo, que na liturgia, se torna, ele mesmo, ação da Igreja. A beleza da liturgia é antes de tudo a simplicidade e o amor do gesto de Cristo, mas é também a beleza de nossos gestos e sinais e dos elementos da criação que a liturgia coloca em ordem e harmoniza no tempo e no espaço.

A beleza da liturgia exige sempre alguma renúncia da nossa parte: renúncia à banalidade, às fantasias, aos caprichos. É preciso dar à liturgia o tempo e o espaço que ela necessita. Nunca ter pressa. Mais que iniciativa nossa, é iniciativa de Deus que se manifesta na Palavra, na oração, nos gestos, na música, no canto, na luz, no incenso, nos perfumes. Portanto, devemos fazer silêncio, e o necessário vazio, para que as palavras e os sinais falem de Deus aos nossos sentimentos, mais que dos nossos sentimentos. Tratando da beleza na liturgia é necessário que reflitamos sobre alguns problemas ligados ao que fizemos com a reforma litúrgica nestes anos.

a) A participação ativa

Na fase da reforma, a participação tomou, muitas vezes, um aspecto exterior e didático que degenerou em uma espécie de participação forçada. A liturgia não é a soma de emoções de um grupo, nem é apenas o receptáculo de sentimentos pessoais. Ela é ação de uma comunidade, palavras e gestos no tempo e no espaço, transformando-nos e conduzindo-nos ao Verbo.

b) A presidência litúrgica

A verdade dos sinais exige qualidade da presidência da celebração. Quem preside a assembléia não é apenas visto mais é aprovado e julgado no desempenho da função “in persona Christi” ou, se preferir, como “ícone de Cristo” no Espírito Santo. No entanto, essa presidência não pode ser exercida sem levar em conta a qualidade da assembléia e sem ser capaz de responder às suas expectativas, pois, quem preside a assembléia litúrgica o faz também “in persona Ecclesia”. Portanto, deve fugir de toda forma de protagonismo para presidir como “aquele que serve” (Lc 22,27), à imagem daquele de quem é pobre sinal. Além do mais, a arte de presidir em sua forma mais perfeita e mais fecunda vai além do simples saber fazer, para tornar-se princípio de comunhão, da qual a assembléia litúrgica é eloqüente expressão.

c) A beleza e a dignidade do culto

No inicio do terceiro milênio é necessário passar a imagem de uma Igreja que reza e vive o Mistério de Cristo na beleza e na dignidade da celebração. Uma beleza que não é somente formalismo estético, mas que está fundamentada sobre “a nobre simplicidade”, capaz de manifestar a relação entre o humano e o divino. Trata-se da dinâmica da encarnação: o que o Filho único, cheio de graça e de verdade, fez de maneira visível, passou para os sacramentos da Igreja.

Que outras realidades da Igreja são chamadas a conjugar e a expressar a beleza como o espaço litúrgico? Não só o espaço, mas também a ação, isto é, o gesto, o movimento, as vestes, a atitude devem manifestar a harmonia e a liturgia continuará, graças a sua beleza, a ser fonte e cume, escola e norma da vida cristã.


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1. Artigo publicado na Revista de Liturgia, nº. 215 – Setembro/Outubro 2009, p. 26-28.
2. Dom Piero Marini é Professor no Instituto Santo Anselmo, Roma, foi mestre de cerimônias da Basílica de São Pedro, no Vaticano, de 1987-2007.

terça-feira, 22 de junho de 2010


Espiritualidade: A busca da Santidade


Todos somos chamados à santidade. Mas, para compreender o que significa ser santo, precisamos nos clarear do modo como entendemos por muito tempo a vocação a santidade. A Igreja em sua longa história, sempre nos colocou exemplos de pessoas que alcançaram à santidade de vida, para que pudéssemos seguir seus passos, e nos animarmos a fazer o mesmo.

Quando recorremos aos santos apenas com a intenção de obter deles favores, estamos, de certo modo, desviando o sentido de seu papel na Igreja, que certamente não é o de alcançar milagres para nós, mas sim, de servir de modelos para ser seguidos. Infelizmente, e não de hoje, muitos recorrem desesperadamente a intercessão dos santos para alcançar graças, tais como saúde, emprego, um bom casamento, entre outras... Mas somente poucos vêem nesses nossos irmãos, incentivo para alcançar a santidade de vida.

Geralmente encontramos essas pessoas pertencentes as mais variadas ordens religiosas, que seguindo os passos de seus fundadores, muitos deles canonizados pela Igreja, buscam a vivência dos conselhos evangélicos, conformando suas vidas ao Evangelho de Jesus Cristo.

A essa altura podemos nos perguntar: o que é ser santo? O que significa santificar-se? Segundo o dicionário, santificar-se significa elevar(-se) pelo ensino e prática dos princípios religiosos; edificar, confortar, conduzir(-se) pelo caminho da salvação, da bem-aventurança; elevar(-se) na prática severa dos princípios religiosos; moralizar(-se).

Ainda para o dicionário, santo é aquele que vive conforme a Lei de Deus e a moral religiosa; que é dotado de santidade, que é puro, isento de culpas, pessoa virtuosa, bondosa, de conduta exemplar, irrepreensível...

Podemos deduzir, com o auxílio dessas definições dos dicionários, que santidade é um caminho a ser percorrido, um projeto de vida... Isto coloca a santidade ao alcance de todos nós. Tornar-se santo é pois, deixar-se conduzir pelo caminho da salvação, conformando nossa vida aos ensinamentos do Senhor, colocando em prática tudo aquilo que Jesus nos ordenou em seu Evangelho.

