terça-feira, 2 de abril de 2019


O SACERDOTE:
SUA CRUZ, INCOMPREENSÕES E FIDELIDADE

São João Maria Vianney, presbítero e padroeiro dos padres foi um homem que se destacou pela simplicidade e pelo zelo pastoral. O Senhor disse: "Eu vos darei pastores segundo o meu coração, que vos conduza com inteligência e sabedoria" (Jr 3,15). São João Maria Vianney certamente foi um desses. É dele aquela frase que diz: "O sacerdote é o amor do Coração de Jesus".

Ele também diz que: "O sacerdote só será bem compreendido no céu. Se o compreendêssemos na terra, morreríamos, não de pavor, mais de amor". De fato, o mistério do sacerdócio é tão grande que dificilmente alguém conseguirá compreendê-lo. E se o compreendesse, certamente os que amam seus sacerdotes o amariam mais, e os que odeiam, odiariam menos.

Por outro lado, não devemos condicionar o ministério sacerdotal baseado na compreensão ou no reconhecimento. Não nos cabe este mérito. Cabe-nos tão somente cumprir nossa missão, ora doce, ora amarga. E no grande leque dos fiéis, haverá sempre os que nos amarão e os que nos odiarão.

Todos os que se dispõe a seguir Jesus Cristo tem a sua cruz. Ele mesmo foi quem disse que: "Todo aquele que não carrega a sua própria cruz e segue após mim não pode ser meu discípulo" (Lc 14,27). Todos nós temos as nossas cruzes. Talvez uma delas na vida de cada sacerdote seja a de caminhar nesta vida, exercer seu ministério sem ser compreendido. É por isso que Jesus diz que devemos renunciar a nós mesmo (cf. Mc 8,34; Lc 9,23).

Dentro deste contexto, o evangelho de Mt 16,13-23 é extremamente didático para o caminho espiritual e ministerial dos sacerdotes. Jesus está conversando com seus discípulos e quer tirar a prova dos nove acerca de algumas coisas. Primeiro pergunta o que dizem sobre Ele. A resposta é frustrante, mas, creio que esperada, visto que muitos faziam confusão a respeito d'Ele, de sua pessoa e de seu ministério. Diziam que era João, Elias, Jeremias ou outro profeta qualquer (cf. Mt 16,14). Mas Jesus é pedagógico e quer saber na verdade o que seus discípulos pensam sobre Ele. No fundo esta é uma situação humana. Todos nós a certo ponto gostaríamos de saber o que os outros pensam da gente. Isto revela o grau de envolvimento, de comprometimento. Então resolve perguntar o que eles, seus discípulos, pensam sobre Jesus. Pedro responde: "Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo" (Mt 16,16). E Jesus surpreende revelando que Pedro não o conhece porque um ser humano o revelou, mas o próprio Pai (cf. Mt 16,17). É claro que Pedro não teve uma revelação divina a respeito de quem é Jesus, nem mesmo o Pai apareceu para ele e disse. Mas sua resposta brotou de uma experiência pessoal e profunda com Jesus que o fez conhecê-lo plenamente. E isto deu a Pedro a convicção de que Jesus é o Messias, o Filho de Deus e de quem ele estava seguindo.

Após dar a Pedro um encargo sobre a Igreja, Jesus manda que seus discípulos não revelassem para outros quem Ele é. Ao dar esta ordem, Jesus deixa claro que cada um deve fazer a sua experiência pessoal com Ele e não acreditar porque outro falou. Nós apenas devemos apontar para Jesus, mostrar o caminho que leva a Ele. Mas cada um deve dar os seus próprios passos em direção a Jesus. Isto é pessoal. Não podemos forçar, muito menos carregar alguém até Ele.

Na vida de cada sacerdote esta convicção é extremamente necessária. É preciso que nós façamos por primeiro a experiência de encontro com Jesus para que dela nasça a convicção de nossa vocação, de nosso ministério. Só assim, seja pelo que os outros dizem, seja pelas adversidades encontradas no exercício do ministério sacerdotal, nos manteremos sempre fixos na meta, não se desviando e nem desanimando.

É necessário notar que, logo em seguida, Jesus fala aos discípulos do seu sofrimento. De como Ele haveria de sofrer nas mãos dos anciãos, dos sumos sacerdotes e dos mestres da lei (cf. Mt 16,21). Pedro o chama de lado e o repreende na tentativa de afastar d'Ele tal destino. Jesus o manda se afastar, chamando-o de satanás. E diz que Pedro não pensa as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens, e o chama de pedra de tropeço (cf. Mt 16,23). Todo sacerdote tem também seus sofrimentos, seus dramas. Mas não podemos nos deixar iludir ou convencer por aqueles que acham que não devemos passar por estas situações. Elas são consequências de nossa missão. Fugir delas é abandonar a cruz.

