quinta-feira, 14 de julho de 2011

A LITURGIA COMO AÇÃO INCULTURADA
(Inculturação da Liturgia)

Pe. Cristiano Marmelo Pinto



1. A LITURGIA COMO AÇÃO DE DEUS E DA IGREJA

A liturgia está no campo da ação (urgia). A liturgia é ação. É ação de Deus que se mantém fiel à sua Aliança com o povo. Ação de Deus que nos liberta, transforma, santifica. Deus está sempre agindo em favor de seu povo. Sua maior ação (lit-urgia) foi nos ter enviado seu Filho Jesus para nos salvar.

Mas a liturgia é também ação do povo cristão, que responde prontamente a Deus, prestando a ele o verdadeiro culto em espírito e verdade (cf. Jo 4,23-24). Ela é resposta à própria ação de Deus. Por isso, há na ação litúrgica um duplo movimento: da parte de Deus (movimento descendente), que vem ao encontro de seu povo para santificar e transformar, e da parte do povo cristão (movimento ascendente) que responde através das ações litúrgicas a Deus. Como afirma o Documento de Puebla “A liturgia, como ação de Cristo e da Igreja, é o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo; é o ápice e a fonte da vida da Igreja” (PUEBLA, 918).

1.1. LITURGIA COMO AÇÃO DE DEUS

A liturgia é ação de Deus, como já foi dito. Ela é ação simbólica que nos faz participar do mistério de Deus. “Liturgia é comunhão e participação na vida e no mistério de Deus Pai, Filho e Espírito Santo” (PALUDO, 1996). A iniciativa na liturgia é sempre de Deus. É o Pai quem nos convoca, o Filho quem nos congrega e se dirige ao Pai em nosso favor, e o Espírito Santo nos transforma em oferendas vivas ao Pai.

A liturgia é ação de Jesus Cristo e, Jesus Cristo é a perfeita ação do Pai. Em Jesus o projeto de Deus de nos salvar é levado ao seu pleno cumprimento. Jesus é ação do Pai:

a) Através de sua vida;
b) Através de seus gestos e palavras;
c) Através de sua opção preferencial pelos pobres;
d) Através de sua entrega total no mistério de sua paixão, morte e ressurreição.

Com efeito, o Constituição Conciliar sobre a renovação da liturgia Sacrosanctum Concilium afirma que “Cristo age sempre e tão intimamente unido à Igreja, sua esposa amada, que esta glorifica perfeitamente a Deus e santifica os homens” (SC 7) . No final do presente artigo, o documento diz “toda celebração litúrgica, pois, como obra de Cristo sacerdote e de seu corpo, a Igreja, é ação sagrada num sentido único, não iguala em eficácia nem grau por nenhuma outra ação da Igreja” (SC 7) .

A liturgia é também ação do Espírito Santo que nos reúne, nos faz participar e rezar. Ele é o grande animador da celebração litúrgica. É o Espírito Santo quem faz com que a liturgia seja uma ação conjunta, ou seja, ação do Pai, ação de Cristo e ação da Igreja. Podemos afirmar que na ação litúrgica cada gesto, cada palavra, cada celebração, cada pessoa e/ou comunidade é um sinal da presença e da ação do Espírito Santo.

1.2. LITURGIA COMO AÇÃO DA IGREJA

A liturgia é também ação da Igreja, povo de Deus, que se reúne para celebrar o mistério de sua fé. Ela é resposta da Igreja ao apelo de Deus que quer a todos salvar. Ela é resposta a Cristo que nos convoca e também ao Espírito Santo. A Igreja se reúne para celebra, para render graças a Deus que age em favor de seu povo.

A liturgia é ação de pessoas que, animadas por sua vida de fé, buscam viver em comunidade, ou seja, a liturgia é ação da Igreja, reunida em assembléia litúrgica, movida pela sua fé (cf. SC 26). A liturgia é ação do povo de Deus, é um fazer, um agir em conjunto. Ela é ação em que a comunidade (assembleia litúrgica) é o sujeito. O que fundamenta a participação e ação de todo o povo de Deus na ação litúrgica é o batismo. Pelo batismo recebemos o sacerdócio comum a todos que nos torna capazes de reconhecer, adorar e honrar a Deus que é nosso Pai.

Porém, a liturgia não é ação de uns pouco, é de todos. A Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium afirma que “as ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, sacramento da unidade [...] São, pois, ações de todo o corpo da Igreja” (SC 26) . A comunidade constitui a base de toda ação litúrgica respondendo a ação convocatória do Pai, por Cristo no Espírito. É uma ação conjunta que supõe:

a) Sentir-se convocado por Deus, ou seja, toda ação litúrgica começa por uma convocação para a reunião, o encontro de pessoas;
b) Participação consciente e ativa, ou seja, a participação consiste na integração da pessoa na assembleia litúrgica, formamos um corpo, o corpo do Senhor. A pessoa deve inserir-se num agir comunitário;
c) Agir corresponsável – significa que a ação litúrgica requer corresponsabilidade de todos na assembleia. Todos devem tomar parte nas ações litúrgicas fazendo com empenho.

A ação litúrgica da Igreja não é uma ação desordenada. Ela é um espaço onde se manifesta os dons e carismas do Espírito Santo e se desenvolvem como serviço para a edificação do corpo de Cristo, que é a Igreja. Estes serviços nas ações litúrgicas se transformam em ministérios, funções e ofícios. O Espírito Santo distribui seus dons e carismas para o bem comum de todos. Os ministérios e outros serviços prestados na ação litúrgica não são propriedade de ninguém, mas dom para toda a comunidade. A assembleia litúrgica é uma realidade ministerial, onde cada um executa sua ação ministerial específica para o bem do conjunto.

2. A LITURGIA COMO AÇÃO INCULTURADA

Quando falamos da liturgia como ação, esta ação se dá por meio de gestos, palavras, sinais, símbolos, silêncio, etc. É uma ação concreta e contextualizada numa determinada realidade, numa cultura concreta. A ação de Deus é uma ação encarnada, assim como a ação litúrgica é uma ação encarnada numa cultura específica. Se Deus optou por ter um rosto entre nós, também a liturgia precisa ter um rosto, um jeito, precisa ser situada historicamente. É neste sentido que falamos que a liturgia é uma ação inculturada.

A liturgia cristã, ao se formar, passou por um longo processo de inculturação de elementos culturais dos lugares onde a fé cristã se fazia presente. A liturgia não nasce como algo totalmente novo, mas tendo suas raízes na herança judaica sinagogal, ela vai incorporando elementos das culturas que estavam em harmonia com a fé e a tradição. Também acontece um processo de exclusão de tudo o que não era compatível com a fé cristã. Todo o processo de inculturação da liturgia acontece pelo método da assimilação e reinterpretação dos ritos, sinais, símbolos, gestos, etc. conferindo a estes um novo significado a partir da fé em Jesus Cristo. Recebem elementos cristãos.

A incorporação de elementos cultuais e culturais de diversas culturas começa dentro do judaísmo e logo atinge o mundo helênico. De uma postura inicialmente rígida, aos poucos os cristãos passam a assumir elementos da cultura pagã à liturgia.

Após o edito de Milão a liturgia sofre profundas influências da cultura romana. Antes os cristãos se reunião nas casas (domus eclesiae). Com o edito, as celebrações passam para as basílicas romanas. O rito romano se enche de solenidade. Os cerimoniais pontificais eram adaptações dos cerimoniais da corte. A Igreja institui suas festas litúrgicas em substituição às festas pagãs, etc.

Não pretendemos abordar todo o processo da formação da liturgia cristã nos primeiros séculos do cristianismo, pois não é nosso objetivo nesta reflexão. Mas levantamos alguns elementos para percebermos que a liturgia cristã se forma tendo como base a cultura onde a fé se torna presente. Este processo é contínuo, de modo que ainda hoje é necessário que a liturgia seja inculturada às diversas realidades dos diferentes povos onde a fé cristã está presente. É neste sentido que o Concílio Vaticano II pretendeu reformar toda a liturgia da Igreja, para facilitar o processo de inculturação da mesma aos diferentes povos e culturas. “A Igreja não pretende impor a uniformidade litúrgica. [...] Interessa-lhe manter e incentivar as riquezas e os dons das diversas nações e povos” (SC 37) .

A reforma da liturgia e principalmente com o retorno à liturgia romana clássica, ou seja, aquelas que os cristãos de Roma celebravam nos primeiros séculos do cristianismo, serviu para que sobre esta base sólida, pudesse ser incorporado elementos das diferentes culturas, enriquecendo a própria liturgia e dando a ela um rosto específico em cada lugar onde se celebra, desde que o que é substancial à liturgia, ao rito romano, não seja ferido. Assim se expressa a Constituição Conciliar: “Mantida a unidade substancial do rito romano, admite-se, na própria revisão dos livros litúrgicos, legítimas variações e adaptações aos diversos grupos, regiões e povos, principalmente nas missões” (SC 38).

3. AS TENTATIVAS DE REFORMA DA LITURGIA ROMANA

O Concílio Vaticano II empreendeu uma profunda reforma da liturgia romana. Para isto foi buscar na liturgia romana clássica sua forma mais pura para reformar toda a liturgia. Houve várias tentativas de reforma da liturgia ao longo da história da Igreja e da própria liturgia. De modo que temos as reformas dos papas Gregório VII, conhecida como reforma gregoriana, Inocêncio III e a própria reforma do Concílio de Trento que, embora tendo seus saldos positivos, terminou por engessar a liturgia romana, não permitindo nenhuma adaptação posterior a ele.

O Concílio de Trento tinha como principal preocupação impedir os abusos que estavam ocorrendo na liturgia e que eram alvos de constantes críticas dos reformadores protestantes, porém não conseguiu devolver à liturgia seu caráter mais primitivo de simplicidade, clareza, sobriedade, etc. A reforma do Concílio de Trento não conseguiu alcançar a liturgia no seu período clássico, mas deu continuidade à tradição medieval. A liturgia continuou algo privado e sem a participação do povo. O ponto negativo de Trento foi que caiu no fixismo e no rubricismo litúrgico.

