sábado, 19 de março de 2011


Canto Litúrgico no Ciclo Pascal


Pe. Cristiano Marmelo Pinto



1. Cantar a Quaresma

A Quaresma é um tempo de penitência e de austeridade. Tem por finalidade nos preparar para a Páscoa do Senhor. Este tempo tem inicio na quarta-feira de Cinzas e termina na manhã da quinta-feira santa, quando se inicia o Tríduo Pascal. Num período de quarenta dias somos convocados a intensificarmos nossas orações, a fazermos penitência e praticarmos obras de caridade. Quaresma é tempo de mudança de vida e de conversão. É tempo de reconciliação com Deus e com os irmãos. Tempo de perdão. Tempo de buscarmos a misericórdia de Deus.


Cantar a Quaresma é cantar a dor pelo pecado no mundo, que crucifica os filhos e filhas de Deus. Um canto sem glória, sem aleluia, sem flores... O canto deve seguir a austeridade própria deste tempo. Os instrumentos musicais não acompanham os cantos de maneira festiva, apenas ajudam a sustentar-los. É fundamental no tempo da Quaresma respeitar o silêncio. Os instrumentos não devem ser tocados quando for hora de silêncio. Também não se deve saturar a celebração com cantos demais.


Mas o canto da Quaresma não é um canto de desanimo. Pelo contrário, nos animam para lutar contra as forças que produzem a morte. Devem nos inspirar e animar a assumirmos a Cruz do Senhor e junto com Ele criarmos um mundo novo.

2. E os Cantos da Campanha da Fraternidade?

No tempo da Quaresma, a Igreja no Brasil tem o costume de celebrar a Campanha da Fraternidade. A cada ano um tema diferente. A partir deste tema elaboram-se os subsídios litúrgico-pastorais. Até então tínhamos o costume de neste período cantarmos a “Missa da Campanha da Fraternidade”, acompanhando o tema proposto.


Temos que observar alguns pontos importantes:


1. A Quaresma é um tempo forte dentro da espiritualidade litúrgica.
2. O canto como parte integrante da liturgia deve acompanhar o Mistério que é celebrado na Quaresma.
3. Devemos criar um repertório próprio que nos ajude a vivenciarmos melhor o tempo da Quaresma.


De um tempo pra cá, bispos, músicos e liturgistas vêm questionando este costume de, a cada ano, termos uma missa diferente com um tema específico para a Quaresma. Corremos o risco de esvaziar a espiritualidade quaresmal, fixando exclusivamente na Campanha da Fraternidade.


Sem desmerecer a Campanha, foi proposto que se faça um hino alusivo ao tema, podendo este ser executado em diversos momentos da celebração. Deste modo, a partir deste ano, teremos sempre um Hino da CF, e os demais cantos para a celebração serão próprios deste tempo litúrgico. Assim, mantém a finalidade da CF e ao mesmo tempo resolve o problema da secundarização da quaresma.

3. Cantar a Semana Santa e o Tríduo Pascal

A Semana Santa é o período mais próximo da Páscoa do Senhor. É uma semana de intensas celebrações e espiritualidade. É fundamental lembrar que a Vigília Pascal constitui o núcleo central de toda a Semana Santa. Vale ainda lembrar que o Tempo da Quaresma só termina na manhã de quinta-feira, quando é celebrada a Missa do Crisma. A Semana Santa começa com o Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor e termina na tarde do Domingo da Ressurreição. É um período curto, porém denso. Na vespertina da quinta-feira santa dá-se início ao Tríduo Pascal com a Missa da Ceia do Senhor. Na Sexta-feira Santa a Igreja celebra o Mistério da Morte de Jesus. Neste dia não há celebração eucarística. No Sábado Santo, celebramos a permanência do Senhor no Sepulcro. Neste dia apenas é permitido a Liturgia das Horas. A Igreja está em luto. Na noite de sábado celebra-se a Vigília Pascal. Ela é o âmago de todo o Ano Litúrgico. É a mãe de todas as vigílias. Nesta noite celebramos não somente a Páscoa do Senhor, mas também a páscoa dos cristãos. Fundamentalmente, celebramos a vida renovada em Cristo Ressuscitado. Os diversos ritos desta celebração fazem a vida divina penetrar na vida da comunidade celebrante.

3.1. Cantar o Domingo de Ramos e da Paixão

No Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor, celebramos o mistério do Cristo crucificado, sepultado e ressuscitado. Ao entrar em Jerusalém triunfante, Cristo prenuncia sua vitória sobre a morte. Os ramos são sinais deste triunfo. Neste dia temos a Procissão de Ramos. Aconselha-se que durante a procissão, o povo e cantores cantem os cantos propostos pelo Missal Romano. Escolher cantos apropriados para este dia é de suma importância, pois será através dos cantos que experimentaremos o sabor indiscutível do Mistério que celebramos. Canta-se a alegria da entrada do Messias em Jerusalém. Mas também canta o Mistério da sua Paixão. Quanto aos instrumentos vale a mesma orientação para toda a Quaresma, austeridade.

3.2. Cantar a Ceia do Senhor – Quinta-feira Santa

A celebração das vésperas da Quinta-feira Santa abre solenemente o Tríduo Pascal. Na Quinta-feira Santa a Igreja celebra o Mandamento Novo do Amor simbolizado pelo lava-pés. Também são celebradas a instituição da Eucaristia e do Sacerdócio Ministerial. Na última Ceia Cristo celebrou profeticamente o que iria acontecer em seguida, sua Paixão-Morte-Ressurreição. Cantar a Ceia do Senhor, é cantar o Mistério de sua doação total, é celebrar a Paixão-Morte-Ressurreição do Senhor. É fundamental cantar a Cruz do Senhor, pois é através da Cruz que desponta o Mandamento Novo do Amor. É da mesma Cruz que resplandece o Sacramento do Pão e do Vinho. Da Cruz nasce o Ministério do Serviço aos irmãos. Os cantos que ante se caracterizava pela austeridade, agora se reveste da suavidade do Amor. Porém deve-se cuidar para que os cantos e os instrumentos musicais não extrapolem. Convém lembrar que é na Vigília Pascal que o canto de Aleluia e Glória é entoado com toda vibração e entusiasmo. Siga como regra uma certa moderação e sobriedade. Estamos caminhando para a Vigília Pascal, estamos perto, mas ainda não chegamos lá.

No final da celebração temos a transladação do Santíssimo Sacramento. Terminada a oração após a comunhão, começa a procissão de transladação do Santíssimo. Enquanto isto acontece, os fiéis entoam cantos eucarísticos, e quando a procissão chegar ao local onde ficará guardado o Santíssimo, encerra-se com o canto do Tão sublime Sacramento. Temos o costume de realizar a vigília eucarística enquanto o Santíssimo estiver guardado. Cuide-se para que seja feita com sobriedade, mesmo nos cantos.

3.3. Cantar a Paixão do Senhor – Sexta-feira Santa

A Sexta-feira Santa é centralizada na Cruz do Senhor. Celebra-se neste dia o Mistério da Morte do Senhor. A celebração desdobra-se em três partes: proclamação da Paixão do Senhor, preces universais, adoração a Cruz e comunhão. Não há neste dia Celebração Eucarística. E também não se canta a Eucaristia e sim o Mistério da Cruz. A Cruz não é apenas um instrumento de morte, mas para nós cristãos ela se torna instrumento de Salvação. Por isto, na Sexta-feira Santa a Cruz é venerada como sinal de vitória.


Os cantos devem corresponder ao espírito da liturgia deste dia. É um canto de pranto, de perda, canto de dor e tristeza. Mas é também um canto de confiança, a confiança do Servo Sofredor, que se entrega por todos nós, sem reservas. Nesta confiança, o canto deve nos inspirar a nos abandonar com Cristo nas mãos do Pai, para que se realize, assim como em Cristo, a sua vontade. Mas é também um canto de vitória, pois “Cristo, por nós, se fez obediente até a morte e morte de cruz. Por isso Deus o exaltou...” (cf. Fl 2,8-9). Os cantos devem ajudar a deixarmos nos envolver pelo dinamismo da liturgia da Paixão do Senhor, na atitude de quem dá a vida por seus amigos.


Não convém, neste dia, utilizar os instrumentos musicais, como é de costume. Pode-se, porém, usar um instrumento sóbrio, apenas para dar sustentação ao canto. Mas lembre-se, de forma bem discreta.

4. Cantar a Páscoa do Senhor

Se a Quaresma é tempo de austeridade, a Páscoa é tempo de alegria e júbilo, para entoar cantos de festa em honra de Cristo Ressuscitado. O Tempo Pascal começa na Vigília Pascal e termina com a solenidade de Pentecostes. Na quaresma omitimos o canto do aleluia para ser entoado com júbilo na grande Vigília Pascal. Após o silêncio quaresmal, ouvimos o ecoar alegre e vibrante do aleluia na noite pascal. O aleluia será uma das características das celebrações Pascais. Cantamos a glória do Senhor Ressuscitado, sua vitória sobre a morte.


Os cantos e instrumentos terão participação fundamental. Sejam cantados e tocados com alegria, com entusiasmo, vibrantes. Valorizar os cantos do ordinário da missa principalmente o canto do aleluia. Os cantos devem nos ajudar a fazer uma experiência profunda do Mistério Pascal. O canto neste tempo é um canto de alegria, canto de tantos aleluias! Canto de vitória!

sexta-feira, 4 de março de 2011

O TEMPO COMUM


Fernando Silva
Revista Celebração Litúrgica - Portugal

«A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar, em determinados dias do ano, a memória sagrada da obra de salvação do seu divino Esposo. Em cada semana, no dia a que chamou domingo, celebra a da Ressurreição do Senhor, como a celebra também uma vez no ano na Páscoa, a maior das solenidades, unida à memória da sua Paixão.» (CONCÍLIO ECUMÉNICO VATICANO II, Const. Sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, nº 102).

Na verdade, a Igreja distribui todo o mistério de Cristo pelo ano, da Incarnação e Nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, à expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor. Com esta recordação dos mistérios da Redenção, a Igreja oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar como que presentes a todo o tempo, para que os fiéis, em contacto com eles, se encham de graça.

Nunca será demasiado sublinhar que, ao celebrarmos um mistério na Liturgia, vencemos a distância do tempo e do espaço, de tal modo que participamos verdadeiramente nesse acontecimento salvífico, participando das suas graças. Não se trata, pois, de uma simples comemoração ou evocação.

Há, pois, na vida litúrgica da Igreja, à semelhança do que acontece numa família, festas com importância de diversos graus, e há, com predomínio, o tempo comum. Naquelas saímos do ritmo habitual e tranqüilo, da boa rotina de cada dia; neste, vivemos um período do Ano litúrgico de trinta e três ou trinta e quatro semanas nas quais celebramos, na sua globalidade, os Mistérios de Cristo. Comemora-se o próprio Mistério de Cristo na sua plenitude, principalmente aos domingos.

Tempo Comum e "tempos fortes"

Não se podem contrapor os chamados "tempos fortes" ao Tempo Comum, como se este tempo fosse um tempo fraco, inferior, ou de menor importância. É como que o tecido concreto da vida normal do cristão, fora das festas, e pode ver-se nele a comemoração da presença de Cristo na vida quotidiana e nos momentos simples da vida dos cristãos.

Duas fontes são importantes para a espiritualidade cristã e força do Tempo Comum: Os Domingos e os tempos fortes. O Tempo Comum pode ser vivido como prolongamento do respectivo tempo forte. Vejamos: a primeira parte do Tempo Comum, iniciada após a Epifania e o Baptismo de Jesus, constitui tempo de crescimento da vida nascida no Natal e manifestada na Epifania.

Esta vida para crescer e manifestar-se em plenitude e produzir frutos, necessita da acção do Espírito Santo que age no Baptismo do Senhor. A partir daqui Jesus começa a exercer seu poder messiânico. Também a Igreja: fecundada pelo Espírito ela produz frutos de boas obras.

A composição dos anos em "A", centrado em Mateus; "B", centrado em Marcos; "C", centrado em Lucas, com inserções de João presente nos diversos ciclos especiais, ajuda enormemente a magnitude do Tempo Comum.

No Tempo Comum temos algo semelhante ao recomeçar por volta do 9º Domingo, imediatamente depois de Pentecostes: a vida renasce na Páscoa e desenvolve-se através do Tempo Comum, depois de fecundado pelo Espírito em Pentecostes. A força do Mistério Pascal é vivida pela Igreja através dos Domingos durante o ano que amadurece os frutos de boas obras, preparando a vinda do Senhor.
O Tempo Comum é o período mais extenso do ano litúrgico: 33 - 34 semanas distribuídas entre a festa do Baptismo de Jesus até o começo da Quaresma e as outras semanas entre a segunda-feira depois de Pentecostes e o início do Advento.