É interessante que antes, Jesus chama Pedro de "pedra", sobre a qual edificaria sua Igreja. Depois o chama de pedra de tropeço, porque deixou de pensar as coisas de Deus e sim, as coisas dos homens. Pode haver várias interpretações a respeito desta afirmação de Jesus. Uma das possíveis, e que acho mais sensata, é que a pedra serve para dar solidez, firmeza. Por exemplo, uma pedra colocada no caminho é para torná-lo mais firme e seguro. Mas quando esta pedra sai do lugar, ela se torna perigosa, uma pedra por onde quem passar pode tropeçar e se ferir. Quando baseamos nosso ministério no que os outros dizem ou querem de nós, atendendo a demanda das necessidades pessoais de cada um ou de certos grupos ou ideologias, com muita facilidade nos deslocamos de nossa missão e nos tornamos pedra de tropeço. Ao invés de darmos segurança para quem passa, tornamos o caminho perigoso onde os transeuntes podem se ferir.

Outro ponto curioso é o fato de Jesus chamar a Pedro de "Satanás". José Antônio Forte diz em sua "Summa Daemoniaca" que "Satã" ou "Satanás" é o mais poderoso, o mais inteligente e o mais belo dos demônio. Satanás significa aquele que acusa, que ataca, é o adversário, o inimigo, o opositor (cf. Summa Daemoniaca, p. 23). Não se enganem: Satanás nos ilude com sua beleza e inteligência. E de fato, o mau se apresenta como algo bom, belo e correto. E nos iludimos com suas ideias. Isto pode ser uma pessoa, uma ideologia, ou outra coisa qualquer. Ou nos deixamos guiar pelas coisas de Deus, ou nos iludimos com as coisas dos homens. Se for a última, já sabemos no que vai dar, vamos viver nosso ministério a partir dos que os outros pensam e falam de nós. Se conduzido pelas coisas de Deus, viveremos nosso ministério consciente de nossa cruz, mas sempre com os olhos fitos no Senhor, e poderemos dizer com São Paulo: "O que desejo e espero é não fracassar, mas, agora como sempre, manifestar com toda a coragem a glória de Cristo em meu corpo, tanto na vida como na morte. Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro" (Fl 1,20-21).

Paz no coração!
Pe. Cristiano Marmelo Pinto
Mestre em Teologia Sistemática com Especialização em Liturgia pela PUC-SP

sábado, 30 de março de 2019



HOMILIA DO QUARTO DOMINGO DA QUARESMA
(Js 5,9-12; Sl 33; 2Cor 5,17-21; Lc 15,1-3.11-32)

A liturgia de hoje possui um tom de alegria. Por esse motivo, o quarto domingo da quaresma é chamado de “domingo da alegria”, porque, na travessia do deserto quaresmal, nos deparamos como que com um “oásis” e podemos vislumbrar as festas que se aproximam. É como rezamos na oração inicial da missa de hoje, pedindo a Deus que: “concedei ao povo cristão correr ao encontro das festas que se aproximam cheios de fervor e exultando de fé” (Oração da Coleta).

Mas poderíamos também chamar a celebração de hoje de: “domingo da reconciliação”, sim, porque os textos de hoje falam da misericórdia de Deus e da nossa reconciliação com ele. São Paulo na segunda leitura faz este apelo: “Deixai-vos reconciliar com Deus” (2Cor 5,20). Penso que a palavra que define a liturgia de hoje é: perdão! Deus nos perdoa e nós também devemos aprender a perdoar os nossos irmãos. Não importa o que tenham feito, é importante que aprendamos a nos reconciliar uns com os outros. E a maior lição de que temos que nos perdoar é o fato de que fomos reconciliados com Deus por meio de Jesus Cristo. São Paulo diz isso: “Por Cristo, Deus reconciliou o mundo consigo” (2Cor 5,19).

No evangelho, Jesus fala do perdão em meio as críticas que ele recebe dos fariseus, porque ele se aproxima dos pecadores. Neste contexto, Jesus conta uma das mais lindas parábolas dos evangelhos. Alguns a chama de “Parábola do filho pródigo”, outros de “Parábola do pai misericordioso”. Talvez este último seja o melhor título, isto porque, em meio ao pecado, o que deve sobressair é a misericórdia. Embora o filho mais novo tenha levado uma vida desenfreada e de esbanjamento, o que importa é seu retorno para seu pai. E a atitude do pai é de festa com o seu retorno. Esta parábola mostra a atitude de Deus conosco. Ele faz festa com o nosso retorno,  com a nossa conversão. Num dos versículos omitidos no evangelho de hoje Jesus diz que: “Há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15,10).

Nós temos um pouco de cada um dos personagens desta parábola: somo um pouco do filho mais novo, quando levamos uma vida de esbanjamento e desenfreada, longe de Deus; somo um pouco do filho mais velho, quando não somos capazes de ver e agir com misericórdia como agiu aquele pai; e também, somos um pouco do pai, quando superando nossas limitações  nos tornamos capazes de agir com misericórdia e nos alegrarmos em nos reconciliarmos com aqueles que tenham nos ofendido. Em nós deve sobressair as atitudes do pai, agindo com misericórdia e alegria.