No ano de 1786 aconteceu o chamado Sínodo de Pistóia que propôs uma reforma da liturgia em que se procurava voltar ao autêntico espírito e forma mais clássica e pura da liturgia romana. Infelizmente não obtiveram muito êxito, porém, ao que nos parece, este Sínodo pode ter sido o advento do que mais tarde, no início do século XX, vem a ser o movimento litúrgico.

O movimento litúrgico propôs um retorno à liturgia romana clássica, através de pesquisas históricas e teológicas sobre a tradição litúrgica. O papa Pio XII descreve este movimento como sinal da providência de Deus no nosso tempo, como um movimento do Espírito Santo na Igreja. Foi graças ao movimento litúrgico que o Concílio Vaticano II pôde abrir as portas da Igreja para uma verdadeira reforma e adaptação da liturgia e redigir seus princípios. O objetivo do movimento litúrgico é alcançado pelo Concílio Vaticano II que procura voltar à simplicidade original da liturgia e à clareza do rito Romano, possibilitando sua adaptação às mais diversas culturas e tradições dos povos. É sobre esta base que podemos falar de inculturação da liturgia a partir da reforma litúrgica empreendida pelo Concílio Vaticano II.

4. A INCULTURAÇÃO DA LITURGIA NO CONCÍLIO VATICANO II

O retorno da liturgia romana clássica foi extremamente importante para o processo de inculturação da liturgia, pois o Concílio queria oferecer um modelo litúrgico, uma editio typica (edição típica), caracterizada pela sobriedade, simplicidade e clareza do rito romano, para que sobre esta base fossem realizadas as adaptações da liturgia romana conforme os costumes culturais de cada povo. Embora a inspiração da reforma fosse o período clássico da liturgia romana, alguns elementos posteriores permaneceram, de modo que podemos afirmar que a liturgia reformada do Concílio Vaticano II não foi totalmente pura, mas permanecendo elementos da liturgia de Pio V, da Idade Média, do período carolíngio e não apenas os elementos do período clássico da liturgia. Mas devemos olhar com naturalidade este fato. Não é possível eliminar por completo os períodos anteriores. “A restauração da forma clássica implicava devolver à liturgia as características próprias da celebrada em Roma [...] a saber: simplicidade, sobriedade, brevidade, praticidade e clareza” (RUSSO, 2007).

Podemos distinguir o processo de adaptação da liturgia empreendido pelo Vaticano II em duas etapas: a primeira que consiste na elaboração da editio typica (edições típicas) dos livros litúrgicos, fase esta já terminada, e a segunda que é o processo de adaptação dessa forma typica às várias culturas e necessidades pastorais. Nós estamos nesta segunda fase.

4.1. A SACROSANCTUM CONCILIUM E A INCULTURAÇÃO DA LITURGIA

O Concílio Vaticano II não usa o termo inculturação, mas fala de adaptação. Este conceito é posterior ao Concílio. Ele trata da adaptação da liturgia nos artigos 37-40 da Constituição Conciliar sobre a Liturgia Sacrosanctum Concilium. Estes números fazem parte de toda a seção e tratam da reforma da liturgia, que vai do artigo 21 ao 40. “Este bloco compreende três partes: a) introdução (= SC 37); b) a segunda parte (= SC 38-39) referente às variações legítimas dentro do rito romano, e finalmente c) a terceira parte (= SC 40) referente às adaptações mais profundas da liturgia” .

a) Princípios gerais da adaptação (SC 37)

O artigo 37 da Sacrosanctum Concilium começa dizendo que o Concílio não pretende impor uma uniformidade na liturgia. Ele mostra-se flexível diante dos elementos culturais que possam contribuir com a fé cristã. “O pluralismo proposto é de natureza cultural” (CHUPUNGCO, 1992). A Igreja propõe o rito romano (editio typica) como base para a adaptação. As igrejas podem admitir elementos das culturas desde que se harmonizem com o autêntico espírito da liturgia. Deste modo, este artigo fixa condições para a admissão desses elementos na liturgia. Adaptação litúrgica é, portanto, a admissão de elementos tirados das culturas e adaptados à liturgia para o bem do grupo particular . Enquanto a SC 4 fala dos ritos já reconhecidos, a SC 37 vai além, e fala dos novos ritos que possam surgir, tendo como base o rito romano.

b) Primeiro grau de adaptação (SC 38-39)

Estes dois artigos falam das diversidades legítimas no rito romano, desde que salve a unidade substancial. Esta unidade substancial é garantida pelos livros litúrgicos oficiais, onde são apontados os casos de adaptações. Essas adaptações não afetam nem a estrutura fundamental nem a inspiração do rito romano. As adaptações não equivalem somente às partes externas da liturgia, mais também ao rito, a estrutura e ao texto, desde que esteja prescrito nos livros. Refere-se aos sacramentos, sacramentais, procissões, língua litúrgica, música sacra e arte litúrgica (cf. SC 39).

SC 38 enumera as diversas ordens a que se deve adaptar a liturgia: os vários grupos étnicos, regiões e povos, principalmente em terras de missão. A adaptação supõe neste caso, a possibilidade de variações na mesma região.

c) Segundo grau de adaptação (SC 40)

O objetivo deste artigo é de aplicar à liturgia o princípio de adaptação nas atividades missionárias. Mais o texto final permite que também nas igrejas locais fora das terras de missão possam ser feitas adaptações. SC 40 faz referência a uma adaptação mais profunda na liturgia. Por exemplo, nos livros litúrgicos. Este artigo propõe o procedimento para este tipo de adaptação: o primeiro as conferências episcopais propõe a Santa Sé para aprovação; o segundo, admite o que é essencialmente necessário e depois apresenta para a Santa Sé aprovar; o terceiro propõe a assistência de peritos e especialistas.

Tanto a SC 37 quanto a SC 40 falam de elementos culturais que podem ser admitidos na liturgia: tradições, costumes, temperamentos e índole, qualidades e dotes de espírito dos vários povos. Enquanto SC 38-39 prevê que o rito seja adaptado as culturas, SC 40 considera a possibilidade de admitir elementos das culturas na liturgia romana.

5. ADAPTAÇÃO, ACULTURAÇÃO E INCULTURAÇÃO

Depois de refletido os princípios da adaptação litúrgica que o Concílio Vaticano II propôs, agora precisamos clarear o que vem a ser de fato a inculturação da liturgia. Podemos distinguir três etapas da reforma da liturgia romana: adaptação, aculturação e inculturação.

a) A primeira etapa refere-se à adaptação da liturgia romana nas diferentes culturas. Temos neste processo a passagem do latim para a língua vernácula e as edições típicas (editio typica) dos livros litúrgicos com suas traduções. O resgate da liturgia romana clássica servirá de base para todo o processo.

b) A segunda etapa podemos chamar de aculturação, ou seja, o processo de encontro de duas culturas, de interação cultural. Refere-se ao encontro da liturgia romana com as diversas culturas. Para alguns autores este seria o primeiro passo para a inculturação. É o processo em que se faz um estudo comparativo entre a liturgia romana e os elementos culturais correspondentes. Conforme a SC, as conferências episcopais “decidirám com competência e prudência o que se pode e é oportuno admitir no culto divino” .

"A aculturação litúrgica é a interação entre a liturgia romana e a cultura local. Ela consiste em estudar os elementos culturais que possam ser assimilados e em estabelecer o método para assimilá-los de acordo com as leis intrínsecas que governam tanto o culto cristão quanto a cultura [...] A aculturação é uma abordagem inicial que necessita ser completada pelo processo de inculturação" (CHUPUNGCO, 1992).

c) A terceira etapa é o que propriamente chamamos de inculturação. A inculturação é um processo pelo qual um rito, símbolos, gestos, etc., passam a ser dotado de um significado cristão. A estrutura original do rito é mantida, bem como os elementos rituais e celebrativos, porém modifica-se o significado. Podemos dizer que pelo processo de inculturação a liturgia passa a ter o rosto de cada povo.

6. O QUE É INCULTURAÇÃO DA LITURGIA?

Depois do Concílio Vaticano II, o tema da inculturação adquiriu status nas discussões da Igreja, passou a ser um elemento importante na transmissão do Evangelho. Como já vimos a inculturação da liturgia não é algo novo, mas dinâmico. A história da liturgia nos dá bons exemplos de como este processo sempre foi presente tanto na formação da liturgia romana como no seu desenvolvimento histórico. “A inculturação pode ser descrita como o processo pelo qual os textos de ritos usados no culto pela Igreja local estão de tal modo inseridos na estrutura da cultura, que absorvem seu pensamento, sua linguagem e seus modelos rituais” (CHUPUNGCO, 1992). A inculturação da liturgia consiste pois na inserção da liturgia romana em determinada cultura e na assimilação de seus elementos culturais (ritos, símbolos, gestos, linguagem, festas, música, arquitetura...), de modo que a liturgia passa a ter o jeito de quem a celebra.

A inculturação da liturgia não consiste em inventar algo novo, mas na admissão de elementos culturais no interior da liturgia, de modo que, a liturgia não seja algo estranho a nenhum povo. Os elementos fundamentais da liturgia permanecem, o que modifica é o jeito de pensar, a linguagem, sua ritualidade, etc., ou seja, os elementos externos, aqueles que são passíveis de mudanças. Como afirma a Constituição Conciliar sobre a Liturgia “há, na liturgia, uma parte imutável, de instituição divina, e outras sujeitas a modificações, que podem e devem variar no decurso do tempo” (SC 21).

Pela força da natureza da liturgia, os elementos culturais a serem assimilados devem submeter-se a uma avaliação crítica, de modo que estejam em harmonia com o verdadeiro espírito da liturgia. Outras manifestações culturais tais como: transe, hipnose, etc. não são compatíveis com a liturgia cristã. Estes elementos devem ser deixados de fora. “A inculturação litúrgica deve levar em consideração não só a doutrina da fé, mas também as exigências da liturgia cristã” (CHUPUNGCO, 1992).