Quando falamos de santidade, imediatamente vem em nossa mente a idéia de “perfeição”. O próprio Jesus nos manda ser “perfeitos”. Mas nossa compreensão de perfeição precisa ser clareada, pois entendemos a perfeição como algo acabado. Precisamos entender a perfeição no sentido de per-fazer-se, ou seja, fazer de nodo, quantas vezes for necessário, para alcançarmos a perfeição. Mais uma vez, vemos a idéia de caminho, de itinerário... e não de ponto final. Daí podemos também buscar a idéia de a-per-feiçoar-se, ou seja, de tornar melhor, aprimorar, levar a cabo o que está incompleto, im-per-feito.

Temos consciência de que Deus não nos fez acabado. Deus nos fez “im-per-feitos”, no sentido próprio do termo, não como algo defeituoso, mas inacabado, que precisa melhorar, aprimorar. Daí a necessidade de buscarmos a santidade, de deixar-se conduzir pelo caminho da salvação, para alcançarmos a per-feição, para aprimorar, melhorar, alcançarmos a meta a qual Deus espera de nós.

Para isso, Jesus nos deixou uma regra de vida, um projeto a ser seguido: o seu Evangelho. Nele encontramos os meios para alcançarmos a santidade, a per-feição. Por isso, o melhor meio para sermos santos é sem dúvida alguma viver o Evangelho de Jesus Cristo.

Para vivermos o Evangelho podemos nos apoiar também na idéia de salvação. O que é salvação? Como ela acontece em nossa vida? Lucas, em seu evangelho, coloca a salvação acontecendo no cotidiano da vida do povo. “Hoje a salvação entrou em vossa casa!” Isso significa que a salvação é algo que vai acontecendo no dia-a-dia, não é algo que ocorrerá no fim do caminho, mas durante o percurso.

Jesus, em seu ministério pastoral, traduz a salvação de maneira concreta, na realidade social, cultural e religiosa do povo de Israel. Salvação significa, traduzida no cotidiano da vida, fazer surdos ouvir, mudos falar, coxos andar, cegos enxergar... Salvação se traduz em justiça para todos, partilha com todos, solidariedade com os mais necessitados, etc.

Muitas vezes ouvimos Jesus dizer no Evangelho: “sua fé te salvou!” Fé, dentro do conceito bíblico e teológico, significa adesão ao projeto de Jesus, significa compactuar com ele de seu ideal, e mais, fazer acontecer entre nós o Reino de Deus. Ter fé é aderir ao projeto de Jesus, tornar-se companheiro dele, levando adiante sua proposta de uma nova sociedade, transformada pelo Evangelho, onde todos têm dignidade e respeito. Quando realizamos essa missão, podemos dizer: “tenho fé”.

Podemos ainda dizer que a fé salva quando realizamos a missão que Jesus nos confiou. Como cristãos, temos um dever moral de dar testemunho concreto dessa fé. O povo espera de nós um comportamento coerente com o que professamos. Por essa razão, podemos concluir que ser “santo”, “ter fé” e “ser salvo”, significa viver concretamente em nosso dia-a-dia o projeto de Jesus. É isso que nos justifica, que dá a ele legitimidade.

Ora, sabemos das nossas im-per-feições. Nem sempre conseguimos realizar coerentemente o que Jesus nos mandou. As vezes deixamos falar mais alto nossos de-feitos. Podemos entender de-feito como algo que não funciona bem, inacabado, com mau funcionamento, falta de algo necessário... De-feito deriva do verbo latino “deficère”, que significa deixar, faltar, abandonar...
Por outro lado, a definição de “feito” é entre outras, segundo os dicionários: adulto, amadurecido, maduro, constituído, decidido, resolvido, etc. Quando deixamos sobressair nossos de-feitos, é porque não damos à devida atenção aos nossos feitos... Deixamos, abandonamos atitudes maduras, decididas, comportamentos adultos, etc.

O problema não é ter de-feitos, ter im-per-feições... O problema está em deixar-se conformar com eles, em abandonar o caminho da salvação, atitudes muitas vezes escondidas em expressões como: “Sou assim mesmo, fazer o que?!”

Todos nós, por razão do nosso batismo temos a obrigação de procurar nos transformar para melhor, de buscar a per-feição, ou seja, aprimorar, melhorar... Ser per-feito, adulto, maduro, resolvido...

Como vimos, não significa ser acabado, pronto, de modo que não tenha mais nada a ser feito... Mas procurar crescer cada vez mais na fé. Deus nos fez homens e mulheres capazes. Não acreditar nisso é não acreditar no que Deus nos dotou.

Por isso, Deus nos dá sempre a oportunidade, de rever nossa caminhada, nossa vida, e fazer o propósito de sermos melhores, e as pessoas com quem convivemos poderão dizer: “Essas pessoas são pessoas de fé!”

Que Maria, nos ajude na busca da santidade! Que o Senhor Jesus, que nos deu seu Espírito, nos capacite cada vez mais, para realizarmos a missão de promover uma profunda transformação em nossa vida e em nossa sociedade, para que o Reino de Deus aconteça já, aqui na terra.


Fraternalmente,
Pe. Cristiano Marmelo Pinto

Carta aos agentes
de música litúrgica do Brasil

A liturgia ocupa um lugar central em toda a ação evangelizadora da Igreja. Ela é o “cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força” (SC 10). Nela, o discípulo realiza o mais íntimo encontro com seu Senhor e dela recebe a motivação e a força máximas para a sua missão na Igreja e no mundo (cf. DGAE nº 67).

Há uma relação muito profunda entre beleza e liturgia. Beleza não como mero esteticismo, mas como modalidade pela qual a verdade do amor de Deus em Cristo nos alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor (cf. SCa 35). Unida ao espaço litúrgico, a música é genuína expressão de beleza, tem especial capacidade de atingir os corações e, na liturgia, grande eficácia pedagógica para levá-los a penetrar no mistério celebrado.