O que isso tem a ver com nossa vida pessoal, com nossa vida comunitária...? Creio que tudo. Às vezes precisamos passar pelo sofrimento, pela dor, para descobrirmos e valorizarmos Deus em nossa vida. Quantos conhecemos que só se reaproximaram de Deus depois de um grande sofrimento ou dor? Deus estará sempre a nossa espera, ele é paciente.

Mas quando se trata de outra pessoa a coisa muda de figura. Se demorarmos demais para nos reconciliar, para pedir ou dar o perdão, pode não haver mais tempo. E se a pessoa em questão morrer, é pior ainda. Perdoe, dê o seu perdão, seja a quem for, enquanto existe tempo para isso. Depois, quando o outro morre, o que fica é o sentimento de culpa. E contra isso quase nada se pode fazer.

Somos como o filho mais velho quando nos relacionamos com Deus por se fosse um patrão, fazendo as coisas por obrigação, esperando receber dele uma recompensa. Pode-se até fazer as coisas bem, com perfeição, mas ficará sempre esperando ser recompensado. São pessoas que cumprem as regras da Igreja, participam das missas, pagam dízimo, porém, faz tudo por obrigação, às vezes sem amor, e não consegue aceitar que alguém que tenha cometido algum erro possa ser readmitido na comunidade, no grupo, na pastoral... São pessoas que, embora façam as coisas bem feitas, não conseguem perdoar os outros.

Porém, todos nós precisamos ser mais como o pai misericordioso, que espera o retorno do filho, que perdoa e faz festa, se alegra. Somos um pouco desse pai quando nos alegramos com a volta de alguém que se afastou da comunidade, quando não ficamos olhando para seus pecados, mas o que eles têm de bom, quando enxergamos com misericórdia.

Para terminar, como dizia Machado de Assis: “Nunca levante a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão.” Em outras palavras, seja misericordioso. Não negue seu perdão a quem te pedir. Não seja orgulhoso. Negar o perdão nunca trouxe nada de bom para quem o nega. E como Vinícius de Moraes diz numa de suas canções: “Quem não pede perdão, não é nunca perdoado.” Seja humilde para reconhecer que errou e pedir perdão de suas faltas.

Paz no coração de todos!
Pe. Cristiano Marmelo Pinto




OBRAS DE MISERICÓRDIA CORPORAIS

Pe. Cristiano Marmelo Pinto

Foi-me proposto conversar sobre as obras de misericórdia corporais. O Papa Francisco nos convida para nos tornarmos uma Igreja da misericórdia. A proposta para a reflexão é bem simples, de modo que, veremos quais são as obras de misericórdia corporais e quais suas implicações na vida concreta, seja pessoal e comunitária, ou seja, como cada um de nós devemos praticá-las e como a comunidade também deve colocá-las em prática na sua vivência pastoral.

Quais são as obras de misericórdia corporais?
1ª) Dar de comer a quem tem fome;
2ª) Dar de beber a quem tem sede;
3ª) Vesti o nu;
4ª) Acolher o forasteiro;
5ª) Assistir os enfermos;
6ª) Visitar os presos;
7ª) Enterrar os mortos.

Antes de falarmos de cada uma destas obras acho oportuno entendermos o que quer dizer “misericórdia”, e por que das “obras de misericórdia”?

Misericórdia tem a ver comportamento. Ela diz respeito ao comportamento de quem é altruísta, sensível e preocupado com a condição de miséria do outro, e se compromete em buscar soluções. Poderíamos dizer que a misericórdia é tudo que humaniza. Como o próprio significado da palavra diz: “Ir ao encontro das misérias do coração do outro, para ajudá-lo a se libertar!”  Misere (miséria) / cordis (coração). O coração misericordioso é cordial, benevolente, compassivo, não olha para trás, mas para frente, em busca de novos caminhos, novos horizontes. Quem olha para trás não vê o caminho que se abre à frente. Isto é muito comum em pessoas rancorosas. Não conseguem se libertar do passado, e por isso a vida para em torno do que aconteceu. Daí gera-se sentimentos de vingança, ódio, falta de esperança e de perdão.

1ª obra de misericórdia corporal
“Dar de comer a quem tem fome”

Jesus ao falar de sua volta e reunir a sua direita as ovelhas diz: “Eu estava com fome e me deste de comer” (Mt 25,35). Estamos tratando de uma das mais duras realidades humanas: a fome. Segundo dados do IBGE de 2014, cerca de 7,2 milhões de brasileiros passam fome. Segundo a ONU, dados de 2015, embora no mundo a fome tenha diminuído, ela ainda atinge cerca de 805 milhões de pessoas. É um número alarmante. Como se sabe, a fome é uma realidade que atinge particularmente os pobres. Quando Jesus opta por anunciar a Boa Notícia as pobres, ele está também denunciando estar triste realidade vivida por eles. É por isso que ele diz em Mateus 5,6: Felizes os que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados”. E ele mesmo apresenta-se como pão, como alimento descido do céu. É nosso dever como comunidade cristã empreender ações de combate à fome.