Todo processo de inculturação comporta alguns riscos. Mesmo que o Concílio recomenda prudência, certos riscos sempre aparecerão. Faz parte do processo de inculturação da liturgia. Por isso a necessidade de se estudar profundamente os elementos culturais para averiguar se eles são compatíveis com a mensagem do Evangelho e com a natureza própria da liturgia cristã, para então ser admitido seu uso na liturgia. Mas, a respeito destes riscos falaremos mais adiante.

7. A CRIATIVIDADE NA INCULTURAÇÃO DA LITURGIA

Uma questão freqüente, que pode gerar confusão, é a respeito da criatividade na liturgia. Por criatividade não entendemos como que tirar do nada alguma expressão e introduzir à liturgia sem nenhuma ligação ou nexo com o que está sendo celebrado, e o que é pior, com a própria natureza da liturgia. Não se deve introduzir elementos estranhos à liturgia. “No processo de inculturação, os elementos da cultura que não conseguem harmonizar-se com a regra da fé, da moralidade e do culto cristão deverão ser deixados de lado” (CHUPUNGCO, 1992). Acertadamente Alberto Beckhäuser diz que “por criatividade não se deve entender tirar como que do nada expressões litúrgicas. A verdadeira criatividade é orgânica. Está ligada aos ritos precedentes” (BECKHÄUSER, 2004).

A criatividade em primeiro lugar consiste em celebrar bem a liturgia. Saber dar vida aos textos litúrgicos, para não se tornarem “letras mortas”. Como já afirmamos acima, não consiste em criar coisas estranhas à liturgia, mas celebrar com criatividade a liturgia. É saber adaptar os textos, ritos e símbolos litúrgicos à realidade onde se celebra. Criatividade é saber escolher os textos corretos para cada situação da vida da comunidade celebrante. É saber explorar com criatividade os diversos símbolos, ritos, orações, ministérios.

8. ALGUNS PERIGOS DA INCULTURAÇÃO

Também afirmamos que a inculturação comporta algum risco. Em primeiro lugar deve-se compreender bem o que significa inculturação da liturgia e qual o seu processo. Este processo é dinâmico e aberto, porém, fundamentado em critérios seguros, oferecidos pela Constituição Conciliar sobre a Liturgia, Sacrosanctum Concilium.

Algumas críticas ao processo de inculturação da liturgia têm também seu fundamento, visto que em alguns lugares e celebrações tem se introduzido elementos que não são adequados à ação litúrgica e muito menos à fé cristã. Por isso é preciso muita reflexão, estudo, antes de inserir determinados gestos, símbolos na liturgia.

Passaremos agora a apontar alguns riscos e até mesmo desvios, que comprometem todo o processo de inculturação da liturgia e demonstram um completo desconhecimento do que de fato seja este processo.

a) A liturgia é ação de Deus e da comunidade que celebra. Por este motivo, a liturgia tem que estar ligada com a vida concreta do povo que a celebra. Gestos, símbolos e ritos que causem estranhamento à própria comunidade não são recomendados à liturgia;

b) Deve-se evitar espetáculos folclóricos na liturgia. Liturgia não é espetáculo, é ação ritual, é encontro com Deus. Toda ação litúrgica tem que expressar o mistério celebrado;

c) É preciso evitar também imitações nas celebrações. Cada comunidade é diferente da outra. O fato de se ter feito algum coisa numa determinada comunidade não significa que tem que ser feito noutra. Pode não ter nada haver com a comunidade;

d) Hoje é comum falar das missas onde o padre dá “show”. A celebração não é um lugar para show e muito menos cantorias. O canto litúrgico está intimamente ligado à liturgia;

e) Não se canta na celebração porque a música é bonita e emociona a todos. Liturgia não é lugar de sentimentalismo. Ela expressa nossos sentimentos, mas não sentimentalismo. E o que é pior, quando este sentimentalismo é provocado por aqueles que deveriam zelar pela correta celebração da liturgia;

f) Não pode ser introduzido na liturgia gostos ou sentimentos pessoais ou de um grupo determinado. A liturgia é comunitária e deve expressar o mistério pascal de Cristo. Isto acontece muito entre os cantores que querem impor à liturgia e à comunidade seus gostos musicais;

g) Não se pode confundir participação litúrgica com “todo mundo faz tudo”. Cada um deve fazer somente aquilo que lhe compete. Há partes que cabem somente ao presidente, outras cabem à comunidade, e outras aos demais ministérios litúrgicos;

h) Está se tornando rotineiro em algumas celebrações introduzir elementos da religiosidade popular que não fazem parte da celebração. Um bom exemplo são as procissões com o Santíssimo Sacramento em plena missa. A celebração da eucaristia não é momento de adoração ao Santíssimo, mas refeição.

i) Inculturação e criatividade não é “inventurgia”, mas fazer com que a liturgia além de ser expressão do mistério de Deus, também expresse o mistério de nossa vida, usando a nossa linguagem;

j) Não se pode descuidar das normas litúrgicas e de seu núcleo central. Às vezes, em nome de uma suposta criatividade, passa-se por cima das normas litúrgicas e fere-se o núcleo central da liturgia.

Enfim, haveria muitos outros riscos e erros que poderíamos expor. Porém, não pretendemos esgotar o assunto. O importante é seguir os critérios da inculturação litúrgica para poder usar com liberdade a criatividade em nossas celebrações. Também não podemos fazer as coisas por iniciativa própria. Existem instâncias na Igreja que têm a responsabilidade de julgar e aprovar que elementos culturais sejam admitidos na liturgia, isto é claro. A Sacrosanctum Concilium esclarece esta questão quando diz que “na Igreja, a regulamentação da liturgia compete unicamente à autoridade, isto é, à sé apostólica e, segundo a norma do direito, aos bispos” (SC 22.1). Em seguida, diz que “ninguém mais, nem mesmo um sacerdote, seguindo a própria inspiração, pode acrescentar, tirar ou mudar alguma coisa na liturgia” (SC 22.3).

9. CONCLUSÃO

Para concluir nossa reflexão, todo processo de inculturação da liturgia, longe de prejudicar, tem sempre a enriquecer a liturgia e a própria Igreja. A Igreja não quer uma liturgia rígida, estática, mas favorece a diversidade mesmo na liturgia. “Tendo admitido, e admitindo ainda hoje, uma diversidade de formas e de famílias litúrgicas, a Igreja considera que esta diversidade, longe de prejudicar a sua unidade, valoriza-a” (CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO, 2004). E o Concílio Vaticano II afirma que “de acordo com a tradição, o Concílio declara que para a santa madre Igreja todos os ritos legitimamente reconhecidos são igualmente dignos de respeito, devem ser observados e promovidos” (SC 4).



BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Sacrosantcum Concilium sobre a sagrada liturgia. São Paulo: Paulinas, 2002.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO. A liturgia romana e a inculturação: IV instrução para uma correta aplicação da Constituição Conciliar sobre a liturgia. São Paulo: Paulinas, 1994.

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. Petrópolis: Co-edição: Vozes, Paulinas, Loyola, Ave-Maria. 1997.

BECKHÄUSER, Alberto. Os fundamentos da sagrada liturgia. Petrópolis: Vozes, 2004, pp. 284-290.

BOGAZ, Antônio Sagrado; SIGNORINI, Ivanir. A celebração litúrgica e seus dramas. São Paulo: Paulus, 2003, pp. 97-111.

CHUPUNGCO, Anscar J. Inculturação litúrgica: sacramentais, religiosidade e catequese. São Paulo: Paulinas, 2008.

__________. Liturgias do futuro: processos e métodos de inculturação. São Paulo: Paulinas, 1992.

__________. Adaptação. In: SARTORE, D. e TRIACCA, A. M. Dicionário de Liturgia. São Paulo: Paulinas, 1992, pp. 1-12.

COLLET, Giancarlo. Inculturação. In: EICHER, Peter (dir.). Dicionário de conceitos fundamentais de teologia. São Paulo: Paulus, 1993, pp. 394-400.

MIRANDA, Mario de França. Inculturação da fé: uma abordagem teológica. São Paulo: Loyola, 2001.

NEUNHEUSER, Burkhard. História da liturgia através das épocas culturais. São Paulo: Loyola, 2007.

PALUDO, Faustino; SOLDERA, Ângela. Liturgia a serviço da vida e da esperança. São Paulo: O Recado, 1996.

PÉNOUKOU, Éfoé-Julien. Inculturação. In: LACOSTE, Jean-Yves. Dicionário crítico de teologia. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2004, pp. 885-890.

RUSSO, Roberto. A inculturação da liturgia. In: CELAM. Manual de Liturgia IV. São Paulo, Paulus, 2007, pp. 274-300.




quinta-feira, 30 de junho de 2011


“Admiração Eucarística”
a prática litúrgica como fonte para a teologia


Para o jesuíta Cesare Giraudo, a teologia também pode nascer à luz das celebrações litúrgicas. Segundo ele, é preciso desfazer a divisão milenar entre liturgia e reflexão teológica

Por: Moisés Sbardelotto e Patricia Fachin
Tradução: Alessandra Gusatto


“Quando celebramos a santa missa, vamos ao Calvário com os pés da alma e os pés da fé, subimos todos o Calvário naquela primeira Sexta-feira Santa e retornamos ao túmulo do ressuscitado naquele primeiro Domingo da história”. Em outras palavras, “a Igreja vive a partir da Eucaristia”. Esse “estupor eucarístico” é que estimula a pesquisa e a obra do italiano Cesare Giraudo, considerado uma das maiores autoridades em liturgia na atualidade. Padre jesuíta, Giraudo esteve na Unisinos em março, participando da programação da Páscoa IHU 2010, com o curso “Eucaristia: da liturgia à vida”, entre os dias 22 e 25, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Nesta entrevista, concedida, pessoalmente, à IHU On-Line, Giraudo abordou alguns pontos centrais de sua reflexão – como epiclese, a importância da oração dos fiéis e o valor da expressão litúrgica “Kyrie eleyson” –, além de comentar os aspectos mais importantes da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. Segundo ele, a reforma serviu para aliviar o “edifício” da liturgia e restaurar a sua fisionomia, depois de tantos séculos, para revelar o seu “esplendor”.