Acompanhamos, com entusiasmo e alegria, o florescer de grupos de canto e música litúrgica, grupos instrumentais e vocais, que exercem o importante ministério de zelar pela beleza e profundidade da liturgia através do canto e da música. Sua animação e criatividade encantam muitos daqueles que participam das celebrações litúrgicas em nossas comunidades. Ao soar dos primeiros acordes e ao canto da primeira nota, sentimos mais profundamente a presença de Deus.

Lembramos alguns aspectos importantes que contribuem para a grandeza do mistério celebrado.

1.A importância da letra na música litúrgica - a letra tem a primazia, a música está a seu serviço. A descoberta da beleza de um canto litúrgico passa necessariamente pela análise cuidadosa do conteúdo do texto e da poesia. A beleza estética não é o único critério. Muitas músicas cantadas em nossas liturgias estão distanciadas do contexto celebrativo. “Verdadeiramente, em liturgia, não podemos dizer que tanto vale um cântico como outro; é necessário evitar a improvisação genérica e o canto deve integrar-se na forma própria da celebração” (SCa 42). Não é possível cantar qualquer canto em qualquer momento ou em qualquer tempo. O canto “precisa estar intimamente vinculado ao rito, ou seja, ao momento celebrativo e ao tempo litúrgico” (DGAE 76). Antes de escolher um canto litúrgico é preciso aprofundar o sentido dos textos bíblicos, do tempo litúrgico, da festa celebrada e do momento ritual.

2.A participação da assembléia no canto - o Concílio Vaticano II enfatiza a participação ativa, consciente, plena, frutuosa, externa e interna de todos os fiéis (cf. SC 14). O canto litúrgico não é propriedade particular de um cantor, animador, ou de um seleto grupo de cantores. A liturgia permite alguns momentos para solos (tanto vocais quanto instrumentais), porém a assembléia deve ter prioridade na execução dos cantos litúrgicos. O animador ou o cantor tem a importante missão, como elemento intrínseco ao serviço que presta à comunidade, de favorecer o canto da assembléia, ora sustentando, ora fazendo pequenos gestos de regência, contribuindo para a participação ativa de toda a comunidade celebrante.

3.Cuidado com o volume dos instrumentos e microfones - em muitas comunidades, o excessivo volume dos instrumentos, como também a grande quantidade de microfones para os cantores, às vezes, não contribuem para um mergulho no mistério celebrado, antes, provocam a agitação interior e a dispersão, além de inibir a participação da assembléia no canto. Pede-se cuidado com o volume do som, a fim de que as celebrações sejam mais orantes , pois tudo deve contribuir para a beleza do momento ritual.

4.Cultivar uma espiritualidade litúrgica - os cantores e instrumentistas exercem um verdadeiro ministério litúrgico (SC 29). A celebração não é um momento para fazer um show, para apresentação de qualidades e aptidões. Os cantores e instrumentistas devem, antes de tudo, mergulhar no mistério, ouvir e acolher com a devida atenção a Palavra de Deus e participar intensamente de todos os momentos da celebração. Música litúrgica e espiritualidade litúrgica devem andar juntas, são duas asas de um mesmo vôo, duas nascentes de uma mesma fonte.
Invocamos as luzes do Espírito Santo sobre todos os agentes de música litúrgica de nosso país. Reconhecemos o valoro do ministério exercido a serviço de celebrações reveladoras da beleza suprema do Deus criador e da atualização do Mistério Pascal de Jesus Cristo.


D. Joviano de Lima Júnior, SSS
Arcebispo de Ribeirão Preto e
Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Liturgia

quinta-feira, 3 de junho de 2010

HINO AO MENINO JESUS
(Pe. Cristiano Marmelo Pinto)


1. Nossa Igreja, hoje canta e festeja
Ao Menino Jesus, Redentor.
Tua infância tão cheia de graça,
Para nós é sinal de louvor.

Deus infante – Jesus tão menino,
Nosso Mestre e nosso Pastor,
O teu povo entoa um hino
Na memória do teu esplendor


2. Da Igreja és Cabeça e Guia,
Pois o corpo, nós somos também.
Vem, aumenta em nós o desejo,
De crescermos na Paz e no Bem!

3. Foi de sabedoria tua infância,
Pois, crescias em graça e vigor.
Vem, ajuda a sermos pequenos,
Pra que entremos no Reino do Amor.

4. Tão pequeno ensinavas no Templo
Aos doutores a Lei de teu Pai,
Que aprendamos no teu mandamento
A buscar a justiça e a paz.

5. Ó Menino Jesus, Deus-criança,
Sem igual na bondade e no amor,
De teu povo escuta as preces,
Que implora teu terno favor.