O papa emérito Bento XVI na Encíclica Caritas in veritate, diz que: “Dar de comer a quem tem fome é uma responsabilidade da Igreja, que deriva da ação de Jesus”. O papa Paulo VI diz que dar de comer aos famintos é um imperativo ético para toda a Igreja. É por isso que nós cristãos, temos que alimentar os pobres, temos que partir o “pão”, temos que assistir os famintos.

Em muitas comunidades católicas existem grupos que atuam nesta realidade. Temos os vicentinos, a pastoral da caridade, existem os grupos que cuidam dos moradores de rua levando comida, o famoso “sopão”, e com certeza vocês aqui também tem algum grupo que assiste as famílias. Cabe a cada um da comunidade duas atitudes: primeira: dar comida a quem bate à sua porta e segunda: dar condições aos grupos ou pastorais da comunidade que cuidam dos famintos, trazendo na igreja alimentos para estas famílias. Sejam generosos com os irmãos famintos. Mesmo que a situação esteja difícil, não deixem de ajudar a quem tem fome.


2ª obra de misericórdia corporal

“Dar de beber a quem tem sede”

Ainda em Mateus 25,35, Jesus dirá: “Eu estava com sede, e me deram de beber”. Esta é outra
realidade de carência humana. A água é vital para a vida no planeta. Poucos anos atrás o Estado de São Paulo passou por uma profunda crise hídrica. Todos fomos afetados pela seca que diminuiu os nossos reservatórios, nos privando de um dos bens mais vitais para a vida como um todo. A falta de água atinge várias coisas: a sede, afeta a plantação de alimentos, e o próprio meio ambiente é afetado. A escassez de água afeta cerca de 40% da população mundial. Presume-se que em 2032 cerca de 5 bilhões de pessoas serão afetadas pela escassez de água. Cerca de 60% da água potável está em apenas nove países, o Brasil é um deles. Enquanto que, em 80 países há escassez. E poderíamos ir além com os dados. 


Diante da ameaça da falta d’água, e do que isso pode acarretar para a vida no planeta, é importante colocarmos em prática esta segunda obra de misericórdia corporal. Podemos dar de beber a quem tem sede de vários modos: não negando um copo d’água a quem nos pede; economizando a água que usamos em casa; colaborando com comunidades afetadas por catástrofes naturais, por exemplo, doando água, pois uma das primeiras necessidades é a água para beber.

3ª obra de misericórdia corporal
“Vesti o nú”

No evangelho Jesus diz: “Eu estava sem roupa, e me vestiram” (Mt 25,36). Conta-se que São Martinho de Tours no inverno de 337, ao encontrar perto da porta da cidade um homem com frio, rasgou-lhe o manto e deu a metade para aquele homem. Na noite seguinte, Jesus apareceu para ele vestido com a metade do mando dada, para lhe agradecer o gesto. Conta-se também que no grupo dos companheiros de São Francisco de Assis, havia um frei chamado Junípero, que todas as vezes em que ia na cidade, voltava nu, sem o hábito franciscano, porque o dava para alguém mais pobre do que ele. Um antigo frei dizia para nós no seminário franciscano que, as roupas guardadas em nosso guarda-roupas por mais de dois meses, já não nos pertence mais, e sim, aos pobres. Vestir o nu nos questiona duas posturas frequentes: a primeira é a necessidade ilusória de possuir e possuir mais roupas. Tem gente que falta espaço para tanta roupa. Por que isso se nos basta o necessário? A segunda coisa é o apego as roupas que não nos serve mais. Por que guardá-las? Tem gente que fica esperando emagrecer e nunca emagrece, e a roupa estraga guardada a espera de tal “milagre”. Se não nos serve, se não usamos mais, precisamos aprender a doar para os maltrapilhos. E como tem gente precisando de roupas.

4ª obra de misericórdia corporal
“Acolher o forasteiro (estrangeiro)”

No evangelho Jesus diz: “Eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa” (Mt 25,35). Conheci
uma senhora em Curitiba, que quando íamos almoçar na casa dela, sempre havia um prato a mais na mesa. Certa vez resolvi perguntar por que daquele prato. Ela me respondeu que era para Jesus que poderia chegar a qualquer momento. São Bento na sua regra para os monges dizia que: “Todo hóspede deve ser acolhido como Cristo, porque Ele um dia nos dirá: ‘Era peregrino e me hospedastes’”. Acolher o estrangeiro tem a ver com a nossa hospitalidade. Devemos receber quem nos visita, como que recebendo o próprio Cristo que nos vem. Também cabe aqui a questão dos refugiados. Estamos vivendo uma crise de refugiados sem precedentes no mundo,
seja por causa das guerras, seja por causa da perseguição religiosa. E por outro lado, nos deparamos com atitudes de fechamento em recebê-los. Vejam a Europa. Mas também aqui no Brasil. Temos gente de todas as partes do mundo. Como são recebidos? Como vivem?