O calendário do tempo comum

Começa logo após a festa do Baptismo do Senhor e interrompe-se na terça-feira antes da Quarta-feira de Cinzas, para recomeçar depois, na segunda-feira após Pentecostes e ir até o sábado antes do primeiro domingo do Advento.

A cor litúrgica deste tempo é a verde. É um tempo em que não se comemora nada de especial. Quando viajamos, a cor verde domina a paisagem: nos campos, na folhas das plantas. E mesmo quando há flores, a cor verde lá se encontra misturada, a lembrar-nos que a esperança, que a cor verde simboliza, deve de acompanhar-nos em toda a caminhada.

A esperança vive-se tendo em nossos planos a meta para onde nos dirigimos e a confiança de a alcançar. Faz parte desta esperança procurar orientação e alimento enquanto caminhamos, para que realizemos o nosso desejo. Acolhemos atentamente a Palavra de Deus e participamos nos Sacramentos.

Nesse período do Tempo Comum, após o Natal, o clima é de alegria e esperança, pois Cristo anunciou o seu reino de amor. A Igreja apresenta-nos Cristo na sua missão global, Deus e homem verdadeiro, convidando-nos para uma vida de santidade.

O Domingo

«A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar, em determinados dias do ano, a memória sagrada da obra de salvação do seu divino Esposo. Em cada semana, no dia a que chamou domingo, celebra a da Ressurreição do Senhor, como a celebra também uma vez no ano na Páscoa, a maior das solenidades, unida à memória da sua Paixão.» (Const. Sacrosanctum Concilium, nº 102).

Ela Distribui todo o mistério de Cristo pelo correr do ano, da Incarnação e Nascimento à Ascensão, ao Pentecostes, à expectativa da feliz esperança e da vinda do Senhor. Com esta recordação dos mistérios da Redenção, a Igreja oferece aos fiéis as riquezas das obras e merecimentos do seu Senhor, a ponto de os tornar como que presentes a todo o tempo, para que os fiéis, em contacto com eles, se encham de graça.

Este tempo existe não para celebrar algum aspecto particular do mistério de Cristo mas para celebrá-lo em sua globalidade, especialmente em cada Domingo (cf. NALC 43: Normas gerais sobre o Ano litúrgico e o Calendário); durante este tempo se aprofunda e se assimila o mistério de Cristo que se insere na vida do povo de Deus para torná-la plenamente pascal.

O elemento principal e mais forte do Tempo Comum é o Domingo, que surgiu antes mesmo da celebração anual da Páscoa. Era o único elemento celebrativo no correr do ano: a grande celebração semanal do Mistério Pascal de Cristo. É, pois, um tempo marcadamente caracterizado pelo Domingo, quer pela teologia, quer pela espiritualidade.
Os meses temáticos do Ano Litúrgico não fazem parte do calendário e nunca as suas celebrações se sobrepõem às que estão contidas no Domingo.

Os meses Vocacional, da Bíblia, das Missões, a Campanha da Fraternidade e outras comemorações ajudam na madura adaptação e criatividade nas celebrações mas nunca são superiores à mística da liturgia dominical.

Todo o ano litúrgico gira em torno de um único mistério: a morte e ressurreição de Jesus em sua plenitidade. No tempo comum, como nos demais tempos litúrgicos, damos continuidade à celebração desse mistério de Cristo. Em cada domingo, fazemos memória dos relatos da vida pública de Jesus. Celebrando diferentes acontecimentos narrados na Sagradas Escrituras, vamos nos aproximando mais e mais do mistério de amor de Deus pela humanidade.
Tendo como ponto de referência a Páscoa, cada domingo é o fundamento e o núcleo do próprio ano litúrgico (SC 106). Até porque de acordo com o testemunho das Escrituras, a assembleia cristã de culto acontece no primeiro dia da semana (1 Cor 16,2; At 20,7).

«Por tradição apostólica, que nasceu do próprio dia da Ressurreição de Cristo, a Igreja celebra o mistério pascal todos os oito dias, no dia que bem se denomina dia do Senhor ou domingo. Neste dia devem os fiéis reunir-se para participarem na Eucaristia e ouvirem a palavra de Deus, e assim recordarem a Paixão, Ressurreição e glória do Senhor Jesus e darem graças a Deus que os «regenerou para uma esperança viva pela Ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos» (1 Pedr. 1,3). O domingo é, pois, o principal dia de festa a propor e inculcar no espírito dos fiéis; seja também o dia da alegria e do repouso. Não deve ser sacrificado a outras celebrações que não sejam de máxima importância, porque o domingo é o fundamento e o centro de todo o ano litúrgico.» (Const. Sacrosanctum Concilium, nº 102).

Falar do tempo comum, é, na verdade, ressaltar cada domingo como memorial da ressurreição. Reunindo-se no primeiro dia da semana para celebrar o Mistério Pascal, a comunidade expressa a essência da sua fé e a certeza de sua esperança. Por isso, o domingo é dia de festa primordial que deve ser lembrado e inculcado à piedade dos fiéis (SC 106).

Actualizando o mistério, a comunidade celebra sua própria ressurreição na vida nova que o Senhor lhe comunica, através da Palavra e do Sacramento do Sacrifício do seu corpo e Sangue. O primeiro dia da semana é também o oitavo (Sc 106) porque antecipa o último, a ressurreição definitiva, colocando-nos na tensão para o futuro do Reino e do retorno do Senhor.

A celebração das festas de Nossa Senhora

«Na celebração deste ciclo anual dos mistérios de Cristo, a santa Igreja venera com especial amor, porque indissoluvelmente unida à obra de salvação do seu Filho, a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus, em quem vê e exalta o mais excelso fruto da Redenção, em quem contempla, qual imagem puríssima, o que ela, toda ela, com alegria deseja e espera ser.» (Const. Sacrosanctum Concilium, nº 103).

Num ritmo que nos lembra a presença maternal de Maria na caminhada do tempo comum, o calendário litúrgico vai celebrando os grandes acontecimentos da sua vida. Não vem para aqui descrever como cada uma destas celebrações entrou na liturgia, mas sublinhar a missão importante que elas têm: Maria vai connosco a caminho, como a melhor das mães, para nos animar, dialogar connosco, ajudar nas dificuldades e encher de alegria e generosidade os nossos passos vacilantes. Maria revela o mistério de Cristo e da Igreja de maneira forte e eficaz. Seu culto não é algo paralelo e independente; está integrado ao Mistério Pascal; em Maria a Igreja vive o mistério de Cristo.

A celebração das festas dos santos

«A Igreja inseriu também no ciclo anual a memória dos Mártires e outros Santos, os quais, tendo pela graça multiforme de Deus atingido a perfeição e alcançado a salvação eterna, cantam hoje a Deus no céu o louvor perfeito e intercedem por nós. Ao celebrar o «dies natalis» (dia da morte) dos Santos, proclama o mistério pascal realizado na paixão e glorificação deles com Cristo, propõe aos fiéis os seus exemplos, que conduzem os homens ao Pai por Cristo, e implora pelos seus méritos as bênçãos de Deus.» (Const. Sacrosanctum Concilium, nº 104).

Durante o Ano Litúrgico o culto de Nossa Senhora e dos Santos é integrado na Liturgia, enriquecendo a participação dos fiéis. É claro que toda acção litúrgica é dirigida ao Pai, por Cristo, que é o centro. É sempre o Mistério Pascal que se conta e evidencia. Deus fez maravilhas através dos Santos e de Maria que depois do Senhor ocupa um especial lugar na vida da Igreja e em seu culto.
Cada celebração deve ter como centro a Santa Missa, possivelmente mais solenizada, partindo da Palavra de Deus para ajudar os fiéis a compreenderem que neles celebramos o triunfo de Cristo ressuscitado, sendo animados a imitá-los.

Dentro destes parâmetros se deve desenrolar toda a alegria cristã das nossas festas, de tal modo que nos aproximem de Cristo. A alegria só tem sentido quando se manifesta como haurida desta Fonte inesgotável.

Realizar festas pagãs sob a capa do nome de um santo não faz sentido.
É necessária uma acção esclarecida e corajosa dos fiéis para inverterem um movimento que via destruindo a verdadeiro sentido das festas dos santos. Os primeiros cristãos foram capazes de cristianizar muitas das festas pagãs. Hoje devemos conservar este património e dá-lo a conhecer.
Com um pouco de imaginação e generosidade, muitas iniciativas podem ser tomadas para fazer frente a esta onda avassaladora de paganismo. Podemos e devemos perguntar: os jovens das nossas comunidades paroquiais (Corpo Nacional de Escutas e outras associações juvenis), que são capazes de organizar uma festa de campo, serão capazes também de organizar e executar um programa que, sem deixar de ser alegre divertimento, se integrem perfeitamente na vivência das festas dos santos?

O Canto Litúrgico no Tempo Comum

«Dentro do Ano Litúrgico, o Tempo Comum ocupa grande parte dos domingos e semanas. São 34 domingos do Tempo Comum. Quando falamos em “comum” não significa que não tenha importância. No Tempo Comum celebramos outros aspectos da vida e da missão de Cristo e seus discípulos. Cada domingo do Tempo Comum celebra-se a Páscoa semanal dos cristãos. Neste tempo celebramos algumas festas importantes: Apresentação do Senhor. Santíssima Trindade; Corpus Christi; Sagrado Coração de Jesus; a Transfiguração; Exaltação da Santa Cruz, Finados, Todos os Santos e outras festas em honra a Nossa Senhora e aos santos, etc. Os cantos litúrgicos no Tempo Comum vão nos ajudar a vivenciar a totalidade do Mistério de Cristo. Para que não cometamos erros, é necessário observar algumas regras.

1. Os cantos devem expressar a realidade celebrada – o Mistério. Este mistério se desdobra nas passagens da Sagrada Escritura ao longo do Ano Litúrgico.
2. Dar atenção a função ritual de cada canto em seus momentos específicos.
3. Ser fiel as características próprias do tempo litúrgico e da festa celebrada.

Vale lembrar a orientação dos Documentos da Igreja. Não é por que o tempo é “comum” que posso colocar qualquer canto na liturgia. Ele deve estar em sintonia com o que celebramos. Ele é parte integrante da liturgia. Está a serviço da acção ritual. Não cabe aqui cantos que possam levar ao subjetivismo, ao intimismo religioso. Celebrar é sempre uma acção comunitária, nunca individual. É conveniente registrar uma palavrinha a respeito dos meses temáticos. Em alguns meses do ano a Igreja nos convida a reflectirmos sobre um determinado tema. Temos assim o Mês de Maria; o Mês Vocacional; o Mês Missionário, etc. Isto não significa que os cantos devam necessariamente tratar destes temas. Lembre, os cantos devem aludir ao Mistério celebrado. Deste modo, no mês de Maria não se deve cantar cantos de Nossa Senhora, ou missas completas. O importante é cantar o Mistério que a liturgia do dia nos propõe. Por fim, vale lembrar que mesmo celebrando Nossa Senhora e os Santos no decorrer do Ano Litúrgico, sempre se evoca a acção redentora do Senhor Jesus em Maria e nos Santos. É a obra do Senhor que celebramos e cantamos não a pessoa dos santos e de Maria.»(PE. CRISTIANO MARMELO PINTO).

O Concílio enaltece a contribuição do canto Litúrgico para o enriquecimento duma celebração:
«A tradição musical da Igreja é um tesouro de inestimável valor, que excede todas as outras expressões de arte, sobretudo porque o canto sagrado, intimamente unido com o texto, constitui parte necessária ou integrante da Liturgia solene.
Não cessam de a enaltecer, quer a Sagrada Escritura (42), quer os Santos Padres e os Romanos Pontífices, que ainda recentemente, a começar em S. Pio X, vincaram com mais insistência a função ministerial da música sacra no culto divino.

A música sacra será, por isso, tanto mais santa quanto mais intimamente unida estiver à acção litúrgica, quer como expressão delicada da oração, quer como factor de comunhão, quer como elemento de maior solenidade nas funções sagradas. A Igreja aprova e aceita no culto divino todas as formas autênticas de arte, desde que dotadas das qualidades requeridas.

O sagrado Concílio, fiel às normas e determinações da tradição e disciplina da Igreja, e não perdendo de vista o fim da música sacra, que é a glória de Deus e a santificação dos fiéis, estabelece o seguinte:
A acção litúrgica reveste-se de maior nobreza quando é celebrada de modo solene com canto, com a presença dos ministros sagrados e a participação activa do povo.» (Const. Sacrosanctum Concilium, nº 112 e 113).

Nem sempre é fácil dar corpo a estas recomendações, mas vale a pena tentá-lo gradualmente, para que também o canto se integre no mistério celebrado, em vez de nos distrair dele, como, por vezes, pode acontecer.