LOUVAÇÃO AO
MENINO JESUS
(Pe. Cristiano Marmelo Pinto)


Refrão:
É bom cantar um bendito,
Um canto novo, um louvor! (bis)

1.
Um povo em festa, reunido,
Vem ao Pai agradecer! (bis)
De Deus o Verbo se encarna,
E entre nós vem nascer! (bis)

2.
Ao Deus que se fez Menino,
E entre nós habitou! (bis)
Cantemos todos alegres,
Ao Menino Jesus, louvor! (bis)

3.
Perdido ao voltar pra casa,
No Templo seus pais, o encontrava! (bis)
Estava entre os doutores,
Falando das coisas de Deus! (bis)

4.
Em Nazaré, Deus crescia,
Em graça e sabedoria! (bis)
Obediente ele é,
Aos pais Maria e José! (bis)

5.
De nossa comunidade,
Jesus Menino é protetor! (bis)
Abençoai as crianças,
E aos pais, daí graça e esperança! (bis)

6.
Cantemos com alegria,
A Jesus, José e Maria! (bis)
A um povo de batizados,
Concede os seus favores! (bis)

7.
Aos céus ergamos nossas mãos,
Num canto de louvação! (bis)
Ao Pai e ao Espírito Santo,
E ao Menino Jesus este canto.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

MODELOS DE AÇÃO PASTORAL E MODELOS ECLESIOLÓGICOS



Pe. Cristiano Marmelo Pinto

1. Introdução

A Igreja, embora seja uma instituição divina, é também um fator cultural. Conseqüentemente a ação pastoral é uma ação humana, que está sujeita as contingências de qualquer ação, realizada dentro de uma determinada realidade sócio-cultural. Conforme cada época, cada circunstância, a ação pastoral, bem como a própria Igreja será moldada por estes fatores. Do fator cultural e social surgirão “modelos eclesiológicos” e “modelos de ação pastoral” que corresponda à realidade concreta em que está inserida.

Estudaremos alguns modelos eclesiológicos com sua ação pastoral específica. Queremos com este estudo buscar caminhos para a nossa ação pastoral hoje, e podermos responder a nossa realidade de maneira eficaz.

2. Modelo normativo neo-testamentário

Este modelo neo-testamentário foi sendo tecido pela tradição apostólica, constituída pelas Escrituras e inspirada pelo Espírito Santo. Neste modelo, Espírito Santo e Igreja estão juntos indissoluvelmente. O tempo da Igreja é ao mesmo tempo do Espírito. A Igreja é uma instituição aberta para todos, pública, e não fechada sobre si mesma.

Podemos elencar sete elementos que caracterizam este modelo:

1º) A Igreja é apostólica. Não há Igreja sem apóstolos. Eles são as testemunhas vivas de Cristo Ressuscitado. Os apóstolos são os primeiros na missa e na pregação.

2º) A Igreja é uma. Esta unidade da Igreja vem de Deus – da Trindade. Vem também da sua constituição: “uma só fé, um só batismo e um só Espírito”. A Igreja constitui um só rebanho em torno de um só pastor.

3º) É Igreja da Palavra e dos Sacramentos. A Igreja da Palavra anuncia o Evangelho. Isto se dá principalmente pelo testemunho cristão. Pelo batismo, a Igreja faz acontecer a nova criação, pois ele insere o cristão no mistério pascal de Cristo. A eucaristia é o melhor exemplo de pertença ao Reino de Deus.

4º) A Igreja é regida pelos carismas e ministérios. No N.T. não há contraposição entre carisma e ministério. Não há duas classes de cristãos (clérigos e leigos), mas uma só comunidade, que é toda ela ministerial.

Embora os ministérios se distingam uns dos outros, eles não se separam. É uma Igreja da Palavra, da pregação. Também é uma Igreja do serviço (diaconia). Estas duas características da Igreja neo-testamentária são fundamentais.

5º) A Igreja é uma comunidade de convertidos. A fé é concebida como acolhida do Evangelho. A fé se faz concreta no amor simultâneo a Deus, a Jesus e aos irmãos.

6º) A Igreja está no mundo, mas não é do mundo. Ela está no mundo para ser sinal (sacramento) de salvação para o mundo. Embora esteja no mundo, a Igreja vem de Deus. Estando no mundo, a Igreja não partilha de sua mentalidade e tendências.

7º) A Igreja é uma realidade escatológica. A Igreja vive entre o já e o ainda não. Com sua missão e testemunho, a Igreja nos faz vislumbrar aquilo que esperamos no fim dos tempos.

3. Modelos históricos e sua trajetória eclesial

3.1. PASTORAL PROFÉTICA

I. Modelo Eclesial:

Em cada cidade havia uma única Igreja (ecclesia), unida em torno da celebração da eucaristia dominical e reunida ao redor de um colégio de presbíteros. Porém poderiam existir vários lugares para a celebração (domus ecclesiae). As pessoas que integravam a comunidade normalmente eram pessoas simples, pobres, da periferia das cidades. Há uma única categoria de cristãos: os batizados. Os catecúmenos ainda não faziam parte da comunidade, eles estavam se preparando para isto.

Neste modelo de Igreja, tudo é missão de todos. Havia co-responsabilidade. Somente a partir do século III é que vai se impor a tríade: bispo-presbítero-diácono, embora eles já existam desde o século II. Com Santo Inácio de Antioquia (107) vai surgir o termo “leigo” para distinguir do clero. Este termo já aparece na carta de Clemente Romano, no século I (anos 90).

É uma Igreja ministerial. Embora haja distinção entre leigos e clero, os leigos exercem importante papel na comunidade, inclusive na eleição dos bispos e presbíteros e na administração dos bens da comunidade. Haviam em muitas Igrejas o “conselho de leigos”. Na Igreja local se faz presente a Igreja universal. A Igreja geralmente é denominada mãe (mater ecclesiae), esposa de Cristo (sponsa Christi) e mistério de comunhão (koinonia). Ela se concebe como pequeno rebanho sem nenhum triunfalismo.

II. Modelo de ação

O modelo eclesial deste período é concebido a partir da ação. Três ações principais ocupam a vida dos cristãos desta época: 1º) O testemunho de vida (martyria); 2º) Proclamação da fé em Jesus Cristo (kerigma); 3º) Ensino da Palavra de Deus (didaskalia).

A Palavra e a pregação ocupam o lugar central, principalmente na vida dos que estão a frente da comunidade. A ação pastoral está centrada no testemunho e no anúncio, na celebração e na assistência aos pobres. O anúncio é feito pela pregação missionária, pela homilia e pela catequese. A reflexão teológica é basicamente bíblica.