5ª obra de misericórdia corporal
“Assistir os doentes - enfermos”

Jesus diz: “Eu estava doente, e cuidaram de mim” (Mt 25,36). A doença e o sofrimento estão entre os problemas mais graves que afligem a vida humana. A saúde pública está em crise, principalmente em lugares mais pobres e menos atendidos. Além do sistema de saúde ineficiente também temos os doentes que estão em casa. Muitos deles vivem só. A obra de misericórdia: “assistir os doentes” começa na família quando se lida com doenças prolongadas e, às vezes irreversíveis. Seja em qualquer idade, e por qualquer problema de saúde que podem ser, entre tantos: o câncer, as paralisias, a anencefalia, e socorrer sem preconceito os portadores do HIV.

Trata-se também de um trabalho voluntário em hospitais, asilos, e casas de recuperação. Estende-se a uma pastoral que visite e acompanhe aqueles que, vivem a dor de sua enfermidade na solidão, e no esquecimento. Não deixe de visitar, de assistir alguém doente. Não deixe de visitar e de se reconciliar, seja um familiar, um amigo... Faz bem pra ele e faz bem pra gente também.

6ª obra de misericórdia corporal
“Visitar os presos – os encarcerados”

Ficará à direita de Deus, no grupo dos bem-aventurados, aquele que visitou os que estavam na
prisão (Mt 25, 36). Hoje o acesso nos presídios não é livre, há um certo rigor e triagem para visitas presidiários. Porém, nossas dioceses ainda são deficientes em se tratando de uma pastoral carcerária efetiva, e dinâmica. É claro que nem todo mundo tem jeito para estar num ambiente deste. Deus entende. Mais também, tem muitas outras ações que a comunidade pode realizar para ajudar os que estão presos. Por piores que tenham sido os crimes praticados, é nosso dever cuidar dos presos. As visitas normalmente são realizadas pela pastoral carcerária. Mais também, podem acompanhar a família. Assistindo em suas necessidades, combatendo o preconceito que essas famílias são submetidas...

7ª obra de misericórdia corporal
“Enterrar os mortos”

Crer na ressurreição da carne, na vida eterna, faz parte da oração pela qual professamos nossa fé. No Livro de Tobias encontramos o seguinte:  Tobias com uma solicitude toda particular, sepultava os defuntos e os que tinham sido mortos (Tb 1, 17ss). O Novo Catecismo da Igreja Católica, assim diz: “Os corpos dos defuntos devem ser tratados com respeito e caridade, na fé e na esperança da ressurreição. O enterro dos mortos é uma obra de misericórdia corporal que honra os filhos de Deus, templos do Espírito Santo” (CIC n. 2300). Cada pessoa é templo do Espírito Santo e mesmo depois de morta, seu corpo merece respeito. A Igreja permite a cremação do corpo, desde que não seja um ato que se faça numa manifestação de contrariedade à fé na ressurreição dos mortos (CIC n. 2301). A doação gratuita de órgãos não é um desrespeito ao corpo quando desejada pela própria pessoa, é uma pratica legitima, incentivada pela Igreja. É importante recuperarmos o respeito pelos mortos. Enterrá-los com dignidade e respeito.

Por fim, coloquemos em práticas as obras de misericórdia, pois, essa é a vontade de Deus.

terça-feira, 26 de março de 2019



ESSENCIALIZAR A VIDA

Essencial! Hoje é comum ouvirmos essa palavra sem ao menos aprofundarmos o que significa, ou na melhor das hipóteses, sem nos importarmos com o seu significado. É preciso buscar o essencial. Mas numa sociedade do supérfluo, como é possível buscar o essencial? Numa época em que vidas se gastam na procura desenfreada de acumular, falar de essencial parece até uma coisa ultrapassada.

Mas a grande verdade é que a vida se faz do essencial, e o supérfluo pode torná-la mais difícil, mais pesada. Embora precisamos do que é essencial em nossa vida, nem sempre damos prioridade para ele. O ar é essencial para a vida, assim como a água e o alimento, mas nem sempre eles são prioridades, basta ver o que a humanidade tem feito com o ar, com a água, por exemplo. Os valores são essenciais em nossa vida, mas nem sempre nos importamos tanto com os valores, do mesmo modo como nos importamos com sentimentos e coisas ruins que nos afetam. Por isso é importante essencializar a vida.

Mas o que significa “essencial”? Essencial significa indispensável, necessário, algo muito importante que não pode faltar. Do latim “essentiale”, refere-se à essência, ou seja, a substância, o que constitui a natureza íntima das pessoas ou coisas. Essência – “essentia” indica a natureza ou característica essencial de uma pessoa. Indica o que é fundamental, indispensável em uma pessoa.

O oposto do essencial é o supérfluo. Supérfluo, do latim “superfluus”, é aquilo que transcende o necessário, que é demais, demasiado, excedente e às vezes, desnecessário. Pode ser também algo ou alguém que apresenta caráter desnecessário, dispensável.