Em suma: cada celebração da liturgia tem de ser cuidadosamente preparada, sem improvisações, para que nos ajude nesta caminhada do tempo comum.


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http://www.cliturgica.org/artigo.php?id=845

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011


«O mistério da Páscoa:
a novidade do Verbo encarnado»
Sobre a Páscoa


Melitão de Sardes


Foi lida a Escritura a respeito do êxodo hebreu, foram explicadas as palavras do mistério: como a ovelha foi imolada e o povo foi salvo.

Compreendei, pois, caríssimos! É assim
novo e antigo,
eterno e temporal,
corruptível e incorruptível,
mortal e imortal
o mistério da Páscoa:
antigo segundo a Lei,
novo segundo o Verbo;
temporal na figura,
eterno na graça;
corruptível pela imolação da ovelha,
incorruptível pela vida do Senhor;
mortal pela sepultura, na terra,
imortal pela ressurreição dentre os mortos.

Antiga a Lei, novo o Verbo;
temporal a figura, eterna a dádiva;
corruptível a ovelha, incorruptível o Senhor,
o qual, imolado como cordeiro, ressurgiu como Deus.

Pois, como a ovelha, foi levado ao matadouro,
mas não era ovelha;
como o cordeiro, não abriu a boca,
mas não era cordeiro.

Passou a figura, persiste a realidade.

Em vez do cordeiro, Deus presente,
em vez da ovelha, um homem,
e neste homem, Cristo,
aquele que sustém todas as coisas.

Assim, o sacrifício da ovelha,
e a solenidade da Páscoa,
e a letra da Lei,
cederam lugar ao Cristo Jesus,
por causa do qual tudo sucedera na antiga Lei,
e muito mais sucede na nova disposição.

Pois a Lei se converteu em Verbo,
o antigo em novo,
ambos saídos de Sião, e de Jerusalém.

O mandamento se converteu em dádiva,
a figura em realidade,
o cordeiro em Filho,
a ovelha em homem,
o homem em Deus.

Com efeito, aquele que nascera como Filho,
e fora conduzido como cordeiro,
sacrificado como ovelha,
sepultado como homem,
ressuscitou dentre os mortos como Deus,
sendo por natureza Deus e homem.

Ele é tudo:
enquanto julga, é lei;
enquanto ensina, Verbo;
enquanto gera, pai;
enquanto sepultado, homem;
enquanto ressurge, Deus;
enquanto gerado, Filho;
enquanto padece, ovelha;
ele, Jesus Cristo,
a quem seja dada a glória pelos séculos. Amém.

Tal é o mistério da Páscoa,
como foi descrito na Lei
e como o acabamos de ler.

São Gregório Nazianzeno

«Poema sobre a Natureza Humana»



Ontem, abatido pela tristeza, sozinho e longe de todos, sentei-me à sombra de um bosque, meditando em meu coração. Gosto desse remédio nos sofrimentos, o de me entreter silenciosamente comigo mesmo. O murmúrio da brisa, junto ao chilrear dos pássaros e ao sussurro das ramagens, trazia prazer ao coração aflito. As cigarras, no alto das árvores, cantando sonoramente ao sol, acrescentavam um ruído que acabava de encher o bosque. Perto ainda, um córrego de água pura vinha banhar-me os pés e deslizava da mata como orvalho refrescante. Eu, porém, absorvido na dor, não cuidava de nada disso, pois o espírito em tais condições se recusa a qualquer prazer. Interiormente agitado, entregava-me a uma luta onde eram minhas palavras que se debatiam. Quem fui? Quem sou? Quem serei? Não sei responder claramente, como não o sabem tampouco os mais sábios que eu. Envolto por uma nuvem, ando errante sem nada possuir, mesmo em sonhos, de tudo aquilo que desejo. Sim, somos peregrinos na terra e sobre todos nós se erguem a nuvem azul da carne. Mais sábio do que eu é quem melhor sabe expulsar a mentira loquaz de seu coração.

Eu sou. Explique-se-me o que é isso. Uma parte de mim já se foi, sou outro neste instante, e outro serei ainda se continuo a existir. Nada é estável. Assemelho-me ao curso de um rio turbulento que sempre avança sem nada ter fixo. Dir-me-ás o que sou em tudo isso? Ensina-me ao menos o que sou para ti. Permaneço aqui um momento, mas cuida que eu não fuja de ti... Não atravessarás de novo o rio do mesmo modo como o atravessaste, não reverás o mortal que já viste uma vez.

Existi inicialmente na carne de meu pai, depois minha mãe me acolheu e provenho de ambos. Fui em seguida uma carne confusa, massa informe, antes que homem, sem palavras nem espírito, tendo na mãe meu túmulo.. Sim, nós estamos duas vezes no túmulo, pois nossa vida também se termina na corrupção. Esta vida que percorro, vejo que se despende anos que me trazem o funesto envelhecimento. E se, partindo da terra, sou acolhido numa vida sem fim, como se diz, vê se a vida não contém a morte, e se a morte não é para ti a vida, contrariamente ao que pensas.

Nada tenho sido. Por que sou sem cessar avassalado pelos males, como se não mudasse jamais? Pois só os males, entre os mortais, são imutáveis, inatos, inseparáveis e não envelhecem. Apenas saído do seio de minha mãe, verti a primeira lágrima; e haveria de encontrar tantas e tão grandes calamidades! Derramava lágrimas antes de tocar a vida! Ouvimos falar de uma região, como outrora Creta, onde não havia animais ferozes, e de outra isenta da neve. Mas nunca se ouviu de um mortal que deixasse esta vida sem que tristes penas o atingissem. A doença, a pobreza, o parto, a morte, o ódio, os maus, as feras do mar e da terra, as dores: eis a vida! Conheci muitos males sem alegria, mas não conheci jamais a alegria completamente isenta de sofrimento, desde o fatídico fruto que degustei e o inimigo invejoso que me marcou com o signo da amargura.

Carne, eis o que devo dizer-te, a ti, tão difícil de se curar, inimiga suave, a quem a luta jamais abate, fera atroz que cruelmente acaricias, fogo que refresca - ó coisa espantosa! Mais espantoso porém seria se acabasses por te tornares minha amiga!

E tu, ó minha alma, ouvirás por tua vez a linguagem que te convém. Quem és? donde vens? qual o teu ser? quem te estabeleceu como sustentáculo de um morto? Quem te ligou aos tristes grilhões da vida, sempre inclinada para as coisas da terra? Como foste misturada ao grosseiro, tu que és sopro? à carne, tu que és espírito? Ao pesado, tu que és leve? São qualidades que se opõem mutuamente e se combatem... Se vieste à vida, engendrada ao mesmo tempo que a carne, quanto então essa união tem sido perniciosa para mim! Sou imagem de Deus e me tornei filho da torpeza. Temo que o desejo tenha sido a causa do nascer de algo tão digno de honra. Um ser fugidio me gerou e sofreu a corrupção. Eis-me, então, homem, mas cessarei de sê-lo e me tornarei cinzas: são estas minhas últimas esperanças?

Ao contrário, se és celeste, quem és tu e donde vens? Aspiro sabê-lo, instruí-me! Se tens o sopro de Deus por origem e Deus mesmo por destino - como julgas - rejeita o vício e acreditarei em ti! Porque não convém que o puro seja maculado, mesmo levemente; as trevas não pertencem ao sol, o filho da luz não vem do espírito mau. Como és atormentada a tal ponto por Belial, tu que intimamente estás unida ao Espírito divino? Se com tal ajuda ainda te inclinas para a terra, então é grande a violência de tua maldade!

E se não vens de Deus, qual a tua natureza? Ah! temo ser presa de vão orgulho: Deus me plasmou, depois houve o Paraíso, o Éden, a glória, a esperança, o preceito, o dilúvio destruidor do mundo, a chuva de fogo, e a seguir a Lei, esse remédio escrito, e finalmente o Cristo, que uniu sua natureza à nossa para trazer socorro a meus sofrimentos através de seus divinos sofrimentos, para divinizar-me, graças a sua condição humana; e apesar de tudo isso mantenho um espírito indômito, sou como o javali furioso que se mata precipitando-se sobre o ferro!

Que bem se acha na vida? A luz de Deus? Mas as trevas invejosas e odiosas dela me afastam! Não me beneficio dela. Os maus não me dominam sob todos os aspectos? Por que, apesar de todos os meus sofrimentos, não lhes sou ao menos igual? Estou abatido até a terra, até ao cabo de minhas forças; o temor divino me fez vergar; dia e noite me abatem preocupações; o orgulho derrubou-me ao seduzir-me traiçoeiramente, calcou-me aos pés. Cita-me tudo o que há de terrível: o negro Tártaro, o Flégeton 2, os tormentos, os demônios que são os carrascos de nossa alma. Tudo isso os maus têm como fábulas, só considerando o que está diante de si e é bom. O temor do castigo não corrige sua maldade. Mas preferiria ver os maus não punidos, mesmo no futuro, antes que me afligir agora por castigos devidos à sua maldade! 3

Mas, por que então cantar assim as dores dos homens? A dor se estende sobre toda a nossa estirpe... Aliás, nem a terra é sem abalos, os ventos agitam o mar, as horas se sucedem em delírio, a noite põe fim ao dia, a tempestade obscurece o ar, o sol tira a beleza às estrelas, as nuvens tiram-nas ao sol, a lua se renova, o próprio céu não é senão parcialmente brilhante por seus astros. E tu, Lúcifer, tu estavas outrora entre os coros angélicos e, agora, invejoso, tombaste vergonhosamente dos céus!

Mas, ó Trindade, reino venerável, sê-me propícia! Nem vós escapastes à língua dos efêmeros insensatos! O Pai, primeiro, depois o Filho em sua majestade, e enfim o Espírito do grande Deus foram objetos de injúrias.

Aonde, porém, infeliz aflição, tu me arrastas? Cala-te! Acaso, tudo não é pequeno em relação a Deus? Cala-te diante do Verbo!

Não, não foi em vão que Deus me criou! (Eis que estou indo contra o que eu mesmo cantei: são as fraquezas de nosso espírito). Agora és trevas, um dia serás razão e compreenderás tudo, seja vendo a Deus, seja devorando-te pelo fogo.

Quando meu espírito me fez ouvir estes cantos, minha dor serenou E assim tarde deixei o bosque sombrio e voltei à vida, ora alegrando-me com um pensamento, ora consumindo o coração no sofrimento, o espírito sempre em luta!


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Notas:

1 Apresentamos em prosa a tradução desta famosa peça, redigida originalmente cm verso. a. P. GALLAY, o.c. Lycn, 1941.

2. Plageton : Rio do inferno, na literatura antiga

3. Outra interpretação: Meus sofrimentos são tais que, para me libertar deles, aceitaria ver impunidos os maus.

Fonte:

GOMES, C. Folch; Antologia dos Santos Padres. Ed. Paulinas, II edição revista, SP, 1985, pp. 248-250.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011


Espiritualidade Conjugal e o

Sacramento do Matrimônio


O papa João Paulo II, num discurso aos bispos americanos sobre o caráter sagrado do matrimônio dizia:

A vida da família é santificada pela união do homem e da mulher na instituição sacramental do matrimônio. Por conseguinte, é fundamental que o casamento cristão seja compreendido no seu interior sentido e seja apresentado ao mesmo tempo como uma instituição natural e como uma realidade sacramental”.

Para compreender o sacramento do matrimônio em sua plenitude, é preciso entender que o matrimônio é ao mesmo tempo:

1. Um Sacramento;
2. Um sistema de valores;
3. Uma comunidade;
4. Um itinerário espiritual.

A relação do homem e da mulher no casamento é comparada ao amor de Jesus por sua esposa, a Igreja. Jesus passou a sua vida terrena ensinando e praticando os valores fundamentais nas relações humanas. Ele primava pela importância de se constituir comunidade. Ele mesmo nos mostrou que sua relação com o Pai e o Espírito Santo é “uma comunhão de amor”.

Para compreender a relação conjugal como relação de amor, precisamos estar abertos para entender a relação de amor que há entre as pessoas da Santíssima Trindade.

Desde o princípio da criação Ele os fez homem e mulher. Por isso o homem deixará o seu pai e a sua mãe, e os dois serão uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus uniu o homem não separe” (Marcos 10, 6-9).

Para o casal cristão, é importante viver o casamento como um sacramento. Num primeiro nível, o casamento sacramental entre cristãos celebra e proclama a íntima comunhão de vida e amor entre o homem e a mulher. Num nível mais profundo, a comunhão de vida e amor entre o homem e a mulher torna explícita e manifesta a íntima comunhão de vida, amor e graça que une Cristo a seu povo – a Igreja.