Com a controvérsia dos lapsis (cristãos que tinham renunciado a fé por causa das perseguições) e dos traditori (responsáveis pela Igreja que, devido as perseguições, entregaram os livros sagrados ao Império Romano), a reconciliação e a penitência adquire grande importância. Havia grande resistência dos cristãos em integrar estruturas pagãs (como serviço militar, cargos públicos, comércio, etc.).

3.2. PASTORAL SACRAMENTAL (Igreja como mistério de comunhão)

I. Modelo eclesial

O modelo eclesial medieval está ligado ao conceito de cristandade, que tem conotação claramente estatal ou imperial. Isto acontece principalmente depois que Constantino no século IV deu liberdade de religião aos cristãos. A cristandade é vivida e entendida como uma realidade eclesial e política. Os dois poderes conjugam juntos: o poder sacerdotal e o poder político, sendo a autoridade máxima o sumo Pontífice. O papa adquire o perfil imperial. O povo se converte em povo cristão ou cristandade (populus christianus). O inimigo não é o mal espiritual, mas o inimigo do império. Não ser cristão é ser inimigo do império.

A imagem de Igreja desta época é de corpus Christi, não como referência á realidade misteriosa da Igreja inserida em Cristo – cabeça, mas na dimensão sociológica. Tornam-se evidentes os aspectos jurídicos. A Igreja tem a totalidade da ordem temporal e espiritual. Ela se apresenta como uma sociedade de poder. A missão da Igreja é ordenar o mundo segundo a “lei de Cristo”. A imagem de “Igreja mãe” (ecclesia mater) é substituída pela imagem de “Igreja imperial” (ecclesia regina). A imagem de Cristo bom pastor é substituída pela imagem do Cristo Rei.

Põe-se em evidência a soberania e o domínio do poder espiritual da Igreja sobre a humanidade. Concebe-se a Igreja originaria do poder de Cristo que é passado para os apóstolos e conseqüentemente aos bispos. Não há lugar neste modelo para o Espírito Santo. Tudo procede do direito divino, entregue por Cristo a hierarquia da Igreja.

II. Modelo de ação

A ação pastoral decorrente deste modelo é rural. Dar-se-á a passagem, na Idade Média, de um cristianismo bem estruturado socialmente ao redor do bispo a um cristianismo fragmentado em paróquias rurais distantes, organizado em torno do presbítero. O bispo terá seu papel pastoral diminuído e sua função sócio-política será valorizada.

O bispo assumirá a função de defensor da cidade, encarregado de responsabilidades temporais:

a) exercício do poder jurídico;
b) colaboração na administração e economia da região;
c) papel militar e conselheiro de príncipes.

A identidade antes eucarística e sacramental das comunidades, agora está em torno do presbítero. O bispo terá muito da figura do príncipe e o presbítero do senhor feudal. A Igreja em lugar de encarnar-se na história, irá absolver o mundo, pelo poder recebido. O clero será associado ao espiritual e os leigos ao temporal. Também passa a fazer parte do cristianismo uma visão pejorativa do mundo. Vê-se nas tarefas seculares dos leigos um perigo para a autonomia espiritual e para a liberdade da Igreja diante do mundo. Por isso o modelo de vida perfeitamente cristã desta época será a monástica e celibatária, longe do mundo (fuga mundi). Na Igreja medieval haverá um forte declíneo cultural do clero. Irá surgir o “alto” e o “baixo” clero. O primeiro urbano e erudito. O segundo, malformado e disperso. Geralmente sem acesso a escrita, analfabetos.

A pregação ficará a cargo das ordens mendicantes, criadas com essa finalidade, para cobrir a lacuna, pois o clero não tinha nenhuma formação. Progressivamente se dará a separação entre clero secular (diocesanos) e clero regular (religiosos). Enquanto os diocesanos são iletrados e rurais, os religiosos freqüentam as universidades, prestam importantes serviços aos papas, como as cruzadas, a inquisição, etc. Um fato grave no modelo medieval é o fim da catequese de adultos – o catecumenato. A conversão em massa ao cristianismo, sem nenhuma catequese, reduz a qualidade dos cristãos.

3.3. PASTORAL COLETIVA (Igreja como sociedade perfeita)

Neste período podemos perceber dois momentos distintos. O primeiro faz frente à Reforma Protestante, com a contra-reforma. O segundo, toma posição contra a Modernidade, que por sua vez promoverá a emancipação da pessoa humana e do mundo (A Igreja vai perdendo campo). Neste período aconteceram dois concílios: primeiro período: Concílio de Trento; segundo período: Concílio Vaticano I.
I. Modelo eclesial

O modelo eclesial dos dois períodos é o da neocristandade, alicerçada no teocentrismo e no eclesiocentrismo, o dualismo espiritual-temporal e clero-leigo. A Igreja é vista como instituição, com seu caráter universal, acentuando a hierarquia sobre os leigos e os sacramentos como único meio de salvação.

O único vigário de Cristo na terra é o Papa. A Igreja é compreendida como “sociedade perfeita”. Questionada a autoridade do papa (modernidade), vai-se criando dispositivos de defesa. No Concílio Vaticano I, vai-se definir o primado do papa e sua infabilidade, acirrando a centralização romana. Cresce o papel da nunciatura e sua ingerência na nomeação dos bispos.

II. Modelo de ação

No primeiro momento da Igreja na modernidade, a ação pastoral será sacramentaria, seguindo o modelo medieval, acentuando o valor dos sacramentos em si mesmo. A Igreja se compreende como única depositária de todos os meios de salvação. Para ir contra a reforma protestante, a vida católica irá girar em torno da presença real de Jesus no Santíssimo Sacramento, com suas especificações: adoração ao Santíssimo; missa como sacrifício; devoção à Virgem Maria, etc.