Giraudo também defende a dimensão sacrifical da missa. Para ele, é preciso “não ignorar a dimensão sacrifical da missa, porque esta significa o evento pascal”. Na missa, “somos remetidos ao evento pascal para voltar a emergir na morte do Senhor Jesus e morrer ao nosso pecado, ao nosso egoísmo, e voltar a renascer na sua ressurreição”. Por isso, defende que a Igreja deveria encontrar “um caminho de misericórdia” para que todos os cristãos participem dos sacramentos, referindo-se a casais de segunda união e homossexuais. “O sacerdote deve dar a comunhão a todos aqueles que se apresentam para recebê-la. Quem se apresenta à comunhão recebe a comunhão. Depois, cada um, na sua consciência, estabelece o seu comportamento”, resume.

Sacerdote jesuíta italiano e doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Cesare Giraudo viveu muitos anos em Madagascar, na África, desenvolvendo seu ministério pastoral. Regressando à Europa, lecionou teologia dogmática e liturgia na Pontifícia Faculdade Teológica da Itália Meridional, em Nápoles. Atualmente, é professor do Pontifício Instituto Oriental, na Pontifícia Faculdade Teológica de Nápoles e na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Tem diversos livros publicados sobre liturgia. Aqui citamos os traduzidos para o português: Num só corpo. Tratado mistagógico sobre a eucaristia (Ed. Loyola, 2001), Redescobrindo a eucaristia (Ed. Loyola, 2002) e Admiração eucarística. Para uma mistagogia da missa (Ed. Loyola, 2008).

Giraudo é autor da Edição 50 dos Cadernos Teologia Pública, intitulado Ite, missa est! A Eucaristia como compromisso para a missão.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que significou a renovação litúrgica do Concílio Vaticano II e de Paulo VI?

Cesare Giraudo A reforma litúrgica do Vaticano II foi um evento muito importante. É um pouco como restaurar edifícios: um edifício que atravessou os séculos, que partiu de um original iluminado, com uma arquitetura original muito clara, ao qual sucessivamente foram adicionados novos elementos que, no fim, deixaram o edifício original mais pesado. Basta observar a fachada de nossas igrejas ou prédios. Então, às vezes, quando se vê que aquele edifício não possui mais uma fisionomia precisa e que pertence a estilos diversos, em um certo ponto se faz uma restauração e se tenta, na medida do possível, retirar tudo aquilo que há de pesado e que foi adicionado durante os séculos. E se a operação é bem feita, no fim nos deparamos com o edifício em todo o seu esplendor.

A liturgia vem de longe. A própria liturgia cristã é proveniente da liturgia judaica, do Antigo Testamento e, portanto, atravessou os séculos. Quando lemos sobre a liturgia cristã nos documentos dos Padres da Igreja , começando por Justino , vemos que ela tem uma linearidade perfeita. Por exemplo, a liturgia da missa: o rito introdutório, depois a liturgia da palavra, a liturgia eucarística, com os seus elementos internos, depois o rito conclusivo. Posteriormente, foram sendo adicionados muitos e muitos elementos, sobretudo na parte inicial da missa. A parte essencial foi penalizada, foi reduzida, também foi muito clericalizada, porque os sacerdotes disseram: “Eu faço tudo. Não se preocupem, rezem o terço”. Então, o Concílio Vaticano II disse: “Façamos essa bendita restauração! Tentemos tirar tudo o que foi acrescentado sucessivamente e que fez pesar o rito e veremos surgir uma celebração muito mais simples, mais nítida, mais linear”. Foi essa a operação que Paulo VI fez, e que o Concílio Vaticano II quis.

IHU On-Line – Um exemplo mais concreto?

Cesare Giraudo – Antes, o início da missa comportava muitas orações que não acabavam nunca. O Concílio e a reforma litúrgica reduziram a parte inicial. O “Confiteor” [oração penitencial] era dito duas vezes, e havia muitas outras orações, salmos que não terminavam mais. Reduziu-se essa parte inicial e deu-se espaço novamente às leituras. Antes, as leituras eram feitas rapidamente, pois o sacerdote lia em latim, em voz baixa, para si mesmo. Portanto, a leitura passava num piscar de olhos. Então, o Concílio, reduzindo essas partes que haviam sido acrescentadas, criou espaço para a Liturgia da Palavra, que deve ser proclamada nas línguas faladas de hoje, e não mais pelo sacerdote, mas sim por alguém competente, um leitor. E depois reintroduziram a oração dos fiéis [também conhecida como prece dos fiéis], um elemento importante que, estranha e misteriosamente, havia se perdido com o passar dos séculos. Então, tirando aquilo que tinha sido adicionado abusivamente, redescobriu-se aquilo que realmente conta.

IHU On-Line – O senhor aborda bastante a questão da oração dos fiéis na celebração da missa. Qual a sua importância?

Cesare Giraudo – Eu sou filho de um pedreiro, construtor de casas. Quando eu era menino, sempre ficava atrás do meu pai nos períodos de férias. E meu pai me deu a ideia da estrutura. Pintar uma casa é importante, mas é secundário, pode-se pintar hoje ou amanhã, tanto faz. Mas o que conta é construir bem, uma casa com bons fundamentos. A liturgia também tem a sua estrutura, tem os seus pilares importantes, suas vigas de sustentação. A liturgia se apoia sobre dois pilares. São Justino, mártir no ano 150, era um leigo, nunca celebrou uma liturgia, mas tinha uma compreensão estrutural da liturgia da missa e assim a descreve com base nos dois pilares importantes: discurso descendente da boca de Deus aos nossos ouvidos, e discurso ascendente das nossas bocas ao ouvido de Deus, a oração dos fiéis. O primeiro pilar importante é o discurso descendente, a proclamação das leituras, o momento em que a palavra sai da boca de Deus através da boca ministerial do leitor e chega a nossos ouvidos. Depois de entender a mensagem é que vem o segundo pilar: nós nos levantamos e delegamos as nossas súplicas, é o momento da oração dos fiéis.

Então, é importante falar sobre a liturgia com base na estrutura, pois, muitas vezes, falamos da liturgia enumerando os elementos: na missa se faz isto, aquilo, elenca-se 10, 20, 30 coisas. Mas se enumerarmos as coisas assim, não vemos a diferença: todos os elementos acabam tendo a mesma força. Mas não: existem elementos absolutamente pesados, importantes, que não podem ser deixados de lado, e existem outros que podem estar lá ou não, que têm um valor muito relativo.

IHU On-Line – No curso que o senhor ministrou na Páscoa IHU 2010, o senhor apresentou duas metodologias possíveis para o estudo da eucaristia: a mistagogia patrística e a sistemática escolástica. Pode nos explicar o que são?

Cesare Giraudo – Nós falamos muito do método. O método é importante. O estudante não pode esperar que seus professores lhe ensinem tudo, pois as coisas são muito vastas. É suficiente que lhe seja ensinado o método. Se alguém sair da universidade com um método na área específica que o interessa, poderá caminhar tranquilo na sua profissão. Ora, quando falamos dos sacramentos, sobretudo da eucaristia, temos dois métodos, duas metodologias, e só duas. Porque cada uma delas se caracteriza pela sua relação com o milênio, com um dos dois milênios. Nós temos, atrás de nós, dois milênios de reflexões cristãs, cada um caracterizado pela sua própria metodologia.

Nos tempos dos Padres da Igreja, nos primeiros séculos, nos tempos de Ambrósio , de Cirilo de Jerusalém, de Agostinho , esses grandes bispos da Igreja antiga, quando explicavam o sacramento da eucaristia e também do batismo, explicavam a partir da experiência celebrativa que havia acontecido. Assim, os catecúmenos eram batizados na noite de Páscoa, tinham a experiência celebrativa do sacramento do batismo, da crisma e da eucaristia, e depois o bispo, no dia seguinte, na segunda-feira, os convocava à escola da Igreja e lhes explicava, a partir da experiência celebrativa que haviam tido, o que o sacerdote disse, o que cada um viu, fez, respondeu. A partir da experiência, explicavam-lhes o que o batismo e, sobretudo, a eucaristia são. Ou seja, explicar os sacramentos a partir da liturgia. A liturgia era realmente o livro da escola. As crianças, os jovens, os adultos que iam à escola, o que levavam consigo? O missal, porque este era seu manual de escola.

Mais tarde, no segundo milênio, tudo mudou, porque disseram: “A Igreja é boa para rezar, o missal é bom para rezar, mas para fazer teologia bastam as nossas cabeças”. Então, fizeram uma teologia abstrata, destacada da realidade. Enquanto que, no primeiro milênio, nos tempos dos Padres, a teologia era feita na Igreja, à luz da celebração. Depois separaram as duas coisas dizendo que a liturgia é uma coisa, e a reflexão teológica é outra.

Eu digo que temos duas metodologias: uma boa, aquela escolástica; a outra [patrística] excelente, ótima. Se escolhermos a metodologia excelente, eu digo: “Veja, nós não perderemos nada das conquistas da teologia escolástica de São Tomás [de Aquino] , mas seremos capazes de corrigir aquelas fraquezas metodológicas que de fato existiram”. Porque São Tomás não é a fé cristã. É um grande pensador que disse coisas maravilhosas, mas não podemos fechar os olhos para os limites da escolástica.

IHU On-Line – Como podemos lidar com a afirmação da dimensão "sacrificial" da eucaristia na cutltura contemporânea? Como compreender essa dimensão numa sociedade repleta de tantos sacrifícios por motivos econômicos, culturais, etnico-raciais, dentre outros?