Recordando um pouco a história

Desde os tempos mais remotos, o casamento tem sido uma relação institucional e, a família, a unidade básica para a comunidade humana e para a continuidade e transmissão das heranças na sociedade.

A Sagrada Escritura fala constantemente deste assunto, desde Gênesis até as Bodas de Caná. Porém, foi Santo Agostinho, no século V, que enunciou os elementos e as obrigações, que mais tarde se tornam os fundamentos do sacramento.

Para Santo Agostinho, os três elementos essenciais do casamento eram: fidelidade, descendência e sacramento.

O Catecismo da Igreja Católica vai formular os três elementos essenciais da seguinte forma:

1. A unidade e a indissolubilidade do casamento;
2. A fidelidade do amor conjugal;
3. A aceitação da fecundidade. (C.I.C. 1644-1652)

Hoje em dia, acentua-se mais a importância do relacionamento mútuo e a maneira pela qual homem e mulher devem se amar e viver o cotidiano da vida conjugal.

Santo Tomás de Aquino, no século XIII, afirma que “a forma do matrimônio consiste na união inseparável dos espíritos, num casal engajado, numa amizade fiel”. Enquanto a procriação era considerada a finalidade primeira do casamento, não se dava muita importância no relacionamento do casal.

Foi somente nos últimos cinqüenta anos que o relacionamento do casal começou a ser aceito como sendo também uma finalidade primeira, de nível semelhante ao da procriação.

“Deus é amor, e os que vivem no amor vivem em Deus” (1João 4,16)

O matrimônio como comunidade

A vida da família é freqüentemente descrita como uma “Igreja Doméstica”. O matrimônio tem uma dimensão comunitária e não individual, por que só pode ser recebido por um casal, que constitui uma comunidade. Essa dimensão comunitária do matrimônio se estende à família e à sociedade. O amor conjugal é um amor para o outro e deve ser expressar na entrega total e incondicional.

Pe. Caffarel, fundador das Equipes de Nossa Senhora, movimento de espiritualidade conjugal afirma o seguinte:

Este sacramento tem a característica de o seu sujeito não ser o indivíduo como nos demais sacramentos, mas sim o casal como tal. Com efeito, ele funda, consagra, santifica essa pequena sociedade, única em seu gênero, constituída pelo homem e pela mulher casados”.

Karl Rhaner, um grande teólogo católico, descreve o relacionamento no casamento do seguinte modo:

Como é o amor de Deus que sustenta a Criação, que dá a vida e o amor aos seres humanos e que atrai tudo a Deus por esse amor, o amor entre duas pessoas pode levá-las a alcançar o outro no nível mais profundo do seu ser”.

O Código de Direito Canônico assim fala sobre o matrimônio:

“A aliança matrimonial, pela qual o homem e a mulher constituem entre si uma comunhão da vida toda, é ordenada por sua índole natural ao bem do casal, à geração e educação da prole, e foi elevada, entre os batizados, à dignidade de sacramento”.

Promessa mútua e dom da pessoa

O Sacramento do Matrimônio é uma promessa recíproca e a realização desse compromisso durante toda a vida do casal. Isso significa que o Senhor se torna presente por sua graça de uma forma nova e mais profunda no próprio momento da troca das promessas.

Significa também que Cristo se torna presente toda vez que os esposos mantiverem essas promessas, cada vez que se unirem, que se ajudarem, que se perdoarem e cada vez que se voltarem para os que estão em torno deles.

O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática Gaudium et Spes, afirma que:

O Salvador e Esposo da Igreja vem ao encontro dos cônjuges cristãos pelo sacramento do matrimônio. Permanece daí por diante com eles a fim de que, dando-se mutuamente, se amem com fidelidade perpétua, da mesma forma como Ele amou a sua Igreja e por ela se entregou” (GS, 48).

Vamos pensar um pouco?

1. Na qualidade de casal, quando tomam consciência da verdadeira presença de Cristo em suas vidas?
2. Como a percepção dessa presença de Cristo na vida conjugal muda o comportamento do casal?
3. “Comprometer-se por toda a vida é pertinente e necessário ao caráter sagrado do casamento”. Reflita sobre como isso é importante e qual a resposta como casal.


Pe. Cristiano Marmelo Pinto

Encontro dos Casais com o Padre - 2010

sábado, 29 de janeiro de 2011




O Espírito Santo na Liturgia


Pe. Gregório Lutz, CSSp
(Revista Vida Pastoral – Setembro-Outubro de 1998)


Ao abordar um assunto que deve ser aprofundado, normalmente convém num primeiro momento, esclarecer os conceitos que ocorrem no título ou tema. Em nosso caso, deveríamos explicar o sentido dos termos “Espírito Santo” e “Liturgia”, para depois poder refletir sobre o Espírito Santo na Liturgia. No entanto, já que a presente reflexão será apresentada dentro de um conjunto de artigos sobre o Espírito Santo, certamente pode ser dispensado tal esclarecimento sobre o Espírito Santo. A Liturgia, por sua vez, não pode ser entendida fazendo abstração do Espírito Santo. Particularmente numa análise da origem da liturgia isso fica evidente. Por isso contemplaremos logo o nascimento da liturgia cristã e como ele foi vivida na Igreja apostólica. Sem analisar detalhadamente a história da liturgia sob o aspecto pneumatológico, deter-nos-emos mais no Concílio Vaticano II, por significar uma volta às fontes, sobretudo bíblicas, da Liturgia. Numa segunda parte deste trabalho, descobriremos a presença e ação do Espírito Santo na liturgia de hoje; analisando dimensões e elementos gerais e as diversas celebrações, também o Ano Litúrgico, a Piedade Popular e, finalmente, a inculturação. Ficará evidente nesta caminhada que a liturgia é um permanente pentecostes.

II. O Espírito Santo na Liturgia, conforme a Bíblia e a História

1. O Espírito Santo na origem da Igreja e da Liturgia

O Concílio Vaticano II descreve a Liturgia como um momento da história da salvação. Depois de ter salientado o ponto culminante desta história, quer dizer, a paixão, ressurreição e ascensão do Senhor, o mistério pelo qual Cristo, morrendo, destruiu a nossa morte e, ressuscitando, recuperou a nossa vida, o Concílio constata: “Do lado de Cristo dormido na cruz nasceu o admirável sacramento de toda a Igreja” (SC 5). A seguir, o Concílio diz que, portanto, o Mistério Pascal não deve ser apenas anunciado, mas, para levar a efeito este anúncio, ele deve também ser celebrado na Liturgia (cf. SC 6).

Vê-se aqui com evidência a origem da Igreja e da Liturgia na morte de Jesus, como esta é descrita no evangelho de São João. A Igreja nasceu do lado aberto de Jesus, jorrando sangue e água (cf. Jo 19,33s). Na iconografia esta cena freqüentemente é representada da seguinte maneira: do lado aberto do Senhor jorram o sangue e a água para dentro de um cálice, segurado por uma mulher que está sozinha debaixo da cruz. Esta mulher não é simplesmente Maria, a mãe de Jesus, mas a representação da Igreja. O cálice lembra – assim como o sangue – particularmente a Eucaristia. No entanto, jorrou também água, e esta lembra especificamente o Batismo. O Batismo e a Eucaristia eram, na época apostólica, sem dúvida, os momentos mais intensos da vida da Igreja, do mesmo modo como eles são hoje para nós os sacramentos principais. Assim se vê portanto, a origem dos Sacramentos e da Liturgia junto com a origem da Igreja, e o nascimento da Igreja com a origem da Liturgia.

O simbolismo do rio que jorra do lado aberto de Jesus, todavia, não se esgota ai. Conforme São João relata no seu evangelho (7,37-39), Jesus tinha prometido rios de água viva, nos quais o evangelista vê o dom do Espírito Santo que só podia ser dado quando Jesus tivesse sido glorificado. Vejamos o que afirma o texto do quarto evangelho: “No último dia da festa, o mais solene, Jesus, de pé, disse em alta voz: ‘Se alguém tem sede, que venha a mim, e beba quem crê em mim!’ – conforme a palavra da Escritura: Do seu seio jorrarão rios de água viva. Ele falava do Espírito que deviam receber aqueles que tinham crido nele; pois não havia ainda Espírito, porque Jesus não fora ainda glorificado” (Jo 7,37-39). Lembremos que, conforme a mais antiga tradição de interpretação, “seu seio” é o seio de Jesus. A glorificação de Jesus aconteceu para São João na Cruz, pois, aludindo a sua ascensão, Jesus diz na conversa noturna com Nicodemos, que o Filho do Homem deve ser levantado, como Moisés levantou a serpente no deserto (cf. Jo 3,13s). Ora, sendo exaltado na cruz, jorraram do lado de Jesus rios de água viva, que simbolizam o Espírito santo. Nesse contexto da doação do Espírito Santo na hora da exaltação na cruz podemos também entender as palavras com as quais São João descreve a morte de Jesus: “... e entregou o espírito” (Jo 19,30). Já que quase sempre nas afirmações do quarto evangelista devemos contar com um segundo sentido profundo, além do primeiro óbvio, certamente não se pode excluir que São João, com essas palavras, tenha querido dizer também que Jesus deu o Espírito prometido, além de ter entregue sua vida nas mãos do Pai.

O evangelho de São João não conhece pentecostes como dia da vinda do Espírito Santo e do nascimento da Igreja. Para ele também o último ato da Páscoa de Jesus, da sua passagem deste mundo para o Pai, que é a doação do Espírito Santo, coincida com a Páscoa da morte e ressurreição. No entanto, no evangelho de São João não falta totalmente um desdobramento da Páscoa, da sua paixão e glorificação e da doação do Espírito Santo. Pois, no dia da ressurreição, Jesus aparece vivo no meio dos apóstolos e lhes diz: “’Como o Pai me enviou, também eu vos envio’. Dizendo isso, soprou sobre eles e lhes disse: ‘Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais retiverdes ser-lhes-ão retidos’” (Jo 20, 21-23). As palavras “como o Pai me enviou” dizem claramente que a missão de Jesus continua naquela dos apóstolos, isto é, da Igreja. Mas, para que essa missão seja possível, Jesus dá o Espírito Santo. E logo ele diz também em que consiste essa missão: em perdoar ou reter os pecados. Essas palavras geralmente foram entendidas como sendo o sacramento da penitência. O primeiro sacramento do perdão e o batismo, e na eucaristia nos é oferecido o sangue de Jesus derramado pela remissão dos pecados. Também a unção dos enfermos atribuímos em certos casos o perdão dos pecados que não foram perdoados anteriormente. Podemos ver resumida nestas palavras de Jesus sobre o perdão toda a missão da Igreja, em continuidade com a missão de Jesus mesmo, que ele formulou conforme o evangelho de São Marcos nestes termos: “Cumpriu-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15). Em todo caso, também no dia da sua ressurreição Jesus expressou, pelas suas palavras e pelo seu sopro os apóstolos, querer que sua missão no mundo continuasse na Igreja e particularmente na celebração do perdão dos pecados, pela presença e ação do Espírito Santo.

São Lucas descreve, no seu evangelho e nos Atos dos Apóstolos, a origem da Igreja e da Liturgia de outras maneiras. Mas também para ele é o Senhor exaltado que envia do Pai o Espírito Santo e faz assim nascer a Igreja com sua atividade central, que é a Liturgia. Que haja conforme São Lucas um espaço de tempo de quarenta dias entre a ressurreição e a ascensão de Jesus e que dez dias mais tarde venha o Espírito Santo, é secundário em relação a origem da Igreja e da Liturgia pela vinda do Espírito Santo. Significativo é que eles “estavam todos reunidos no mesmo lugar” (Atos 2,1), certamente rezando, como logo depois da ascensão do Senhor, quando “unânimes perseveraram na oração” (Atos 1,14), quando veio o Espírito prometido. E a pregação de São Pedro, logo depois da descida do Espírito, não é como uma Liturgia da Palavra que introduz a Liturgia sacramental do batismo dos três mil no dia de pentecostes? São Pedro já tinha explicado de antemão que a última finalidade da conversão e do batismo fosse o dom do Espírito Santo aos que iam ser batizados (cf. Atos 10,37s). logo no nascimento da Igreja os apóstolos exerceram a missão, que era também a de Jesus, na força do Espírito recebido.

