O DIÁCONO PERMANENTE
E SEU SERVIÇO NA CELEBRAÇÃO
DA EUCARISTIA
Pe. Cristiano Marmelo Pinto
Mestre
em Teologia Sistemática com
Especialização
em Liturgia pela PUC-SP
O diácono possui funções específicas
dentro da celebração da eucaristia. Estas funções diferem dos demais
ministérios exercidos na celebração da eucaristia. “Sua diaconia junto do altar, tendo a sua origem no sacramento da Ordem,
difere essencialmente de qualquer outro ministério litúrgico [...] O ministério
litúrgico do diácono difere também do próprio ministério ordenado sacerdotal”[1]. O
diácono recebe o sacramento da Ordem para o serviço e não para o sacerdócio.
Deve-se manter a diferença entre ambos os ministérios e não permitir que a
comunidade se confunda. Sendo a liturgia o centro da vida cristã ela é fonte de
graça para a vida do diácono. A liturgia torna seu ministério fecundo.
Na celebração da eucaristia, cabe ao
diácono auxiliar e ajudar o bispo ou o presbítero presidente da celebração.
Paulo VI, na Carta Apostólica Sacrum
diaconatus ordinem, ao enunciar as funções do diácono na liturgia, diz que
cabe ao diácono “assistir durante as
ações litúrgicas, o bispo e o presbítero em tudo quanto lhe compete, segundo as
prescrições dos diferentes livros litúrgicos”[2].
Para isso, deve desempenhar somente o que lhe é permitido pelas normas
litúrgicas. “Em todas as celebrações
litúrgicas, ministros e fiéis, no desempenho de suas funções, façam somente
aquilo e tudo aquilo que convém à natureza da ação, de acordo com as normas
litúrgicas”[3]. A
ação litúrgica possui exige uma ordem, uma organização e harmonia entre aqueles
que exercem algum ministério. Esta ordem e harmonia só são possíveis se cada um
fizer apenas a parte que compete a si, permitindo que os demais ministérios
tenham também a sua vez de servir.
O Diretório do ministério e da vida
dos diáconos permanentes enumera o que compete aos diáconos na celebração da
eucaristia:
a) Ao altar
presta o serviço do cálice e do livro;
b) Propõe aos
fiéis às intenções da oração;
c) Convida à
troca do sinal da paz;
d) Proclama o
Evangelho;
e) É ministro
ordinário da comunhão[4].
Não
é permitido ao diácono:
a) Pronunciar
as palavras da oração eucarística;
b) Realizar
ações e gestos que pertencem somente ao sacerdote presidente[5].
A
Instrução Ecclesiae de mysterio
afirma que certos abusos tanto da parte de diáconos como de leigos devem ser
abandonados. Diz o texto:
para
salvaguardar, também neste campo, a identidade eclesial de cada um, devem ser
abandonados os abusos de vários tipos que são contrários ao que se prevê no
cân. 907, segundo o qual, na celebração eucarística, aos diáconos e aos fiéis
não ordenados não é permitido proferir as orações e qualquer outra parte
reservada ao sacerdote celebrante – sobretudo a oração eucarística com a
doxologia conclusiva – ou realizar ações e gestos que são próprios do mesmo
celebrante”[6].
Nesta parte de nossa reflexão iremos
fazer dois caminhos: o primeiro relacionando às funções do diácono na
participação na eucaristia, e o segundo, daremos algumas dicas para o bom
exercício da diaconia da liturgia exercida pelo diácono.
2. Funções do diácono na celebração da
eucaristia
A Instrução Geral do Missal Romano
dedica a participação do diácono na celebração da eucaristia os números 171 ao
186. Também o Cerimonial dos Bispos, ao tratar da função do diácono na
liturgia, dedica a este ministério os números 23 a 26. Utilizaremos estes
dois textos para nossa reflexão por serem a voz oficial da Igreja no que diz
respeito à celebração da eucaristia.
2.1.
Missa com diácono (IGMR 171)
a) Quando na
celebração da eucaristia o diácono estiver presente, este deve se revestir com
os paramentos próprios de seu ministério, a saber: alva, estola na transversal
e dalmática (estes dois últimos na cor litúrgica do tempo);
b) Cabe ao
diácono assistir o sacerdote e caminhar ao seu lado;
c) No altar,
encarrega-se do cálice e do livro;
d) Proclama o
Evangelho e se o presidente permitir, pode fazer a homilia;
e) Orienta a assembleia
com breves exortações e enuncia as intenções da oração universal, caso não haja
leitor que as façam;
f) Auxilia na
distribuição da comunhão e recolhe os vasos sagrados;
g) Caso não
haja outros ministros, o diácono assume sua função.
h) Quando a
celebração for presidida pelo bispo, deverá ajudá-lo pelo menos três diáconos:
um para proclamar o Evangelho, outro para servir o altar, e dois para
assistirem o bispo (Cerimonial dos Bispos, n. 26).