Cesare Giraudo – A palavra sacrifício tem muitos significados. Agora, quando a palavra sacrifício é aplicada ao sacrifício da cruz, muitas vezes, temos medo dessa palavra, pois ela nos faz pensar na Sexta-feira Santa, na morte de Jesus, que nos incute medo. Mas quando falamos de sacrifício, sacrifício da cruz, não podemos nos esquecer que a Sexta-feira Santa não é o ponto final, mas é a ponte que nos abre ao Domingo de Páscoa, é a passagem para o Domingo de Páscoa. Então, quando dizemos “o sacrifício da cruz”, tenhamos presente que esse é o evento pascal, o evento do Cristo morto e ressuscitado. Ora, a dimensão da ressurreição é absolutamente positiva. Nunca devemos esquecer que, quando falamos de sacrifício, essa palavra quer dizer a ressurreição, a vitória final.

Tudo isso aplicado à eucaristia é importante, pois, hoje, muitas vezes, os nossos sacerdotes têm medo de falar da dimensão sacrifical da missa. Então, quando a iniciam, limitam-se a sublinhar a dimensão convivial: “Estamos aqui reunidos, irmãos e irmãs, para festejar juntos ao redor de uma única mesa…”. E por que dizem isso? Porque pensam: “Se eu que estudei tanto, estudei livros tão grossos, já tenho dificuldade para entender o que significa a dimensão sacrifical, como posso querer que os outros entendam?”. E assim pulam essa dimensão, limitando-se a sublinhar a outra. Eu digo que muitos sacerdotes católicos são cripto-protestantes, protestantes escondidos, com boas intenções, obviamente. Limitam-se a destacar a dimensão da ceia. Ora, João Paulo II, na sua carta encíclica “Ecclesia de Eucaristia” , fez soar o alarme. E disse: “Fiquemos atentos para não ignorar a dimensão sacrifical da missa, porque esta significa o evento pascal”.

Quando celebramos a santa missa, leigos e fiéis juntos, vamos ao Calvário com os pés da alma e os pés da fé, subimos todos o Calvário naquela primeira Sexta-feira Santa, retornamos ao túmulo do ressuscitado naquele primeiro Domingo da história. Somos remetidos ao evento pascal para voltar a emergir na morte do Senhor Jesus e morrer ao nosso pecado, ao nosso egoísmo, e voltar a renascer na sua ressurreição. Mas para sermos coenvolvidos no evento pascal, devemos comer, beber, fazer a comunhão sacramental. Então, são as duas faces da Eucaristia (ceia e sacrifício) que devem ser mantidas juntas. Esta é a mensagem da encíclica de João Paulo II: a Igreja vive a partir da Eucaristia. E eu gostei muito dessa mensagem e a retomei em um livro que intitulei “Estupor eucarístico”, que foi publicado agora em português pelas Edições Loyola, sob o título “Admiração eucarística”.

IHU On-Line – Mas o sacrifício é sofrimento ou amor? Alguns teólogos defendem que Jesus nos salvou pelo amor, e não pelo sofrimento.

Cesare Giraudo – O sofrimento não é um valor em si mesmo. Mas o sofrimento tem valores. Tomemos uma pessoa que nunca sofreu. Bem, sobre isso você coloca a mão no fogo: essa pessoa é uma pessoa egoísta, fechada sobre si mesma. Do contrário, uma pessoa que sofreu na sua vida é uma pessoa aberta para o sofrimento dos outros. E com isso não dizemos que o sofrimento é um bem: o sofrimento é um mal, mas traz consigo um bem. E então o sacrifício comporta sofrimento ou amor? Comporta as duas coisas juntas. Há um provérbio em italiano que diz: “Não há rosas sem espinhos“. Quando você vê uma rosa, o que quer da rosa? O seu perfume, a beleza das suas cores, mas você não pode sentir o perfume da rosa prescindindo de seus espinhos. E em malgache [língua falada em Madagascar] também há um provérbio que diz: “Aquilo que é doce é fruto daquilo que é amargo”. Certamente, na nossa vida, buscamos as coisas doces e belas, mas estas são alcançadas na medida em que aceitamos os sofrimentos, as experiências amargas da vida.

IHU On-Line – Qual o significado do “Kyrie eleyson” na celebração da missa?

Cesare Giraudo – “Kyrie eleison” é uma expressão em grego. É uma daquelas expressões que são intraduzíveis, como tantas outras expressões hebraicas: amém, aleluia, hosana, que permaneceram assim em todas as liturgias em qualquer língua. A expressão “Kyrie eleison”, que é muito antiga, é usada, sobretudo, como resposta aos pedidos da oração dos fiéis. Mas o que significa “Kyrie eleison”? Em português, vocês traduziram por “Senhor, tende piedade de nós”, uma tradução que é boa, mas insuficiente. Em italiano, traduziram como “Signore, peità” [Senhor, piedade], mas é uma expressão que dá pena, é miserável.

Se desejamos entender as duas palavras, a primeira palavra é “Kyrie”, que significa “Senhor, ó Senhor”. A segunda é “eleyson”, um verbo da língua grega que é interessante que seja lido na sua essência hebraica, pois, sob o grego do Novo Testamento, sempre está o hebraico, a língua sagrada para os judeus e para nós. Quando prestamos atenção à língua hebraica, o que está sob esse verbo? Há uma palavra muito interessante, que, quando traduzida em italiano ou português, significa “ventre materno”. Quando o filho está em dificuldade, são as entranhas da mãe que se agitam para ir ao encontro do filho, porque o filho é parte irrenunciável da mãe. Ora, Deus é pai e mãe ao mesmo tempo. Uma vez, o Papa João Paulo I , no seu pontificado brevíssimo, o Papa do Sorriso, disse: “Caros fiéis, Deus é pai e mãe”. Lembro-me que os jornalistas começaram a escrever rios de artigos dizendo: “Oh, vejam que coisa linda que o Papa disse: que Deus é mãe”. Mas os jornalistas não sabiam que a escritura diz isso: Deus é pai e mãe ao mesmo tempo.

Portanto, quando os doentes, os cegos, os leprosos se dirigem a Jesus, o que dizem a Ele? Dizem: “Senhor, tende piedade de nós, 'Kyrie eleison'”. Ora, Jesus, filho primogênito do Pai, reassume tudo do Pai. Por isso, Jesus tem as entranhas paternas e maternas com relação a nós. Então, quando os leprosos do Evangelho lhe gritavam “Senhor, piedade”, diziam “Senhor, dá livre vazão às tuas entranhas maternas e paternas. Deixa-te comover por nós”. E Jesus, efetivamente, se deixa comover, cura os cegos, lhes dá a visão, cura os leprosos etc. Essa expressão é muito interessante. Por isso, seria bom mantê-la assim, em grego, “Kyrie eleison”. Por que jogar fora tudo aquilo que havia de latim ou aquelas poucas palavras gregas como “Kyrie eleison”? Elas têm um significado. São palavras que fazem a unidade dos cristãos. Quando um cristão vem de outro país com outra língua e vê esta ou aquela palavra que já são usadas em seu país, isso é um valor. Então, a tendência para alguns seria retomar o “Kyrie eleison” e também retomá-lo como resposta à oração dos fiéis. Isso seria muito bonito.

IHU On-Line – E o que é a epiclese, conceito abordado pelo senhor em seu curso?

Cesare Giraudo – A questão da epiclese é muito rica. Significa súplica, a invocação para que Deus Pai mande o Espírito Santo sobre o pão e sobre o vinho para que se tornem o corpo e sangue do Senhor. E, depois, a segunda súplica, para que O mande sobre nós para que nos tornemos um só corpo, o corpo místico da Igreja. Os Padres da Igreja, Ambrósio especialmente, eram muito sensíveis à epiclese. Portanto, com a pergunta “Queres saber como se consagra com as palavras celestes?”, Ambrósio se refere à parte central de seu cânone romano que vai da súplica-convite do Espírito Santo sobre os dons à súplica do Espírito Santo sobre nós, que têm, em seu interior, o relato institucional com as palavras do Senhor.

Com a teologia abstrata do segundo milênio, toda a atenção se voltou única e exclusivamente sobre as palavras da consagração, reduzidas depois aos termos “Isto é o meu corpo”, “Isto é o meu sangue”. E não prestaram mais atenção ao resto. Por isso, a epiclese, que continuou existindo mesmo assim na liturgia e ainda hoje a encontramos, saiu completamente do horizonte dos teólogos, dos liturgistas, com um grave dano para a compreensão da teologia da eucaristia. E somente agora a Igreja voltou a descobrir a riqueza dessa oração, da oração eucarística em seu todo.

IHU On-Line – O que o senhor pensa sobre a retomada do missal de Pio V, da chamada Missa Tridentina, por parte de Bento XVI?

Cesare Giraudo – O Papa Bento XVI foi bom, eu diria até muito bom. Quis ir ao encontro da nostalgia de alguns grupos de cristãos, que dizem ser muito aficionados ao latim e que não querem renunciar a ele. Por isso, pediram para poder usar o missal em latim de São Pio V , precedente à reforma litúrgica. Mas a questão não é que esses fiéis queiram bem ao latim pelo latim. O latim serve um pouco como uma barreira para sustentar determinadas visões da Igreja e do mundo de hoje. Já que esses grupos de fiéis de direita, sem ofender ninguém, pediram para obter isso, o Papa, muito bom, disse: “Sim, vocês também podem usá-lo”. Assim, concedeu um uso duplo do missal, recolocando o missal de Pio V ao lado do missal da reforma litúrgica de Paulo VI, que continua sendo o missal de base.

Isso criou um pouco de desconforto dentro da Igreja, quase como se a Santa Igreja, a Igreja de Roma, a autoridade, quisesse desfazer a reforma litúrgica. Mas não foi isso. O Papa o fez por motivos de ecumenismo interno. Então, quem quiser celebrar com o missal de Pio V, que o use. Mas não nos esqueçamos que se um Concílio quis que a reforma litúrgica fosse feita, se um Concílio quis que o edifício fosse restaurado, quer dizer que isso era necessário. Ora, a reforma litúrgica foi feita, belíssima no seu projeto, realmente quase perfeita. Mas, pelo contrário, foi frágil, terrivelmente fraca em nível de recepção. Por isso, muitos receberam a reforma litúrgica de maneira muito superficial, mudando continuamente, com celebrações superficiais e pobres. Por isso, com razão, o Papa disse: “Fiquem atentos: não podemos perder o sentido do sagrado”.