O problema é que na maioria das vezes damos mais importância ao supérfluo do que ao essencial. Quantos gastam seu tempo correndo atrás de coisas, de riquezas, de prazeres, e esquece-se de cultivar o que é essencial em sua vida. E quando essas coisas lhe faltam percebe-se vazio, descobre que sua vida não tem sentido. Há coisas na vida que são essenciais e que colocamos em segundo plano, e por outro lado, potencializamos situações, coisas e sentimentos supérfluos ou desnecessários. Pe. Flávio Sobreiro diz no livro “Amor sem fronteiras” que: “Acumulamos ódio, raiva, desejo de vingança, e muitas vezes nem temos noção de que estamos sobrecarregando nosso coração com um fardo pesado demais”. É verdade! As vezes nos importamos mais com os sentimentos ruins e nos esquecemos que também temos coisas boas em nós. Nos apegamos ao feio, ao ruim, e esquecemos da beleza que há em nós.

Temos medo de perder o que nos é supérfluo para viver do essencial. Clarice Lispector diz: “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar”. Sua descoberta de que o supérfluo de uma “terceira perna” não lhe era mais essencial, porque, essencial é ter duas pernas, a assusta, porque normalmente temos medo de abandonar o que não é necessário em nossa vida.

Mário de Andrade diz que: “O essencial faz a vida valer a pena”. E Carlos Drummond de Andrade diz que: “O essencial é viver!” Nem sempre conseguimos ver o que é essencial porque temos dificuldade em colocar o que é supérfluo no seu devido lugar: o segundo plano. Antoine de Saint-Exupéry afirma que: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”. Daí a necessidade de começar a ver com o coração e descobrir o essencial. É preciso olhar para dentro de nós na busca do essencial, como nos aconselha Arthur Schopenhauer ao dizer que: “O que temos dentro de nós é o essencial para a felicidade humana”. Também Caio Fernando Abreu deduz isso de uma maneira formidável ao dizer: “Depois de todas as tempestades e naufrágios o que fica de mim e em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro”.

Quando fazemos esse trabalho de deixar o supérfluo e partir em busca do essencial em nós, quando deixamos de olhar com outros olhos e passamos a olhar com o coração, e olhamos para dentro de nós mesmos, vamos descobrir lá no fundo que para além de tantas outras coisas, Deus é o primeiro essencial em nossa vida. O ar é essencial, a água, o alimento, a liberdade, etc., mas Deus deve ocupar o primeiro plano em nossa vida. É por isso que Jesus diz: “Não andeis, pois, inquietos, dizendo: que comeremos, ou que beberemos, ou com que nos vestiremos? Porque todas estas coisas os gentios procuram. Decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas; mas, buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,31-33). O conselho de Jesus é para que busquemos Deus primeiramente, o necessário virá como acréscimo. É preciso que o nosso coração esteja em Deus para que ele seja essencial em nossa vida. Acertadamente Jesus diz que: “Onde esta o seu tesouro, aí estará também o seu coração” (Mt 6,21).

Martha Medeiros diz que: “O que está em pauta é a busca, a causa incessante ao que nos é essencial”. Precisamos fazer esse caminho de busca do essencial. Não é fácil e às vezes acontece de forma sofrida e doida. O essencial é aquilo que, quando em nossa vida tudo cair, ele sobra. Quando as vaidades, quando o supérfluo cair, o que sobrar é essencial e essencial é que quando isso acontecer não nos vejamos vazios. Por isso é importante essencializar a vida, dar valor, importância ao que vale a pena, principalmente aquilo que passa a constituir o que nós somos, porque, sem o essencial não somos nada.

Paz!
Pe. Cristiano Marmelo Pinto


UMA IGREJA MENOS BUROCRÁTICA E MAIS EVANGÉLICA

Religião significa re-ligar. Isto mesmo. Por mais que os críticos de religião afirmam que a religião é um atraso na vida do povo, ela tem a função de religar a pessoa humana com o transcendente-Deus, consigo mesmo e com os outros. Jesus em toda a sua prática procurou reestabelecer a conexão entre Deus e seu povo, aproximando as pessoas de Deus e tornando Deus cada vez mais próximo de nossa vida. Não é por menos que ele iniciou seu ministério público entre aqueles que eram excluídos da religião, que na época era baseada num sistema que dividia as pessoas entre “puros” e “impuros”. É o antigo dilema quando se vive uma religião burocrática, apegada as normas, criando entre nós um sistema parecido com o do tempo de Jesus, dividindo as pessoas entre “os que podem” e “os que não podem”. E assim, criamos um incalculável grupo de pessoas que são privadas de se aproximar de Deus, isto porque não se enquadram no sistema das normas religiosas.

Ao estabelecer as normas para a escolha dos novos bispos, e isto vale também para nós padres e deve valer para todos os cristãos, o Papa Francisco disse querer mais pastores do que homens distantes do povo, ou seja, homens de “cúrias”. O papa pediu que os pastores tenham o “cheiro das ovelhas”. Isto significa se misturar, estar onde o povo estar. Certamente Jesus tinha o cheiro de suas ovelhas. Era muito criticado por andar entre os pecadores, as prostitutas e outras classes mal vistas em sua época. Mas isto não o impediu de levar seu projeto em frente. Acompanhamos todo esforço do Papa Francisco em reaproximar a Igreja do povo e o povo da Igreja, tornando-a menos burocrática e mais missionária, evangélica (no sentido exato da palavra). Ele deseja uma Igreja em saída, uma Igreja como um Hospital de Campanha.