Enquanto os protestantes colocam a Bíblia nas mãos do povo, da parte católica ela é tirada. Procura-se suprir a ignorância do povo com os “catecismos”, contendo as verdades católicas. Trento centraliza o culto, de forma que a liturgia por quatro séculos não sofrerá alteração nenhuma até o Vaticano II.

A ação pastoral é de cunho apologético, ou seja, de defesa do catolicismo e contra o protestantismo. Enquanto os protestantes valorizam a Palavra, os católicos valorizam a fé devocional. Enquanto os protestantes procuram a simplicidade, da parte católica busca-se a exuberância e a ostentação (templos barrocos, a liturgia, etc.). A pastoral continua centrada na paróquia, com mentalidade rural, agora até mesmo nas grandes cidades.

Num segundo momento da Igreja na modernidade, a ação da Igreja que continua apologética, passa da cristandade para a neo-cristandade. Este modelo vai se tecendo por meio da busca da Igreja em se fazer publicamente presente nos meios sociais, configurado no denominado catolicismo social. Se a ação pastoral pós-tridentina era contra a reforma protestante, agora será contra a modernidade nascente. Tudo isto vai desembocar no Concílio Vaticano I. A postura apologética da Igreja Católica procura defender-se de dois inimigos: o liberalismo e o socialismo. O primeiro atenta contra a Igreja Católica como única religião verdadeira e contra o Magistério. O segundo, atenta contra a propriedade privada que é um direito natural, e reduz a pessoa a uma igualdade que fere as diferenças. O catolicismo social é uma reação contra anti-moderno, anti-revolucionário, anti-liberal e anti-socialista. Ele inscreve-se num contexto de restauração católica.

3.4. PASTORAL DE CONJUNTO (a Igreja como Povo de Deus)

A pastoral de conjunto e a eclesiologia “povo de Deus” é uma característica do Concílio Vaticano II. O papa Pio X (1903-1914), apesar do seu conservadorismo, tinha uma grande preocupação pastoral e marcou o início do processo de renovação da Igreja com o princípio de “volta às fontes”. Com isto surgiram teólogos com uma grande preocupação pastoral.

O Concílio Vaticano II foi sendo preparado aos poucos pelos diversos movimentos de renovação que surgiram, tais como: movimento bíblico, movimento litúrgico, movimento catequético, movimento eclesiológico, movimento ecumênico, movimento leigo, etc.

I. Modelo eclesial

O Concílio Vaticano II, sem deixar de ser teológico, foi principalmente um concílio pastoral. Os padres do concílio desdobrando-se sobre a Igreja, buscaram uma auto-compreensão da mesma, frente aos novos sinais dos tempos. Estabeleceram um diálogo com o mundo moderno numa atitude de solidariedade e cooperação.

Os principais elementos do modelo de Igreja estabelecido pelo Concílio Vaticano II são:

1º. A Igreja é entendida como comunhão (LG, 8-9)
a) A Igreja é sacramento de unidade;
b) Os ministérios são expressões da diversidade de dons;
c) Elabora uma nova teologia dos ministérios ordenados;
d) Os leigos recuperam sua identidade e lugar na Igreja;
e) A comunhão não é mera unidade ou obediência, mas a unidade na diversidade de seus membros.

2º. A Igreja é entendida como Povo de Deus (LG 9-13)
a) Povo de Deus são todos os batizados;
b) Todo o povo de Deus é santo, pecador, ungido, profético, carismático, serviçal, e participa da mesma missão de Jesus Cristo;
c) A Igreja é sacramento (sinal – instrumento) do Reino de Deus.

3º. A Igreja entendida como sacramento de salvação (LG 48)
a) Supera a idéia de que fora da Igreja não há salvação;
b) A Igreja é compreendida como sacramento de uma salvação universal;
c) O mistério de Cristo ultrapassa as fronteiras da Igreja;
d) Mesmo que não haja salvação fora de Jesus Cristo, ela pode acontecer de forma implícita fora da Igreja;
e) A verdadeira Igreja de Jesus Cristo subsiste na Igreja Católica e não somente nela.

4º. A Igreja é entendida como servidora do Reino de Deus no mundo (GS 1)
a) A Igreja não existe para si mesma, mas para o Reino de Deus;
b) O Reino de Deus não se esgota na Igreja;
c) A Igreja é sinal, sacramento do Reino de Deus na história;
d) Ela deve ter uma atitude de serviço, de cooperação ao mundo.

5º. A Igreja universal presente na Igreja particular (LG 23, AG 20,38)
a) O Concílio redescobriu a universalidade de Igreja na particularidade das Igrejas locais (dioceses);
b) Para o Concílio, catolicidade não é uniformidade generalizada;
c) A universalidade da Igreja não se deve a uma única forma de ser, mas a mesma fé, a mesma fonte trinitária e ao dom da salvação de Deus oferecido a todo o gênero humano;
d) Na Igreja local está toda a Igreja de Cristo;
e) A Igreja quanto mais inculturada, mais ela será universal.

II. Modelo de ação

Neste período a ação pastoral está voltada para a reflexão, assim como a Igreja primitiva e antiga, que foi se configurando a partir das exigências e necessidades da evangelização. Toma-se respeito pela autonomia das ciências. É preciso buscar uma nova forma de presença da Igreja na sociedade e no mundo. Um espírito de diálogo e serviço.

Os leigos encontram seu lugar na Igreja e assumem o seu protagonismo. Nascem com isto novos ministérios leigos, não somente para dentro da Igreja, mas também para fora dela.