Então, esse “motu proprio” do Papa que dá a possibilidade de usar o missal de São Pio V, mesmo que nos tenha colocado em crise, soa como um sinal de alarme, dizendo: “Fiquemos atentos: não podemos perder a dimensão sagrada, o sentido do sagrado e da seriedade da celebração”. Por isso, nós, sacerdotes, leigos comprometidos, devemos trabalhar muito na formação dos sacerdotes, dos futuros sacerdotes, dos leigos para entender o sentido da liturgia. Eu, na minha pequenez, tenho me empenhado muito nesse sentido.

IHU On-Line – Comparando os últimos Papas, como eles viveram e refletiram sobre as questões litúrgicas?

Cesare Giraudo – Aquele que teve mais oportunidades para refletir sobre a liturgia foi Paulo VI, evidentemente, que foi encarregado pelo Concílio para editar as edições dos livros litúrgicos. Todos os especialistas lhe traziam os originais para que ele os visse, e ele fazia as suas observações, que foram depois registradas em livros. Portanto, ele seguiu mais de perto a revisão do missal e de todos os livros litúrgicos. Dos Papas que vieram depois, João Paulo I não teve tempo, ficou um mês somente. João Paulo II, nos seus 27 anos de pontificado, não se interessou pessoalmente pela liturgia. Esta ia para frente por conta própria. O seu nome ficou ligado à terceira edição do missal romano, pois foi ele que a quis e fez alguns pequeníssimos retoques. O Papa Bento XVI, no momento, ainda não ligou o seu nome à liturgia de forma positiva, senão indiretamente através dessa sua intervenção, de retomada também, com relação ao missal de São Pio V. Isso corresponde um pouco à sua sensibilidade. Ele fez essa operação por um excesso de bondade para ir ao encontro das exigências de alguns.

IHU On-Line – O senhor propõe uma releitura da teologia da redenção a partir de um mito pré-cristão transmitido por um idoso de Madagascar? Que mito é esse?

Cesare Giraudo – Eu vivi dez anos no Madagascar, sempre trabalhando com a pastoral direta e trabalhava muito com os idosos. No grupo, éramos três sacerdotes; os outros dois eram irmãos mais velhos do que eu e trabalhavam com a pastoral dos jovens, e eu, mais jovem, trabalhava com a pastoral dos idosos. E me dei conta de que os idosos sabem, têm experiência, conhecem a tradição. Então, eu realizava encontros, semanas de estudo, em que os idosos participavam, pessoas de 70, 80 anos que ficavam toda a semana refletindo. Eles me contaram muitas coisas belíssimas, alguns mitos teológicos. Bem, coloquemos a palavra mito entre aspas. Essa palavra tem um grande significado para a história das religiões. São relatos fundamentais, que têm a mesma força e sacralidade que os relatos que temos na Bíblia, como em Gênesis 2 e 3, a história de Adão e Eva. Se quisermos, aquilo que a Bíblia é para nós, para eles se trata de uma sagrada escritura, escrita na mente e na tradição.

Essas histórias têm milhares de anos, são muito antigas. Uma delas fala justamente da redenção que passa pelo sacrifício do animal sagrado. Para os judeus, o animal sagrado é o cordeiro, em particular, o cordeiro pascal. A reconciliação, a redenção se dá através do sacrifício do cordeiro pascal. Em Madagascar, se fala do sacrifício do boi, que é o animal sagrado por excelência. Então, quando há um caso de dificuldade, uma ruptura da relação por um determinado comportamento, aquela pessoa deverá ser aspergida com o sangue do animal. Haverá um rito sacrifical, uma oração ao Criador em que se suplica a Deus que intervenha e recoloque essa pessoa na situação certa, graças justamente à aspersão do sangue do boi.

Esse texto é um pouco difícil. Para entendê-lo melhor, seria necessário mais tempo. Mas é uma história maravilhosa que nos ajuda a entender a eficácia do sacrifício do cordeiro pascal, mas, sobretudo, a eficácia do verdadeiro cordeiro pascal, em cuja morte nós renascemos para a vida nova. Eu me interessei muito pelos problemas da inculturação, escavando sempre na tradição dos antigos. Porque, às vezes, os missionários pensaram que todas essas coisas eram uma questão de idolatria, paganismo. Mas não, isso é revelação autêntica, inicial, incipiente, que espera ser completada pelo anúncio do Evangelho.

IHU On-Line – Qual a sua opinião sobre uma maior participação das mulheres na celebração da missa?

Cesare Giraudo – Certamente, a Igreja, por muitos anos, foi muito machista, muito clerical e, assim, penalizou o povo de Deus. Os sacerdotes começaram a dizer: “A gente faz, fiquem tranquilos, fiquem nos bancos, nós fazemos tudo”. Assim, clericalizaram a liturgia. E, ao mesmo tempo, a liturgia foi também masculinizada, no sentido de que a mulher na Igreja não podia superar a barreira do balaústre, aquela mesa da comunhão que havia nas igrejas antigas. Se a mulher fosse além dela, era um pecado mortal. As mulheres só podiam ultrapassar aquela barreira no sábado, quando faziam a limpeza da Igreja. Tudo isso agora já foi superado, e não existe mais, por sorte. A Igreja se purificou disso.

Mas qual pode ser a participação da mulher na missa? Eu penso que, sobretudo, no papel das leituras. Paulo VI revisou aquelas que se chamavam antigamente as ordens menores, que hoje se chamam leitorado e acolitato. Ele disse que os leigos também podem ter acesso ao leitorado. Assim, Paulo VI manteve o leitorado instituído – ir ler com a bênção preliminar – somente para os homens, pois Paulo VI teve um pouco de medo desse vento que vinha do Atlântico, da América, soprando sobre o Ocidente, que era a reivindicação do sacerdócio feminino. E disse: “Não, por agora o reservemos aos homens”. Mas nada impede que um dia o Papa abra oficialmente à mulher o leitorado instituído, que ela também possa ser instituída com uma bênção como uma leitora na Igreja. Agora, a mulher já pode ler, podemos dizer, como leitora extraordinária. E depois, hoje são todos extraordinários, porque esse leitorado instituído se perdeu de vista. Em todo caso, a mulher lê e isso é uma coisa boa. Eu penso que esse discurso deve ser moderado, não se trata de mandar um exército de pessoas a ler, mas se trata de mandar poucas pessoas, que são preparadas, que seguem cursos específicos de preparação, sejam elas homens ou mulheres. Pois ler na Igreja, proclamar a palavra de Deus é muito difícil, muito comprometedor.

IHU On-Line – O que o senhor pensa sobre a participação de divorciados de segunda união na comunhão eucarística? E de homossexuais? As regras atuais não transformam a eucaristia em uma forma de exclusão?

Cesare Giraudo – Não sou eu quem pode resolver o problema. Certamente, na minha experiência pastoral em Madagascar, eu sofri por causa disso, porque quando um jovem e uma jovem me diziam: “Queremos nos casar”, eu sempre dizia: “Vão devagar, com calma”. Porque eu sabia bem que se eu abençoasse aquele casamento, um ou dois meses depois ele acabaria, e aqueles jovens teriam dificuldades para toda a vida. Porque, em Madagascar, o matrimônio ainda hoje é muito instável, acaba facilmente, assim como em nossos países, seja na Europa ou no Brasil.

Então, eu vejo cristãos que possuem uma fé verdadeira, mas que se encontram em uma situação desconfortável. Não podem ir para frente, não podem voltar. Têm o compromisso matrimonial de um lado, têm um compromisso familiar de outro. Então, eu me pergunto: a Igreja não poderia encontrar um caminho possível para eles? Ou até um caminho de misericórdia, como muitas vezes os orientais chamam? Não se trata de abençoar a situação atual, de dizer “Fizeram certo ao acabar com o primeiro casamento”. Não se trata de aprovar isso. Trata-se simplesmente de dizer, na situação atual, que esse cristão e essa cristã têm a necessidade dos sacramentos, o sacramento da confissão, o sacramento da eucaristia. A Igreja não poderia encontrar um caminho de misericórdia para conceder a esses cristãos os sacramentos? Mas não sou eu quem estabelece isso.

Também se falou disso durante o Sínodo dos Bispos, há dois ou três anos, sobre a eucaristia, e um bispo disse: “Aqui, só o Papa pode resolver o problema”. E nós aguardamos com confiança por uma intervenção magisterial do Papa. E o que o Papa diz para os divorciados e que também se aplica a outras pessoas em dificuldade, homossexuais etc., é que naturalmente seria preciso que essas pessoas pudessem fazer um caminho com um guia, um sacerdote. Não se trata de dar o aval, de dizer: “Vocês fizeram certo”, mas é necessário que se entenda que na vida existem comportamentos difíceis e que, nesses comportamentos, devemos buscar retirar todo o egoísmo, tudo o que é diretamente contrário ao Evangelho. E depois tentar dar o nosso melhor, com a ajuda do Senhor, para nos adequarmos sempre melhor aos ideais do Evangelho, que permanece sendo um ideal. Não podemos dizer: “Eu coloco em prática os ideais do Evangelho”. Aquele que presume tê-lo posto em prática é o primeiro a ser infiel ao Evangelho. O Evangelho é um grande ideal, e devemos pedir ao Senhor que nos ajude a caminhar rumo a esse ideal com as dificuldades que são as nossas. O problema, porém, continua sendo complexo.

IHU On-Line – E o mesmo vale para os homossexuais?

Cesare Giraudo – Sim, eu diria que sim. Trata-se de refletir sobre esse caso. Não dá-lo por óbvio, porque, hoje, na sociedade, essas diferenças são consideradas normais. Portanto, não devemos confundir a normalidade com eventuais desconfortos. Poderíamos chamá-los por muitos nomes. Pelo contrário, hoje, há a tendência de dizer: “Você faz assim, você faz assado, faça como quiser”. Mas não, não podemos aceitar isto na Igreja. Com o respeito, naturalmente, pela opinião pessoal de cada um. Sobretudo, hoje em dia, somos muito flexíveis com relação a isso. Não devemos condenar ninguém. Jesus nunca condenou ninguém no Evangelho. Ele sempre desculpou o pecador, condenando, porém, o pecado ou o comportamento anômalo.