Tudo isto também vale para nossos leigos, que muitas vezes preferem uma pastoral de manutenção, ou seja, permanecer na zona de conforto pastoral, e relutam em ir para fora, negando o mandato de Jesus para irmos ao mundo evangelizar. E evangelizar não significa despejar na cabeça das pessoas uma infinidade de regras, sendo que muitos não poderão seguir, mas de reaproximar, religar a conexão com Deus, com o outro e com o mundo. É surpreendente a coragem de nosso Papa em quebrar tabus. Vejam os temas propostos no último Sínodo dos Bispos sobre a família?! Temas que nunca imaginávamos ser pauta num Sínodo da Igreja, agora estão presentes: casais de segunda união, casais homoafetivos, entre outros.

Então, se o Papa demonstra esta extraordinária e evangélica coragem, por que nós permanecemos na covardia e no conforto de nossas normas? Por que continuarmos pregando uma religião que não cumpre seu papel de religar, reaproximar as pessoas de Deus e dos outros? Por que muitos ainda possuem uma postura moralista e nem um pouco pastoral? Para isto é preciso deixar nossa zona de conforto, abandonar os gabinetes curiais e ir se misturar com as ovelhas, mesmo que talvez o cheiro não seja tão bom.

Paz no coração!
Pe. Cristiano Marmelo Pinto



HOMILIA DA FESTA 
DA ANUNCIAÇÃO DO SENHOR
(Is 7,10-14;8,10; Sl 39; Hb 10,4-10; Lc 1,26-38)

Hoje nós celebramos a festa da anunciação do Senhor. A exatamente daqui a nove meses estaremos celebrando o nascimento de Jesus. Mas podemos também pensar esta festa como a festa do “Sim” de Maria. Pelo seu sim ela concebeu em seu seio por obra do Espírito Santo o Filho de Deus. Uma humilde jovem entra para a história da salvação de forma significativa e determinante por haver dado um sim ao chamado de Deus. A verdade é que a partir daí a história da humanidade começa a mudar, e o nascimento de seus Filho divide essa mesma história, iniciando uma nova etapa para a humanidade.

Mas, como provocação, gostaria de chamar a atenção para dois fatos presentes no evangelho, e, creio eu, ser esse o fator que determinou o sim de Maria.

Em primeiro lugar, o anjo aparece para Maria e faz uma saudação. Esta saudação é importante. O evangelho diz que o anjo entrou onde Maria estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça” (Lc 1,28). Alegria é um estado de satisfação extrema, sentimento de contentamento ou de prazer excessivo.  O que deveria então causar em Maria essa alegria ou contentamento extremo? Um fato importante: “O Senhor está contigo!” (Lc 1,28). Penso que esta saudação do anjo liga o evangelho com a primeira leitura. Emanuel significa “Deus está conosco”. O evangelho diz que Maria ficou pensando sobre o significado daquela saudação. Eis ai, que o profeta Isaías responde: Maria e cada um de nós devemos nos alegrar porque o “Emanuel” – o “Deus conosco” chegou.

Para nós deve ser motivo de alegria o simples fato de sabermos que, não importa a situação em que estamos vivendo, Deus está conosco. Seja nos momentos bons ou ruins, Deus está sempre conosco.

O segundo fato que quero chamar a atenção é que da certeza de que Deus estava com ela, Maria se enche de coragem para assumir todos os riscos de se torna Mãe de Jesus e responde com o seu “Sim”. O evangelho narra que: “Maria, então disse: ‘Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). O “Sim” de Maria brotou da certeza de que Deus estava com ela. E como consequência, ela se fez serva, ou seja, colocou-se a serviço da Deus, cumprindo a sua vontade.

Todos nós somos chamados por Deus. Ele espera de cada um de nós um sim generoso como o de Maria. Mas não pode ser um sim como muitas vezes respondemos, do tipo: “Tá bom, eu faço”. Esse tipo de sim não é generoso. O que Deus espera de nós é um “Sim” maiúsculo como o de Maria, que se coloca a serviço, que corre, como Maria, apressadamente, as regiões montanhosas da vida, para servir os mais necessitados de nossa ajuda, de nossa solidariedade.

O nosso sim deve nos levar a servir as “Isabeis” e aos “Zacarias” de hoje. E são tantos as margens da vida, esquecidos pela nossa sociedade nas regiões montanhosas dessa vida. Nosso “Sim” deve nos levar lá onde eles estão.