2.2.
Funções do diácono nos ritos iniciais (IGMR
172-174)
a) Na
procissão de entrada, os diáconos precedem o sacerdote ou bispo;
b) O diácono
que for conduzir o Evangeliário leva-o um pouco elevado, e precedendo o
sacerdote;
c) Chegando ao
altar, quem conduz o Evangeliário coloca-o sobre o mesmo, e com o sacerdote
beija o altar;
d) Se não é
conduzido o Evangeliário, o diácono juntamente com o sacerdote faz uma profunda
inclinação ao altar, e com ele, beija-o;
e) Caso o
sacrário esteja no centro do presbitério, faz-se a genuflexão e depois se
dirige para o altar para beijá-lo;
f) Se for
usado o incenso, o diácono que assiste o sacerdote deve ajudá-lo colocar o
incenso e depois segue-o na incensação da cruz e do altar;
g) Após ter
incensado o altar, dirige-se para sua cadeira, colocando-se ao lado do
sacerdote;
h) Após a
saudação do sacerdote, o diácono pode, com breves palavras, introduzir a
assembléia na missa do dia, motivando para uma boa participação na celebração.
2.3.
Funções do diácono na liturgia da Palavra (IGMR 175-177)
a) Enquanto se
faz o canto do Aleluia, o diácono, quando tem incenso, ajuda o sacerdote na
imposição do incenso;
b) Depois,
inclina-se diante do sacerdote, e com voz baixa, pede-lhe a bênção, dizendo:
“Dá-me a bênção” e aguarde o sacerdote dar a bênção;
c) Após a
bênção do sacerdote, traça o sinal da cruz e responde amém;
d) Em seguida,
faz uma inclinação ao altar e toma o Evangeliário, seguindo com ele elevado até
o ambão, precedido do turiferário e dos ceriferários;
e) Saúda a assembleia
dizendo: “O Senhor esteja convosco...” e em seguida as palavras: “Proclamação
do Evangelho...” traça o sinal da cruz sobre o livro com o polegar e depois
sobre si mesmo;
f) Feito isto,
incensa o livro;
g) Faz a
proclamação do Evangelho que pode ser cantada ou não;
h) Terminada a
proclamação do Evangelho, o diácono aclama: “Palavra da Salvação” e o povo
responde: “Glória a vós, Senhor”;
i)
Em seguida o diácono beija o livro e depois pode
levá-lo para o sacerdote também beijar;
j)
Quando a celebração for presidida pelo bispo, o
diácono dele levar o livro para o bispo beijá-lo e, às vezes, é costume o bispo
dar a bênção com o Evangeliário;
k) Depois, o
Evangeliário pode ser colocado ou na credência, ou no próprio ambão, mas não no
altar;
l)
Se não houver ministros da leitura, o diácono poderá
proclamar as demais leituras da celebração;
m) Na oração
dos fiéis, após uma introdução do presidente, o diácono pode, do ambão, propor
as intenções.
2.4.