O pentecostes de Jerusalém, cinqüenta dias depois da ressurreição de Jesus, repetiu-se. Houve nascimento da Igreja não apenas na morte de Jesus e no dia de pentecostes, mas também determinadas Igrejas particulares tiveram sua origem pela vinda do Espírito de Deus, conforme nos relatam os Atos dos Apóstolos. Foi o que ocorreu na Samaria, onde os discípulos recém-batizados por Filipe receberam – pela imposição das mãos dos apóstolos São Pedro e São João – o Espírito de Deus e assim uniram-se a Igreja de Jerusalém (cf. Atos 8,14-17). Na casa do centurião romano Cornélio de Cesareia, onde Pedro batizou os primeiros gentios, veio sobre eles o Espírito Santo (cf. Atos 10). Igualmente em Éfeso, onde Paulo batizou, em nome de Jesus, os discípulos de João Batista (Ef 19,1-6). Em todos esses casos, foi celebrando que as Igrejas nasceram.

De fato, podemos fazer nossa a afirmação de tantos padres da Igreja antiga, e que sempre de novo se repetiu: como o Filho de Deus assumiu um corpo humano pela descida do Espírito Santo sobre a virgem Maria, assim nasceu seu corpo místico pela descida do mesmo Espírito, completando-se desta maneira a Páscoa do Senhor no nascimento da Igreja com a sua Liturgia. Nesse contexto podemos logo lembrar que o mesmo Espírito desce sobre o pão e o vinho que apresentamos na eucaristia, e dá assim origem ao corpo eucarístico de Cristo. Podemos, com toda a razão, dizer que o Espírito Santo é a alma da Igreja, que especialmente na Liturgia se manifesta e realiza como Corpo de Cristo com seus muitos membros.

2. O Espírito Santo na Liturgia da Igreja apostólica

Melhor e mais detalhado do que qualquer escrito do Novo Testamento, São Paulo nos mostra nos capítulos 11 e 14 da 1ª carta aos Coríntios como na Igreja apostólica se celebrou a Liturgia. Notemos que ele desenvolve sua teologia do Corpo de Cristo e dos dons ou carismas do Espírito Santo dentro deste contexto litúrgico. Lembremos também que o apóstolo usa o termo “ekklesia” tanto quanto fala da Igreja como unidade dos cristãos ou Corpo de Cristo (por exemplo: 1Cor 11, 18.22; 12,28; 14,4.5.19.23.28.33.35). Deve ser claro também que São Paulo, sobretudo nos capítulos 12 e 14 desta carta pensa pelo menos em primeiro lugar, quando ele fala de ministérios, naqueles que nós chamaríamos litúrgicos.

Ora, todos os dons ou carismas, todos os ministérios, toda a vida e atividade da Igreja, especialmente a Igreja reunida em assembléia, vem, para São Paulo, do Espírito Santo. Os dons são simplesmente chamados de dons do Espírito (12,1). É o mesmo Espírito que cuida da vida e do crescimento da Igreja, que lhe deu a vida. E, por outro lado, é neste Espírito que nós podemos chamar Jesus de Senhor (12,3).

Aquilo que São Paulo diz nesses capítulos ao corintios sobre o Espírito Santo na Liturgia, combina perfeitamente com outras afirmações dele sobre a presença e ação do Espírito Santo na Igreja. Lembremos, neste momento, apenas alguns textos que nos falam em geral, mas claramente da ação do Espírito Santo em relação à Liturgia. Textos quase paralelos àquele no qual ele diz que não podemos dizer “Jesus é o Senhor”, a não ser no Espírito Santo (1Cor 12,3), encontramos nas cartas aos Romanos (8,15) e aos Gálatas (4,6), onde lemos que podemos chamar Deus de Pai porque recebemos o Espírito de filiação. Este Espírito nos foi dado no batismo, e é sobretudo na celebração litúrgica que chamamos Deus de Pai. No mesmo capítulo da carta aos Romanos São Paulo escreve: “Não sabemos o que pedir como convém; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis, e aquele que perscruta os corações sabe qual o desejo do Espírito; pois, é segundo Deus que ele intercede pelos santos” (8,26s). Em todo o caso, já a partir desses textos de São Paulo podemos chegar à conclusão de que ele escreve com plena razão na carta aos Filipenses: “Prestamos culto pelo Espírito de Deus” (3,3).

Resta ainda fazer uma referência à relação da Liturgia com a vida dos membros da Igreja, da sociedade e do mundo. Encontramos um exemplo eloqüente, para nos mostrar como São Paulo vê esta relação em 1Cor 11,17-34. É bom lembrar que, imediatamente após esse texto, seguem às explicações de São Paulo sobre o Corpo de Cristo e os múltiplos dons do Espírito Santo, que visam à união e à edificação da comunidade. São Paulo repreende os corintios não porque fizessem eventualmente algo de errado na celebração da eucaristia como tal, mas porque eles não vivem aquilo que celebram: a união dos membros do Corpo de Cristo e o amor fraterno, que são dons exímios do Espírito de Deus para a edificação da Igreja. Os corintios procuram o próprio proveito e não se doam à semelhança de Jesus, que se entregou na última ceia e no seu amor até o fim.

Neste contexto, podemos ainda lembrar que São Paulo usa o termo “liturgia” geralmente no sentido de uma obra de caridade (Rm 15,27; 2Cor 9,12; Fl 2,25.29s) ou para o ministério do evangelizador (Rm 15,16; Fl 2,17). Neste último texto da carta aos Romanos São Paulo se apresenta como “’liturgo’ de Cristo Jesus para os gentios, a serviço do evangelho de Deus, a fim de que a oblação dos gentios se torne agradável, santificada pelo Espírito Santo” (Rm 15,16). São Paulo diz, portanto, que só pela ação do Espírito Santo também a “liturgia” da vida é um sacrifício agradável da Deus. Mas é precisamente nisso que São Paulo vê o último sentido da sua missão como da missão de todos os cristãos: “exorto-vos, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais vossos corpos como hóstia viva, santa e imaculada a Deus: este é o vosso culto espiritual” (Rm 12,1). E era exatamente esta a missão de Jesus, do Servo do Senhor, sobre o qual repousava o Espírito de Deus, para que evangelizasse os pobres. Foi este sacrifício espiritual que Jesus completou na cruz e que ele nos mandou viver na vida e celebrar na Liturgia.

3. O Espírito Santo na Liturgia ao longo da história

Não é possível neste artigo apresentar toda a história da consciência da Igreja sobre a presença e ação do Espírito Santo em sua liturgia. Dos primeiros tempos da Igreja, antes da formação das diferentes famílias litúrgicas, temos poucos documentos a esse respeito. Na patrística grega, no entanto, eles são freqüentes. As liturgias orientais que se formaram naquela época mostram uma forte pneumatologia. Mas na liturgia romana prevalece certo cristomonismo na teologia e espiritualidade em geral. Isso se observa particularmente na eclesiologia ocidental, que insistiu mais na dimensão cristológica e nos elementos institucionais, ao passo que deixou os elementos carismáticos em segundo pleno e apresentou a função do Espírito Santo como subalterna na obre de Cristo e como garantia da instituição. Tal cristomonismo observa-se também na doutrina sobre os sacramentos: eles devem ser instituídos por Cristo, neles Cristo e sua obra estão presentes. Nem há uma invocação explícita do Espírito Santo no cânon romano. Tudo isso dá a impressão de que existe grande falta de sensibilidade pneumatológica na teologia e na liturgia ocidental. Aliás, uma própria teologia litúrgica desenvolveu-se apenas em nosso século, no movimento litúrgico. Mas nem ela deixou de ser cristomonista. A melhor prova disso são a encíclica “Mediator Dei” do Papa Pio XII, de 1947, e a constituição do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia.

4. O Espírito Santo na Constituição do Vaticano II sobre a Liturgia

No esquema para a constituição conciliar (“Sacrosanctum Concilium”) sobre a liturgia, que a comissão preparatória tinha elaborado, o Espírito Santo era mencionado apenas três vezes, e, mesmo assim, muito rapidamente. Citando Ef 2,21ss, o artigo 2 disse: “A liturgia... edifica aqueles que estão na Igreja em templo santo do Senhor, em habitação de Deus no Espírito”. E o artigo 6, citando Rm 8,15: “Pelo batismo os homens recebem o espírito de adoção de filhos, no qual clamamos ‘Abba, Pai’”. Finalmente, no artigo 43, citando o Papa Pio XII: “A preocupação pelo incremento e renovação da liturgia é justamente considerada como uma passagem do Espírito Santo pela sua Igreja”,

Longe de quererem determinar a natureza da liturgia, essas afirmações supõem, no entanto, uma propriedade essencial da liturgia, que a liga com a ação do Espírito Santo. São suas duas componentes: a linha descendente e a linha ascendente, isto é, a ação salvífica de Deus e a resposta cultica da Igreja. A primeira é apenas insinuada, quando se fala da edificação em habitação de Deus no Espírito. A segunda é mais bem articulada pela constatação de que o Espírito de Deus nos capacita à glorificação de Deus.

Os padres conciliares, sobretudo os do Oriente, notaram e chamaram a atenção para o fato de que o Espírito Santo tinha sido quase esquecido no esquema da constituição sobre a liturgia. Isso aconteceu sobretudo porque o esquema era, nas suas afirmações teológicas, fortemente baseado na encíclica “Mediator Dei” do Papa Pio XII, na qual dominava uma visão cristológica da Igreja e da liturgia, enquanto o elemento pneumatológico estava quase ausente. No entanto, como já vimos, por essa via a encíclica e o esquema conciliar estavam bem dentro da tradição ocidental.

Na última hora o esquema conciliar foi corrigido por três acréscimos que tinham por objetivo dar um colorido pneumatológico à Constituição “Sacrosanctum Concilium”. Embora essa meta não tenha sido alcançada, deu-se forte aceno nesse sentido, especialmente com o terceiro acréscimo feito. No artigo 5, onde se fala da missão do Filho de Deus, inseriu-se “ungido pelo Espírito Santo”. No artigo 6, onde lemos que Cristo enviou os Apóstolos, acrescentou-se “cheios do Espírito Santo”. Evidentemente, os padres conciliares acharam importante salientar, para uma adequada compreensão da liturgia, que nela a Igreja exerce sua missão – como a exercia Jesus – no Espírito Santo.

O terceiro acréscimo, no fim do artigo 6 é o mais importante. Depois de ter falado da ação litúrgica da Igreja apostólica, o Concílio constata que desde pentecostes: “a Igreja jamais deixou de reunir-se para celebrar o Mistério Pascal: lendo tudo quanto nas Escrituras a Ele se referia, celebrando a Eucaristia... dando graças a Deus... para louvor de sua glória” – e aqui se acrescenta: “pela força do Espírito Santo”.

A Constituição sobre a Sagrada Liturgia foi o primeiro documento discutido e aprovado pelo Concílio Vaticano II. O Espírito Santo, entretanto, foi descoberto tarde demais para ter seu devido peso no primeiro documento conciliar. Durante a discussão dos demais documentos, Ele estava mais presente na consciência dos padres conciliares. Sem recuperar aquilo que foi omitido na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, o Concílio chegou a exprimir, algumas vezes explicitamente, a dimensão pneumatológica da Liturgia. Lemos, por exemplo, no artigo 50 da Constituição sobre a Igreja que na Liturgia “o Espírito Santo age sobre nós mediante os sinais sacramentais”. O artigo 5 – do decreto sobre os presbíteros diz primeiro que Cristo exerce na Liturgia o seu múnus sacerdotal em nosso favor “por meio do seu Espírito” e, mais adiante, continua dizendo: “na Santíssima Eucaristia está contido todo o bem espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa e pão vivo, que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo”.

Mesmo não tendo dado, em seus documentos, ao Espírito Santo o lugar que lhe compete na Liturgia, o Concílio Vaticano II abriu para Ele uma porta que não se fechou mais. Pelo contrário, na fase pós-conciliar, quando foram elaborados os novos livros litúrgicos, essa porta se abriu mais, de modo que podemos dizer que o Concílio também, a esse respeito, significou uma volta às fontes, às origens da liturgia cristã, que nasceu e se celebrou sempre, embora em nosso passado ocidental por muito tempo inconscientemente, pela força do Espírito Santo.

II. O Espírito Santo na Liturgia hoje

Antes de apresentarmos, nesta segunda parte, os resultados que os princípios e normas do Concílio Vaticano II surtiram com respeito à presença e ação do Espírito Santo conforme os novos livros litúrgicos nos diversos sacramentos e em outras celebrações

1. O Espírito Santo opera também hoje a Salvação na Liturgia...

a) ...como acontecimento histórico-salvífico


Como já foi mencionado quando refletimos sobre a origem da liturgia, o Vaticano II apresenta a Liturgia em primeiro lugar como um momento da história da salvação. A obra da salvação da humanidade, que teve seus prelúdios no Antigo Testamento, foi completada por Cristo Jesus, sobretudo pela sua morte e ressurreição (cf. SC 5). Ela não deve ser apenas anunciada, mas também celebrada na liturgia, para que possa ter seu efeito pela nossa aceitação. Deus respeita a liberdade das pessoas, de modo que não impõe a salvação a ninguém, mas a oferece, para que cada um possa aceitá-la ou não. Quem se abre para a ação de Deus e a aceita, é salvo.