E por fim, o evangelho mostra Maria perturbada com aquelas palavras do anjo e que questiona como aquilo iria acontecer. No processo de discernimento do chamado é comum ficar perturbado, questionar. Faz parte e não é nenhum pecado. Mesmo porque o chamado de Deus muda o rumo de nossa vida. E é comum quando se tem o rumo mudado ficar perturbado, desorientado. Mas, Deus vai esclarecendo tudo, nos mostrando o caminho, nos orientando. Que não tenhamos medo de discernir para que o nosso sim seja verdadeiro e seguro. Só assim, teremos a certeza de que Deus estará conosco para enfrentarmos todos os desafios do seu chamado.

Que assim seja.
Pe. Cristiano Marmelo Pinto

sábado, 23 de março de 2019



HOMILIA DO TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA – ANO C
(Ex 3,1-8a.13-15; Sl 102; 1Cor 10,1-6.10-12; Lc 13,1-9)

Como é bom olharmos para a Palavra de Deus e podermos ver que ela sempre tem uma palavra que nos ajuda a sermos melhores, a corrigir nossos erros, encontrar conforto nas horas de aflição, palavra que dá sentido para nossa vida, para podermos nos levantar e seguir em frente. Precisamos redescobrir a Palavra de Deus como fonte que nos alimenta. Como diz São Paulo na segunda leitura Deus dava a seu povo um alimento e uma bebida espiritual.

Às vezes nos alimentamos mal, comento e bebendo de ideologias, pensamentos e sentimentos contaminados. A Palavra de Deus é alimento puro, da melhor qualidade que podemos encontrar. E a quaresma nos brinda com textos que nos ajudam a repensar a nossa vida, nossas atitudes e modos de sentir as coisas e a nossa própria vida. Por isso, a quaresma é tempo de conversão, tempo de mudança de vida, tempo de corrigirmos nosso rumo. Vale o mesmo para a nossa caminhada de fé. É tempo de pensarmos na nossa fé e se ela tem produzido bons frutos na nossa vida e na nossa sociedade.

Creio que, para isso, a parábola da figueira é maravilhosa para provocar a nossa reflexão. Em primeiro lugar, no evangelho, as pessoas vêm contar desgraças para Jesus. E Jesus questiona se eles são melhores que os outros. Estamos vivendo num mundo que está se acostumando assustadoramente a conviver com tragédias. Poderíamos citar vários fatos recentes, mas não vem ao caso. O que importa é a nossa atitude diante de tais fatos. Jesus diz para os que foram falar das desgraças alheias que se eles não se convertessem, morreriam igual. E logo em seguida, conta a parábola da figueira.

Aquela figueira era estéril, não dava frutos. E na parábola ainda diz que havia três anos que o dono da vinha procurava frutos. Três é um número que indica totalidade. Poderíamos dizer que o dono sempre procurava frutos e não encontrava. O que isso tem a ver conosco?

Como é que podemos nos tornar uma figueira estéril, que não dá frutos? Penso que Jesus está falando da fé, de uma fé estéril, de uma fé que não produz frutos. Quantos entre nós são assim. Vivem dentro da Igreja, falam de Deus, mas não produz nenhum fruto. Vejam que não se trata nem de frutos bons ou ruins, simplesmente não produz nada. Isso tem a ver com a nossa insensibilidade diante de tantas tragédias, de tanto sofrimento que vemos acontecer nesse mundo. Tem pessoas que não se comove mais com o sofrimento dos outros e por isso não se envolve e não faz nada para ajudar os outros. A solidariedade está virando artigo de luxo.

O que nos salva são as nossas obras. Uma fé que não é transformada em obras, como diz São Tiago, é uma fé morta. E, como diz a parábola de hoje, podemos dizer que é uma fé estéril. Deus não precisa de gente com esse tipo de fé. Por isso, na parábola, o dono da vinha manda cortar aquela figueira. Será que nós queremos ser cortados e jogados foras como gente inútil para Deus? Que coisa horrível deve ser.

Mas, o vinhateiro intercede por aquela figueira, pedindo mais um ano para cuidar e ver se ela produzirá frutos. Aí está a lógica do tempo da quaresma. Mesmo não produzindo frutos, Deus nos dá a oportunidade de mudarmos, de deixarmos uma fé estéril para uma fé que produza frutos. Numa analogia entre a quaresma e a parábola, a quaresma é esse tempo que Deus nos oferece para cuidarmos da nossa vida, da nossa fé, para mudar e começar a produzir frutos.

Que frutos são esses? Frutos de mais amor, mais solidariedade, mais misericórdia e partilha. Não precisamos de gente que fique contado as tragédias que acontecem. A mídia faz isso a toda hora, aliás, vive disso. Mas, nós, não deveríamos viver de apontar tragédias, mas sim, de procurarmos ajudar os outros, de sermos solidários com o sofrimento alheio. Infelizmente, ainda temos gente estéril na Igreja, que não ajuda o próximo...

Mudemos isso, senão, seremos cortados e jogados fora. Pense nisso. Seja mais solidário com os outros. Tragédias, tem muitas acontecendo. Precisamos é de gente para ajudar.

Paz no coração!
Pe. Cristiano Marmelo Pinto