Funções do diácono na liturgia eucarística (IGMR 178 a
183)
a) Na
preparação das oferendas, o diácono prepara o altar com a ajuda do acólito;
b) Cabe ao
diácono: cuidar dos vasos sagrados e assistir o sacerdote na recepção dos dons;
c) O diácono
prepara a mesa, estendendo sobre ela o corporal, colocando sobre ele as âmbulas
com as partículas, em seguida entrega ao sacerdote a patena com a hóstia
grande;
d) O diácono
prepara o cálice, derramando nele o vinho e depois derrama um pouco d’água no
cálice, dizendo: “pelo mistério desta
água...”;
e) Em seguida
entrega-o ao sacerdote;
f) A
preparação do cálice pode ser feita no altar ou na própria credência, conforme
a conveniência;
g) Durante a
oração eucarística, o diácono permanece de pé junto ao sacerdote, mas um pouco
atrás, para cuidar do cálice e do missal;
h) A IGMR diz
que a partir da epiclese até a apresentação do cálice, o diácono normalmente
permanece de joelhos. Porém não é muito prático. Melhor é que o diácono que
assiste o sacerdote permaneça de pé um pouco atrás dele;
i)
Na doxologia final da oração eucarística, de pé ao
lado do sacerdote, o diácono eleva o cálice, enquanto o sacerdote eleva a
patena com a hóstia, até que o povo diga: amém;
j)
Após o sacerdote pronunciar a oração da paz e “a paz esteja convosco”, e o povo
responder, o diácono, de mãos unidas, e voltado para o povo, convida ao abraço
da paz com uma das fórmulas propostas pelo missal;
k) O diácono
recebe do sacerdote a paz e depois a oferece aos demais que estiverem próximos;
l)
Após o sacerdote comungar, o diácono recebe dele a
comunhão, sob as duas espécies, [ou conforme o costume, comunga no altar] e
depois o ajuda a distribuir ao povo;
m) Terminada a
distribuição da comunhão, o diácono volta para o altar e consome o restante do
cálice, podendo oferecer ao sacerdote ou a outros diáconos, e depois faz a
purificação dos vasos sagrados;
n) A IGMR diz
que a purificação deve ser feita na credência, mas nem sempre o espaço é
conveniente. Conforme o costume, pode fazer a purificação no próprio altar,
porém deve ser ágil e prático, sem se demorar muito;
o) Pode-se
também deixar os vasos na credência, sobre o corporal, e fazer a purificação
após o término da celebração;
2.5.
Funções do diácono nos ritos finais (IGMR
184-186)
a) Terminada a
oração depois da comunhão, caso não seja o sacerdote ou outra pessoa, o diácono
pode fazer as comunicações, os avisos;
b) Se for
usada a oração sobre o povo ou a fórmula solene de bênção, o diácono diz: “inclinai-vos para receber a bênção”;
c) Dada a
bênção pelo sacerdote, o diácono despede o povo conforme uma das fórmulas
propostas pelo missal;
d) [Antes da
bênção final, caso seja conveniente, o diácono pode fazer uma breve exortação
ao povo, a partir do mistério celebrado, para que possam vivenciar no
dia-a-dia, o que celebraram];
e) Após
despedir o povo, o diácono, junto com o sacerdote beija o altar, faz um
profunda inclinação, e depois retira-se do presbitério [podendo sair pelo
corredor central, ou diretamente para a sacristia].
3. Algumas dicas para a vivência e boa
participação na celebração da eucaristia
As dicas que daremos a seguir são
tiradas do livro Presbíteros: Palavra e
Liturgia, de Enzo Bianchi[7] e
que mesmo sendo direcionado aos presbíteros vale também para os diáconos, seja
quando estão presidindo a celebração da Palavra de Deus ou exercendo seu
ministério na celebração da eucaristia. Serão feitos alguns acréscimos para
aplicação na vivência do ministério diaconal. Fica uma boa dica de leitura.
1) O diácono
deve preparar-se para a celebração da eucaristia através da oração. No dia
anterior à celebração deve aproximar-se da liturgia que irá celebrar, com uma oração
de escuta;
2) Também nós
que exercemos um ministério na celebração da eucaristia fazemos parte da
assembleia, portanto, também participamos como Igreja junto com o povo. Como
diz E. Bianchi: “se você não estiver
evangelizado, não poderá evangelizar; se não morar em você a Palavra, não
poderá comunicá-la para a assembleia”[8];
3) Você
precisa acolher a Palavra no coração, na inteligência, no espírito,
discerni-la, antes de tudo, como alimento para sua fé;
4) Chegue
sempre com antecedência para a celebração;
5) Enquanto se
reveste dos paramentos diaconais, peça ao Espírito Santo que venha habitar em
você e o revista com a beleza de Cristo, aliás, é isto que as vestes litúrgicas
devem transparecer;
6) As vestes
litúrgicas devem manifestar que você é sinal de Cristo e não um exibicionista;
7) As vestes
com sua cor indicam o tempo litúrgico, a festa, etc.;
8) Na
procissão de entrada, entre serenamente, em paz, disposto, sem pressa. A
procissão de entrada deve manifestar o Cristo que está chegando;
9) Você não
substitui Cristo, é apenas sinal. É ele quem deve aparecer. Evite chamar a
atenção para você, seja discreto nas suas ações, porém, faça-as com
profundidade;
10) Chegando à
frente do altar, faça profunda inclinação, plena de veneração, e beije com amor
o altar, sinal de Cristo;
11) Tudo na
liturgia começa com o sinal da cruz. Faça-o solenemente e não de qualquer
jeito, com superficialidade ou apressadamente;
12) No ato
penitencial, procure junto com a assembleia, sentir-se como voz da Igreja que
invoca a misericórdia de Deus;
13) Os ritos
iniciais atingem o cume na oração da coleta. Acompanhe em silêncio esta oração.