Ora, toda a obra salvífica é realizada pela força do Espírito Santo. A Sagrada Escritura, sobretudo os profetas e o Novo Testamento não deixam duvidar disso. Mas essa mesma ação salvífica de Deus é celebrada na liturgia. Portanto, já é a ação do Espírito Santo que celebramos na liturgia; mas é também ele que possibilita que essa ação litúrgica seja para nós um fato salvífico. Como isso pode acontecer fica mais claro quando analisamos e tentamos entender o que é memória.

b) ...quando fazemos memória

Não basta simplesmente afirmar que um fato histórico se torna atual na celebração litúrgica. Também não é suficiente dar a esse fenômeno o nome de memória ou memorial. Devemos tentar compreender, na medida do possível, como isso pode acontecer, particularmente como tal atualização ou memória pode ter eficácia salvífica.

Temos precedentes claros na Bíblia. É, aliás, uma realidade que os cristãos herdaram do povo da antiga aliança. Quando os hebreus celebravam anualmente a festa da páscoa, o fato histórico passado do êxodo, da libertação do Egito, tornou-se presente para eles. O texto do Antigo Testamento mais eloqüente neste sentido é, sem dúvida, aquele do livro do Êxodo que manda celebrar a festa dos ázimos e diz: “Lembrai-vos deste dia em que saístes do Egito, da casa da escravidão, pois com mão forte Iahweh vos tirou de lá, e por isso não comereis pão fermentado. Hoje é o mês de Abibi, e estais saindo” (Ex 13,2s). o mesmo “hoje” ouviu-se da boca de Jesus na sinagoga de Nazaré, quando ele tinha lido o texto do profeta Isaías que começa assim: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres”, e então explicou: “Hoje se cumpriu aos vossos ouvidos esta passagem da Escritura” (Lc 4,18-21). Nos dois casos, o “hoje” se realiza numa celebração litúrgica, e, no segundo, São Lucas deixa claro que Jesus disse este “hoje” na força do Espírito do Senhor.

c) ...na liturgia da palavra

o que aconteceu na festa da páscoa dos hebreus e na sinagoga de Nazaré dá-se também quando nós proclamamos em nossas celebrações a Palavra do Senhor. A fé na presença de Deus que nos fala na proclamação das leituras bíblicas, já é expressada pela conclusão das perícopes “Palavra do Senhor”, e sua eficácia pela conclusão do evangelhos “Palavra da Salvação”. Mas como é que Deus se torna presente e a salvação acontece, quando proclamamos a Palavra de Deus? A antiga versão do cântico “A nós descei, divina luz...” no-lo explica. Ai pedimos cantando, na segunda estrofe: “Divino Espírito, descei, os corações vinde inflamar e as nossas almas preparar para o que Deus nos quer falar”. Ora, se o Espírito de Deus vem visitar o nosso coração, isso não é um acontecimento salvífico?

Que tal memória não é algo meramente subjetivo fica claro se consideramos o seguinte: quando ouvimos a proclamação das obras de Deus, abrimos com os nossos ouvidos também o nosso coração para Deus. E será que Deus nos deixaria abri-lo em vão? Não. Quando nós nos lembramos dele, ele se lembra de nós. Sua Palavra salvadora nos atinge realmente. Torna-se vida em nós, essa Palavra que é a segunda pessoa da Santíssima Trindade, Jesus Cristo, que veio e vem por obra do Espírito Santo. Seja neste momento permitido repetir: como pela descida do Espírito de Deus sobre Maria o Verbo Divino, a Palavra de Deus em pessoa, tornou-se viva no seio de Virgem, e como pela descida do Espírito Santo na Páscoa de Jesus, que se completou em pentecostes, nasceu a Igreja com a sua liturgia, assim o mesmo Espírito Santo torna viva e atuante na Igreja e em cada um de nós a Palavra de Deus, que também hoje é, na verdade, o Filho de Deus mesmo.

Do mesmo modo como na liturgia da Palavra o Espírito Santo opera a nossa salvação, assim também ele nos dá condições de dar nossa resposta de ação de graças e louvor ao Pai. Só porque o Pai nos santifica pelo seu Filho no Espírito Santo, podemos nos dirigir a ele “por nosso Senhor Jesus Cristo na unidade do Espírito Santo”.

d) ...e na liturgia sacramental

Se o Espírito Santo leva a efeito a obra da salvação já na proclamação ou celebração da Palavra, quanto mais o faz na celebração de um rito sacramental! O núcleo celebrativo dos sacramentos é uma proclamação das maravilhas operadas por Deus para a salvação da humanidade. Só que essa proclamação não acontece apenas em linguagem verbal, mas também simbólica. Seja lembrado, como que entre parênteses, que o Espírito Santo não é a Palavra de Deus que se encarnou, mas que se manifestou através de símbolos como o vento, o sopro, a pomba, a água e o fogo. Nos ritos centrais dos sacramentos se faz o pedido que venha o Espírito santificador especialmente através dos gestos, quase sempre pela imposição das mãos e freqüentemente pela unção. Tais gestos reforçam a oração que assim se torna mais plenamente humana, porque também corporal. As palavras, sobretudo aquelas que chamamos de fórmulas sacramentais ou essenciais, explicam os gestos, por exemplo, o banho da água no batismo, a unção na crisma e na unção dos enfermos, a entrega do pão e do vinho consagrados em comida e bebida na eucaristia, a imposição das mãos principalmente nos sacramentos da penitência e da ordem. O mesmo pode ser dito quanto aos ritos secundários de vários sacramentos, principalmente da imposição das mãos e das unções, também nos sacramentais – por exemplo, numa dedicação de igreja ou uma bênção de abade e abadessa, igualmente nas bênçãos do dia-a-dia, e não somente naquelas que são reservadas aos ministros ordenados.

Seria bom poder refletir com mais detalhes e profundidade particularmente sobre a epíclese na eucaristia e nos outros sacramentos e sacramentais, mas as reflexões propostas no quadro que agora está a nossa disposição parecem ser suficientes para nos mostrar como a ação do Espírito Santo em nossa liturgia é essencial para que nela possa ser levada a efeito a nossa salvação.

2. O Espírito Santo manifesta-se em inúmeros elementos da liturgia

Além dos ritos centrais das nossas celebrações litúrgicas e de alguns ritos secundários que acabamos de lembrar, inúmeras outras expressões verbais e simbólicas, e até mesmo o silêncio, mostram a presença e ação do Espírito Santo na liturgia. Mesmo sendo impossível enumerar todos esses elementos, alguns deles, lembrando à guise de exemplo, já nos mostram que toda a liturgia é um contínuo pentecostes.

a) Elementos verbais

Podemos começar esta parte da nossa reflexão recordando as palavras com as quais começamos geralmente as nossas celebrações: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Elas já exprimem e reforçam em nós a fé na presença e ação das três pessoas divinas que operam a salvação que estamos celebrando desde que o Espírito de Deus pairava sobre as águas, no inicio da criação que o Pai realizou pela sua Palavra, até o final dos tempos, quando “o Espírito e a esposa dizem: Vem, Senhor Jesus!” (cf. Ap 22,17-20), para que o Reino seja entregue ao Pai.
Muitas vezes quem preside uma celebração saúda a assembléia com as palavras finais da segunda carta de São Paulo aos Coríntios: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco” (2Cro 13,13). A última parte dessa saudação é uma verdadeira epíclese. E a assembléia confirma que Deus nos reuniu no amor de Cristo. É o amor de Cristo que o levou a evangelizar os pobres e a entregar sua vida por eles; quer dizer, o amor também do Pai, o amor em pessoa, que é o Espírito Santo, que pousou sobre ele; o mesmo “amor de Deus que foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5). Reparemos nessa saudação as palavras “comunhão do Espírito Santo”. Essa comunhão se pede mais explicitamente nas segundas epícleses das orações eucarísticas da liturgia romana atual. Na segunda oração eucarística, por exemplo, pedimos “que, participando do Corpo e do Sangue de Cristo sejamos reunidos pelo Espírito Santo num só corpo”.

b) Gestos

Como no caso dos elementos verbais, também dos gestos podemos lembrar somente um ou outro exemplo, além da imposição das mãos e da unção, que já foram analisadas brevemente. Não só a imposição das mãos, mas igualmente sua elevação exprime a ação do Espírito Santo. Como pela imposição das mãos pedimos que ele venha (de cima), assim pela elevação das mãos e dos braços abertos (para cima) nos dirigimos a Deus, ao Pai pelo Filho no Espírito Santo.

A prostração – que conhecemos sobretudo do rito das ordenações – é um antigo ritual, às vezes acompanhada por uma forma epiclética ou uma imposição das mãos. A genuflexão pode ser vista como uma expressão gestual da exclamação do apóstolo São Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28) ou daquela de São Paulo – dizendo podermos fazê-la somente no Espírito Santo “Jesus é o Senhor” (1Cor 12,3).

Da reunião em assembléia litúrgica já falamos brevemente ao analisar a saudação paulina do fim da 2ª carta aos Corintios. Na assembléia reunida podemos realmente ver um novo pentecostes, em que o Espírito Santo reuniu representantes dos mais diversos povos, de modo que todos eles entenderam os apóstolos falar em sua própria língua, uma inversão da torre de Babel, que dispersou a humanidade em povos com línguas diferentes e que não mais se entenderam. De fato, não há outras assembléias debaixo do sol em que se reúnem pessoas de origem e condição tão diferentes como numa assembléia litúrgica.

c) Objetos

O objeto que fala mais claramente do Espírito Santo é certamente o óleo (de oliva ou outro óleo vegetal), usado na liturgia como óleo dos catecúmenos, dos enfermos e do sagrado crisma. Como os gestos que mencionamos, também o óleo é um símbolo bíblico do Espírito Santo. Sobretudo o crisma exprime a presença do Espírito Santo sobre quem é ungido com ele (o batizado, o crismado, o ordenado), como o Espírito pousava sobre o Messias, o verdadeiro Ungido do Senhor.

O bálsamo que é acrescentado ao óleo na confecção e bênção do crisma, exprime o bom odor de Cristo (cf. 2Cor 2,15), que cada cristão ungido pelo Espírito Santo deve irradiar. O mesmo sentido pode ter a água de cheiro, usada sobretudo no Nordeste do Brasil. Também o incenso pode expressar, além da adoração e do sacrifício, o bom odor de Cristo e dos cristãos.

d) O silêncio

O silêncio na liturgia não é uma interrupção da celebração, uma pausa, mas antes um ponto culminante da participação plena na liturgia, o espaço da mais intensa comunhão de vida com Deus. Ele é marcante, por exemplo, nas ordenações. Em silêncio, o bispo impõe as mãos sobre os ordenandos. Tal silêncio é, da nossa parte, expressão da mais profunda disponibilidade para o Espírito Santo e, por outro lado, Deus fala no silêncio. Para ouvi-lo devemos calar. É sumamente conveniente fazer um momento de silêncio depois da proclamação das leituras bíblicas. Um silêncio prolongado depois da comunhão, quase no final da missa, para que pelo Espírito Santo possamos interiorizar o que ouvimos, saborear a comida e a bebida que Deus mesmo nos ofereceu. Só assim a Palavra de Deus ouvida e a comunhão recebida trarão frutos em nossa vida.

3. O Espírito Santo nos diversos sacramentos e celebrações

Memória da obra salvífica de Deus, especialmente da morte e ressurreição de Jesus Cristo, se faz em todos os sacramentos e nas demais celebrações litúrgicas, embora às vezes mais explícita e outras vezes mais implicitamente. Em todos os sacramentos, incluindo o matrimônio, temos epíclese. Trata-se de invocação do Espírito Santo, geralmente acompanhada ou precedida pela imposição das mãos.

Na missa, invocamos, em todas as orações eucarísticas, com exceção da primeira, duas vezes o Espírito Santo: imediatamente antes do relato da instituição com a imposição das mãos sobre o pão e o vinho, e, depois da anamnese e oblação, sobre a assembléia.

No batismo, o Espírito Santo é invocado sobre a água batismal. Mesmo se no tempo pascal se usa água abençoada na vigília pascal, reza-se um louvor sobre a água no qual se lembra a ação do Espírito Santo. O batismo mesmo se realiza em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Na unção pós-batismal com o óleo de crisma evoca-se mais uma vez a ação do Espírito Santo, lembrando o novo nascimento da água e do Espírito.

Na confirmação, o rito central consta de invocação, com a imposição das mãos sobre todos os crismandos, do Espírito Santo Paráclito, o Espírito de sabedoria e inteligência, de conselho e fortaleza, de ciência, de piedade e do temor de Deus. O rito essencial é a unção com óleo, acompanhado das palavras: “Recebe, por este sinal, o Espírito Santo, dom de Deus”.