Surge a catequese renovada, a liturgia ligada a vida e a pastoral social, fruto da consciência de uma vivência mais radical do tríplice ministério do batismo (ministério profético, litúrgico e da caridade).

O sujeito da ação da Igreja deixa de ser o clero para ser toda a comunidade de batizados, toda ela ministerial, fundada no mesmo batismo e no mesmo sacerdócio comum, cuja fonte é Cristo.

A missão não será tanto ir ao encontro dos afastados para trazê-los de volta para a Igreja, mas de anunciar o Evangelho gratuitamente e encarná-lo na história.

Supera-se o paroquialismo pastoral e redescobre-se a dimensão diocesana da ação pastoral.

3.5. PASTORAL DE COMUNHÃO E PARTICIPAÇÃO

Este modelo de Igreja desenvolveu-se no contexto de América Latina, na perspectiva de uma melhor recepção do Concílio Vaticano II. Os bispos da América Latina não deram grandes contribuições para o Concílio, por outro lado, souberam assimilar seu espírito e fizeram dele o ponto de partida para a ação pastoral da Igreja latino-americana. A luz da opção preferencial pelos pobres, a Igreja latino-americana aprofundou as intuições do Concílio conforme a realidade do continente.

I. Modelo eclesial

O modelo de Igreja na América Latina adquiriu um rosto próprio, uma Igreja com o rosto dos pobres, comunidade de comunidades. Dela nasceram pequenas comunidades inseridas no contexto de exclusão social.

No Concílio de Jerusalém, a Igreja nascente abre-se para os pagãos. No Concílio Vaticano II, a Igreja abre-se para o mundo. Em Medellín, a Igreja abre-se para os pobres, e em Puebla a Igreja abre-se para ás culturas.

O Concílio Vaticano II acena para uma Igreja Povo de Deus. A Igreja na América Latina irá situar o Povo de Deus no contexto histórico de toda a humanidade, partilhando do seu mesmo destino.

O Concílio Vaticano II conclama todos os batizados para a missão no mundo. Na América Latina esta missão se dará num compromisso de transformação da sociedade atual em uma nova sociedade, uma ação não meramente religiosa, mas em todos os campos da vida do povo latino-americano.

O papa João XXIII desejava uma Igreja dos pobres. Na América Latina isto se dará na opção preferencial pelos pobres contra toda forma de pobreza e exclusão seja ela política, social, econômica e religiosa. Esta opção preferencial dá-se: na inserção nos meios populares (Medellín, 14,7-10); na transformação das estruturas (Santo Domingo, 4,8-17); numa atitude profética; numa Igreja mártir, a exemplo de Jesus Cristo.

II. Modelo de ação

A ação pastoral derivada deste modelo de Igreja está vinculada ao protagonismo dos leigos e pobres. Os leigos são vistos como sujeitos, com ministérios próprios, com formação bíblica, teológica e pastoral. Também é dado aos leigos um importante papel nas decisões.

Quanto aos pobres, eles passam de objeto de caridade, para sujeitos de um mundo solidário e fraterno. Além de assumir sua causa, a Igreja também assume seu lugar social, numa perspectiva de libertação.

Nascem serviços de pastoral com espiritualidade e fundamentação própria. Surgem entre outras as: pastoral operária, pastoral da terra, pastoral da saúde, pastoral dos direitos humanos, pastoral da criança, pastoral da ecologia, pastoral da consciência negra, pastoral da mulher marginalizada, pastoral do menor, pastoral dos indígenas, etc.

Para isso, a Igreja é organizada em pequenas comunidades de base, onde acontece uma leitura popular da Bíblia. Esforça-se para formar uma Igreja com rosto próprio, encarnando na cultura dos povos latino-americano os ritos e símbolos da fé cristã.

A reflexão teológica é contextualizada, seja no âmbito acadêmico como popular. A catequese privilegia a experiência e inserção comunitária no processo de educação na fé. A liturgia faz interação entre a páscoa de Jesus e a páscoa do povo.

4. Conclusão

Em nosso estudo vimos que em diferentes épocas a Igreja se deparou com desafios novos e procurou respondê-los do melhor modo possível. É difícil fazer um julgamento sobre qual deles está certo ou não, pois a Igreja buscou responder aos desafios dentro das condições possíveis de cada época. Porém, podemos dizer que a rigor há um único modelo de Igreja e de ação pastoral, que foi se configurando de modos distintos, conforme os diferentes períodos em que a Igreja se encontrava. É este modelo normativo que, com roupagem nova em épocas diferentes, faz com que a Igreja seja a Igreja de Jesus Cristo.

Vimos pelo menos cinco modelos de ação pastoral em diferentes épocas: a pastoral profética; a pastoral sacramental; a pastoral coletiva; a pastoral de conjunto e a pastoral de comunhão e participação.

É difícil hoje distinguir separadamente cada um deles no interior de nossas comunidades. Numa mesma comunidade podem estar presentes diferentes modelos de ação pastoral e eclesial. O importante é fazermos uma boa síntese de todos os modelos presentes nas comunidades, para subtrairmos deles o que há de melhor, visto que todos possuem vantagens e desvantagens.




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Aula de Teologia Pastoral ministrada no Curso Básico de Teologia para Leigos e Leigas da Região Utinga – Santo André – SP no ano de 2009.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O padre, presidente da liturgia.