Sinta-se unido com o sacerdote e toda a assembleia nesta oração;
14) Na liturgia
da Palavra você estará sentado e ouvindo a proclamação das leituras e também
fará a proclamação do Evangelho. Acolha a Palavra proclamada no coração. “Como todos os outros participantes da
celebração, você também ouve, recebe e abre o coração para a Palavra”[9];
15) Antes de ir
para o ambão proclamar o Evangelho, incline-se profundamente pedindo ao Senhor
que purifique o coração e os lábios para você poder proclamar com dignidade o
Evangelho. “O Senhor cumpre em você o que
você não é capaz de cumprir: ele purifica os seus lábios e lhe confere a
autoridade e a missão de anunciar o evangelho dele”[10];
16) Você
proclama a Palavra no poder do Espírito Santo. Não confie na sua própria
palavra, mas na Palavra de Deus e do Evangelho. E proclamando o Evangelho, seja
você o primeiro ouvinte;
17) Reserve um
lugar para o silêncio. A Palavra precisa de um momento de silêncio para ser
interiorizada, ruminada, guardada no coração;
18) Na
profissão de fé, faça junto com o povo, pronunciando pausadamente as palavras e
meditando-as no coração. O Credo confessa a nossa unidade na fé;
19) Ao preparar
as oferendas, faça com profunda reverência. Não precisa correr e nem ser muito
devagar. Que o povo perceba que ao exercer seu ministério você está serenamente
ali prestando o seu serviço;
20) Auxilie o
padre sem porém tumultuar o espaço;
21) Esteja
atento ao padre para que, caso ele necessite de algo, você possa atendê-lo;
22) Na oração
eucarística, além de exercer suas funções, participe junto com a comunidade,
respondendo as aclamações. O único que não faz as aclamações é o sacerdote e se
tiver os concelebrantes;
23) Reze o
Pai-nosso junto com o povo, pausadamente;
24) O Missal Romano
diz que o abraço da paz deve ser um gesto discreto e breve. Não estenda este
momento mais do que o necessário. Na celebração da eucaristia não se disperse
querendo cumprimentar todos que estão na igreja, cumprimente apenas quem
estiver ao seu redor, ou mais próximo;
25) Você não é
ministro extraordinário da comunhão, mas ordinário. Procure distribuir a
comunhão com alegria, pois você está distribuindo o Corpo do Senhor que se dá
como alimento sob o sinal sacramental do pão consagrado, e isto é motivo de alegria.
Sorria para a pessoa a quem você dará a comunhão, mesmo que sobriamente, isto
faz com que quem recebe a comunhão também sinta a alegria de receber o Senhor;
26) Não esqueça
daqueles que têm dificuldades de caminhar. Se for preciso, vá até eles;
27) Quando
presidir a celebração da Palavra de Deus, no momento da comunhão, faça de tudo
para que a comunidade perceba a necessidade de participar do Corpo do Senhor
por meio da eucaristia;
28) Na comunhão
acontece um maravilhoso metabolismo: nos tornamos aquilo que comemos, ou seja,
tornamo-nos corpo do Senhor;
29) Se presidir
a celebração da Palavra, deixe espaço para o silêncio após a comunhão. Silêncio
para você e para a comunidade;
30) No momento
da purificação, caso seja feita sobre o altar, procure ser prático e breve. Não
demore muito para purificar os vasos sagrados;
[1]
CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Diretório do
ministério e da vida dos diáconos permanentes. n. 28.
[2]
PAULO VI, Carta Apostólica Sacrum
diaconatus ordinem, V, 22.a.
[3]
Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium,
n. 28; Cf. também IGMR, n. 91.
[4]
Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Diretório
do ministério e da vida dos diáconos permanentes. n. 32.
[5]
“Na celebração da Eucaristia, não é lícito aos diáconos e leigos proferir as
orações, especialmente a oração eucarística, ou executar as ações próprias do
sacerdote celebrante” (CIC, cân. 907).
[6]
CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Instrução
Ecclesiae de mysterio, art. 6,2.
[7] BIANCHI, Enzo. Presbítero: palavra e liturgia. São Paulo: Paulus, 2010.
[9] Ibidem, p. 18.
[10] Ibidem, p. 19.
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