Na penitência, impõem-se as mãos durante a absolvição e menciona-se que Deus enviou o Espírito Santo para a remissão dos pecados.

Nas ordenações, o rito central consta da imposição das mãos em silêncio e da oração consecratória, durante a qual se inova, por exemplo, para os diáconos, o Espírito Santo para o ministério conferido. Na ordenação do bispo unge-se ainda a cabeça do ordenado e do presbítero as mãos.

Na unção dos enfermos, o presbítero impõe as mãos, reza um louvor sobre o óleo dos enfermos abençoado pelo bispo, ou ele mesmo benze o óleo para a unção, em ambos os casos invocando o Espírito Santo, para depois ungir o enfermo pedindo que o Senhor lhe venha em auxílio com a graça do Espírito Santo.

Na celebração do matrimônio, pede-se na bênção nupcial que Deus envie sobre o casal a graça do Espírito Santo, para que, impregnado da caridade divina, permaneçam fiéis na aliança nupcial.

4. Ao longo do Ano Litúrgico

A presença e ação do Espírito Santo ao longo do Ano Litúrgico mereceria um estudo à parte. Mas alguns acenos já nos podem mostrar como o Espírito de Deus está sempre presente, desde a celebração da espera da sua primeira vinda, no advento, até a espera da sua volta na glória, no fim do Ano Litúrgico.

Antes de mais nada devemos lembrar que, durante todo o Ano Litúrgico, celebramos sempre a memória do Mistério Pascal de Jesus Cristo e de toda a obra da salvação. Esta salvação foi operada na força do Espírito. Vários momentos desta ação do Espírito na história de Deus com a humanidade são celebrados explicitamente durante o ano. Por exemplo, na anunciação do Senhor, que comemoramos também no advento, além da preparação da encarnação do Filho de Deus no Antigo Testamento, particularmente por meio dos profetas. Explicitamente festejamos a ação do Espírito Santo na história da salvação também na festa do batismo do Senhor. Nos primeiros domingos do tempo comum lembramos como Jesus, na força do Espírito, assumiu sua missão de evangelizar os pobres, de curar os doentes, de revelar a todos o amor do Pai para conosco – que é, em pessoa, ele mesmo, o Espírito de Deus.

No primeiro domingo da quaresma acompanhamos Jesus sendo tentado no deserto, para onde o conduziu o Espírito (cf. Lc 4,1). No segundo domingo da quaresma estamos com Jesus no monte Tabor, onde ele nos mostra a obra redentora completa, que se realizará também em nós. No terceiro, quarto e quinto domingos da quaresma do ano A acompanhamos os catecúmenos em sua caminhada para a páscoa, guiados também nós pelo Espírito, que se manifesta nos pontos altos do evangelho da samaritana, do cego de nascença e de Lázaro ressuscitado, anunciando-nos a obra do Espírito na água do batismo – a ser recebido pelos catecúmenos e renovado na noite pascal pelos já batizados.

No tríduo pascal, no tempo da páscoa e em pentecostes comemoramos a vinda do Espírito Santo sobre a Igreja nascente, vinda que se atualiza também em nossas celebrações.

Na segunda parte do tempo comum é o Espírito Santo que nos faz entender as Escrituras, que nos possibilita a comunhão com o Pai e nos fala através do seu Filho. E é no Espírito Santo que podemos sempre de novo dar a nossa resposta de filhos ao Pai, chamando-o de Abba, em nossas celebrações e em nossa vida, até que no fim do ano litúrgico o Espírito clama com a esposa, que somos nós, a Igreja: “Vem, Senhor Jesus!” (cf. Ap 20,17-20).

Também nas festas marianas, da mãe de Jesus, e dos outros santos e santas, celebramos a obra do Espírito Santo, que levou esses nossos semelhantes àquela santidade que só Deus, através do seu Espírito, pode operar.

No entanto, o Espírito Santo está presente ao longo do Ano Litúrgico não apenas como aquele que preparou e cooperou com Jesus Cristo na obra da salvação da humanidade; ele coopera também conosco de modo que haja verdadeira memória, atualização eficaz desta salvação na Igreja e no mundo. Pois é nele que nos atinge aquilo que comemoramos. É através dele que a obra da salvação é levada a efeito em nós.

5. O Espírito Santo na Piedade Popular

Embora o Concílio Vaticano II não tenha incluído a piedade popular na liturgia em sentido próprio, na realidade é difícil marcar claramente uma linha de divisa entre liturgia e piedade popular, sobretudo quando – como o faz o Concílio – consideramos os sacramentos como pertencentes à liturgia.

Sintomático é, nesse sentido, o documento final de Puebla, que trata da liturgia, da oração particular e da piedade popular num único capítulo.

Se lembrarmos a história, particularmente a origem das devoções populares como o terço e o anjo do Senhor, constatamos que elas surgiram como liturgia popular. Mais ainda, se levamos em conta o sentido e conteúdo dessas devoções, como poderíamos negar que aqueles que só nelas se sentem na presença e em comunhão com Deus, assim possam ser salvos? Tal negação não é possível, porque não podemos excluir que o Espírito Santo esteja presente e atuante também nas devoções populares. Isso importa mais do que saber se uma devoção merece ou não a qualificação de “liturgia”.

Quando começamos nossas orações ou nosso dia “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, ou quando concluímos em salmo ou outra oração com o “Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo”, quando assim nos abrimos para Deus por força do seu Espírito, ele está presente. Isso vale ainda mais quando no terço contemplamos os mistérios da encarnação, da paixão e morte e da glorificação do Senhor, quer dizer, a obra que realizou no Espírito. Por que ele estaria menos presente nessas orações devocionais do que na liturgia das horas, que elas queriam substituir? Uma razão é porque a liturgia das horas tinha-se tornado inacessível para o povo simples.

Qual a diferença qualitativa, por exemplo, da oração do hino “Vinde, Espírito Criador”, rezado por um leigo ou quando rezado por um ministro ordenado ou um monge, quando eles o rezam na liturgia das horas?

Não há motivo para duvidar de que o Espírito Santo esteja presente também em tais devoções e que ele santifica também esses devotos.

6. O Espírito Santo na vida que celebramos na liturgia

Agora não se quer dizer que toda a vida seja liturgia. Assim não usaríamos mais o termo “liturgia” no seu sentido próprio. Mas, como levamos a vida para dentro da liturgia, agradecendo aquilo que vivemos de bom e pedindo perdão por aquilo que omitimos ou não fizemos bem, como as nossas súplicas brotam dos nossos problemas, dificuldades e sofrimentos, assim a liturgia tem também sua repercussão na vida, se ela for autenticamente celebrada. A liturgia cristã não pode estar desligada da vida, já que Cristo na última ceia celebrou sua vida e morte e nos disse que devemos fazer o mesmo em memória dele. A liturgia é o ponto culminante para o qual tende toda a vida e ação da Igreja e ao mesmo tempo, é a fonte donde provém toda a sua força (cf. SC 10).
Não é sem razão que na própria liturgia se estabelece, às vezes, explicitamente um paralelo entre a ação do Espírito Santo na criação do mundo e a transformação do mundo em Reino de Deus, numa nova criação. Lembremos a esse respeito a reflexão tantas vezes repetidas na festa de pentecostes: Enviai, Senhor, o vosso Espírito, e tudo será criado, e renovareis a face da terra.

Quantos impulsos para o advento de um mundo novo surgem também em nossos dias das celebrações das nossas comunidades! Ou pensemos nos incentivos que nos são dados por João Paulo II, como o fizeram também seus antecessores! A fonte de tudo isso não estaria na liturgia?

7. O Espírito Santo na inculturação da liturgia

Menos ainda do que sobre os outros aspectos da presença e ação do Espírito Santo na liturgia, pode-se apresentar uma reflexão abrangente com respeito à inculturação. Certamente não podemos negar que o Espírito Santo tenha renovado a nossa liturgia também nas décadas pós-conciliares. Parece que isso vale ainda mais no Brasil do que em outras partes do mundo, embora os passos que se deram em nosso país para uma inculturação oficial sejam, por enquanto, tímidos.

Podem-se comparar as nossas celebrações de hoje às de antes do Concílio Vaticano II. Ou, então, as celebrações realizadas no Brasil – sobretudo as das Cebs -, com as liturgias da Europa e do norte da América. Pode-se perceber ai – para usar as palavras do Papa Pio XII a respeito do movimento litúrgico – “o passo do Espírito Santo na Igreja” aqui e agora.


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Depois do que refletimos sobre o Espírito Santo na liturgia, não podemos mais duvidar da presença do Espírito Santo em nosso coração, no coração da Igreja e do mundo, sobretudo quando estamos reunidos na celebração da liturgia. O dom de Deus por excelência, o Espírito Santo, e todos os seus dons, estão sendo derramados sobre aqueles que não se fecham diante dele. Também e sobretudo na liturgia podemos continuar nossa caminhada com o nosso grande defensor e consolador, cheios de esperança, pelo terceiro milênio adentro.

A Função da Beleza na Religião

Dietrich Von Hildebrand



A beleza desempenha importante papel no culto religioso. O ato mesmo de adoração à divindade encerra o desejo de envolver o culto com a beleza. Estigmatizar a preocupação com o belo no culto religioso como "esteticismo" — como fizeram recentemente, com crescente acrimônia, alguns católicos — é revelar uma concepção deformada do culto religioso e da natureza do belo.

É o que se vê claramente quando se considera a natureza do "esteticismo", em vez de se usar o termo apenas com slogan destruidor.

O esteticismo é uma perversão na maneira de considerar a beleza. O esteta saboreia coisas belas como quem saboreia vinho. Não as trata com o respeito e a compreensão do valor intrínseco que requer uma resposta adequada, mas como fontes de satisfação meramente subjetiva. Mesmo dotado de refinado bom gosto, mesmo que seja um notável connaisseur, o tratamento do esteta não pode fazer de maneira alguma justiça à natureza do belo. Acima de tudo, é indiferente a todos os demais valores inerentes ao objeto. Qualquer que seja o tema de uma situação, vê-o somente do seu ponto de vista da satisfação e do prazer estético. Não consiste sua falha em superestimar o valor da beleza, mas em ignorar os outros valores fundamentais, sobretudo os morais.

Tratar uma situação de um ponto de vista que não corresponde ao seu tema objetivo é sempre uma grande perversão. Por exemplo, é perverso que um homem trate de um drama humano que exige compaixão, simpatia e ajuda, como se fosse mero objeto de estudo psicológico. Fazer da análise científica o único ponto de vista em qualquer assunto é radicalmente antiobjetivo e até mesmo repulsivo; é desrespeitar e anular o tema objetivo. Além de ignorar qualquer ponto de vista que não seja o "estético" e qualquer outro tema que não seja o da beleza, o esteta também deforma a natureza real da beleza em sua profundidade e grandeza. Como já mostramos em outros livros, toda idolatria de um bem necessariamente exclui a compreensão de seu verdadeiro valor. A maior e mais autêntica apreciação de um bem somente é possível se o vemos em seu lugar objetivo na hierarquia dos seres, disposta por Deus.

Se alguém se recusasse a ir à missa porque a igreja é feia e a música medíocre, seria culpado de esteticismo, pois estaria substituindo o ponto de vista estético ao ponto de vista religioso. Antítese do esteticismo é apreciar a elevada função da beleza na religião, é compreender o legítimo papel que lhe cabe desempenhar no culto e o desejo das pessoas religiosas em revestir de grande beleza tudo o que se refere ao culto divino. Esta apreciação justa da beleza é até um crescimento orgânico da reverência, do amor a Cristo, do ato mesmo de adoração.

Infelizmente alguns católicos dizem, hoje, que o desejo de dotar de beleza o culto se opõe à pobreza evangélica. É um erro grave e que parece freqüentemente inspirado em sentimento de culpa por terem eles sido indiferentes às injustiças sociais e negligenciado os legítimos reclamos da pobreza. É então em nome da pobreza evangélica que nos dizem que as igrejas devem ser graves, simples, despojadas de todos os adornos necessários.

Os católicos que fazem essa sugestão confundem a pobreza evangélica com o caráter prosaico e monótono do mundo moderno. Deixaram de ver que a substituição da beleza pelo conforto, e do luxo que muitas vezes o acompanha, é muito mais antitético à pobreza evangélica do que a beleza — mesmo esta em sua forma mais exuberante. A noção funcionalista do que é supérfluo é muito ambígua, simples seqüela do utilitarismo. Contradiz as palavras do Senhor: Nem só de pão vive o homem. No livro Nova Torre de Babel, procuramos mostrar que a cultura é um bem superabundante, algo que necessariamente parece supérfluo à mentalidade utilitarista. Graças a Deus, esta não foi a atitude da Igreja e dos fiéis através dos séculos. São Francisco, que em sua própria vida praticou a pobreza evangélica ao extremo, jamais afirmou que as igrejas devessem ser vazias, despojadas, sem beleza. Pelo contrário, igreja e altar nunca seriam suficientemente belos para ele. Diga-se o mesmo de Cura d'Ars, São João Batista Vianney.