IHU On-Line – Portanto, os divorciados e os homossexuais, na sua própria consciência, podem participar da comunhão se o sacerdote não souber de sua situação?

Cesare Giraudo – O sacerdote deve dar a comunhão a todos aqueles que se apresentam para recebê-la. Nenhum sacerdote tem direito de olhar para a cara das pessoas e dizer: “A você sim, a você não”. A menos que venha alguém que esteja claramente bêbado, que não consegue ficar de pé. Se você lhe negar a comunhão, não estará lhe ofendendo. Todos podem ver o porquê. Mas, senão, quem se apresenta à comunhão recebe a comunhão. Depois, cada um, na sua consciência, estabelece o seu comportamento.

Fonte:

quarta-feira, 29 de junho de 2011


Relação mistério e corpo na liturgia, pela inteireza do ser

Eurivaldo Silva Ferreira
(Mestrando em Teologia Sistemática na PUC-SP)


Na liturgia, que é a celebração do mistério de Cristo, a participação ativa, plena, consciente e frutuosa, de que fala a Sacrosanctum Concilum, nos remete a um quê de característica que perpassa os nossos conhecimentos extrassensoriais. É preciso que se tenha em mente que é o corpo que se apropria desses mecanismos e “se lança” nessa participação.

Não se trata de uma síntese automática, que se dá por impulso de um ou outro elemento externo, assim como acontece quando ligamos um aparelho eletrodoméstico à tomada. Parte-se da experiência vivida e acompanhada através de um processo de integração com o todo, com o ambiente, com o espaço, com a natureza, com o universo, com o cosmos. Ser humano, homem e mulher, participam ativamente da vida do mundo no qual estão inseridos. Sem dúvida, não “exploram” esse mundo sem antes conhecê-lo, seja pelo aspecto de apropriação, seja pelo aspecto de investigação, a fim de que dele possa aproveitar e usufruir o máximo possível.

É a partir desse horizonte que mergulhamos no fazer liturgia, do celebrar a liturgia. Como se dá isso? Nossos corpos aceitam a possível proposta de que eles participam da natureza pela qual a liturgia é destinada, o louvor a Deus e a glorificação de nossos corpos, seres humanos animados pelo Espírito que em nós habita, reunidos em assembleia. Nesta assembleia, o mistério que é revelado pela ação ritual, exige de nós uma compreensão do todo. Isto é, não apenas compreendemos parte do mistério pela admissão racional, pelo lado intelectual, mas trata-se de dizer que boa parte da compreensão mistérica adentra nossos poros, nossos sentidos, penetra nossos ossos, vai até as entranhas dos nossos órgãos. Isso só acontece quando entramos com inteireza na ação ritual.

Estar inteiro compreende que corpo, mente e coração estão plenos de sua capacidade laudativa de entrar em sintonia com o mistério. Então estar inteiro é estar em sintonia. Não se trata apenas de dizer: meu corpo está aqui, mas se ele não tiver com suas potencialidades ativadas para a esperada participação que resulta numa atitude de frutuosidade para a vida de quem celebra e para a vida do mundo, de nada valerá a presença física no espaço celebrativo. De fato, quando o corpo toma consciência, através de elementos cognitivos ou de elementos extra-sensoriais, aí acontece a inteireza do ser, justamente porque é necessário que o mistério que se é agradado através da súplica e do louvor, possa reconhecer na dimensão da corporeidade a experiência da criatura criada.

Na dimensão da prece e da súplica, o corpo, ser criado, almeja que seu criador o escute, mas não basta uma escuta física, como a que tomamos no nosso aparelho auditivo. É necessário reportar a escuta da divindade para o âmbito extra-celebrativo. Nesta escuta, em que ambos se recordam de que um dia firmaram um acordo, define-se um diálogo sobre o qual se estabelecem condições para a garantia desse acordo. Foi assim que aconteceu com os povos antepassados, em que Deus, querendo se comunicar e também escutar, firmou uma Aliança, estabelecendo uma relação de amorosidade para com estes povos.

É nesse contexto de Aliança que fazemos memória, como fato continuador do acordo feito entre Deus e seu povo, contado por inúmeras vezes na Sagrada Escritura. Só com essa memória é que conseguimos colocar em atitude de espera aquela alegria que nos é aguardada na vinda do Reino.

No entanto, apesar da conjuntura eclesial em que nos encontramos, é necessário a interrogação. De fato, no contexto celebrativo de nossas igrejas e comunidades, perguntamos o que é celebrar, o que celebramos, como nossos corpos celebram, estamos inteiros nas celebrações? Como nossos ritos nos ajudam na compreensão da corporeidade? Nossos corpos conjugam ritualidade e corporeidade, em sintonia?

Há um mistério que vamos desvelando através de ritos, os quais nos vão envolvendo, e nós vamos assimilando. São nossos corpos que participam desses ritos, não há outro jeito. O rito nos possibilita entrar em contato com a divindade, no nosso caso o Deus amoroso, Pai e Mãe de bondade que nos dá Jesus, como Filho, no qual nos aponta para a esperança do Reino vivido e desejado por seu Pai. Com toda plenitude, nós fazemos isso na celebração eucarística, fazendo memória da ceia de Jesus. Na memória ritual nós comemos e bebemos, eis o sentido que faz com que nossa corporeidade compreenda e adentre a ação ritual, o paladar. Este é apenas um exemplo, podemos explorar outro mais, a escuta da Palavra, por exemplo.

Assim, quando respondemos a aclamação memorial que se encontra no centro da oração eucarística, ao proclamarmos este mistério da fé, estamos impulsionando nossos corpos na dimensão do futuro, do que há de vir, ao mesmo tempo que fazemos memória daquilo que aconteceu. Essa memória é feita no hoje de nossa existência, de nossas vidas, entremeadas de debilidades e angústias, de sonhos e esperanças, de alegrias e tristezas (Gaudium et Spes), todos esses sentimentos nós os carregamos em nossos corpos.

A exploração dos ritos através de nossas capacidades corporais é o que delineia nossas celebrações. Não só o racional entra nessa exploração, mas somos introduzidos na compreensão ritual, teológica e espiritual, características das quais se atribui o rito. Sem nossos corpos de nada valeria o rito, ficaria apenas no racional, no imaginário de nossas elucubrações. Afinal, de que valeria celebrarmos se não estivéssemos inteiros, se não fôssemos dotados de corporeidade?

OS SÍMBOLOS NA LITURGIA


Pe. Cristiano Marmelo Pinto


1. Compreensão de sinal e símbolo

A celebração litúrgica constitui um conjunto de sinais, símbolos, gestos, palavras, objetos, tempo, lugares, etc. Toda a liturgia tem um caráter simbólico, ou seja, toda a liturgia é simbólica. Nela prevalece a linguagem dos símbolos, mais intuitiva e afetiva do que conceitual. José ALDAZÁBAL afirma que “é a linguagem simbólica que nos permite entrar em contato com o inacessível: o mistério da ação de Deus e da presença de Cristo” . A liturgia é ação, é comunicação, é gestos, movimentos, etc. Através dos sinais e símbolos a liturgia nos permite experimentar, entrar em comunicação e em comunhão com o mistério de Deus em Jesus Cristo. Para Julián L. Martín, “os sinais litúrgicos estão, antes de tudo, a serviço da presença e da realização de uma salvação que está destinada aos homens em suas circunstâncias históricas e existenciais” . Este estudo sobre os símbolos na liturgia pretende buscar, mais do que um elenco de sinais e símbolos na liturgia, quer compreender sua função no contexto da ação litúrgica para sua valorização e melhor participação no mistério de Cristo celebrado.

2. Noções sobre sinal e símbolo

Antes de uma reflexão mais profunda a respeito dos símbolos na liturgia, é necessário compreender o seu significado, sua origem. A filosofia grega, os Padres da Igreja e a própria liturgia utiliza o termo símbolo no seu sentido originário. Ele não é sinônimo de aparente ou irreal. Trata-se, como afirma Alberto Beckhäuser, da “mesma realidade em outro modo de ser” . Porém, é necessário fazer uma distinção entre sinal e símbolo. Um não é o outro. Nem todo sinal é símbolo, mas todo símbolo é sinal.

Sinal leva ao conhecimento de algo que lhe é diferente em si mesma. O sinal por si aponta para algo exterior a ele. “O sinal não é o que significa, mas sim o que nos orienta, de um modo mais ou menos informativo, para a coisa significada” . Ele é uma realidade ponte entre algo conhecido e o conhecimento de outra coisa. O elemento conhecido denomina-se significante enquanto que o que está além é denominado significado. O sinal é um meio de expressão e de comunicação. No sinal podemos verificar as seguintes condições:

a) Ser distinto do significado;
b) Depender de alguma maneira do significado, ou seja, ser menos perfeito do que ele;
c) Guardar alguma relação de semelhança com o significado;
d) Ser mais conhecido que o significado.

A palavra símbolo é de origem grega e significa reunir, por juntas as partes de uma mesma coisa, que se achavam separadas. “O símbolo estabelece uma identidade afetiva entre a pessoa e uma realidade profunda que não se chega a alcançar de outra maneira” . O símbolo reúne em si as realidades, contendo um pouco de cada uma delas. Podemos falar de símbolo, como afirma J. L. Martín, “quando se tem diante de si um significante que remete não a um significado preciso, como no caso do sinal, mas a outro significante que de certo modo se faz presente” . Por este motivo, o símbolo possui uma função representativa, ao tornar presente o significado e ao mesmo tempo participar dele.