Por Pe Vitor Feller


O Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, não pertencia à classe sacerdotal. Mas, como todo bom judeu, desde os doze anos visitava o templo de Deus, para orar e oferecer sacrifícios ao Pai celeste. Em seu ministério de pregação do Reino e na sua predileção pelos últimos, Jesus de Nazaré fez de si mesmo o novo templo de Deus. No episódio da expulsão dos vendilhões, o evangelista João atesta que “ele falava do santuário de seu corpo” (Jo 2,21). A Carta aos Hebreus, ao falar do sacerdócio de Cristo, insiste que ele é o único e eterno sacerdote, porque entrega a sua vida, é capaz de se compadecer das fraquezas humanas e nos convida a seguir o seu exemplo, vivendo a vida cristã na obediência à vontade do Pai e na entrega total até a morte. Como Jesus, todo presbítero deve também fazer de sua vida uma liturgia, isto é, deve sacrificar-se pelo Reino, na fidelidade ao Pai e no empenho pela salvação da humanidade. Deve fazer de seu corpo, isto é, de todo o seu ser e agir, um templo para Deus. Neste sentido de uma vida sacrificada, o presbítero é o homem da liturgia. Por isso, é o homem do templo, do tabernáculo. Lugar por excelência em que ele exerce essa missão é a presidência das celebrações litúrgicas, sobretudo da Missa.

A poesia da missa
A poeta Adélia Prado, uma das mais conhecidas escritoras brasileiras da atualidade, em um encontro sobre canto e liturgia, em Aparecida, falou sobre linguagem poética e linguagem litúrgica. Ao propor um resgate da beleza simples e sóbria da liturgia católica, ela cunhou a seguinte frase, que já se tornou clássica: “Missa é como um poema, não suporta enfeite nenhum”. Ela se referia ao péssimo costume de muitos padres e auxiliares da celebração da missa (comentaristas, leitores, cantores) que não respeitam a linguagem poética da missa, a linguagem do sagrado. Fazem da missa um acúmulo de acessórios e ruídos: comentários, explicações, gritos, gestos incontidos, cartazes de todo tipo, avisos infindos. Usam instrumentos musicais inadequados para o canto litúrgico, como as estridentes baterias, mais apropriadas para shows e espetáculos do mundo. Servem-se de coisas impróprias para a santidade da liturgia: cantos barulhentos, microfones altíssimos, papéis e mais papéis jogados sobre o altar, bordados e rendas nas alfaias e nas vestes do padre. Tudo coisas que desrespeitam a sobriedade da Missa. Acham que a Tradição da Igreja é ignorante em matéria de liturgia e, por isso, arvoram-se em criadores de coisas novas. Não para louvar a Deus, que é simples na sua unidade, bondade e beleza, mas para agradar aos homens e, talvez, para se autoglorificarem. Com isso, perdem uma grande oportunidade, a única oportunidade, de fazer da Missa o cartão de visitas da comunidade cristã. A história do cristianismo testemunha que muita gente se converteu à fé católica ao participar de uma Missa bem celebrada, com unção e poesia, com simplicidade e beleza.

O mistério da missa
A liturgia, sobretudo a Missa, celebra o mistério pascal, o mistério da morte e da ressurreição do Senhor. É a ocasião em que o fiel se prostra diante de Deus, o humano diante do divino. É a hora do silêncio, do vazio interior, para se ouvir a voz de Deus. Outra bela frase de Adélia Prado é: “a palavra foi inventada para ser calada”. O ritual da Missa foi elaborado por especialistas em liturgia, gente que entende do jogo simbólico entre palavra e silêncio. Todas as palavras do ritual da Missa – as saudações e orações do presidente, as súplicas do Ato Penitencial, a linda oração do Hino de Louvor, as leituras bíblicas, a oração eucarística etc. – estão fundamentadas na Palavra de Deus. Na forma de um jogo simbólico que se reveza entre o presidente e a assembleia, todo o ritual litúrgico é também Palavra de Deus. Daí a necessidade de proclamá-la com unção, de ouvi-la no silêncio do coração, de fazer momentos de silêncio para deixar que essa Palavra divina – na escritura e na liturgia – penetre todos os meandros de nosso ser pessoal e de nossas relações comunitárias. O mundo de hoje tem horror ao silêncio, ao vazio. Parece haver um medo de que no silêncio Deus nos fale! Tudo tem que ser preenchido com palavras e barulhos e ruídos humanos.

O ministério do padre
Como presidente da assembleia litúrgica, o presbítero deve ter consciência de que está fazendo as vezes de Cristo, o único Cabeça da Igreja. Cabe a ele garantir a santidade e a sobriedade da liturgia. Para tanto, deve fazer da liturgia o centro de seu ministério. Junto com o múnus da liturgia, o múnus da profecia e o da caridade constituem o essencial da missão da Igreja. Nesses três ministérios, que ao final se auto-implicam, temos toda a vida cristã e, por excelência, a vida do presbítero. O padre existe para isso. Nesse sentido, ele é o homem do templo, do tabernáculo, do altar. Ele é o homem da Missa, enquanto esta se entende como celebração da paixão, da morte e da ressurreição do Senhor. Assim, na Missa o padre celebra também sua paixão pelo Povo de Deus e pelo Reino de Deus, realiza sua morte – a morte de seus sentimentos, pensamentos, desejos, preocupações etc. – como oferta da vida, e festeja sua ressurreição, sua transfiguração como um outro Cristo, o único sacerdote que, efetivamente, preside a assembleia cristã.

Convido, pois, os leitores para que orem, pelos seus sacerdotes para que sejam homens do templo, do tabernáculo, do altar, para que presidam a liturgia com a unção e a santidade do único e eterno sacerdote, Jesus Cristo.

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Pe. Vitor Galdino Feller
Diretor e professor de teologia no ITESC - Instituto Teológico de Santa Catarina.

Fonte:
http://www.anosacerdotal.org.br/ (Arquidiocese de Florianópolis)