Acontece um ridículo paradoxo quando, em nome da pobreza evangélica, são demolidas e substituídas as igrejas mais preciosas artisticamente — e a que custo! — por igrejas prosaicas e monótonas. Não é a beleza e o esplendor da igreja, a casa de Deus, que são incompatíveis com o espírito de pobreza evangélica e que escandalizam o pobre; são muito mais o luxo e o conforto desnecessários, hoje tão em voga. Se o clero deseja retornar à pobreza evangélica, deve reconhecer que em regiões como nos Estados Unidos e na Alemanha o clero possui os carros mais elegantes, as melhores máquinas fotográficas, os aparelhos mais modernos de TV. Beber e fumar muito é, certamente, oposto à pobreza evangélica; mas não, decerto, a beleza e o esplendor das igrejas.

De um lado, afirmar-se que as igrejas deveriam ser despojadas, porém, ao mesmo tempo, paróquias e campus de escolas católicas estão levantando feios edifícios para assuntos sociais, dotados de todo tipo de luxo desnecessário. Isto é feito em nome de problemas sociais e do espírito de comunidade. Até mesmo nos conventos verifica-se desenvolvimento análogo. Essas novas estruturas não são apenas opostas à pobreza evangélica; criam, também, uma atmosfera tipicamente mundana. Cadeiras reclináveis e tapetes espessos com maciez não muito saudável. Esses edifícios reúnem, artificialmente, três propriedades negativas: dispendiosos (o que diretamente se opõe à pobreza evangélica), feios e convidativos a concessões pessoais, típicas da degeneração que, hoje, ameaça os homens.

Por vezes os argumentos iconoclastas tomam outra feição. Ouve-se, ocasionalmente, algum vigário dizer que a missa é algo abstrato e que as igrejas, especialmente o altar, deveriam ser despojados. Na verdade, a Santa Missa é um mistério surpreendente e que transcende a toda compreensão pela só razão, mas não é, absolutamente, abstrato.

Abstrato é algo especificamente racional; opõe-se a real, concreto, individual. O mundo do sobrenatural, a realidade revelada, transcende o mundo da razão, mas não implica nenhuma oposição ao real e ao concreto. É, pelo contrário, realidade definitiva e absoluta, se bem que invisível. A Missa é, assim, um epítome da realidade concreta, do nunc (agora), pois o próprio Cristo se faz verdadeiramente presente.

A força e o impacto existencial da Sagrada Liturgia têm suas raízes exatamente no fato de não ser abstrato e dirigir-se não só à nossa inteligência ou simplesmente à fé, mas, sobretudo, de falar, de inúmeras maneiras, à totalidade da pessoa humana. Imerge o fiel na sagrada atmosfera do Cristo, pela beleza e esplendor sagrado das igrejas, pelo colorido e beleza das vestimentas, pelo estilo de linguagem e sublimidade musical do Cantochão.

Católicos progressistas dizem, às vezes, que aqueles que combatem a iconoclastia, se ocupam do "inessencial".

De fato, não é essencial que seja bonita a igreja, onde se celebra a Santa Missa e distribui a Comunhão aos fiéis. São essenciais apenas as palavras que perfazem a transubstanciação. Sendo este o sentido da frase, nada objetaremos. Se o termo "inessencial" significar "sem significação", então se está querendo dizer que coisas como a beleza das igrejas, a Liturgia e a música são "triviais" e a acusação é completamente errada, porque existe uma relação profunda entre a essência de alguma coisa e sua expressão adequada. A respeito da Santa Missa esta observação é particularmente verdadeira.

O modo como é apresentado esse mistério, sua visível manifestação, desempenha papel definido e não pode ser considerado sujeito a mudanças arbitrárias, apesar de ser incomparavelmente mais importante aquilo que se expressa do que sua expressão. Se bem que o tema efetivo da Missa seja tornar presente o mistério do Sacrifício de Cristo na Cruz e o Mistério da Eucaristia, deve-se dar grande peso à atmosfera sagrada criada pelas palavras, ações, acompanhamento musical e igreja onde se celebra. nada disso pode ser considerado de interesse meramente estético.

Contrapõe-se a todo esse menosprezo gnóstico do conteúdo e da forma externa o princípio especificamente cristão de que as atitudes espirituais devem encontrar também expressão adequada na conduta do corpo, nos seus movimentos e no estilo de nossas palavras. A Liturgia inteira está penetrada desse princípio. Analogamente, o salão e o edifício onde se desenrolam cerimônias sagradas devem irradiar uma atmosfera que lhe corresponda. É certo que a realidade dos mistérios nada sofre se a sua expressão for inadequada. Há, contudo, um valor específico em dar-lhe expressão adequada.

Como se erra, portanto, ao considerar a beleza das igrejas e da Liturgia como coisas que nos podem distrair e afastar do tema real dos mistérios litúrgicos para algo superficial! Quem diz que igreja não é museu e que o homem realmente piedoso é indiferente a essas coisas acidentais, apenas revela sua cegueira à magnífica função desempenhada pela expressão adequada (e bela). Em última análise, trata-se de uma cegueira à própria natureza humana. Mesmo que essas pessoas se proclamem "existencialistas", continuam muito abstratas. Esquecem que a beleza autêntica encerra mensagem específica de Deus, que nos eleva as almas. Como dizia Platão: "À vista da beleza, crescem asas às nossas almas". Mais ainda: da beleza sagrada relacionada à Liturgia nunca se afirma que seja temática, como nas obras de arte; pelo contrário, como expressão, têm a função de servir. Longe de obnubilar ou de se substituir ao tema religioso da Liturgia, ajuda a torná-lo fulgurante.

Valor não é sinônimo de "ser indispensável". O princípio básico da superabundância em toda a criação e em todas as culturas manifesta-se, exatamente, nos valores não indispensáveis a certa finalidade ou tema. A beleza da natureza não é indispensável à economia da natureza. Nem a beleza da arquitetura é indispensável para nossas vidas. Mas, o valor da beleza, na natureza e na arquitetura não é diminuído pelo fato de ser um dom, que de muito transcende a mera utilidade. Desse modo, a beleza é importante não só quando é ela mesma o tema (caso da obra de arte), mas também quando a serviço de outro tema. Destacar que a Liturgia deve ser bela não é colorir religião com tratamento estético. A aspiração pela beleza, na Liturgia, nasce do sentido do valor específico que se apóia na adequação da expressão.

A beleza e a sagrada atmosfera da Liturgia são algo não só precioso e valioso por si mesmo (na qualidade de expressões adequadas dos atos religiosos de adoração), mas são, também, de grande importância para o desenvolvimento espiritual das almas e dos fiéis. Repetimos: aqueles que, no movimento litúrgico, têm insistido na afirmação de que orações e hinos cansativos denominam o ethos religioso dos fiéis, apelando para o que no interior humano está longe do que é religioso, lançam-no em uma atmosfera que obscurece e embaça o semblante de Cristo. É de enorme importância a beleza sagrada para a formação do verdadeiro ethos do fiel. No livro Liturgia e Personalidade, falamos em detalhe da função profunda da Liturgia em nossa santificação, sem sacrifício de ser o culto de Deus seu tema central. Na Liturgia louvamos e agradecemos a Deus, associamo-nos ao sacrifício e à prece do Cristo. Convidando-nos a orar a Deus com o Cristo, a Liturgia exerce papel fundamental em nossa transformação em Cristo. Esse papel não se restringe ao aspecto sobrenatural da Liturgia. Integra, também, sua forma, a sagrada beleza que toma corpo nas palavras e na música da Santa Missa ou do Ofício Divino. Desprezar esse fato é sinal de grande primitivismo, mediocridade e falta de realismo.

Um dos maiores objetivos do movimento litúrgico tem sido o de substituir orações e hinos inadequados por textos sagrados das preces litúrgicas oficiais e pelo Canto Gregoriano. Assistimos, hoje, a uma deformação do movimento litúrgico quando muitos tentam substituir os sublimes textos latinos da Liturgia por traduções nativas, com gírias. Chegam mesmo a mudar, arbitrariamente, a Liturgia no intuito de "adaptá-la aos nossos tempos". O Canto Gregoriano vai dando lugar, na melhor hipótese, à música medíocre, quando não ao jazz ou ao rock and roll. Essas grotescas substituições empanam o espírito de Cristo incomparavelmente mais do que o fizeram certos tipos antigos e sentimentais de devoção. Esses eram inadequados. Aqueles, além de inadequados, são antitéticos à sagrada atmosfera da Liturgia. É mais do que uma deformação; isso lança o homem em uma atmosfera tipicamente mundana. Apela no homem para algo que o torna surdo à mensagem de Cristo.

Mesmo quando se substitui a beleza sagrada, já não pela vulgaridade profana, mas por abstração neutra, incorre-se em sérias conseqüências para as vidas dos fiéis, pois, como indicamos, a Liturgia católica se dirige à personalidade total do fiel. O fiel não é atraído ao mundo de Cristo apenas por sua crença ou por símbolos estritos. São levados a um mundo mais alto pela beleza do altar, pelo ritmo dos textos litúrgicos, pela sublimidade do Canto Gregoriano ou por músicas verdadeiramente sacras, tais como a Missa de Mozart ou de Bach. Até mesmo o perfume do incenso tem função significativa, nesse sentido. O emprego de todos os canais capazes de introduzir-nos no Santuário é profundamente realista e profundamente católico. É autenticamente existencial e realiza função notável em ajudar-nos a elevar nossos corações.

Se é verdade que considerações de cunho pastoral poderão recomendar como desejável o uso do vernáculo, o Latim da Missa — na missa silenciosa, dialogada e, especialmente, cantada com o Gregoriano — jamais deveria ser abandonado. Não se trata de guardar o latim de Missa por certo tempo até que os fiéis se habituem à missa em vernáculo. Como a Constituição da Sagrada Liturgia claramente determina, é permitido o uso do vernáculo, mas a Missa em Latim e o Canto Gregoriano conservam toda sua importância. Foi essa a intenção do motu proprio de São Pio X, que afirmou ser o Latim da missa, como o Canto Gregoriano, responsável também pela formação da piedade dos fiéis, através da atmosfera sagrada e única gerada por sua dicção. Assim, os anseios de muitos católicos e do movimento Una Voce não se dirigem contra o uso do vernáculo, mas contra a eliminação da Missa em Latim e do Canto Gregoriano. Eles apenas estão pedindo que se cumpra, realmente, a Constituição da Sagrada Litugia.

Contudo, certos católicos de hoje manifestam o desejo de mudar a forma exterior da Liturgia, adaptando-a ao estilo de vida de nossa época dessacralizada. Esse desejo denota cegueira com relação à natureza da Liturgia, bem como ausência de respeito reverencial e gratidão pelos dons sublimes de dois mil anos de vida cristã. Acreditar que as formas tradicionais podem ceder o lugar a algo melhor é dar provas de uma ridícula auto-suficiência. E esse conceito é particularmente incongruente nos que acusam a Igreja de "triunfalismo". De um lado, eles consideram falta de humildade a Igreja proclamar que Ela só é detentora da plena revelação divina (em vez de perceber que essa proclamação se fundamenta da natureza da Igreja e decorre de sua missão divina). De outro lado, demonstram ridículo orgulho quando simplesmente assumem que nossa época moderna é superior às anteriores.

Podem-se ouvir, hoje, razões de protesto declarando, por exemplo, que o texto do Glória e de outras partes da Missa estão repleto de expressões cansativas de louvor e glorificação a Deus, quando deveriam fazer mais referências a nossas vidas. É um contra-senso que revela como tinha razão Lichtemberg ao dizer que, se fosse dado a um macaco ler as epístolas de São Paulo, ele veria sua própria imagem refletida nelas. Admiram-se os nossos "teólogos" modernos não apresentarem, dentro em breve, uma nova versão do "Pai Nosso", como o fez Hitler. O "Pai Nosso" claramente enfatiza o primado absoluto de Deus, tão distante da mentalidade típica moderna. Um único pedido diz respeito ao bem-estar terrestre: "o pão nosso de cada dia"... O restante diz respeito ao próprio Deus, a seu Reino, a nosso bem-estar eterno.



(Extraído de "Cavalo de Tróia na Cidade de Deus". Publicado em PERMANÊNCIA, Nos. 142-143 Set-Out. 1980)