Deve-se perceber nos símbolos os seguintes elementos:

a) Uma realidade sensível (um ser, um objeto, uma palavra);
b) Uma correspondência ou relação de significado, com a qual se entre em contato por meio do elemento significante;
c) A realidade significada com a qual se entra em contato está de tal maneira presente e unida ao significante que sem ele não poderia exercer sua influência;

3. O simbolismo na Sagrada Escritura

Assim como as demais religiões, também a Sagrada Escritura está perpassada por sinais e símbolos. O cristianismo não por menos, baseia todo o seu simbolismo na Sagrada Escritura. A Constituição Conciliar sobre a Liturgia Sacrosanctm Concilium afirma que “na celebração litúrgica é máxima a importância da Sagrada Escritura. Pois dela são tiradas as leituras, os salmos que são cantados as preces, orações e hinos (...) e é dela também que recebem seu significado as ações e sinais” (SC 24). Da Sagrada Escritura a liturgia cristã acolhe os gestos e ações simbólicas dos que precederam na fé a partir de Abraão (cf. Rm 4,16-17). Dela também, a liturgia reproduz os símbolos da economia da salvação nas várias etapas da história da salvação.

O termo símbolo é pouco usado na Sagrada Escritura. Utiliza-se com mais freqüência o termo sinal. Porém, o simbolismo é algo natural no mundo semítico e esta linguagem se encontra na Sagrada Escritura. Nela, vemos que a pedagogia dos sinais é constantemente utilizada nas relações de Deus com o povo. Momentos culminantes desta linguagem podemos encontrar na revelação de Deus no monte Sinai. Nos escritos proféticos, nos salmos e nos livros sapienciais. Muitos relatos e narrações possuem um significado simbólico.

Os sinais no Antigo Testamento podem ser classificados em quatro grupos:

a) Sinais da criação: culminando com a criação do homem “imagem e semelhança” de Deus;
b) Sinais acontecimentos: constituem os grandes momentos da história da salvação, cujo momento alto é o êxodo;
c) Sinais rituais: constituem todas as instituições litúrgicas e festivas de Israel (santuário, sábado, sacrifícios, etc.);
d) Sinais figuras: colocam em relevo a missão de alguns determinados personagens (patriarcas, Moisés, etc.), ou determinadas funções (pastor, profetas, sacerdotes, etc.).

A principal característica do simbolismo bíblico é seu pano de fundo histórico-salvífico. Eles expressam a continuidade da presença salvadora de Deus e possuem um caráter prefigurativo e memorial. Os sinais que possuem um caráter litúrgico são prefigurações dos sacramentos da Igreja.

No Novo Testamento, os sinais do Antigo Testamento são aplicados em relação a Jesus Cristo e a comunidade cristã. Em Jesus todo símbolo, toda figura que aparecem na história da salvação estão concentrado nele. Ele não somente se serviu dos sinais do Antigo Testamento, mas deu a eles seu pleno cumprimento.

Jesus não somente se serviu dos sinais da criação para dar a conhecer o Reino de Deus, mas deu cumprimento a quanto anunciavam os sinais-acontecimentos e os sinais-rituais, concentrando-os em sua pessoa e realizando curas por meio de gestos simbólicos que manifestavam seu poder salvador .

O culto inaugurado por Jesus Cristo não estava ligado a nenhum lugar, mas ao “templo do corpo” e a ação do Espírito Santo. Porém, ele perpetuou sua ação salvadora através de sinais e ações simbólicas, confiadas a Igreja. Entre estas ações merecem destaque o batismo e a eucaristia . Destes dois sacramentos renasce e se edifica continuamente a Igreja.

Jesus também empregou a si mesmo sinais do Antigo Testamento, definindo-se a si mesmo como o Novo Moisés (cf. Hb 3,2-3), o Bom Pastor (cf. Mt 15,24), etc.

Alguns sinais e símbolos do Antigo Testamento também foram empregados à Igreja em relação a si mesma e a Cristo. A Igreja esposa, corpo místico de Cristo, etc.

4. O simbolismo na liturgia

A comunidade cristã se serve inicialmente dos sinais e símbolos que ela recebeu do Senhor e de muitos outros. Temos num momento inicial, por exemplo: a imposição das mãos, a concessão de ministérios, a unção com óleo, etc. Como afirma J. Lopéz Martín:

Todas ações significativas às quais progressivamente se foram unindo outros sinais e símbolos procedentes da matriz bíblica e numa constante referência à doutrina e ao exemplo do próprio Cristo que se serviu do simbolismo para expressar e realizar a salvação .

O simbolismo na liturgia é fruto tanto da herança bíblica como também da influência de outras culturas e de modo concreto da cultura helênica. Da junção dos diversos elementos das mais variadas culturas onde o cristianismo se fazia presente, a liturgia cristã foi criando uma nova síntese simbólica dos sinais, imagens, símbolos, dando origem a uma característica totalmente original e cristã. A liturgia cristã não abole estes elementos, sinais e símbolos, proveniente de outras culturas, mas os purifica, dando uma nova significação.

Os sinais e símbolos na liturgia são sinais da fé. Não só são sinais como também alimenta a fé. A Constituição Sacrosanctum Concilium ao tratar dos sacramentos diz que “como sinais, visam também à instrução. Requerem a fé, mas também a alimentam, sustentam e exprimem, com palavras e coisas, merecendo, por isso, ser chamados sacramentos da fé” (SC 59). Todo sinal e símbolo litúrgico remetem para os fatos e palavras do próprio Cristo e de toda a história da salvação. São sinais das “realidades invisíveis presentes, a graça santificante e o culto a Deus” .

5. Sinais e símbolos na liturgia

A liturgia possui um leque enorme de sinais e símbolos. Existem muitas categorias de sinais e símbolos litúrgicos. Existem sinais e símbolos vinculados a pessoas e ao corpo humano, outros relacionados com coisas materiais, de modo que a liturgia se serve de uma série de sinais e símbolos expressivos para manifestar toda a sua beleza e mistério, de modo que precisamos valorizá-los, ao invés de introduzirmos elementos estranhos a própria natureza da liturgia. Passaremos agora a relacionar um breve elenco de sinais e símbolos na liturgia sem a pretensão de esgotá-los.

6. Elenco de sinais

a) Pessoas:
- a assembléia litúrgica,
- os ministros ordenados (bispos, presbíteros e diáconos).

b) Atitudes corporais:
- de pé (significa ação, expectação, oração comum);
- sentados (significa escutar, atender e meditar, oração pessoal);
- de joelhos (significa rebaixamento, adoração, oração pessoal);
- genuflexão
- prostração (significa aniquilamento, morte, ressurreição para um estado de vida, oração
pessoal);
- inclinação (significa rebaixamento, súplica, veneração); etc.

c) Gestos de todos os fiéis:
- fazer o sinal da cruz (significa invocação trinitária, memória do mistério pascal, identificação
com Cristo crucificado);
- dar-se a paz (expressa comunhão no espírito);
- bater no peito (significa conversão, penitencia);
- caminhar, ir em procissão, levar o pão e o vinho ao altar, dançar, beijar a cruz, etc.

d) Gestos dos ministros:
- levantar os olhos (significa oração e súplica);
- estender as mãos (significa oração a Cristo na cruz);
- impor as mãos (significa exorcismo, doação do Espírito Santo, cura, reconciliação, transmissão
de carisma, etc.)
- partir o pão (significa autodoação, compartilhar, eucaristia);
- soprar (significa comunicação do Espírito Santo);
- assinalar (significa marcar e selar com o sinal de Cristo);
- outros gestos: lavar os pés, elevar, mostrar, beijar, saudar, ungir, crismar, tocar, acompanhar,
acolher, impor uma veste, etc.

e) Ações:
- ablução e imersão (significa renascer, ressuscitar);
- aspersão (recordação do batismo);
- oração, jejum, silêncio (significa penitência, oração, fome espiritual, participação no mistério
pascal de Cristo);
- outras ações: imposição das mãos, bênção, beijo da paz, sepultar, abrir e fechar, etc.

f) Elementos naturais: água, pão, vinho, óleo, sal, leite e mel, luz, trevas, fogo, círio pascal, incenso, flores, ramos, etc.

g) Objetos: cruz, imagens, lâmpadas, livros litúrgicos, Evangeliário, vestes litúrgicas, cores litúrgicas, insígnias (anel, báculo, pálio), vasos, sino, toalhas, corporais, pala, sacrário, etc.

h) Tempos: dia, noite, horas, vigília, semana, ano, domingo, festas, oitavas, quaresma, cinquentena, ano jubilar, etc.

i) Lugares: igreja, nave, presbitério, cátedra, sede, ambão, altar, batistério, fonte batismal, confessionário, porta, cemitério, etc.

7. O rito litúrgico como expressão simbólica

A liturgia cristã é um conjunto de ritos. A ritualidade é um elemento essencial de toda celebração litúrgica. Conforme a interpretação sociológica, o rito é a expressão, o gesto simbólico destinado à função identificadora de promover a coesão do grupo que celebra, formando uma assembléia. O rito é um mecanismo de orientação que oferece um quadro seguro e fixo para uma experiência determinada. O rito é expressão simbólica, é memorial.

A repetição é uma característica essencial do rito, visto que, por definição, o rito é uma ação representativa dos fatos da história da salvação, fatos que são sempre os mesmos. Pelo rito entramos em contato com os gestos de Cristo. A repetição ritual nos permite entrar, nos aproximar de Cristo e de seus gestos e palavras e nos integra a eles.

A ritualidade litúrgica gira em torno da eucaristia e dos demais sacramentos, que constituem a Igreja e manifestam e comunicam o mistério de Cristo a todos os fiéis.

8. Conclusão

Como vimos, o símbolo faz parte da própria experiência humana. Na liturgia ele se reveste de uma nova e mais profunda significação, remetendo a experiência do mistério pascal de Cristo e de toda a história da salvação. A liturgia cristã é uma constelação de sinais e símbolos que precisam ser valorizados e alguns recuperados. Muitas vezes em nome da “criatividade” acabamos por reduzir os símbolos litúrgicos, ou em alguns casos, introduzindo no contexto celebrativo elementos estranhos a própria natureza da liturgia. A simbologia e a ritualidade litúrgica não exclui a criatividade. Mas é preciso que, no uso da criatividade, façamos uma re-leitura de toda a simbologia litúrgica, para descobrir nela novos aspectos dentro de sua profundidade.




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